The Scientist

2 Capítulo II - Love is Relative


Notas iniciais
Espero que gostem!

Nico di Angelo

Olhei o celular. 19:40h. Respirei fundo, desliguei o carro e abri minha bolsa para conferir os itens essenciais à apresentação, embora já tivesse feito isso antes de sair de cada. Livros? Ok. Laptop? Ok. Discurso? Não. Lembrei que falaria, na hora, o que desse vontade. Respirei fundo novamente e abri a porta, saindo do carro. Rumei em direção ao salão de entrada da Hunters College. Lá, aguardei pouco tempo em uma fila, onde as “credenciais” eram revistadas e, em seguida, recebi uma pulseirinha preta, facilmente escondida pelo terno.

Assim que adentrei o corredor principal, onde luzes direcionavam até o auditório do evento, já identifiquei alguns amigos e imediatamente cumprimentei-os. Seguindo o caminho, encontrei um Percy Jackson mexendo no celular, com um semblante bastante nervoso.

— Boa noite, Per…

— Nico! Cara, será que ela vem? — Ele quase gritou, mencionando parcialmente uma pessoa bastante conhecida entre nós.

— Uau, relaxe, mano. Você não falou com ela sobre is…

— Não! Ela me bloqueou no WhatsApp. Você não sabe como ela é? — Mais uma vez fui interrompido.

O nervosismo de Percy quando o assunto era Thalia era assombroso. Um grande contraste ao seu temperamento calmo. Pobre rapaz apaixonado.

— Cara, você tá muito apaixonado. Maneire um pouco na demonstração.

— Apaixonado? Eu? — Ergueu as sobrancelhas e apontou o indicador para o peito, totalmente incrédulo. — Por Thalia Gra… Falando no diabo…

Naquele instante, duas garotas entraram no Hall. Uma delas era Thalia, que estava até comportada com uma saia de mais de dois palmos de comprimento. Roupas todas pretas, para variar. Não sei que mágica fez no cabelo para estar alinhado, e não aquele ninho de passarinhos ao qual eu já estava habituado.

A segunda era a loirinha que tive o prazer de tirar do sério esta tarde. Era adorável como suas bochechas assumiam um tom rosado quando ela estava com raiva. Aquele ditado que diz “se melhorar estraga” provou-se totalmente errado assim que meus olhos bateram em Annabeth. Com os cachos loiros domados num elegante coque e um vestido vermelho que destacava as curvas certas do seu corpo, estava ainda mais linda do que achei que fosse humanamente possível.

— Nicolas di Angelo… — Falou Thalia, me cumprimentando rapidamente com um beijo na bochecha — Mais elegante impossível. Percy Jackson… — A morena entrelaçou os braços no pescoço de Percy, enquanto este permanecia imóvel. Thalia se aproximou dele lentamente, mas, contrariando as expectativas do meu melhor amigo e primo, ela beijou-o na bochecha. Ela rapidamente se soltou dele, deixando-o estático, encarando a entrada do Hall.

— Tenha pena dele, Thalia. E você também está… — Avaliei mais uma vez o conjunto, tomando cuidado para não parecer invasivo. — ok. E você, Annabeth… — Falei, estendendo a mão para ela, em um gesto nobre e raro, vindo de mim.

Ela, lentamente, como se estivesse pensando nas consequências daquilo, retribuiu o gesto. Beijei as costas da sua mão e, rapidamente, puxei-a para um abraço. Ela pareceu surpresa pelo gesto conseguinte, mas não recusou. E devo admitir, seu cheiro era doce, do jeito que eu mais gostava. Ela se afastou de mim, enquanto eu passei a encará-la, com uma expressão de quem acabou de cheirar a flor favorita.

Annabeth inclinou levemente a cabeça para o lado, me observando com ar curioso.

— Algum problema, Nico? — Ela perguntou, quebrando o rápido silêncio previamente formado.

