Notas iniciais

Está é uma one-shot onde o Aurélio ainda não sabe que Julieta foi violentada, apenas Elisabeta. Susana foi expulsa da mansão após Olégario ter revelado seus segredos e ela esta disposta a dar um último golpe em Julieta.

Por que todos estavam ali?

A resposta para aquela pergunta estava nos acontecimentos daquele mesmo dia.

Pela manhã todos haviam recebido convites anônimos, Julieta estava na mansão, começava o café da manhã com Aurélio quando Tião entrou na sala de jantar e entregou-lhe o envelope, sem remetente, apenas disse que um jovem havia entregado e partido antes que ele tivesse a chance de perguntar quem o enviou. Dentro havia um convite, escrito delicadamente a mão, citava não somente ela mas também Aurélio. Convidava ambos para uma festa, com data, hora e o local que aconteceria.

O mesmo bilhete foi entregue no cortiço, diretamente nas mãos de Camilo. Entretanto o convite não era apenas para ele, quem quer que tenha enviado aquele convite estava citando o nome de Jane, Ema, Elisabeta, Darcy e até mesmo Charlotte. Camilo poderia ignorar aquele convite mas sabia que após os recentes acontecimentos ele e Jane precisavam espairecer um pouco e talvez aquela fosse uma perfeita oportunidade.

Era sete da noite, como dizia o convite. Camilo chegou acompanhado de todos aqueles cujos nomes estavam sendo escritos no convite. Estranhamente, o salão estava praticamente vazio, sendo preenchido apenas por eles e alguns empregados. Quem quer que tenha escrito aquele convite fez questão de ressaltar partes como: "Grande festa" e "Espetáculo que marcará suas vidas para sempre". Mas parado no meio do salão quase vazio não parecia ser apenas alguém com grande ego.

As sete e cinco os portões do salão foram abertos novamente e ele pode jurar que seria mais convidados e que provavelmente tinha chegado um pouco adiantado. Mas era apenas mais duas pessoas e que ele conhecia muito bem, sua mãe e o pai de Ema. Ela caminhava ao lado dele, parecendo também não entender porque tinha somente rostos conhecidos. E Camilo questionou-se por alguns segundos se tudo aquilo teria sido apenas algum tipo de armação dela.

Haviam cadeiras dispostas pelo salão. O número de convidados eram os mesmos números de cadeiras. Havia também comida em abundância para que todos pudessem servirem-se e afastado do centro do salão um pequeno palco improvisado, onde certamente aconteceria algum tipo de apresentação. Uma pergunta surgiu na cabeça de Aurélio: "Quem era o anfitrião daquela festa e onde ele estava?" Julieta estava ao seu lado, olhava para o jovem Camilo e desviava o olhar. Sempre que alguém ia cumprimenta-la ela mostrava um sorriso, mas ele conseguia reconhecer quando era um sorriso entristecido. Ele sentia-se mal por vê-la daquela forma, pensou que poderia tentar falar com Camilo, mas uma semana atrás quando propôs fazer isso Julieta implorou para que ele não o fizesse.

Um homem pequeno surgiu no centro do palco, pedindo para que todos se sentassem. Quatro cadeiras enfileiradas uma ao lado da outra foram postas próximas ao palco, o nome dos presentes estavam escritos nelas, entretanto Camilo negou-se a sentar na fileira da frente onde sentaria sua mãe e pôs a cadeira logo atrás, onde estavam os demais. O homem conferiu se estavam todos ali e retirou-se novamente para trás das cortinas vermelhas.

— O que você acha que está acontecendo, papai? — Perguntou Ema, sentada ao lado esquerdo do pai.

— Eu não sei, talvez algum tipo de brincadeira, porque até agora ninguém sequer nos falou nada.

— Alguém teria tanto trabalho apenas por uma simples brincadeira? — Julieta, sentada ao seu lado direito, questionou parecendo duvidar que fosse apenas isso.

— Teremos que esperar, mas se nada acontecer vamos para casa — Aurélio disse e cruzou os braços semelhante a Ema, a semelhança entre pai e filha fez Julieta mostrar o primeiro sorriso sincero da noite.

