The Secret Weapon
84 The Final Day
Notas iniciais
A marcha foi árdua e cansativa, como todos imaginávamos que seria. Ao fim de cada dia, eu olhava o céu, na esperança de ver Eragon voltar. Até agora, nada.
Quando finalmente chegamos a Uru’baen, o cenário não era exatamente inédito. Montamos cerco, como nas outras cidades, simplesmente esperando. Num cerco, normalmente impede-se que qualquer coisa entre numa cidade, mantimentos e água principalmente, até que a cidade desistisse da batalha. Claro que aquilo não aconteceria ali. Galbatorix seria tão paciente quanto qualquer um de nós, mesmo que só restasse ele.
— Precisamos de um plano de ação. Não vamos conseguir segurar o cerco por muito tempo, independente do retorno de Eragon. – Roran comentou, coçando a barba.
— Também não podemos nos precipitar. Não queremos dar um passo maior que a perna, não nesse momento. – Retruquei, percebendo que Roran começava a ficar agitado com a ideia de perdermos o momento ideal para atacar. – Roran, sem Eragon não teremos a menor chance. Mesmo com um dragão do nosso lado.
— Já seria uma baita vantagem. – Ele sabia que eu tinha razão, mas continuava nervoso.
— Ele tem dois dragões ao seu dispor, esperando ordens. Thorn talvez não seja o problema, mas se ele decidir finalmente tirar Shruikan do seu descanso, não teremos chance alguma.
— Saphira também não vai conseguir enfrentar Shruikan. – Ele rebateu, finalmente cruzando os braços. – Então, qual o plano?
— Eragon sabe que não tem muito tempo e sabe que precisamos do que ele foi buscar. Ele vai voltar.
— Quanto tempo precisamos esperar?
— Tenha alguma confiança no seu primo. Ele vai estar aqui. – Eu não sabia se Cavaleiros compartilhavam alguma conexão entre eles, mas eu simplesmente sentia que eu dissera a verdade.
Esperei mais dois dias até finalmente sentir a presença que chegava pelos céus. Olhei em sua direção antes mesmo que eu pudesse vê-lo. Orun olhou também, esperando.
— Ele chegou?
— Em minutos. Cadê Roran?
— Chamou? – Foi uma grande coincidência que Roran tivesse ido me ver naquele exato momento, mas facilitava minha vida. – Eragon voltou?
— Roran, preciso que você cuide do ataque à cidade. Eragon precisa alcançar Galbatorix e isso não vai acontecer se ele tiver que atravessar a cidade.
— Estará conosco?
— Provavelmente. Precisamos tomar a cidade antes que a luta deles esteja solucionada. Evidentemente, Eragon precisa vencer.
— Não é exatamente um plano.
— Não, não é. Tem um melhor? – Questionei, realmente esperando que ele dissesse algo.
— Não, vamos com o seu. – Ele voltou ao ponto principal, mudando o peso de um pé pro outro.
— De toda forma, não acho que vá fazer tanta diferença assim. Galbatorix não se manteve no poder esperando nada. Ele é ardiloso, sempre pensa nas menores possibilidades e as aniquila pela raiz.
— Ele sabe que Eragon vai até ele.
— Talvez ele me espere também, mas minha ausência não muda muito os planos dele.
— E como ele entra? Eragon, eu digo.
— Tem um caminho para dentro do palácio. Túneis…
— Tem certeza?
— Tenho, foi por onde eu fugi anos atrás. Só não sei onde, exatamente, fica a entrada.
— Sorte sua, eu sei. Já informei os elfos que vão acompanhá-lo. – Elwë apareceu do nada, a postura elegante e o cabelo mais curto que nunca. Ele nunca parecera tão pronto para uma luta. – Ordens?
— Eragon vai pousar agora. Aguarde.
De fato, o dragão azul aterrissou e o Cavaleiro voltou a pisar em solo. Ele trazia consigo vários eldunari, provando o que eu imaginara. Combateríamos fogo com fogo.
Quando perguntei sobre a ilha, ele não soube responder direito. Tentei algum contato mental, com Glaedr também, mas nenhum dos dois tinha memória do dito Cofre das Almas.
— Eles protegem a si mesmos. – Comentei, imaginando que sair da ilha causava a perda de memória. – Não importa agora.
Eragon partiria ao encontro de Galbatorix assim que iniciássemos o ataque à cidade. Ele, os elfos, Arya e Elva entrariam pelo ponto onde Elwë os apontara a entrada.
— Galbatorix não comete erros banais. Esses corredores certamente não são seguros. – Elwë apontou para Elva, sabendo sua função na equipe. – Por isso está indo.
— Eu sei o que fazer.
— Muito bem. – Interrompi a pequena reunião. Eragon não parecia tão nervoso quanto deveria estar, apesar de me olhar de soslaio. – Ele vai estar esperando por vocês. Tomem cuidado.
— Silbena. – Eragon chamou meu nome, nos afastando um pouco dos outros. Acenei com a cabeça para que ele falasse o que o perturbava. – E quanto a você?
