Notas iniciais
Ágatha Moonlight faz jus ao seu cargo de Comandante da Brigada de Guerra de Oakstride, e demonstra suas habilidades, enfrentando Bruce Kings!



Bruce despertou de sua soneca, e sentou-se na cama. Tinha a impressão de que dormira duas semanas seguidas, e estava se sentindo amassado. Havia combinado de encontrar alguém hoje à tarde... Mas quem?

Olhou para o relógio do lado da parede e consultou as horas: 4 horas e meia. Estava atrasado para o treinamento de Ágatha! Levantou-se o mais depressa que pode, colocou os sapatos, vestiu a capa, pendurou sua foice nos ombros e saiu em disparada pelos corredores da estalagem. Assim que abriu a porta da frente da estalagem Olho Sem Rosto, trombou violentamente com alguma coisa sólida, e caiu no chão, no meio da ruela.

– Ai! Olha por onde anda! – Disse uma voz feminina.

– Me desculpe! Estou atrasado para...

Sua fala foi interrompida assim que viu um livro aberto, jogado no chão. Em meio a muitos símbolos e escritos desenhados na página em que o livro estava aberto, Bruce conseguiu identificar o brasão da família Kings, próximo ao canto da folha.

– O que... Onde você...?

A garota levantou-se do chão e fechou o livro. Possuía um cabelo loiro preso em um coque, agora meio bagunçado, que Bruce julgou estar coberto anteriormente pelo capuz emendado à simples túnica bege que a vestia. A garota pegou um par de óculos retangulares do chão, e colocou novamente em seus olhos castanhos.

– Nem para pedir desculpas! – Disse tirando a poeira de suas calças marrons.

– Espere! O que é isso nesse seu livro?

– Hmpf! Você não é o único que tem pressa, idiota! Adeus! – Disse grosseira, virou as costas, e voltou a seu caminho.

Bruce levantou-se do chão, mas ficou parado no meio da rua pensando no que vira no livro da garota. Como ela poderia saber algo sobre sua família e sobre o brasão que estava estampado no seu peito? Investigaria isso depois, pois já estava atrasado para o treinamento de Ágatha.

Passou pela fonte central e saiu pelos gigantescos portões de Oakstride. Andou um pouquinho pela estradinha de pedra até chegar ao centro de treinamento: Um enorme cercado de terra batida com diversos bonecos de madeira e palha vestidos de armadura. Próximo ao portão estava um arsenal de madeira com uma imensidão de armas diversas: Machados, adagas, espadas longas ou curtas, arcos e escudos.

Um pouco mais adiante, na parte de trás da arena, havia um grupo de cerca de 30 pessoas. Todas armadas e equipadas com armaduras de placas de ferro e couro negro. Estavam todos em volta de um tablado de metal, que se projetava um metro acima do solo. Em cima do tablado três pessoas lutavam. Uma garota com armadura prateada e duas espadas idênticas estava bem no meio, enquanto dois homens de armadura de placas de ferro, segurando um escudo e uma espada, estavam um em cada canto da arena, olhando fixamente para Ágatha, prontos para atacar.

A atenção dos guerreiros ao redor era tanta, que ninguém pareceu perceber a presença repentina de Bruce.

Ágatha segurava as duas espadas ao lado de sua cintura, e estava de perfil para os guerreiros, de modo que não ficasse de costas para nenhum. O homem da esquerda investiu primeiro com um corte lateral. Ágatha levantou a espada da direita e bloqueou o ataque como se fosse um simples tapa. Em seguida, com sua perna direita, chutou os pés do guerreiro, que desabou de costas no chão imediatamente. O guerreiro da direita investiu com uma estocada bem na direção do peito da espadachim. Ágatha desviou o corte com uma das espadas, girou 360 graus e aterrissou uma poderosa cotovelada no elmo do adversário, que ficou zonzo no mesmo estante. Para finalizar, bateu com a lateral de uma das espadas no tornozelo do adversário, derrubando-o. Os dois haviam sido derrotados completamente.

– Primeiro – Começou Ágatha em voz alta para que todos pudessem ouvir – Nunca se ataca com uma cutilada horizontal um adversário que está de lado. É pedir para receber uma rasteira. E uma rasteira no campo de batalha significa morte.