— Nenhum, apenas gostei do seu perfume — Falei a última parte em baixo tom, tomando um imenso cuidado para que Thalia não ouvisse. Não queria que ela usasse isso contra mim a vida inteira. Mas parece que ela estava um pouco ocupada, tentando tirar Percy do seu transe.

— Nossa! É isso mesmo? Um elogio? Pensei que você só soubesse implicar.

Antes mesmo de pensar em algo para resposta, alguém coloca levemente a mão no meu ombro. Viro-me e me deparo com um dos secretários da escola.

— Desculpe o incômodo, senhores, mas o evento está para começar. Queiram se dirigir ao auditório, por favor — Terminou sua instrução apontando para o ambiente.

Acenei de leve com a cabeça e rumei ao ponto, fazendo questão de puxar Thalia e Percy pelos braços. Se demorassem mais um pouco naquela situação, se agarrariam ali mesmo. E um pouquinho mais… Céus, melhor nem imaginar.

A abertura ocorreu como nos outros anos. O hino da escola, algumas palavras do diretor e mais duas ou três músicas tocadas pela banda da escola. O cerimonialista tomou o microfone e, após testá-lo, convocou a primeira palestrante.

— Senhoras e senhores, aplausos para nossa primeira palestrante, doutora Atena Chase — Esse sobrenome não me é estranho… — com sua palestra Ciência, Tecnologia e Sociedade.

Pensei um pouco e rapidamente me lembrei de onde tinha ouvido aquele nome: Annabeth Chase. No mesmo instante, olhei para a minha cadeira vizinha da direita, onde uma loira bastante orgulhosa estava sentada. Seus lindos olhos prateados reluziam enquanto esta admirava a palestrante, que já subia no palco, sob uma grande onda de aplausos.

— Sua irmã, ou algo do tipo? — Perguntei à loira.

— Minha mãe, Nico, minha querida mãe.

Olhei novamente para Atena, em surpresa. Realmente, não parecia ter idade para ser mãe de Annabeth, mas as feições eram bastante parecidas.

A palestra foi bastante proveitosa, envolvendo questões como os limites do avanço tecnocientífico na sociedade e a ética na ciência. A palestra seguinte, sobre Bionanotecnologia, com o Dr. Apolo, teria sido mais proveitosa, se algumas garotas não tivessem passado grande parte do tempo assobiando para ele, ou erguendo as mãos para fazerem perguntas estúpidas enquanto enrolavam uma mecha do cabelo no dedo, numa falha tentativa de chamar atenção.

O intervalo curto serviu apenas para sair do auditório, tomar água e um ar fresco e sentir uma grande onda de nervosismo me atingindo. Voltei para o auditório às 21:28h e algumas garotas ainda estavam circulando o Dr. Apolo, fazendo perguntas que eu preferia não ouvir. Pouco tempo depois, o cerimonialista cortou a alegria delas, pedindo para se sentarem e anunciou a próxima palestra, com o Dr. Hefesto, sobre Ecotecnologia.

Confesso que mal prestei atenção nessa última. O tempo passou voando, enquanto o nervosismo me cercava. Olhei o celular e constatei que só faltavam dois minutos para as dez horas. Quando levantei o rosto, a multidão começou a aplaudir o doutor, sinal do fim da sua palestra. Era agora.

— Obrigado, Dr. Hefesto. Sua contribuição é sempre essencial. Agora, vamos para o evento principal da noite: a palestra do aluno condecorado, com o nome Relativismo Líquido. Sendo selecionado pelo seu desempenho espetacular em todas as disciplinas e comprometimento exemplar com o curso, por favor, recebam com toda a sua energia, Nicolas di Angelo — Calma, Nico. Respire fundo, desfoque a atenção dos aplausos, pegue suas coisas e vá. Detone.

Levantei-me, peguei minha bolsa e tentei me locomover até o palco, mas fui impedido por uma mão segurando meu ombro. Virei-me em sua direção, já pensando em curtas palavras de protesto, mas fui surpreendido por um sorriso que eu bem conhecia.

