The Sieve

1 Endless Lullaby


Notas iniciais
܀ Primeira Oneshot e história publicada, espero agradar mesmo não sendo algo feliz.܀ História feita de noites de insônia que só após encerrada que eu tive uma longa noite de sono sem sonhos. Gosto de supor que os personagens do enredo estavam querendo contar um história para mim e alguém por aí.܀Boa leitura!

Era um baile.


Era um baile que o vazio havia organizado, enquanto o silêncio tocava, eu pegava à solidão para dançar, posso lhes garantir, ela estava muito bem vestida. Mesmo com o salão quase escuro, iluminado apenas por uma lareira já fraca como o meu débil corpo em mais uma noite de insônia. Seria a minha terceira noite em claro? Bom, deixemos isso de lado, eu não dever-me-ia ficar divagando enquanto dançava com uma dama.


Seus trajes eram nítidos mesmo com a baixa luz, naquelas paredes de branco em que a escuridão repousava entediada, eu podia ver os contornos da Solidão em sua vestimenta preta. — Ela era linda. — Sua pele era de um tom acinzentado, suas madeixas negras escorriam até suas coxas, pareciam eternamente molhados, ela me disse que: “Lágrimas de melancolia eram a sua melhor fórmula para deixá-los daquela forma”.


— Não nego-me, o resultado é tão magnífico quanto a resposta que darás. Inusitado, Senhorita Solidão. — Eu dizia, a mesma deslizava pelo chão ao girar, enquanto ela segurava uma de minhas mãos. Seu vestido era rodado, e tão sombrio quanto os seus cabelos, os mesmos abriam-se como o desabrochar de uma rosa com o movimento da dança. — Solitude. — Ela sussurrou, eu quase não a ouvi, mas sabia que dizia algo pelo teu hálito quente de hortelã perto de minha bochecha. — Me chame de Solitude, querida.


— Se é de teu desejar Senhor, digo-te... Solitude. — E ela abriu um sorriso com os lábios fechados trazendo consigo uma pequena risada interna. Os meus olhos dever-se-iam mostrar-se constrangidos; entretanto, as minhas bochechas vermelhas denunciavam-me com aquele tom; naquele lugar sem cores.

E continuamos a nossa dança.


Ela rodopiava, e eu apenas lhe guiava, logo, seguia com "1,2,3" em minha mente.
Silêncio tinha certo hábito, ora me chamava enquanto conversava, ora quando eu escutava música, ele berrava o meu nome em minha mente, com intuito de deixar meus ouvidos disponível para si. Só que eu não poderia ignorá-lo: a felicidade de Solitude foi tudo graças ao Vazio.


— Vazio, tua festa está incrível! —Eu encarei a lareira, o único lugar que eu sabia que ele não estaria, já que era ocupada pelas madeiras sendo torrada pelas chamas alaranjadas. Eu nunca via-o; entretanto, Solitude amava dizer-me o quanto ele era belo, ele sempre a chamava para onde ele fosse.


— Obrigado, e sugiro que beberique algo. Se não se manifestar, Solidão nunca lhe deixará partir. — Sua voz ecoou pelo salão monocromático, onipresente e estonteante. — Já que a chamará de Solitude, eu lhe peço, não chame pelo meu nome mortal.


E de alguma forma estranha, suas últimas palavras demonstravam algum constrangimento... O que era estranho, já que sua voz sempre mostrou inexpressiva.


— Do que deseja que eu te chame, Vazio? — Perguntei, enquanto silenciosamente beijava sua mão; todavia, Solitude me direcionava à uma extensa mesa mais ao fundo do salão que continha; comes e bebes.


— Quero que me chame de ‘Nothing’.


— Nothing? — Seriamente, isso era mais estranho que o pedido de Solidão.


— Sim, Nothing. —E foram suas últimas palavras.


— O que deseja beber, Nadya? — Solitude se encontrava jovial, já estava próxima das bebidas ao lado de Escuridão, essa como sempre. Estática.


Me aproximava sorridente, parecia que os meus lábios estavam contornados com lápis, sempre deixando-os com aspecto “contente” mas eu imagino que se tivesse cortado os cantos de minha boca, ter-me-ia mais confiança ao traspassá-lo.


— Café, nada melhor para combinar junto à companhia de vocês! —
Escuridão me serviu uma xícara dele, ela era diferente de Solidão; extremamente pálida, e seu vestido era tão branco quanto a sua pele, o que fazia-se parecer que nada se trajava. Ele era um longo vestido escorrido; por conseguinte, acompanhava-a em suas curvas, e, dessa forma, levando-a arrastá-lo pelo chão fazendo parecer que não houvesse fim.


Solidão uma vez sussurrou para irritá-la. Que ela se vestia de tal forma, apenas para “contradizer” os humanos, em relação aos aspectos que nós damos a sua imagem. Ela era linda, mas sempre a tememos. Só que para mim aquilo era justamente o que Escuridão era, apenas o que vemos, se é que tem algo a mais em nossas mentes.