— Eu vou lutar com Elrohir aqui em cima. Precisamos da força extra enquanto estiver lá.
— Não, quero dizer…A ligação. – Eragon engoliu em seco após falar a palavra em voz alta. Suspirei.
— Eu não sei o que acontecerá, Eragon, mas faça o que precisa fazer. Com sorte, a magia para modificar o selo funcionou e eu estarei aqui celebrando nossa vitória.
— E sem a sorte? – Ele rebateu, paciente. Era bem óbvio como Eragon mudara nos últimos anos, mais maduro agora. Ele era, deveras, o herói dessa guerra.
— Eu me sacrifico com gosto. – Dei de ombros. Morrer pelo bem de uma nação parecia o certo a se fazer. – Não hesite por minha causa. Eu vou estar te observando.
Conexões mentais eram bastante úteis nesses casos. Conseguir encontrar Eragon e saber como ele estava era ideal. Eu também podia lembrá-lo de manter o foco, caso precisasse.
Ele se afastou, pronto para cumprir sua parte. Respirei fundo, sentindo o cheiro da terra e deixando o frescor do ar me tranquilizar.
Aquele era o momento que tanto esperamos. Anos nos preparando para aquele fatídico dia. Elrohir estava tão pronto quanto eu. Subi na sela do meu dragão e, sentindo a força dele em mim, dei o comando.
— Atacar! – As massas avançaram em direção à cidade, a adrenalina tornando o ambiente sufocante. Elrohir se lançou aos céus com um salto, rugindo tão alto que meu coração martelou.
Como toda batalha, tudo acontece rápido demais. Espadas e lanças reluziam por todos os lados, o martelo de Roran assobiava ao cortar o vento, cada um se movendo conforme o necessário.
Elrohir se lançava ao solo, cuspindo fogo cuidadosamente sobre tropas inimigas. Mesmo sem muitas baixas, o calor alastrava o pânico e a desordem. Eu conseguia alguns ataques do alto do dragão, mas poucos.
“Preciso descer, Grande.” O dragão cruzava o céu de novo, evitando a saraivada de flechas que nos era lançada. Mesmo não gostando, ele sabia que era inevitável.
“Ainda tem muitos. Espere um pouco.” Concordei, continuando nossa rotina de ataques. O tempo entre eles mudava para que os soldados não conseguissem nos acertar.
Eragon seguia pelo túnel, a distância entre nós crescendo. Eu sabia que quando ele estivesse com Galbatorix, se eu não avançasse pela cidade, perderia o contato.
“Tudo bem?” O dragão perguntou, de novo se afastando das flechas.
“Parece que sim, eles estão avançando.”
“Rápido?”
“Com sorte, o suficiente.” Pensei brevemente em Nasuada, mas não havia tempo para isso.
Elrohir finalmente voou baixo o suficiente para que eu conseguisse pular da sela, caindo rolando. Os sons da batalha sempre fizeram meu coração acelerar. Retomei o ataque assim que me equilibrei, ainda ouvindo as asas do dragão.
Havia um grande problema no campo de batalha. Um homem, um comandante ou general, com uma armadura enorme estranha. Elrohir sentiu antes que eu pudesse pensar.
“Eldunari em seu peito.”
Aquilo era um problema gigantesco. Elrohir tentou atacá-lo, mas havia muitos aliados próximos a ele. O homem bradava uma maça enorme, atacando tudo e todos.
— Eu não esperava problemas dessa magnitude tão cedo. – Resmunguei, perfurando alguém com a espada vermelha e o empurrando com o pé para longe.
Eu não tinha vantagem alguma que pudesse me ajudar a lutar contra esse homem. Apesar disso, vê-lo varrer nossos homens me enfurecia. Alguém tentou me atacar por baixo, mas pulei sobre ele e me virei já com a ponta da lâmina virada para ele.
“Concentre-se no que você pode fazer para minimizar danos. Não consigo alcançá-lo também.”
A voz de Elrohir na minha cabeça era um ótimo lembrete para manter o foco. Voltei a atacar os outros, que se aproveitavam da força de seu líder para atacar pelas costas.
Era um trabalho difícil. Guerras nunca são fáceis, nem gloriosas. Com sangue nas espadas e no rosto, eu rugia por entre corpos, atacando qualquer um que não me fosse familiar.
Em um embate, senti o dorso da lâmina me acertar nas costas, o ar fugindo por um instante. Virei-me, usando minha lâmina para desarmá-lo, recuperando meu fôlego. Elrohir grunhiu na minha cabeça.
“O que foi?”
“Flecha, mas é só um arranhão.”
A raiva por ter meu dragão ferido, por menor que fosse, me fez atacar o inimigo de uma só vez, sem chances para defesa. Elrohir tornou a rugir, causando uma distração breve, que me permitiu adentrar um pouco mais a cidade.
Meu corpo doía. Eu tinha tomado poucos golpes, a maioria com o punho ou as costas da lâmina, mas eu já sentia o impacto. Aquilo gastaria um bom tempo para se curar.
