Samwell

Ele estava parado em meio à uma grande neblina, tão densa e tão branca que mais se parecia a uma imensa nuvem que descera do céu para repousar sobre os campos, e tão espessa que não lhe permitia enxergar nem sequer dois metros em cada direção. Puxou o capuz de linho preto, que usava sobre a cabeça, com a ponta dos dedos enluvados. Sentia um frio gélido percorrendo seu corpo desde seus pés até sua cabeça, que latejava sem parar. Se não fosse pelas grossas luvas de lã preta que usava, suas mãos seriam duas pedras de gelo pendendo em seus braços a essa hora, e seus dedos estariam tão inúteis quanto elas

Era inverno em Oldville, e nessa época a baixa temperatura dominava todo o reino. A neve já cobria o chão por inteiro, formando um imenso tapete branco e gelado sem fim, que se estendia sobre as casas e os campos, devastando plantações e secando moinhos por toda parte.

Embora o reino central não fosse como as vilas da Gallarta, o inverno era rigoroso e comprido, e diversas vezes deixava pessoas que dormiam um sono gelado para nunca mais acordar. Em todo lugar mendigos e sem-tetos desapareciam durante a estação, e só eram encontrados quando a neve baixava, com os corpos congelados até o último osso. Nas vilas do litoral, navegantes cancelavam qualquer viagem que planejassem, e marinheiros aproveitavam o calor de uma lareira com uma caneca de vinho vermelho, enquanto outros gastavam seu dinheiro em bordéis, na companhia de prostitutas, com exceção dos Distantes, que eram conhecidos por serem ousados e viajarem até nos piores dias de inverno.

Samwell era jovem, não possuía mais do que dezessete anos, porém, conhecera invernos tão longos e hostis quanto aquele se mostrara ser. Ele tinha o cabelo castanho e curto, cortado na altura dos olhos. Embora não fosse conhecido por ter um corpo avantajado, não era magro demais, e possuía uma altura mediana. Seus olhos eram cinzas como fumaça e seu rosto era rosado, sem pelos além das sobrancelhas e cílios.

Retomou sua caminhada a passos lentos. Estava sozinho, o que tornava sua viajem ali mais rápida. Além do capuz, ele também usava uma pesada e grossa capa de lã preta, que assumia a difícil tarefa de tentar mantê-lo aquecido, e botas altas de couro envelhecido, e macias por conta do uso, cobriam seus pés até suas panturrilhas.

Lembrava-se de quinze invernos, os outros sua mente já não lhe trazia memórias, por ser novo demais na época, novo demais para recordar algo além de como conseguira uma cicatriz no topo de sua cabeça. Mas uma coisa lhe era comum, cada inverno que enfrentara era coberto de frio, muita neve, e corpos congelados.

O clima era mais gélido em sua cidade, a capital do reino de Villadad, por isso já havia tido a experiência de presenciar temperaturas mais baixas do que o de se encontrava, mas ainda assim, o vento gelado que soprava, era o suficiente para lhe fazer ficar tonto. Algumas árvores podiam ser vistas por ali em dias limpos e claros, mas nesse dia Samwelll vira poucas, por conta da neblina, e apenas quando uma passava ao seu lado era que ele a notava. Outras vezes tinha de desviar de um Pinheiro que aparecia em seu caminho, e que só era visto quando ele estava a um metro da grande árvore. Todas estavam cobertas pela neve, de modo que apenas o branco era visto pelo local. Enquanto caminhava, pensava no que lhe trouxera até ali. Caminho para a morte. Pensou, sentindo a sua cabeça voltando a dar pontadas de dor. Por mais que desejasse ter alguma chance de viver, ele conhecia seu destino. Nem mesmo a baixa temperatura havia congelado seu cérebro a ponto de o fazer esquecer o porquê ele havia deixado a cidade, nem para onde estava indo. A cada passo fico mais perto da morte. Morte se alcançar a floresta. Morte e desonra se regressar. Era o mínimo que lhe podia acontecer, e se tivesse uma morte rápida, agradeceria pessoalmente aos deuses no portão do paraíso. Ele sabia que não poderia retornar. Forte Sul e Forte Leste guardavam suas laterais, com uma atenção redobrada, e a grande Oldville mantinha guardas do Comando de Ferro sempre alertas em sua retaguarda. A essa hora, todos já estariam à sua procura. O rei Thorin ordenara que o levassem à sua presença, e desde que a ordem havia sido dada, diversos guardas já haviam saído em busca do alvo. Além disso, toda a cidade central de Oldville estava alerta ao menor sinal de Samwelll. A coroa estipulara dois lobos de ouro para qualquer pessoa que o encontrasse, e três lobos para quem o levasse até o castelo. Thorin Connington era um rei que poupava sentimentos, mas não ouro. Quando queria que algo fosse feito, simplesmente ordenava, sempre oferecendo uma gorda compensação para quem cumprisse sua ordem o mais depressa possível, como terras, títulos ou mesmo ouro.