Os olhos atentos dela fitaram a fileira logo atrás, onde Camilo estava sentado ao lado de Ema e pareciam distraídos em uma empolgante conversa. Ele negou-se a sentar-se do seu lado e novamente a desprezou na frente de todos. Darcy pareceu notar sua frustração e mostrou-lhe um pequeno sorriso reconfortante.

— Não se preocupe Julieta, isso é apenas uma fase, sabe como são as crianças — Aurélio tentou novamente reconforta-la.

Ela responderia mas sua atenção foi roubada quando as luzes tornaram-se um pouco mais fracas, dando ao salão um ambiente agradável. As luzes do palco acenderam-se e tiveram certeza de que finalmente a apresentação começaria. As cortinas vermelhas abriram-se e de todas as pessoas que poderiam ser anfitriãs daquela festa a menos provável surgiu diante dos olhos de todos. Susana!

Vestida com trajes de gala, um sorriso que ia de orelha a orelha e algo nas mãos, um caderno ou um livro talvez. Havia algo no olhar dela, uma felicidade assustadora, uma satisfação que exalava em cada respiração tranquila.

— Susana? — Sussurrou Aurélio e Julieta ouviu que todos tiveram a mesma reação que ele.

— Olá meus queridos — Saudou de forma quase amigável, mas Julieta conhecia Susana e sabia que havia algo ali que não estava certo.

— O que significa isso, Susana? — Elisabeta perguntou brandamente antes que Julieta pudesse.

— Minha cara Elisabeta, sente-se e acalme-se, você irá gostar do show de hoje.

Jane, com sua voz suave, pediu para que Elisabeta se sentasse e a mais velha das Benedito aceitou a contra gosto.

— Apesar de eu adorar você querida Elisabeta, o show de agora não tem você como protagonista. Temos outra, muito melhor eu afirmo, Julieta Bittencourt, a Rainha do Café.

Por alguns segundos um holofote iluminou a mulher de preto e logo depois apagou-se e todas as atenções voltaram para Susana. A ex assistente de Julieta puxou delicadamente uma cadeira e colocou-a no meio do palco, sentando-se logo em seguida de forma relaxada.

— O que você pretende com isso, Susana? — Perguntou Julieta impaciente.

— Acalme-se Julieta, acabaram de chegar, além do mais aproveite a sua única chance de dividir o mesmo ambiente com seu filhinho renegado. Apenas se acalme-se, querida.

Julieta sentiu algo ruim percorrer sua espinha e apenas o calor das mãos de Aurélio acariciando as suas puderam acalmá-la.

— Vamos embora se você quiser. — Ele sussurrou.

— O que você quer agora? Já não fez demais, Susana?

— Não, minha querida amiga, eu estou apenas começando. Como vocês devem saber eu tenho uma espécie de escrava-assistente, Petulia. Acreditam que mesmo manca ela consegue escalar e entrar em lugares inimagináveis sem ser notada? Bem, eu precisei da ajuda dela para entrar na Mansão Bittencourt, e peço desculpa Julieta, mas se eu pedisse pessoalmente você não deixaria. — Falou com cinismo e fez uma pausa. — Sabe, eu sempre fui curiosa, desde menina, e algumas vezes enquanto trabalhava na mansão, antes de você me escorraçar, eu te via escrevendo em um caderno e você nunca me deixou ver ou tocá-lo, mas eu sei que ele vivia dentro da gaveta da sua penteadeira que somente você tem a chave, mas Petulia é muito eficiente com isso também.

Julieta estremeceu dos pés à cabeça. Existia somente um caderno que ela guardava com tanta propriedade e de todos que ela tinha aquele era o que não deveria estar em posse de Susana ou de qualquer outra pessoa.

— Eu sempre fui apaixonada por bons mistérios também, então folheei algumas páginas e tenho que afirmar, que passado sujo minha querida amiga tem.

Aurélio tentou levantar-se para tomar uma iniciativa mas foi impedido pelas mãos de Julieta que seguraram firmemente seu braço, ela precisava ser amparada, ela precisava dele ou começaria a desesperar-se antes mesmo que Susana começasse a ler uma daquelas páginas.

