The Smell Of Your Skin Lingers On Me
3 About The Love
Notas iniciais
About The Love:
Sobre O Amor:
Ele me esperava, olhos arregalados – se não soubesse, diria quase assustados – e antes de mais nada me abraçou. Ergueu os braços ao redor de meu pescoço e me abraçou mais forte que jamais havia feito, mais apaixonado, mais próximo. O bater forte de seu coração contra meu peito e minha respiração sincronizada à sua, nossas almas, podia até mesmo sentir, unidas.
Ele continuava ali parado apertando cada vez mais forte como se tentasse se fundir a mim, como se sentisse-se incomodado por nossa pele, por nossos ossos, nosso sangue, por sermos feitos de carne e cartilagem; até que me soltou. Posicionou cada uma das mãos em um lado de minha face e profundamente fitou-me os olhos e quando fiz menção de falar, calou-me.
- Não diga nada. – me disse, ordenou – Agora não. Só fica aqui comigo hoje, – e novamente sua voz perdeu a confiança e por um piscar de olhos vi súplica em seu pedido – por favor.
- O que foi que aconteceu? – perguntei de pronto, me assustava também que sua súbita mudança – O que houve?
Nem por um segundo seus olhos se separaram dos meus e, nem por um segundo, a face assustava que apresentara a mim pela primeira vez aquela noite desaparecera de seu rosto. Contra qualquer previsão que pudesse ter feito de seus motivos, de todos meus pensamentos, foi justamente o contrário que saiu de sua boca.
- Eu acho... eu acho que te amo Gerard Way.
E foi então que me contou tudo, como de um estalo súbito naquela festa percebeu e como aquilo o havia assustado mais que qualquer outra descoberta até aquele momento. Estava apavorado, podia sentir, completamente apavorado.
Dormiu com as mãos ainda brincando em meus cabelos, olhava meu rosto quando adormeceu, e eu ainda permaneci por muito mais vedeando o seu. Não tinha muita certeza de o que aconteceu aquela noite e até hoje não a tenho,só de uma coisa sei e dela não abro mão, ele me amava.
Por muitas noites permaneci acordado antes daquela, rolando de um lado a outro através da madrugada, vagando como a mente como um submarino, vagando por lugares escuros, pensando e imaginando se um dia, em fim, esse momento chegaria, ou se, mesmo, ele teria essa capacidade. Não que eu não fosse uma pessoa passível de amor, mas se ele seria, se seria por mim. Nunca cheguei a realmente acreditar embora em meus sonhos diurnos mais devaneosos fantasiava o momento em que diria eu te amo. Certo ou errado, bom ou ruim, nada disso importava, para mim, deitado naquela cama, apenas sua boca importava; e tudo ligada a ela.
Quando a manhã chegou os raios rubros do sol invadiram soturnos a cama nos chamando para o novo dia que se postava. Seus olhos se abriram e simultaneamente um sorriso. Eu sabia que sorria, mesmo de olhos ainda fechados, embora não tenha certeza de como, simplesmente sabia que seus dentes estavam a mostra. Quase desejei que dissesse algo, que de seus lábios viesse a voz que tanto necessitava ouvir. Quase.
Um segundo antes de abrir os olhos um pensamento estranho atravessou minha mente como um trem desgovernado, derrubando paredes, fora dos trilhos, para além da onde eu considerava seguro. Teria sido um sonho ou uma ilusão, teria sido para ele? Tive mais medo aquela manhã que em qualquer outro momento da minha vida. Dizem que se é melhor perder um grande amor que nunca ter amado, digo que quem pensa assim jamais encontrou um grande amor. Abro os olhos aos poucos, com medo do que poderia encontrar.
Nada.
Nada aconteceu desde a noite anterior, e ele continuava ali, como eu esperava, como havia deitado na noite anterior: um sorriso nos olhos e lábios abertos. Mas ainda assim, mesmo que não me dissesse nada ou me permitisse falar, eu notava o terror em seus gestos pela primeira vez desajeitados em minha presença, uma manhã de movimentos inseguros e frases não tão pré-formadas assim. Eu ri sozinho no banheiro enquanto escovava os dentes para sairmos, achando graça mesmo da água girando ao entrar pelo ralo.
Ele me comprou um balão enquanto caminhávamos pelo parque aquela manhã. Eu não entendi na época. Os balões sempre ficam mais altos que o resto do mundo, nunca se pode perder um balão, mesmo a distância, ele me disse, é também neles que se faz as melhores viagens, onde se embarca para fugir do mundo. Também nunca se pode soltá-lo, nem ao menos por uma vez, um balão nunca pousa no lugar do qual zarpou.Não entendi o que quis dizer na época, mas entendo hoje todas as vezes que olho pela janela e vejo-os no céu da cidade sem que possam me ver lá de cima.
Eu de certo não posso dizer que foi uma época da vida que grande coisa aproveitei, acho que a maior parte do tempo, ao invés de me ocupar sedimentando memórias, passava confabulando as mais mirabolantes figuras dele, apenas pensando sobre ele. Hoje, olhando para traz acho que a maior parte das memórias são dos momentos em que eu mais prestava atenção em sua expressão: quando subíamos ao telhado.
Ele sempre gostava de fumar observando a cidade, sempre no mesmo canto do telhado, o que dizia ter a vista mais bonita. Sempre gostava de fumar sozinho, fazia uma cara fechada e dizia que eu o distraia, mas depois me abraçava e me fazia assistir às luzes, aos teatros infinitos e passageiros que se desenvolviam nas calçadas e nas janelas. Me contava histórias dos passantes, como se fossem amigos íntimos, antigos desconhecidos; inventava-as na hora e declamava tão convencido que por várias vezes quase acreditei e tive ciúmes.