A densa neblina branca cobria tudo ao seu redor, como uma imensa fumaça que se espalhava por todos os lados. O sol já não exercia seu calor e apenas uma mancha branca podia ser vista lá no alto destacando-se e indicando que ele estava ali. Por algumas vezes, Samwelll chegara a se perguntar se não teria se perdido ou se neste exato momento estaria seguindo o caminho errado e fora de sua rota. Por vezes, parava para descansar as pernas e, sempre que fazia isso aproveitava para olhar em volta em busca de algo que indicasse que estava no caminho correto, o que era um esforço em vão, até que por fim desistira.

Ao longe avistou uma mancha escura, se destacando no meio do branco sem fim. Imaginou se não estaria tendo uma alucinação por conta do frio, principalmente porque a mancha se parecia a um Pinheiro, porém, diferente dos demais. Lembrou-se de uma história que ouvira certa vez em Villadad. Pinheiros Negros, ouvira o bardo cantar no canto de uma taverna mal iluminada que ficava no porto, onde marinheiros ficavam bêbados com vinho vermelho, mas ele mesmo duvidava que essas árvores existissem. Segundo o que sabia, não existiam mais as imensas árvores negras de sua raiz até a última folha. Agora, no entanto, começara a se perguntar se a canção que ouvira era realmente uma história inventada ou se o cantor não falava a verdade. Bobagem. O frio deve estar consumindo minha mente. Mas a árvore não podia deixar de ser notada a uma distância de um arremesso de pedra. Árvores de morte. Lembrou-se de ter escutado a expressão outra vez, dessa vez não de um bardo, mas de um marinheiro que atracara em sua cidade no inverno, e se encontrava em uma adega perto do porto. O lugar fedia a madeira podre e mofo por todos os lados, por conta da época de neve.

– Antigamente não existiam árvores em canto algum. Nesse tempo apenas os cerdos viviam aqui – contou em voz alta para que pudesse ser ouvido por todos. Ele parecia ser um rico mercador, provavelmente dono do seu próprio navio. – Os cerdos são as criaturas mais antigas que conhecemos.

– Ninguém conhece um cerdo – gritou outro que bebia em uma mesa afastada, visivelmente embriagado. – São apenas histórias e mitos para crianças se comportarem.

– Aí é que você se engana, Annie, sabemos que eles existem pelas árvores – o marinheiro retrucou.

– Ah é? Você mesmo disse que não existiam árvores quando os cerdos viviam aqui.

– Exatamente – ele concordou apontando a caneca na direção do outro e derramando um pouco do vinho vermelho no movimento – "Não", com certeza, "não existiam". Você nunca viu, e provavelmente nenhum de vocês também – falou mais alto, agora balançando a caneca de um lado para o outro – mas quando virem vocês saberão do que estou falando. Pinheiros...

– Pinheiros? – Annie riu alto. – Você está louco Todos já vimos um Pinheiro, a cidade é cercada por eles.

– Não qualquer pinheiro, árvores de morte, escuras como a noite, e que foram plantadas pelos cerdos no início dos dias.

Histórias de marinheiros. Os mesmos homens que seriam capazes de jurar por suas almas que já passaram uma noite nos salões aquáticos, na companhia de uma adorável sereia.