Foi um barulho ensurdecedor. Elrohir cortava os céus, furioso, tornando a cuspir fogo. Olhei na direção do homem da armadura, sentindo o sangue gelar dentro do meu corpo.
A rainha dos elfos caiu sob a mão do homem da maça. O momento mínimo de distração com a surpresa fez com que eu tomasse um golpe na cabeça. Grunhi, virando-me pronta para atacar.
Elrohir falava comigo para que a dor na cabeça não me distraísse. Derrubei o inimigo e voltei a avançar. A perda da rainha, com certeza, fora um golpe em todos nós. Os ânimos se misturavam entre tristeza e ódio.
Pareceram horas. Eu seguia lutando puramente pelo instinto de sobrevivência, o cheiro pungente de sangue impregnando meu nariz e conduzindo meus movimentos.
Tomei outra pancada, agora nas costelas. Arfei, pulando para cima do atacante para ver Elwë cuidando disso. Escorei as costas nas dele, ofegante.
— Obrigada. – Não era o momento, mas meu coração deu um salto ao ver o elfo me defendendo. Era bom ter um rosto tão conhecido próximo. Ele esticou a mão e resmungou alguma ladainha, minimizando a dor dos meus ferimentos. – Por isso também.
— Precisamos encontrar uma forma de tirar aquele homem de jogo, é impossível equilibrar nossas perdas com ele aqui.
— Mesmo que ele não me esmagasse, eu não conseguiria atacá-lo, e Elrohir não conseguiu se aproximar o suficiente.
— Talvez… – Elwë começou a falar, mas eu não consegui ouvir. Seus olhos se arregalaram antes mesmo que eu registrasse o que sentia.
Então, o tempo parou. O ar foi expulso dos meus pulmões como se uma pedra gigante tivesse sido atirada sobre meu peito. Aquilo distraiu até mesmo alguns dos inimigos mais próximos.
Meus olhos estavam presos ao chão, mas eu não enxergava nada além de dor e agonia. Imagens tão horrendas que era impossível tentar descrevê-las.
Eu ainda ouvia a batalha, mas tudo estava tão distante que parecia uma parte daquela visão macabra que me atacava. O berro que me escapou não conseguia minimizar em nada aquela tortura.
— Sil, o que há? – Elwë me sacudia, mas eu não conseguia responder. Minhas mãos haviam largado as espadas para, no lugar, enroscarem mechas dos meus cabelos entre os dedos e puxar. Como se aquilo pudesse partir minha cabeça e finalmente impedir aquele sofrimento.
Meus olhos arderam antes de começaram a escorrer. Ergui o rosto, berrando novamente. Elwë arfou e segurou meu rosto, mas tudo parecia queimar, pregar, doer e não parar.
— Ela está chorando sangue? – Foi a voz de Orun lá no fundo. Eu sentia o fluido viscoso e grosso escapando dos meus olhos. Será que eu havia feito aquilo a mim mesma? Não adiantara, as imagens ainda me assombravam de forma pavorosa.
Talvez Eragon conseguisse me responder, mas eu não conseguia sequer pensar em encontrá-lo, eu só queria que tudo parasse. Se a morte era o jeito mais fácil de alcançar esse objetivo, que fosse.
E então meu peito começou a se aquecer. Esquentar, esquentar, até parecer se incendiar. Meus joelhos cederam, a visão escurecendo, o desespero sufocante ainda me oprimindo.
— Eu vou explodir. – Gritei, aos prantos, sentindo que aquela seria minha morte.
“ELROHIR!”
Gritei seu nome sem saber se ele me ouvia, se ele sentia o mesmo, se ele estava ali. Eu só queria que meu último pensamento fosse ele. Repeti o nome inúmeras vezes, me contorcendo no chão.
E então, assim como tudo começara, tudo parou.
O ar me atingiu de uma só vez, preenchendo meus pulmões, meu peito parou de arder e meus olhos voltaram a enxergar Elwë na minha frente, apesar de turvos. Algo brilhava a nossa volta, mas eu só conseguia olhar em seus olhos, mesmo que não os visse bem através da visão embaçada.
— Silbena? Está me ouvindo? – Ele falou, assustado. Sua postura agora só demonstrava pavor.
— Elwë… – Minha voz saiu arrastada, baixa e quase cortada. Arfei.
— Acho que isso significa que funcionou. O selo não te levou junto dele. – Ele falou, o rosto assustado demais para esboçar um sorriso.
— O que...aconteceu? – Hesitei, sentindo o contato familiar de Elrohir, tão assustado quanto o elfo a minha frente. – Ele…?
— Passou longos minutos assim. Vencemos.
“Roran derrubou o homem da maça e Eragon ganhou.” A voz de Elrohir, muito abatida, me alcançou. Sorri fraco.
“Vencemos?” Consegui responder, sentindo todo meu corpo pesado demais. Elrohir se contentou em responder antes que eu fosse engolida pelo cansaço.
“Vencemos.”
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