Ele não entendia bem o que a ex assistente de sua amada estava falando, todos tinham segredos, mas com certeza não podiam ser tão terríveis. Entretanto ele viu que podia estar enganando quando o semblante de Julieta mudou drasticamente e ela tornou-se pálida, aterrorizada.

— Mas não perderei meu tempo e não quero desperdiçar o de vocês, então vamos para as páginas que mais chamaram minha atenção. Vejamos está: "Hoje revelei a Elisabeta o meu segredo mais doloroso e tenho que admitir que foi como tirar um grande peso dos meus ombros e agora talvez eu consiga respirar e quem sabe viver com mais leveza". Essas palavras fizeram com que eu me perguntasse, o que você revelou a Elisabeta? Mas isso fica para o grande final, não se desesperem, é em breve.

Julieta sentiu a mão de Aurélio afastar-se um pouco das suas e todos pareciam tão atentos a tudo.

— Este é particularmente patético: "Tentei entregar-me novamente a Aurélio e mais uma vez fui incapaz, temo que um dia ele canse de mim e simplesmente me abandone, como todos estão fazendo". Tentou entregar-se ao Aurélio? Não me diga que a Rainha do Café pensou que iria para cama com o filho do Barão falido, que linda história de amor.

Julieta corou por cima das lágrimas. Todos os olhares que recaiam sobre ela pareciam bigornas sobre seus ombros. Ela cerrou os punhos e buscou o contato de Aurélio, não o tinha mais.

— "Eu destruí o túmulo daquele miserável, cumpri o que sempre prometi, talvez realmente devesse jogar os ossos dele aos porcos, mas tenho pena dos pobres animais", Julieta Bittencourt destruiu o túmulo do falecido marido, seu pai Camilo, e pretendia jogar aos porcos os ossos do falecido.

— Como você se atreveu? — Ela ouviu o filho murmurar algo. E as lágrimas que ameaçavam cair lhe arrebataram quando Camilo passou do sussurro ao grito — Quem lhe deu autorização para fazer isso? Quem? Não é porque você está de romance com Aurélio que pode destruir o túmulo dele! Ele é meu pai! — Os gritos fizeram Julieta sentir como se algo tivesse quebrado dentro de si.

— Acalme-se Camilo, ainda tenho um pouco para contar.

— Eu não quero ouvir mais nada, para mim já foi suficiente, esse show ridículo acaba agora.— Gritou ameaçando levantar-se.

— Há algo muito melhor sobre seu honrado pai. Como vejo estão todos muito excitados esperando para o final. Sente-se e ouça ou irá arrepender-se pelo resto de sua vida, sua mãe nunca lhe deu a verdade, mas eu estou aqui para isso.

O coração de Julieta pareceu parar por alguns segundos quando Susana voltou a folhear o caderno.

— "Eu estou manchada, marcada, suja e é assim que sinto-me todos os dias. Osório me marcou, porque ele não podia perder a posse. Eu desejo mas não consigo descrever meu terror ao lembrar deste homem desprezível, imundo, sádico. Por causa dele, por causa de seus atos desprezíveis não consigo entregar-me a Aurélio, por causa dele eu não consigo ser tocada pelo homem que amo. Ele destruiu-me e todas as vezes que olho para Camilo me recordo daquele dia, o dia em que ele foi concebido, durante uma violência que me deixou marcada até hoje. Ele não merece uma mãe como eu, cruel. Assim como Aurélio não merece uma mulher como eu, que mal consegue superar um trauma mesmo depois de vinte anos." Julieta Bittencourt, rainha do Café, mulher imponente e aparentemente cruel foi estuprada pelo falecido marido e daí nasceu nosso querido Camilo, seu marido, Jane.

Seu mundo caiu por terra e as vozes a sua volta pareciam ter alterando-se consideravelmente, ou era ela quem estava desfalecendo? Aurélio olhou para ela, havia tantas coisas no olhar dele, raiva, descrença e tantos outros que ela não conseguia identificar. Olhou para trás e viu que Camilo a encarava com uma expressão apavorada sendo contido por Jane e Darcy. Elisabeta tentou ir até ela mas ficou em dúvida entre apoiar o marido da irmã ou apoiá-la.