A cada passo que dava se aproximava mais ainda na direção da grande árvore negra, e cada vez mais lhe parecia que as histórias malucas que escutara faziam sentido. Diferentes bardos cantavam sobre as criaturas sobre-humanas conhecidas como cerdos, todas eram cheias de mistério e retratavam os seres como donos de uma força extraordinária, com a desvantagem de serem cegos. As mesmas possuíam os outros sentidos tão aguçados que eram capazes de substituir perfeitamente a visão, de forma que esta já não lhes fazia nenhuma falta. Em uma das canções, a principal cidade dos seis reinos era dominada por um cerdo e habitada por ele durante todo um inverno.

Seus pés afundavam um após o outro na neve branca, que se estendia à sua frente, em movimentos lentos e cansados. A nevasca dera uma trégua naquele momento, mas o ar ainda estava pesado pelo nevoeiro e respirar ali ficava cada vez mais difícil. Quanto mais se aproximava, mais difícil de entender se tornava a mancha. Agora o Pinheiro Negro parecia idêntico ao das histórias, escuro de cima a baixo, com uma folhagem negra que parecia dançar ao vento, tão sombria que dava a impressão de que a árvore havia sido consumida por fogo de dragão. Por mais que achasse que algo ali não fazia sentido, Samwell não conseguia entender o que era, tudo estava estranhamente concordando com as histórias que havia escutado. Apenas aquela árvore era vista por ali, o que era fácil de entender pois segundo as lendas, elas eram bastante raras. As árvores. Pensou de repente. Todas as árvores estão cobertas pela neve, mas essa. Isso não fazia sentido, por um bom tempo a neve já estava caindo, tempo suficiente para que tudo ao seu redor estivesse coberto por ela. Todas as outras árvores por ali estavam camufladas pelo gelo branco mas aquela não, aquela continuava escura como a noite. A ideia de que a expressão “Pinheiro Negro” era utilizada apenas para se referir as árvores mortas, que realmente ficavam escuras quando morriam, lhe passou pela cabeça. Árvores centenárias ocupavam o lugar e deviam haver milhares mortas por ali. Árvores mortas não possuem folhas.

Estava a cinco metros do Pinheiro, mantendo os olhos apertados na tentativa de entender o que via, até que deu mais um passo curto e parou de repente, imóvel com a cena que viu. O viajante desconhecido fez com que a densa folhagem negra começasse a se desfazer aos poucos, como em uma dança flutuante que rodopiava pelo vento frio e se espalhava em todas as direções no ar gelado de inverno. Aquela “folhagem” que avistara, não era composta por folhas, mas por aves, corvos que saiam dos galhos de um imenso Cedro morto, voando em todas as direções, ao notarem sua presença, aves pretas que crocitavam alto enquanto se movimentavam em um voo calmo. Ele pressentia que algo não estava certo naquele lugar, enquanto as diversas penas escuras que as aves soltavam ao voar, caíam sobre a neve. Até onde sabia, aquelas aves não migravam para tão longe, especialmente em meio a um inverno como aquele, porém, desde que havia saído de sua cidade, tudo que havia presenciado lhe era estranho, e por diversas vezes ele chegara a acreditar que estava alucinando pelo frio.

— Corvos, somente corvos, claro – disse para si mesmo, em um sussurro, tentando se convencer de que não havia nada de estranho nisso. Nada demais, apenas aves.

As aves se espalharam pelo local, indo buscar refúgio nas outras árvores que haviam por perto, e que só foram percebidas por Samwell após o voo das criaturas até elas. Ele tentava afastar as histórias sobre o local de sua mente, afinal, acreditar em Cerdos era extrema loucura, e basicamente todas as histórias sobre o local incluíam Cerdos como guardiões da floresta, logo acreditar nos contos seria o mesmo que acreditar naquelas criaturas.

O voo das aves havia sido no mínimo sinistro, embora tivessem se afastado com o movimento do jovem, não voavam como que fugindo amedrontadas, temendo o andarilho solitário, voavam tranquilamente, sem demostrar medo ou pavor, como se estivessem apenas esperando que o desconhecido seguisse seu caminho, para que pudessem voltar aos seus postos novamente.