Não tinha notado o quanto eu estava sendo rude quando aceitei a xícara, fiquei fitando-a descaradamente como sempre fazia. Ela era intrigante! Seus globos oculares eram totalmente negros, de maneira idêntica que os seus cabelos, que continham ondas de um preto infinito, eles me diziam serem mais magníficos do que aquele véu branco que carregava. Quando o seu olhar cruzou-se ao meu, encarei a xícara e dei uma rápida desculpa para a atual situação.


— Ah! Obrigada... e perdoe-me, eu me perdi na reflexão. Se você tiver também alguma preferência de como ser chamada Escuridão...


— Sombra. — Ela nada mais disse, seguindo muda para os fundos da mesa, e conseguentemente do salão, já que o mesmo mantinha-se longe da lareira.
Obviamente.


— Sombra? — Eu disse baixinho, questionando-me confusa o seu pedido e a dos demais.


—Sim, é o único jeito que eu posso lhe acompanhar, quando você não estiver comigo— Disse, quando encostou na parede.


“Nadya...Nadya!” Silêncio ficava a dizer enquanto eu conversava com outras garotas, com o tempo era fácil ignorá-lo, era só focar na minha voz, ou nos lábios de quem conversava comigo, surpreendentemente quando o assunto se encerava, por vezes, eu podia ouvi-lo os teus sussurros.


— Ainda escuto a tua música Silêncio, você sabe, que no fim, eu só terei ouvidos para ti.


— No fim? — Silêncio lembrava um Pierrot, sua voz era sempre um sussurro amedrontado, uma súplica infantil por atenção, já que poucos o notavam. E lá estava ele em um canto do salão, afastado como a escuridão, mas do outro lado. Eu já sabia que sua flauta prateada refletia à luz do fogo.


—Claro, agora e no fim, eu só ouvirei você, então, por favor, toque-o Silêncio. — Sorri em sua direção. Ele voltou a tocá-la, mesmo não emitindo nenhum som, todos os seus instrumentos eram quebrados, e que não saiam notas, no entanto, sua melodia era maravilhosa.


— E por favor, me chame de Lullaby. — Cantou para mim, seguiu-se logo para tocar outro instrumento, um Violino sem cordas.


Lullaby.— Senti o gosto daquela palavra em minha boca enquanto a repetia.


— Você o Mima de mais, Nadya! — Ecoou Vazio, e mais uma vez, havia sido uma rara exceção em que sua voz demostrasse expressão, e dessa vez, era autoritária. Aquela festa pelo jeito era realmente especial para Vazio, estar tomando alguma posição, logo ele que era sempre tão imparcial.


— Oras, Vaz...não, Nothing! — Fiz uma pausa, e é nos suspiros que corrijo. Silêncio já berrava manhoso em minha mente, enquanto Vazio o questionava:
— Sabes? O quanto ele é carinhoso comigo, e quando estou na companhia dos outros, eu quase não dou atenção a ele... — Silêncio dava-me a paz também, algo que Solidão não conseguia, mesmo sendo tão companheira. Eu fui até a lareira, fiquei de frente a mesma pondo mais lenha, e sempre fitando-a pata me referir ao Vazio.


— Isso por acaso é ciúmes? Sabe que todos só me visitam, depois de você ter feito a sua primeira passada neste Salão. — As chamas aumentaram, eu preocupei-me com Escuridão, virando-me para vê-la, entretanto ela sorria.


Até que finalmente notei.


As chamas seguiram-se conforme eu as vias, cuja uma enorme sombra cobriu ambas nos unindo. Ela nunca mais me deixaria, e quando mais eu me aproximava da luz, mais dela surgia.


— Não seja prepotente! — Sua voz foi mais forte, Eu pus-me a rir alargando o sorriso.


— Não estou sendo, só digo o quanto você é importante, sendo o primeiro a vir, e o último a sair. — Abafei minha risada, Silêncio gritava como nunca. E assim, Vazio se calou, não me questionou.
Havia acabado a lenha.


— Logo está chegando a hora, posso ir retocar a minha maquiagem pela última vez? — Me virei para o centro do Salão e sorri, todos fecharam suas caras, e até mesmo Silêncio não discutiu em minha mente em minhas últimas falas. Eles sabiam o pesar de cada palavra, e a mentira estampada naquele instante.


— Vá! — Disseram em unânime.


Pequei o lampião que tinha ao lado da lareira abrindo a porta logo em seguida, o mesmo me levaria a um corredor, e como eu disse, lá estavam eles! Olhei para o extenso chão, “Vazio”, parei de andar e notei a minha situação. “Solidão”, parei de respirar, “Silêncio”, e, mesmo com à luz iluminado podia ver a “Escuridão”.


— Vocês são teimosos! — Suspirei em total desaponto, e segui para o banheiro.
O lugar era enorme e branco, quando fechei a porta, pude notar novamente a situação de antes: Havia o Vazio; Solidão; Silêncio e a Escuridão.