Ema falou alguma coisa em seu ouvido, tentava trazê-la de volta a razão mas era inútil, Julieta estava perdida dentro de si mesma. Susana, a desgraçada estava sentada como se nada tivesse acontecido, com um sorriso no rosto, deleitando-se com o desespero de todos a sua volta.

— Julieta, diga alguma coisa — Implorou Aurélio, tocando-a, tentando fazê-la racionar mais era tudo muito confuso, muito doloroso, muito rápido.

Ela levantou-se, como se sua alma tivesse abandonado seu corpo e houvesse somente uma casca vazia. Caminhou até Susana, que a saudou com um largo sorriso.

— Se passaram vinte anos querida, supere. Fiz um grande favor.

Julieta estava cega pelo ódio e pelas lágrimas que embaçam sua visão. Quando deu por si estava com a mão erguida e logo em seguida no rosto de Susana, jogando-a ao chão junto com a cadeira. Susana tentou erguer-se para atacá-la mas outro tapa mais forte fez com que ela continuasse no chão.

— Você foi demitida e ainda não superou, querida? Vá para o inferno, Genésia — Cuspiu no rosto da mulher, sentindo todo o nojo e desprezo vindo à tona.

Susana levantou-se com um pouco de dificuldade e tentou acertar Julieta, mas foi inútil, alguém puxou a mulher de preto para trás mais rapidamente. Aurélio envolvia Julieta em seus braços impedindo que ela levasse um tapa ou batesse mais.

— Julieta acalme-se, não vale a pena, querida,

— É lindo ver o casal junto, mas eu me pergunto também Julieta, quando tempo você acha que Aurélio ficará com você sem poder tocá-la? Sem poder acarinhá-la, já que você chora como uma menininha estuprada. A vítima que nunca deixará de ser. Conte-nos, como é ter a virgindade tirada de forma tão brutal, e ainda mais, como é engravidar de seu estuprador?

Julieta conseguiu desferir uma cotovelada nas costelas de Aurélio e soltou-se. Desferiu outro tapa no rosto de Susana. Havia sido completamente cega pelo ódio que a consumia, seus cabelos desfizeram-se do penteado imponente e ela se viu, novamente, dentro da pele de Julieta Sampaio.

— Julieta, já chega — Aurélio disse firme a segurando pelos braços.

Ele esperava uma reação exasperada dela, algo mais odioso ou outra cotovelada, mas ela apenas padeceu em seus braços, agarrando sua camisa e chorando compulsivamente. Darcy segurou Susana com força e esforçou-se até conseguir arrancá-la do salão. Camilo tentou aproximar-se da mãe, que em cima do palco chorava sentada agarrada ao pai de Ema, mas Jane segurou seu braço para impedi-lo.

— Deixe que ela se acalme, Camilo.

— Consegui livrar-me de Genésia — Disse Darcy regressando ao salão — Aurélio, precisamos tirá-la daqui — Tinha um tom quase paternal em sua voz.

— Julieta, nós precisamos ir. — Sussurrou mas foi inútil. Ele parecia ser a única pessoa que ela ouvia, mas ainda assim ela negou-se a se mover — Vamos, querida — Ele tentou colocá-la de pé, mas as revelações foram demais para ela, tudo foi demais, as dores e olhares, traumas do passado vindo à tona como dolorosos flashbacks faziam ela perder a força.

Aurélio sabia que ao mesmo tempo que não conseguiria tirá-la dali, precisava o fazer. Ela estava desabando pela primeira na frente de todos e isso os estava assustando, ela não importava-se mais com os olhares mas provavelmente iria arrepender-se quando finalmente voltasse a pensar com clareza. Ele olhou para o lado e viu que Camilo tinha os olhos cheios de lágrimas e Jane lhe confortava, Ema olhava a situação horrorizada e Elisabeta ainda desacreditada com a capacidade de Susana. Charlotte estava ao lado de Darcy e sussurrava algo para o irmão mais velho.

— Venha.