Ele estava concentrado olhando ao redor para os pássaros escuros que o espreitavam dos galhos cobertos de gelo nas outras árvores, quando desviou o olhar novamente para a árvore morta de onde os corvos saíram e percebeu que uma mancha continuava imóvel na base da árvore, mas essa mancha era diferente , não era preta como os pássaros, embora aqui e ali algumas partes escuras também se destacassem essa era mais rosada, e ele entendeu que mais perto ela seria vermelha, porém, por conta da neblina que continuava densa ele não via claramente o que estava na sua frente. Seu nariz não lhe servia de muita coisa a essa altura, estava entupido há tempos por conta do frio, e odor nenhum passava entre suas narinas, então não podia contar com o olfato para identificar o que via.

Uma parte de si pensou em contornar a árvore esquisita e misteriosa para continuar seu caminho por outro lugar, mas ele sabia que se por algum descuido se afastasse demais, poderia perder o rumo e acabar encontrando uma rota diferente da planejada, provavelmente acabaria chegando em algum dos Fortes que não ficavam tão longe dali e que provavelmente estariam cobertos de guardas ansiosos por qualquer sinal seu para ganhar uma boa recompensa pela sua cabeça, lhe entregando ao rei. Mas isso apenas se perdesse o caminho, contando que ele estivesse seguindo o rumo correto nesse momento, o que não era certeza sem um objeto que lhe auxiliasse no percurso, mostrando o caminho a seguir. Poderia estar perdido agora mesmo, caminhando na direção errada, rumo a um dos dois Fortes que deveriam estar nas suas laterais há pelo menos um dia de caminhada.

Por fim decidiu que não queria correr o risco de acabar chegando em um destino diferente do que esperava e resolveu passar pela árvore como havia passado pelas outras antes dessa, chegando o mais próximo possível para então desviar seu caminho apenas um pouco. Havia recebido essa instrução de seu mestre, pouco antes de deixar a cidade rumo à floresta. Após um longo tempo em discussão sobre o que o garoto faria, o ancião concordou sobre ele deixar a cidade, e o ajudou com sua sabedoria. O homem tentou lhe convencer a não ir embora, mas no fim, tudo tratava-se de uma questão de adiar a morte e conseguir um pouco mais de tempo entre os vivos.

— Você tem certeza disso, Sam? – perguntou o ancião que devia ter uns sessenta anos, a julgar pela sua aparência, com uma longa barba que chegava ao seu tronco, metade branca. Mesmo entendendo a situação e porque deixar o reino era a melhor opção, sua mente teimosa insistia em não aceitar que o jovem partisse

— Certeza? Claro que não! Mas confie em mim, vai dar certo. – O garoto lhe respondeu.

— Sabe que precisaremos de você aqui na cidade.

— Sim, senhor. Ainda assim não posso ficar. Neste lugar sou procurado, ou serei, se o Comando de Ferro já não estiver nas ruas agora mesmo. Não posso mais esperar.

— Isso é verdade, o Comando de Ferro não demora para obedecer as ordens de Vossa Majestade. Com certeza estarão aqui a qualquer momento – o homem disse, pegando uma maçã de cima da mesa escura ao seu lado e dando uma mordida em um dos lados.

— Estou assustado. Muito assustado, pra falar a verdade, mas não tenho escolha, tenho de ir ou será tarde demais.

— Você sabe como chegar ao seu destino? – Norgo, o ancião, lhe perguntou.

— Fala de um animal? Que cavalo resistiria ao frio? – ele argumentou. – Sem falar da comida, não poderia levar o bastante para mantê-lo.

— Falo de uma rota, um mapa. É inverno, mesmo as rotas mais conhecidas tornam-se caminhos incertos para os homens nessa estação.

— Você sabe bem, assim como eu, que não existem mapas da floresta, nada que ajude quando eu chegar lá.