Àquela altura quase não íamos mais ao seu apartamento, quando não saíamos ou íamos a alguma das várias festas para que era convidado permanecíamos em meu apartamento, na minha cama, no meu sofá, no meu chão, escadas de emergência. Disse que seu apartamento era um lugar barato e vazio, queria morar em um lar de verdade, com amor, mas também àquela época eu sabia o que realmente o incomodava, o que o fazia perder noites em claro rodando pela sala desesperadamente desenvolver um câncer.
Foi em uma tarde tranquila que eu comecei a desconfiar que a perfeição em pessoa talvez não viesse de um lugar tão perfeito assim. Garoava e ele insistiu para que ficássemos em casa, eu realmente precisava fazer compras e lavar alguma roupa, logo algumas meias ganhariam vida no cesto do banheiro; mas ele disse que não – ordenou que não. Percebi uma certa preocupação nos olhos dele, uma a que ainda não estava habituado, e na verdade não estava habituado a nenhuma. Sentou-se duro ao meu lado e não disse uma palavra conforme as citycons desenrolavam-se uma após a outra em nossa frente.
Quando o telefone tocou no bolso do casaco senti um tremor estranho percorrer seu corpo e um suor frio brotar em pequenos diamantes de sua testa, o tronco teso e quase automático puxou o pequeno aparelho do buraco escuro e sua voz quase hesitou o primeiro alô. É claro que fiquei perplexo e é claro que ele não me falou nada quando voltou com uma expressão sombria e não mais me abraçou durante o resto da tarde. Por detrás da porta, abafado pela madeira dupla e por alguns metros de ar que nos distanciavam pude ouvir o exaltar das vozes em ambos os lados da linha.
Aquilo se repetiu com certa freqüência, cada vez mais e mais alto. Havia dias em que ele tremia dos pés a cabeça como se tivesse mergulhado no rio em pleno dezembro, outros em que seu rosto ficava tão vermelho de raiva que um banho frio não era suficiente. Eu apenas desconfiava que era alguém íntimo pelo modo com que se falavam, e o mais engraçado é que eu, nem por um segundo, pensei em sentir ciúmes, apenas preocupação.
Eu não tinha certeza na época, mas descobri pouco tempo depois quem realmente era naquela chamada. Era uma manhã tranquila e ele havia decidido dormir em meu apartamento novamente, quase um hábito, uma regra; eu acordei cedo, permissão de uma noite bem dormida e não tanto álcool na festa anterior. Juro que não tive a intenção, simplesmente não tive, mas aconteceu, assim que cheguei na cozinha ele estava lá, a pequena caixa de plástico vibrando descontroladamente por sobre o tampo de granito da pia. Eu estava quase dormindo e até hoje não consigo entender de certo o que deu em mim, se foi me inconsciente sabotador ou simplesmente um impulso descontrolado por uma mente insone, mas atendi, antes mesmo que meu pré-frontal pudesse compreender o nome escrito no visor: pai.
Depois disso tudo não passa muito de um borrão, meu alô, o som mudo do telefone e a sensação de que minhas vísceras haviam se rebelado, aberto um buraco em meu umbigo e fugido para algum lugar longe e ao sol. Tudo mais parecia girar e bem no momento em que preparava minha mais nobre e reservada expressão de puta que pariu, minha vida foi pro buraco; ele apareceu na porta com o sorriso mais lindo que eu consigo me lembrar e me deu bom dia amassando a cara com a mão direita, o cabelo bagunçado que eu tanto amava.
Amarelei, não tive coragem de contar a ele, simples assim. Ninguém havia me dito que aquilo seria uma coisa ruim, não tinha informações concretas suficientes para formular a tese que aquilo, o simples ato de atender o telefone, seria algo tão devastador exceto pelo fato de que o pai ele havia desligado o telefone assim que ouviu minha voz, o que definitivamente não anima o dia de qualquer um; tinha, contudo, algo sussurrando no fundo dos meus ouvidos que algo muito sério estava para acontecer, e todas as minhas suspeitas se confirmaram antes mesmo do fim daquela manhã, do café-da-manhã.
O telefone voltou a tocar uma, uma hora e meia mais tarde; o mesmo som frio do plástico vibrado ininterrupto sobra a pedra polida. Ele também voltou a se tesar, e voltou a vazar pela testa, quando atendeu seu olhar para mim disse tudo, ele se levantou e saiu sem dizer uma palavra e sem beber uma xícara.
Ele não voltou naquele dia, nem no dia seguinte ou naquela semana. E toda noite, antes de dormir, digitava com dedos trêmulos um boa noite e mandava torcendo com todas as minhas forças que o número continuava o mesmo, que ele não tivesse esquecido de mim. Foi apenas três semanas, seis horas e vinte e cinco minutos depois que o sofrimento finalmente acabou, era final de expediente, uma quarta-feira mansa que ele apareceu no escritório, pegou suas coisas e partiu sem me olhar no olhos. Eu apenas desabei.
Notas finais
Obrigado mesmo a todos que leram a fic e esperaram tão pacientemente que eu tivesse tempo para terminá-la. Espero que todos gostem, eu fiz com todo carinho...
Beijuxxxxxxxx e deixem reviews!
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