– Entendido, Comandante Moonlight! – Disseram todos os guerreiros ao mesmo tempo.

– Segundo – Continuou – Joseph, para que serve o seu escudo? Enfeite? Na próxima vez não serei tão gentil!

– P...pois não, Comandante Moonlight!

– E terceiro... Espero que da próxima vez, todos cheguem no horário programado! Não é mesmo, Bruce Kings?

Bruce engoliu em seco. Até esquecera que estava ali.

– E... Eu me atrasei. – Disse tímido, enquanto todos os guerreiros com cara de poucos amigos olhavam sérios para ele.

– Hora, não me diga! Ficou penteando essa mecha no espelho? Suba aqui! Quero ver o que você sabe fazer com esse seu brinquedinho.

Não tinha escolha. Esse era o preço por estar atrasado. Subiu três pequenos degraus até ficar no nível de Ágatha.

– É o seguinte: Quem fizer dois pontos vence! Cada ponto poderá ser adquirido por um corte, queda, desarme ou qualquer outro tipo de contato. Mortes não são permitidas. Joseph, você ficará de juiz.

– C...Certo. – Parecia tão aterrorizado quanto Bruce.

Bruce ouviu comentários não muito agradáveis sobre ninguém nunca ter ganhado um duelo com Ágatha, e sobre sua bunda ser completamente amassada. A verdade era que ele não fazia a mínima ideia do que estava fazendo. Na única vez que empunhara sua foice, conseguiu matar um lobo por pura sorte. Sem contar que havia uma grande diferença entre um simples lobo, e Ágatha Moonlight, o Comandante da Brigada de Guerra de Oakstride. Estava frito.

– Comecem! – Gritou Joseph, o soldado.

Ágatha levantou guarda e começava a vir lentamente a seu encontro. Bruce tirou a foice de suas costas e a posicionou na frente de seu corpo, erguida. Algumas risadas ecoaram da multidão, o que não ajudou muito. Não havia mais solução. Teria de agir, não ficaria ali parado como um idiota. Se fosse para perder, perderia com honra, lutando!

Correu na direção de Ágatha tentou um corte horizontal com a foice. Como já era esperado, Ágatha se abaixou, e a foice cortou o vento em cima de seus cabelos. Rolou para perto de Bruce, ficando cara a cara com ele, e bateu com os cabos das duas espadas bem no meio do seu peito, com uma força tremenda.

– Um a zero! – Gritou o juiz, enquanto gritos de comemoração saíam da plateia.

Bruce recuou devido à força do impacto, e não acreditava no quanto Ágatha era forte, apesar de ser igualmente bonita.

O golpe de Ágatha fez Bruce acordar. Sentiu raiva. Afastou um pé na diagonal do outro, posicionou o braço direito, e segurou o cabo com uma única mão, deixando a foice atrás do seu corpo, de modo que a lâmina em si ficasse atrás de sua cabeça. Não sabia como, nem o porquê te der se posicionado daquela maneira, mas sentia que estava fazendo isso da maneira correta. Sentiu também uma súbita onda de energia percorrendo seu corpo. A capa. Era como se tudo estivesse em sincronia: Bruce, sua foice, e sua capa.

Ágatha pareceu estranhar, olhando-o com incerteza.

– Como você...? Ah, que seja! – E pôs-se a correr na direção de Bruce.

Ágatha desferiu um corte diagonal com a espada direita, mas dessa vez Bruce foi mais rápido. Girou, passou a foice por trás do seu corpo e defendeu o corte de Ágatha com a bolinha de metal presa na outra extremidade da foice. O impacto foi tanto, que o braço direito de Ágatha voltou de onde tinha saído o golpe, deixando sua guarda aberta. Bruce girou de novo a foice, e apontou a lâmina curvada direto para a garganta de Ágatha. O silêncio na arena foi quebrado por uma fala:

–Um a um – Pronunciou, sem muito entusiasmo.

Ágatha tirou a lâmina do seu pescoço com a espada esquerda, e recuou. Possuía no rosto uma expressão que Bruce nunca tinha visto antes. Estava extremamente furiosa, e segurava o cabo das espadas com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. Recuava passo a passo para trás vagarosamente, e tinha seus olhos fixos nos de Bruce. Um vento soprou assobiando em sua direção.