— “Se” você chegar lá – o homem corrigiu rapidamente. – Por um momento me esqueci para onde você está indo. Tudo bem – ele disse, com uma calma que só os anciãos sabiam demonstrar antes de dizer algo sábio. – Você vai fazer o seguinte. Assim que você cruzar as muralhas você seguirá até uma hospedaria fora dos muros.

— Não posso parar mestre. Uma hospedaria não é bem o que procuro – Sam relutou.

— Sei disso meu jovem – o mestre confirmou, jogando a maçã, já terminada, fora. – Você encontrará Zakah, ele poderá lhe informar a direção correta a seguir.

— E como vou saber chegar até essa hospedaria?

— Você não irá pelo portão principal, a menos que deseje ser capturado antes de deixar a cidade, mas eu conheço uma pessoa que pode lhe ajudar a sair, Sarah. Tenho certeza que ela ficará feliz em ajudar. Posso lhe explicar como encontrar tal mulher. E mais uma coisa, rapaz – Norgo disse erguendo o indicador direito.

— Sim, mestre – Samwell respondeu com um leve aceno de cabeça.

— É inverno, como eu disse, ‘as rotas são confusas até para os mais experientes’. Nunca, nunca se desvie do seu caminho, nem para a esquerda nem para a direita, do contrário, nunca chegará ao seu destino, e isso não seria tão agradável. Nunca mude sua direção, nem mesmo dois metros.

O rapaz escutou com atenção cada palavra do ancião e até então, havia seguido seu conselho, aquela árvore não seria a primeira a lhe fazer mudar de rota. Caminhou mais alguns curtos passos, segurando um pedaço da pesada capa que vestia sobre sua boca e seu nariz, por conta da neve que batia contra seu rosto, e com a outra mão no cabo da espada de ferro na sua cintura. De algum modo, a neblina ficava menos densa ao passo que ele se aproximava lentamente da árvore, e quando chegou a pouco mais de um metro daquilo que um dia foi um Cedro majestoso, ele pôde ver claramente o que era a “mancha”, que que havia notado metros atrás. Aquilo que tornava aquela árvore tão diferente e estranha, não eram os galhos, nem mesmo as aves escuras que a deixaram eu um voo rápido. Era algo que agora estava ali, bem na sua frente.

Um cadáver. Pensou, enojado. Um corpo sem forma estava ali, retorcido entre os galhos mais baixos, com diversos ossos à mostra, saltando do que lhe restava. Boa parte estava devorada pelos corvos, porém ainda não havia se decomposto por inteiro, por conta do intenso frio. Não só isso, seus ossos eram escuros como a noite, e havia traços de sangue que escorriam de suas inúmeras feridas. Sua aparência era assustadora, e com certeza a pior visão que Samwell já havia presenciado. Sua carne aparecia poucas vezes aqui e ali, e seus olhos eram buracos vermelhos preenchidos com sangue, e pareciam fitar o céu branco de inverno. Seus dentes também adicionavam sua parte de terror ao corpo sem vida, assim como todos os ossos, que um dia sustentaram o cadáver, eram inteiramente pretos e alguns estavam quebrados. O lado esquerdo de seu maxilar estava aberto e havia um pouco de neve rosada sobre o galho que ele tocava. Seus dedos já não existiam se seu peito estava aberto, exibindo o esqueleto escuro. Suas roupas estava rasgadas, principalmente nos lugares onde as aves escolheram fazer seu banquete.