Ele levantou-se com ela em seus braços, ignorando os olhares. Julieta tentou soltar-se, voltar ao chão e ficar ali para sempre, mas Aurélio sussurrou-lhe para que ela se acalmasse que eles iriam para casa e ela apenas desistiu de lutar, contra ele, contra as lembranças e contra as lágrimas. Ela apenas segurou Aurélio para mais perto, segurando sua camisa. Seus cabelos cobriam seu rosto e isso impedia que ela visse todos os olhares penosos que recebia.

— Camilo, vá em meu carro, irei dirigir o de Julieta. Leve todos para a mansão. — Sussurrou Darcy antes que pudesse sair para acompanhar Aurélio.

Darcy apressou-se e abriu a porta do carro para que Aurélio e Julieta entrassem, ela pareceu pregar-se mais no botânico e gemeu em meio às lágrimas quando ele tentou afastá-la para poderem entrar. Ele percebeu naquele momento que teria que levá-la no colo durante todo o caminho.

Ele entrou com elas nos braços e Darcy também entrou, dando rapidamente partida. Enquanto dirigia ele olhava para trás, Julieta estava ainda no colo de Aurélio, que acariciava os cabelos dela.

— Vamos para casa, meu amor.

Ele tinha ouvido certo? Aurélio chamou Julieta de "meu amor"? Não era grande surpresa para ninguém que eles tinham uma conexão, mas isso ia além do que ele esperava.

Uma hora ela parou de chorar, parou de aperta-lo, parou de soluçar, ela apenas dormiu. Aurélio agradeceu mentalmente por isso. Ele não conseguia falar, podia sentir a dor dela. Julieta não estava preparada para aquela revelação e não estava preparada para que um segredo tão doloroso fosse exposto de maneira tão baixa como Susana fez.

Mas não era somente de Susana que ele sentia nojo naquele momento, sentia o estômago embrulhar quando lembrava-se de Osório Bittencourt.

Ele respirou aliviado quando chegaram a mansão de Julieta. O carro que Camilo dirigia parou logo em seguida e o filho dela saiu apressado, deixando as outras mulheres para trás. Julieta estava ainda desacordada nos braços de Aurélio e isso assustou ainda mais o Príncipe do Café.

— Ela desmaiou? — Perguntou nervoso.

— Não, não se preocupe, ela acabou adormecendo.

— Graças a Deus — Disse Jane aliviada.

Com ela nos braços e seguido pelos demais Aurélio levou Julieta para dentro da casa.

— Deixem que Aurélio a coloque no quarto, iremos esperar aqui — Interveio Darcy quando percebeu que todos subiram as escadas atrás do pai de Ema.

Aurélio sozinho a levou até o quarto. Tentou fazer o mínimo de barulho ao abrir a porta. Colocou-a delicadamente sobre a cama, ela dormia passivamente, sem a expressão de dor que tinha horas atrás. Ele removeu as botas dela, tocou seus cabelos e beijou sua testa com delicadeza.

— Você vai ficar bem, amor.

///

Três horas passaram-se e ninguém se atreveu a deixar a casa, estavam dispostos, se fosse necessário, a dormir ali. Todos pareciam muito preocupados mas nenhum diria nada sobre o que aconteceu, principalmente na presença de Camilo e Aurélio, os dois homens que mais pareciam transtornados na sala. Ema tentava tranquilizar o pai, Camilo estava sendo reconfortado por Jane. Uma hora atrás houve uma pequena discussão entre ele e Elisabeta, o filho de Julieta a acusou de saber sobre o segredo de sua mãe e nunca ter dito, mesmo quando isso o afetava profundamente. Foi necessário Aurélio e Darcy juntamente com Charlotte tentar tranquilizar os dois.

Darcy ofereceu-se para ir ver como ela estava e só regressou quase vinte minutos depois com uma expressão indecifrável.

— Ela acordou — informou e todos os rostos ganharam a mesma expressão de alívio — Mas trancou-se no quarto e nega-se a falar comigo ou com qualquer um de nós.

— Céus, eu irei falar com ela — Ofereceu-se Camilo.

— Eu não acho bom, Camilo — Jane alertou novamente — Sua mãe não vai querer vê-lo agora, querido.

— Mas eu preciso saber se o que Susana disse é real.