– Comandante... A senhorita não vai... – Começou um guerreiro com o rosto mais experiente.

– Cale a boca.

Bruce não estava entendendo o que estava acontecendo, mas sabia que tinha deixado Ágatha muito nervosa. E geralmente nada de bom acontece quando isso ocorre.

A espada direita de Ágatha começou a mudar de cor. Seu habitual prata adquiria um brilho azulado, que ia aumentando gradualmente.

– É a primeira luta dele... E se ele não defender? – Suplicou o guerreiro

– Ele já mostrou que sabe defender. É melhor defender esse também.

No instante que Bruce percebeu o que Ágatha estava prestes a fazer, ela o fez. Gritou:

–Uooooooh! – E cortou o ar de baixo para cima com sua espada.

O brilho azulado desapareceu da espada, e na mesma hora, uma onda vertical de energia azul ia velozmente na direção de Bruce, junto a uma gigantesca rajada de vento.

Bruce não teve tempo para mais nada a não ser se defender com a foice. A onda de energia projetada por Ágatha chocou-se com a lâmina negra da foice de Bruce. Por 2 ou 3 segundos, Bruce achou que fosse conseguir desvia-la com sucesso. Sua hipótese faliu quando seu corpo foi arremessado pela rajada com a foice e tudo por 7 metros, caindo de costas para fora da arena.

– Dois a um. Vitória do Comandante! – Um monte de vivas nasceu dos guerreiros que presenciavam a cena.

Bruce estava completamente zonzo. Não conseguia enxergar mais do que alguns vultos, e ainda estava todo estatelado no chão de terra batida do centro de treinamentos. Ágatha embainhou as Espadas Gêmeas e andou na direção de Bruce.

Assim que sua visão entrou em foco, Bruce viu, manchada pela luz do sol poente, Ágatha estendendo sua mão com um grande sorriso no rosto.

– Acho que peguei um pouco pesado com você! – Disse sorrindo.

– E eu tenho certeza! – Disse, também sorrindo.

– Você foi muito bem. Não é sempre que eu tomo um ponto.

– Eu não fazia ideia do que estava fazendo.

Ágatha ajudou Bruce a levantar-se do chão, enquanto os guerreiros o parabenizavam pela luta, apesar da derrota.

– Conversamos sobre isso depois, já devem ser umas seis horas. Preciso escoltar os guerreiros para o Quartel.

– Ah, tudo bem.

– Eu passo na sua estalagem hoje à noite, vamos jantar em algum lugar. Não se atrase, imbecil!

Com essas palavras, Ágatha escoltou o resto dos soldados que estavam na arena para dentro dos portões de Oakstride. Bruce agora estava sozinho na arena, parado, olhando para sua foice. O que aconteceu? Como foi que ele conseguiu lutar? Nunca tinha feito isso antes, e soube exatamente como se posicionar com sua foice numa batalha. Estranho. Achou ter visto de relance algo brilhar no cabo da sua foice no momento em que atingira a posição, mas isso deveria ser coisa da sua cabeça. Baita porrada que tomara com aquele golpe.

Dirigiu-se novamente para sua estalagem, quando o céu já estava escuro. As tochas foram acesas pelo resto da cidade, dando a ela um ar caloroso. Entrou no seu quarto, despejou suas roupas no chão, e foi para o banho. Sentiu-se revigorado, após um dia com tantos acontecimentos. Olhou para a sua capa, que agora vestia a cadeira, e percebeu que estava completamente limpa. Achou que isso deveria fazer parte de seu feitiço. Bruce reparou também no brasão de sua família que estava pendurado junto ao fecho da capa, o que o fez lembrar-se de uma coisa que vira mais cedo. Precisava perguntar à Ágatha quem era aquela garota.

Não tardou para Ágatha aparecer na estalagem, resmungando sobre ele estar atrasado como sempre fazia. Estava sem a armadura de prata, e vestia agora simples roupas de couro marrom. Passaram pela fonte e viraram a rua da esquerda, onde Bruce percebera que se concentrava o comércio da cidade.

– Nós vamos ao Urso Pardo de novo?

– Não! Aquele lugar é nojento! Fede a orc!