Samwell se perguntava o que havia acontecido, e por quanto tempo aquele homem havia sofrido antes de seu fim. Ele não conseguia saber se o cadáver que via, havia deixado a floresta, ou se, assim como ele, estava indo em direção a ela, mas algo ele tinha certeza. Com certeza não me perdi do caminho. Ele se sentia tonto e enjoado com a cena, afinal, não era todo dia que via pessoa mortas naquelas condições, na verdade, nunca havia visto algo assim. De vez em quando assistia a combates de cavaleiros, e outras vezes presenciou execuções, mas nada se comparava àquilo, aquilo era diferente, algo que desejava não ver nunca mais. Sua respiração se tornava ofegante a cada segundo que passava. Num movimento súbito virou-se, se rendendo ao nojo do que via, com as mãos na barriga e vomitou sua última refeição sobre a neve branca. Tentou se afastar um pouco da cena e tirá-la da cabeça, mas mal havia dado cinco passos do Pinheiro morto e sentiu seus pés vacilarem e suas pernas enfraquecerem. Caiu primeiro de joelhos sobre o mar branco de gelo enquanto sua visão ficava embaçada, e logo se deixou afundar na neve. Não havia desmaiado, mas suas forças o haviam abandonado, e até mesmo levantar era uma missão impossível. Por mais que desejasse seguir caminho e deixar o lugar para trás, sentia que não conseguiria fazer isso nesse momento, então se entregou, deixando que seu corpo fosse completamente abraçado pelo gelo macio, como se estivesse em uma cama quente, sem preocupações, afinal, agora sabia que ninguém o encontraria em uma região como aquela, ninguém era idiota o suficiente de ir tão longe. Deixou que sua mente vagueasse por lugares distantes e terras verdes, onde q vegetação e as flores predominavam, sem que a neve as sufocasse. Desejava estar em um lugar quente, em um longo dia de sol, mas sua mente voltava para o que havia deixado para trás assim que partiu, sua casa, sua honra, sua irmã... Masha. Ela era sua única família, ele era a única família dela. Os dois haviam crescido juntos, e enfrentado juntos os muitos dias sombrios. Seu pai os deixou quando ele não havia visto mais do que sete dias de seu nome, e ela, apenas quatro. Sua mãe também havia partido, três invernos depois, mas ela não podia voltar. Havia perdido o gosto pela vida após perder o movimento das pernas, e decidiu dar um fim rápido a toda a sua angústia, com uma pequena dose de Chá dos Campos, o veneno mais letal conhecido no reino. Foi nessa mesma época que conheceram Martin, que os acolheu como se fossem seus filhos, lhes deu um novo lar, e comida. O homem ensinou Marsha a ler e escrever, e até colocou Samwell para praticar esgrima, juntamente com os recrutas da guarda do rei, mesmo o garoto não levando jeito algum para armas. Ele servia como parte do conselho do rei em Villadad, e ensinava muito do que sabia ao rapaz. Mas Masha... Sua irmã com certeza sentiria muito mais sua falta, não como se ela fosse informada sobre sua morte, mas a dúvida sobre ele estar vivo ou morto a consumiria. Eu lhe disse que voltaria, mas realmente não posso. Fiz o que foi necessário. Sua mente insistia em repetir, como um meio de lhe tranquilizar. Fiz o que foi necessário. Diversos flocos de neve começavam a cair sobre seu rosto, dando às sua pele uma expressão pálida. Seu cabelo agora estava branco por conta da neve e um leve momento de calma e tranquilidade pairava no ar naquele instante. Eu... preciso continuar. Pensou, mas tudo o que fez foi fechar os olhos e adormecer.

Ele acordou na última hora de sol, abrindo lentamente os olhos, com a neve branca entre suas sobrancelhas, deixando-as dormentes. Passou a mão esquerda sobre seu rosto em uma tentativa de retirar um pouco da fina camada de gelo que havia se formado ali. Ao longe um uivo ecoou em seus ouvidos. Será que? Estou a mais tempo do que imaginei. Lembrou, de repente. Sentou-se sobre a neve e bateu em sua roupa para soltar um pouco do gelo que havia sobre o tecido. Ajeitou novamente o capuz sobre sua cabeça e então levantou-se, deixando as lembranças horríveis metros atrás.

A neblina estava menos densa agora e ele podia enxergar melhor. Pelo menos assim posso saber pra onde estou indo. Olhou ao redor para localizar o grande Cedro Negro onde havia tido a pior sensação de sua vida, mas quando o viu, percebeu que não havia corpo algum ali, tampouco as inúmeras aves estavam por ali. Também se a árvore era realmente negra antes, agora não havia qualquer diferença dela para as demais. Tentou lembrar de que direção havia vindo, mas então notou que ao longe uma mancha cinza se destacava. Só pode ser lá. Ele sabia que não deveria estar muito longe, e pelo que tudo indicava, desde o corpo até as aves estranhas, a floresta começava ali, naquele ponto, bem à sua frente. A viagem o deixara cansado e sem forças, e ele sabia que o sol logo não estaria mais sobre sua cabeça. Se aquele lugar lhe causava arrepios durante o dia, ele não estava disposto a passar uma noite ali, principalmente com tudo o que havia presenciado nas últimas horas.