— O que você acha? — Perguntou ironicamente Ema, que ao lado do pai tentava tranquilizá-lo. — Acha mesmo que Julieta reagiria assim se fosse mentira? Camilo eu também acho que você precisa dar espaço a sua mãe, você a deixou de lado e não pode pressioná-la agora, escancarar mais uma ferida que já foi aberta demais para uma noite só.

— Ema, eu quero entender. Ela precisa me contar a verdade.

— Camilo, sente-se imediatamente. Se você irá lá apenas para pressionar sua mãe, forçá-la a falar e depois dar as costas é melhor que fique sentado.

— Eu sei com quem ela poderá conversar. — Darcy colocou-se entre os dois — Aurélio. Eu vi como ela não desapegou de você e tenho certeza de que não tivesse dormindo ela iria preferir estar nos seus braços. Há uma chave extra para cada quarto na cozinha, mas somente um de nós poderá entrar.

— Eu irei. Traga-me esta chave, Darcy.

O inglês assentiu e apressou-se para chegar a cozinha. Buscou a chave do quarto de Julieta dentro de uma pequena caixa de madeira, e no meio de tantas reconheceu a que abriria o quarto da Rainha do Café.

Regressou à sala e entregou a chave a Aurélio.

— Eu tentarei falar com ela, não garanto nada, sabem como é Julieta. Mas eu irei me esforçar.

Retirou-se. Enquanto subia as escadas formulava as palavras que diria quando estivesse diante dela. O que diria? O que faria? Ele não saberia como agir diante dela! Deus, quantas vezes ela foi machucada durante aquele casamento?

Julieta estava trancada, encolhida na cama. Todos estavam esperando por ela, por uma palavra, o que eles queriam que ela dissesse? Aurélio, ele certamente a repudiava naquele momento. Uma mulher estuprada, que teve a virgindade brutalmente arrancada, que não conseguia ser o que ele precisava.

Ela ouviu quando a porta foi aberta e a madeira rangeu alto. Esperou que fosse Darcy, com seu jeito inglês insistente, ou talvez Elisabeta, que já conhecia seu segredo. Mas no final das contas era Aurélio, com seus olhos azuis apaziguadores que naquele momento ela sequer conseguia encarar.

— Eu disse que não queria ser incomodada.

— E certa vez eu disse que você não estava sozinha, então aqui estou eu.

— Caridade? Pena?

— Amor. — Sentou-se na cama, pondo entre eles uma curta distância — Para mim está muito claro o que aconteceu e que Susana disse a verdade, mas eu não entendo, por que casou com ele? Por que?

— Não quero falar sobre isso agora.

— Julieta, eu não quero pressioná-la, mas eu preciso entendê-la para poder ajuda-la.

— Eu não quero ajuda, eu quero ficar sozinha,

— Mas não vai. Diga-me porque permitiram que casasse com esse monstro. Diga-me a sua dor e eu estarei aqui para compreender a ajudar a curá-la.

— Eu não quero dizer nada. — Ela estava perto de seu ponto de ruptura. As lágrimas voltavam a escorrer por seu rosto.

— Julieta, eu quero ajudá-la.

— Então me diga — Rompeu-se e sua voz alterou-se, não fala mais, apenas gritava tudo que estava preso em sua garganta. — O que você quer que eu diga? Você quer que eu diga que fui uma garota estúpida ao aparecer na casa de Osório Bittencourt a noite para desfazer um enlace no qual meus pais me colocaram? Sim, fui e me arrependo até hoje! Ou quer saber antes disso? Quando fui vendida a ele para saldar as dívidas de minha família, isso mesmo, uma garota de quinze anos casando-se com um homem que tinha idade para ser seu pai. Quer que eu diga que quando propus que romperemos, porque era muito injusto tudo aquilo, ele me atirou no chão e subiu em cima de mim e fez barbaridades que não sou capaz de pronunciar? Você quer que fale que quando minha gravidez foi descoberta Osorio disse que eu o seduzi e fui forçada a casar-me com ele? Quer eu diga que meu pai chamou-se de prostituta e naquele dia eu fui escorraçada de casa e mandada para viver com Osorio? Sim, fui, meus pais tiveram coragem de fazer isso. Ou deseja saber quantas vezes fui estuprada mesmo grávida, sinto muito, querido, foram tantas que nem conseguia contar. Quer saber que quando Camilo nasceu ele me prendeu em um quarto e me tornou sua escrava sexual particular? Foram dois meses infernais dentro de um quarto, sendo objeto sexual de um homem asqueroso. Quer saber quantas vezes eu gritei implorando para que ele parasse até perder a voz e então finalmente desistir de gritar? Saber quantas vezes eu sonhava e ainda sonho o asfixiando? Todas as malditas noites! Pois agora você sabe. Sabe que eu o desejo com todas minhas forças, que desejo seu toque mas lembro-me das mãos dele me invadindo, puxando meu vestido, todas as noites incansavelmente durante três anos. Susana estava certa, eu ainda sou Julieta, a menina que foi vendida pelos pais e estuprada e que mesmo vinte anos depois não consegue ser tocada, porque no fundo eu ainda sou Julieta Sampaio, a vítima.