Bruce achou graça no modo em que Ágatha falou aquilo.

– Vamos a um lugar um pouco melhor. – Disse parando na frente de um restaurante chamado “Magia da Culinária”.

Entraram no restaurante. Realmente, era bem melhor que uma taverna. O local era muito mais limpo e arejado, e possuía muito mais espaço entre uma mesa e outra. Algumas famílias estavam espalhadas pelo local, jantando. Logo Bruce e Ágatha se sentaram, e fizeram o seu pedido.

– Por que aqui? – Perguntou Bruce.

– Era da minha família. Costumava vir aqui com os meus e com os meus pais e meu irmão antes de... – E ficou pensativa. Bruce tinha experiência suficiente nessa área para perceber que precisava mudar de assunto.

– Mas, me diga como você fez aquilo! Quero dizer... Aquilo foi magia?

– Não. Aquilo foi poder. Existe uma grande diferença entre magia, poder, e dom. A magia, como já te disse, existe em todos, em grandes ou pequenas quantidades. O poder está ligado a força física do indivíduo, e requer muito treinamento e trabalho duro para ser adquirido. Ninguém nasce com poder. Agora, o dom... – Aquietou-se novamente – É um meio termo. Não se classifica nem como magia, nem como poder. Alguns nascem com eles, outros adquirem ao longo da vida, e não possuem qualquer tipo de... Hm... Característica universal, como a magia. O que você viu hoje na arena foi uma simples expulsão de energia. Não estou querendo me gabar, mas não usei nem um décimo da potência que eu consigo alcançar.

– Outra coisa – Começou – Hoje na arena só estavam guerreiros com espadas, machados e esse tipo de coisa. Onde estão todos os magos e os arqueiros?

– Nas escolas de magia, e arquearia. – Respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Na verdade, era – A diretora da escola de magia de Oakstride é Jade Scarlet, a maga pessoal da corte. Quem comanda a escola de arquearia, e toma a frente dos arqueiros quando estamos em guerra é a Chelsea Barrich. Ela é uma elfa.

– Ah sim. E presumo que você seja... Hm... A líder, ou coisa assim, da Brigada de Guerra?

– Não. Como eu te disse, ainda não possuo a patente mais alta do exército. Quem a detém é o meu mestre. Quem me ensinou a lutar quando eu tinha 6 anos de idade. Scar Krovnir.

Conversaram mais sobre o mundo de Ágatha, monstros, guerras e etc, quando Bruce se lembrou de perguntar uma coisa. Perguntou a Ágatha sobre a garota com qual ele esbarrara hoje à tarde, antes do treinamento.

– Acho que já a vi algumas vezes, mas não a conheço. Se eu não me engano, ela é uma maga. Não sei o que o brasão da sua família estava fazendo lá, Bruce.

– O que você acha que o conselho decidirá amanhã cedo? Tem alguma hipótese?

– Sim. Acho que eles nos enviarão para uma missão para recolher esses Orbes.

– Por que os protetores não fazer isso eles mesmos? – Indignou-se.

– Por que não podem deixar seu povo, a não ser que seja algo realmente urgente. Não se deixe enganar, Bruce, Syren tem um grande coração. Ele já fez muito por mim, e sou eternamente grata a ele. Eu sei que o que ele mais ama nesse mundo é o seu próprio povo. Não hesitaria em lutar com todas as suas forças para proteger o que ama, mas a situação não é exatamente essa. Ele é realmente poderoso, afinal, é o Arqui-Mago.

– O que isso significa?

– Mago supremo. Ele é o mago mais poderoso de toda Krinsen.

Após o jantar, Bruce se despediu de Ágatha e voltou para sua estalagem. Antes de adormecer, ficou pensando no tanto de coisas que tinham acontecido esse dia, e sabia que o dia seguinte seria ainda mais aventuroso. No meio de tantos pensamentos, Bruce finalmente adormeceu.

Seu sonho começou com um colossal portão de bronze em chamas. Dez vezes maior que os portões de Oakstride. Havia algo entalhado nele, mas Bruce não conseguia identificar o que era devido ao fogo que o consumia. Ao seu redor, nada existia, a não ser a escuridão.

Continua...

Notas finais
No próximo capítulo a jornada tem início!