Um vento forte e gelado soprou contra seu rosto e outro uivo passou pelos seus ouvidos, dessa vez mais perto. Os lobos trazem a escuridão. Já havia problemas demais em seu caminho, e aqueles animais logo estariam ali, juntando-se às enorme lista. Se não fosse tão ruim com a espada, estaria disposto a enfrentar o animal, contando que fosse apenas um. Mas lobos nunca vagavam sozinhos, e se havia um, haveria mais um, e mais outro, e em pouco tempo o cheiro de seu sangue quente logo os traria direto em sua direção. Animais como aquele eram perigosos principalmente durante a noite, quando caçavam.

Ele moveu-se em passos largos, lutando contra a neve pesada que se acumulara e servia apenas para atrapalhar sua passagem. Faria a viagem em metade do tempo se não fosse inverno, mas a pressa fez com que ele abandonasse a cidade o mais depressa possível. Logo a neve foi ficando menos espessa, à medida que se aproximava das primeiras árvores que formavam a floresta, exatamente quando o sol se escondia no horizonte em seus últimos instantes de claridade, colorindo o céu de vermelho por detrás das nuvens brancas. Pelos sete infernos, se esta não for a floresta de que falam, juro estar louco. E realmente era. Algumas árvores retorcidas davam àquele lugar um tom sombrio e misterioso, nada acolhedor. Em um instante atravessou a linha imaginária que separava o lugar do resto do mundo. Finalmente chegara.

De súbito sentiu que a neve ficará mais leve sob seus pés. Também os flocos que despencavam sobre sua cabeça diminuíram o ritmo, e vês por outra se confundiam com vagalumes que passavam por ali, e que não eram raros. O local era escuro e frio, se a noite havia chegado sobre aquele lugar ou se as árvores impediam a passagem da luz era impossível saber. Logo a única luz disponível era a fornecida pelos insetos que produziam sua luminosidade fria.

Ele andou até sentir que o chão onde pisava não estava mais coberto pela neve, guiado pelos vagalumes que se espalhavam pelo local, fazendo a floresta ficar iluminada de uma forma que parecia mágica. Abaixou-se lentamente e tocou o chão após retirar a luva que protegia sua mão esquerda do frio. Mas o quê? Pensou ao sentir a textura do chão. Isso é... grama? Ali, naquele lugar, nem mesmo a neve de inverno chegava ao solo. Embora não tivesse caminhado mais do que uns cinquenta metros para dentro do lugar, percebia que a neve acabara algum tempo atrás, sem que ele notasse. Após retirar o capuz de dia cabeça sentiu o motivo de ali não estar coberto por todo aquele gelo branco que havia enfrentado no caminho. A folhagem era dão densa e espessa, com as copas das árvores tão fechadas, que qualquer sinal de neve deveria estar acumulado muito acima de sua cabeça, como se fosse um enorme telhado. O clima também mudara completamente, e o frio congelante que enfrentara há alguns momentos havia perdido suas força e não era mais um incômodo, embora ainda estivesse frio. Parte da neve conseguia ultrapassar a barreira feita pelas árvores após ser derretida, e algumas horas o local parecia ter sua própria chuva, com gotas extremamente geladas.

Samwell havia tomado sua última refeição horas atrás, porém a única comida que havia lhe sobrado eram algumas frutas que conseguira com a mulher chamada Sarah, que lhe ajudou a passar pela muralha e lhe deu uma bolsa de couro com alguma peras, e um pote de vidro com maçãs cortadas em pedaços do tamanho de um dedo, em formato de lua-dos-magos. Aquilo era pouco para a viagem que faria, mas era tudo o que havia conseguido, e mais do que o homem chato chamado Zakah lhe dera. Certo que ele ajudou com a direção a seguir, com todo o prazer, prazer até demais, mas Sam só conseguiu deixar a hospedaria após escutar centenas de piadas vindas do homem, sobre de quantos modos diferentes o jovem poderia morrer, além de deixar todo o dinheiro que havia trago, nas mãos do infame.