Ela gritou cada palavra, cada sílaba enquanto soluçava. O rosto tornou-se uma mistura de raiva e dor. Julieta rasgou todo o resto do vestido, passou as mãos nervosamente pelo pescoço e com suas unhas arranhavam sua pele exposta de seu pescoço em busca de algum alívio para a dor sufocante que estava sentindo. Aurélio segurou suas mãos com força tentando impedi-la de machucar-se mais ainda, ela jogou-se sobre ele, sua cabeça no ombro dele, suas mãos ainda sendo contidas.


— Eu desejo com todas minhas forças matá-lo com minhas próprias mãos e sinto-me o pior homem do mundo por não poder e doí-me mais ainda saber que não posso aliviar seu sofrimento.

— Todos agora sabem e todos vão me olhar como uma vítima, como a Sampaio que morreu aos quinze anos dando à luz a Julieta Bittencourt.

— Você é uma vítima Julieta e você não pode se culpar por não ter conseguido esquecer — Acariciou suas costas —. E eu não sei se sou capaz de curá-la completamente, mas eu estou aqui para tentar.

— Eu sou uma mulher quebrada, Aurélio. Uma mulher que não consegue ser completa e eu nunca vou ser.

— Eu exijo que pare de falar assim de si mesma. Você é uma mulher completa! Você é uma mulher maravilhosa, inteligente, bonita e incrível, muitas vezes a mais complicada e difícil de decifrar do mundo, mas isso é o que te faz ser incrível. Você anda com o peso do mundo em seus ombros e mesmo assim consegue transformá-lo em lindo par de asas. Você superou e está aprendendo a superar. Aprendeu com seus erros. Descobrir o que você passou e como está superando, crescendo sobre sua dor, não me faz te amar menos, apenas mais e mais, querida.

— E se eu não consegui superar nunca, Aurélio?

— Você irá, porque vamos lutar juntos contra esses traumas.

— Mas e nós, se eu nunca consegui te satisfazer...

— Essa é outra coisa que eu não quero mais ouvir você dizendo. Eu já estou satisfeito, eu sou o homem mais realizado do mundo só por te ter tão próxima.

— Aurélio — chamou em um grunhido baixo, quando as lágrimas começavam finalmente a cessar —, eu não quero ver ninguém agora, não hoje.

— Não terá que falar com ninguém. Mas eu preciso que você durma.

— Promete que ficará comigo esta noite?

— Eu prometo ficar ao seu lado todas as noites se isso te fizer feliz.

Aninhou-a em seus braços. Ela não queria preocupar-se em ter que encarar Camilo, ela não queria ter que se preocupar em ter que dar explicações. Ela só queria que aquele momento se perpetuasse por toda a eternidade. A paz que ela precisou chegou, seus olhos fecharam e ela voltou a adormecer nos braços de Aurélio.

Você me encontrou vestido de preto

me escondendo do caminho de volta

A vida quebrou meu coração em pedaços

Você segurou a minha mão e derrubou minha muralha.

Cobriu meu coração com beijos

Achei que a vida tinha me esquecido

Perdido minhas lágrimas, ignorado meu choro

A vida partiu meu coração, meu espírito

E então você cruzou meu caminho

Reprimindo meus medos, me fazendo sorrir

(Dressed in Black)

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