The Sharpest Lives
1 Capítulo único
Notas iniciais
Era como se do inferno restasse apenas gelo. O suor lhe escorria pelas têmporas conforme as palavras rápidas, belas, deixavam sua boca empalidecida pela maquiagem e pelo esforço. Naquele instante que poderia durar para sempre, mostrou-se vivo como nunca. O amplo estádio, envolvido pela penumbra e pelo silencio diante tal demonstração de perfeição, parecia definhar diante tamanha paixão. Aos poucos, meus movimentos mostraram-se comprometidos ao sucumbir diante tamanho encanto. Eram raras às vezes em que se permitia envolver tão completamente a sua arte.
Silencio. Fitou-me com os olhos verdes marejados, esperando por alguma reação. Que podia eu fazer diante tal assombro? A maquiagem pálida agora lhe escorria pelas faces finas e delicadas, com sua pele tão alva quanto a tinta que a cobre. Nunca entendi a necessidade de tornar-se ainda mais branco. Sua pele extremamente pálida daria conta da proposta. Mas ele não me dava ouvidos. Nunca me daria ouvidos quando o assunto em questão fosse sua arte.
Os olhos de Mikey me fitaram longamente também, esperando. Retribui o olhar com a mesma intensidade, recebendo em troca um sorriso. Depois Ray, que assentiu levemente diante meu olhar confuso e perplexo. Todos os olhares se dirigiram a bateria desocupada, resultado em um suspiro coletivo. Rapidamente desliguei o microfone, levando todos os outros a imitarem meu gesto. Aproximamo-nos quase involuntariamente, o receio refletido nos nossos olhos cansados e gastos pelas lágrimas. Estávamos fartos disso. Não queríamos mais chorar.
- Já faz oito anos – suspirei, fitando a platéia, o equipamento, o espaço ao nosso redor.
- O que pretendemos com isso? – Mikey murmurou conforme afastava as próprias lágrimas com os dedos finos e compridos – quer dizer...
- Devíamos ter desistido enquanto era tempo – murmurei conforme o fluxo de lágrimas se intensificava – não somos mais os mesmos.
Um estalo me atingiu, seguido pela familiar sensação de calor e o latejar no lugar onde a mão de Gerard havia me acertado. Fitei seu semblante sério, impassível a comoção do restante da banda e do publico.
- Se vocês pensam em desistir agora – sibilou, apontando o publico – vocês não são as pessoas com quem tenho compartilhado meus sonhos nos últimos oito anos.
- Gerard – Ray suspirou – talvez Frank tenha razão. Talvez tenhamos... perdido o encanto. Ou nos perdido depois de tanto tempo.
- Perdido o encanto? – ele riu, irônico – não, não o perdemos. Passamos por coisas demais juntos para que o encanto se perca em um piscar de olhos.
- A característica mais importante de um artista é saber quando parar. – Michael ponderou, fitando o irmão – a nossa hora de parar já passou há tempo demais. Não somos mais os mesmos.
- Até você, Michael? – Gerard gemeu, uma expressão de dor tomando-lhe as faces – sobrevivemos a morte de Elena. Sobrevivemos ao ataque da mídia e ao suicídio de fãs que entenderam erroneamente nossas mensagens. Por que não a isso?
- Mais do que a morte, mais do que a mídia – suspirei – temo não sermos capazes a resistir a nós mesmos.
- Vocês estão loucos – gritou, tencionando as mãos em punhos – não se lembram por que nos propusemos a isso, em primeiro lugar? Vocês se lembram pelo que trocamos nossas almas e corações por?
- Gerard – aproximei-me, tocando-lhe o rosto e sentindo sua expressão desabar em minhas mãos – acabou.
- Não acabou. Ainda não – apontou o publico – não enquanto uma pessoa se quer esteja ali, em pé. Não enquanto pessoas se propuserem a ouvir o que temos a dizer. Não enquanto escrever musica ainda salvar nossas vidas, e mais, a vida de quem as escuta.
- Mas com os ataques da mídia – Ray ofegou, ligeiramente tocado pelas palavras do outro.
- Foda-se a mídia! – Gerard voltou a gritar, tirando minhas mãos de seu rosto e segurando o meu com suas próprias – Frank. Você não se lembra do que a banda fez por você? O que fez por nós?
- Lembro – ofeguei entre soluços, desabando diante do seu toque – mas é tudo tão difícil, Gerard. Continuar parece mais doloroso que desistir.
Tocou-me com os lábios de forma leve, mas decisiva. Não daria o braço a torcer enquanto ainda ouvisse uma alma se quer disposta a nos dar ouvidos. Talvez seja este seu real objetivo. Além da fama, da fortuna... Desejávamos sermos ouvidos. Fazer barulho. A questão é: por que continuar mesmo após ter o sonho realizado? Mudamos milhares de vidas, então por que não continuar a fazê-lo com nosso ultimo sopro? Se o sonho já foi realizado... Por que não criar outro sonho?
- Vamos seguir em frente – murmurei, abraçando-o.
- Mesmo que isso signifique morrer tentando – Michael completou com um meio sorriso.
- Afinal – Ray ponderou – é o que andamos fazendo dês do inicio.
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