— Um homem morto não tem dívidas nem despesas, meu amigo cadáver – ele dissera, com a mão estendida na direção do rapaz, e o Samwell entendeu o recado.

De qualquer modo ele não precisaria do dinheiro para onde iria, e não havia trago mais do que três moedas de prata, que havia esquecido em uma pequena bolsa em sua cintura. O homem mudara de expressão muito depressa após ver as três moedas prateadas e redondas sobre a palma da sua mão, depois de o garoto lhe entregar a bolsa minúscula, sem muita relutância. Ficaria feliz em morrer, se isso o afastasse do homem, mas temia que no inferno houvesse mais outros iguais àquele, talvez até uma cópia dele para cuidar que ele não tivesse descanso.

A provisão de Sarah lhe servira bem por muito, mas agora já não fazia mais efeito, principalmente depois que ele colocara todo o que havia ingerido para fora novamente, poucas horas atrás. Agora precisava de comida novamente e apenas frutas não seriam o suficiente para lhe manter. Precisava de carne. Ele não era bom caçador, nem de longe, nunca havia atirado com um arco, e mesmo que soubesse, não havia nenhum por ali, embora sua espada estivesse ali, ao seu lado, e caso ele quisesse realmente comer outra coisa além de frutas, teria de empunhá-la. Porém, caçar sem a luz do dia não era algo eficaz, e com certeza não traria nenhum resultado. Guiado pela luz dos insetos brilhantes, que voavam por ali e chegavam até uma árvore cercada por uma espécie de grama baixa e macia, retirou a bolsa de couro entregue pela mulher que havia lhe ajudado a escapar da cidade. Ela estava leve, muito mais do que quando a recebera cheia de frutas. Se eu quiser ter uma chance melhor, preciso saber aonde estou indo. Pensou. Retirou o pote de vidro vazio da bolsa e achou a tampa de madeira logo ao seu lado. Como armas não eram sua especialidade, decidiu que uma estratégia seria mais bem vinda. Lembrou-se do que Martin lhe ensinara sobre armadilhas para pequenos animais, tempos atrás. Preciso tentar.

Primeiro precisou cuidar de ter uma iluminação um pouco melhor. Encontrou alguma vagalumes, o que não foi dificuldade, e começou a encher o pote de vidro. Vez por outra algum conseguia escapar da prisão transparente, mas em pouco tempo o pote estava cheio a ponto de produzir uma luz parecida com a luz de uma tocha ainda ardendo. Com a iluminação mais adequada pôde ter uma vista melhor de lugares que nem havia percebido antes. O lugar era totalmente plano, com diversas árvores de alturas variadas, e especialmente carvalhos eram vistos com mais frequência. Samwell não sabia o que encontraria por ali, mas tinha em mente algo assim quando deixou o reino, com uma diferença, um pouco menos sombrio. Em alguns momentos escutava um som parecido ao de algum animal se movendo, e outras vezes ouvia o crocitar de algumas aves, que com certeza eram da mesma espécie dos corvos que havia visto no caminho, e que também pareciam lhe vigiar. Não podem ter me seguido até aqui

Ele escolheu uma árvore larga para montar sua armadilha. Decidiu utilizar algumas tiras de couro, que conseguira com a bolsa, e alguns galhos de carvalho. A árvore que havia escolhido era exatamente como precisava, com alguns galhos baixos que lhe serviriam perfeitamente. Sam pegou o pote com vagalumes em uma das mãos e com a outra fez um pequeno furo na tampa de madeira, usando um punhal que escondia nas suas costas, o bastante para evitar que sua fonte de luz acabasse morrendo. Colocou novamente o punhal em uma bainha nas costas, e se aproximou da árvore com o pode de vidro na mão, pronto para começar o trabalho.

O pote caiu no chão, os insetos voaram livremente, e um corpo bateu sobre a grama, imóvel.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.