O lampião foi posto ao lado da torneira, e eu me permitir, segundo após, notar como era perturbador, acabei me encarando no espelho em minha frente. Havia notado o meu cabelo ondulado que caia até os meus ombros, de pontas rebeldes, sua tintura ruiva já se encontrava desbotada, mostrando sua raiz castanha escuro. A única coisa que havia de belo era uma pequena trança do lado esquerdo, presa com uma fita vinho.


De novo.
Vazio.
Solidão.
Silêncio
Escuridão.
E com alívios dos quatros estarem ali, realmente, era melhor do que ficar me olhando no espelho. Só que isso foi rápido, e mais uma vez, eu me olhei no reflexo, essa seria a última vez, então, com coragem eu voltei a me fitar.


O vestido era de linho, seu tom era como vermelho queimado, tinha cheiro de mofado, guardado há muito tempo, ainda mais pelas manchas escuras que ele continha. Sua manga vinha até os meus pulsos, escondendo toda a minha fisionomia deformada, me “aliviando” do desprazer de contar minhas cicatrizes. Tinha uma gola Peter Pan, com uma fita abaixo do busto, formando um lindo laço atrás. Meus pequenos pés calçavam sapatilhas pretas confortáveis; um conjunto lindo deito pela Solidão, era só isso que havia de lindo no espelho.


Olheiras...olheiras enormes competiam com a cor escura dos meus olhos, esses que estavam com as veias inchadas e avermelhadas, tentei disfarçar, realçando com o meu rímel. Inutilmente, eu diria. Ajustei o vestido, penteie minha franja para o lado, desembaracei meu cabelo com os dedos.


Retoquei o batom.
Finalmente me livrei dessa imagem medonha que via no espelho.
Finalmente... o corredor
Finalmente...o Vazio. Solidão. Silêncio. Escuridão.


Entrei novamente no grande Salão e lá estavam meus grandes companheiros. Nothing, Solitude, Lullaby e Sombra.


— Vamos? — E mesmo com o meu sorriso eu sentia o clima pesado. Todos olhavam o chão, e eu quase desfazia meu sorriso, até que, uma nobre brisa apareceu apagando a lareira.


— É uma comédia trágica, e você está tão bonita logo no final da festa. — Era Vazio, ele pareceu para mim, e como eu já suspeitava, ele era magnifico como a Escuridão, sua pele era escura, e suas madeixas eram brancas, parecia um rapaz um pouco mais velho do que eu. E era frio. Notei, quando ele botava minha trança atrás de minha orelha. — Vamos? — Disse cordialmente estendendo-me sua mão, a voz ainda ecoava pelo salão.
E a peguei sem hesitar, mesmo sendo gelada.


“Sempre começa assim, você sente um enorme Vazio em si.”


— Venha comigo! — E Solidão, quase em lágrimas, me abraçou. Ela se abaixou me levando junto consigo como uma criança que bronca com sua boneca, me fez deitar a cabeça em seu colo. Era um lugar macio e quente, enquanto o chão começava a gelar minhas roupas.


“E nota que a Solidão é a única a lhe fazer a real companhia.”


— Eu vou tocar para você, então relaxe. — Veio assim, o Silêncio ao meu lado, em suas roupas monocromáticas de palhaço, nada combinando com a sua expressão tristonha. Era errado uma criança fofa como ele ter aquela carinha. Sorria! Eu queria dizer. Só que não quis estragar aquela melodia com a minha voz.


“E o Silêncio se torna a melhor música para acalmar seus monstros internos.”


Escuridão apenas assoprou o lampião, não havia mais sombras, no entanto, ele era mais onipresente do que o Vazio, e com suas pálidas mãos ela fechou os meus olhos, repousando ali, enquanto eu ficava deitada.


“Até que a Escuridão não lhe desse mais medo, ela é plena, protegendo-a com o seu véu.”


Segundo depois, tudo virou um “Nada”, todos me abrasavam tornando único. A Morte não era uma entidade, era uma brincadeira de ciranda, e como eu disse ao Vazio. Ele que começava e encerrava aquele círculo. Primeiro me fazendo senti-lo, e depois, tornando parte de mim. Já que, o meu sangue escorria pelos pulsos, pingando naquele salão, enquanto Vazio entrava em minhas veias.

Eu disse que o maior tom daquela festa seria aquilo, afinal, o que faria meu rosto corar se não o meu sangue?


Alguns podem dizer que a “Morte”, e o “Nada” não é uma ciranda dos quatro. Só que está ai! Eles visitam todos antes de brincarem, mas poucos tem uma festa e o carinho de todos.


Suicidas convivem muito com eles antes de convidá-los para essa bela festa.


Suicídio.

Notas finais
܀ Obrigada por quem acompanhou até aqui e deixou sua humilde opinião, espero que tenha gostado da leitura o quanto eu gostei de escrever essa história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!