— Eu te disse que viria, meu filho.

Naquele momento, todo o nervosismo pareceu se esvair, enquanto um enorme sorriso verdadeiro se formava no meu rosto. Dei um rápido abraço no meu pai e segui minha caminhada. Subi no palco, posicionei meus livros e o laptop, já ligando-o. O cerimonialista, com um leve sorriso encorajador, me entregou o microfone e desceu do palco.

— Boa noite, senhoras e senhores. Bem, uma observação inicial: não confundam o tema da palestra, relativismo, com relatividade. A galera de astrofísica, principalmente, sabe do que estou falando. Bem, sem mais delongas, vamos lá. — Abri a apresentação de slides, conectando o laptop ao projetor — Para entendermos o título da palestra, temos que compreender dois conceitos. O primeiro é o relativismo, e o segundo é o termo “líquido”. Escolhi esse último termo inspirado pelas obras de Zygmunt Bauman, e significa algo não sólido, algo que pode ser usado para qualquer lugar, já que o líquido assume a forma do recipiente.

“Para pensarmos em relativismo, que, em síntese, é a ideia que não há verdade absoluta, temos que entender a pós-modernidade, conceito sociológico que designa o período pós guerra fria, pois foi nesse período que o relativismo se consolidou, embora sua origem seja erroneamente associada ao grande Max Weber, e deveria ser associada a Nietzsche e Foucault…”

Annabeth Chase

Após o choque inicial de saber que Nico di Angelo era o palestrante, assisti a tudo boquiaberta, surpresa também pela eloquência do rapaz ao falar sobre o assunto. Ele explicava os conceitos e expunha suas ideias com tamanha facilidade que eu poderia jurar que estava discutindo numa conversa entre amigos. Sua postura ereta transmitia não só a confiança do rapaz com os temas, mas também a sua elegância e decoro.

Me deixei divagar várias vezes observando o modo como mergulhava os dedos nos fios negros para jogar o cabelo para trás, a forma como seus olhos negros pairavam sobre a platéia e ele curtia o seu momento.

— … então, sendo logicamente provado pela tática do papa-léguas como um argumento suicida, ou autodestrutivo, não há razões para crer no relativismo, afinal, ele nega a si mesmo. Além disso, vimos seu efeito negativo e prejudicial à sociedade. Quem discordar, tente testar o relativismo da gravidade nesse local, jogando seu celular para cima. — falou, com um ar debochado, erguendo um dos cantos da boca num esboço de sorriso. — Obrigado pela atenção e paciência.

Meu estado de transe foi quebrado pela euforia da platéia, que se pôs de pé e começaram a aplaudir, ação essa que durou alguns minutos. Enquanto isso, Nico recebia um certificado das mãos do diretor da escola e posava para algumas fotos.

Após o cerimonialista fazer os anúncios finais, o público se dispersou. Segui Thalia e Percy para cumprimentar Nico, que se despedia de um homem muito parecido com ele, que presumi ser seu pai. Ambos portavam um imenso sorriso. Percy e Nico trocaram tapas nas costas no estilo macho-cumprimentando-macho e Thalia deu-lhe um abraço e palavras de estímulo, enquanto bagunçava o cabelo do moreno como se fossem irmãos.

— Por que não me contou disso tudo, Nico? — Thalia perguntou.

— Porque você é uma estação de rádio humana e estragaria toda a surpresa do evento — Nico respondeu com toda a tranquilidade do mundo.

Thalia mostrou-lhe o dedo do meio, madura como uma criança de seis anos.

Após a saudação amigável da amiga, dirigi-me a Nico.

— Tenho que admitir, você mandou muito bem — Estendi a mão e ele a apertou — para um jovem irritante de humanas — acrescentei a seguir, com meu melhor sorriso zombeteiro.

Ele fingiu uma cara de “estou profundamente ofendido” e puxou a mão de volta.

— Como espera que eu te beije desse jeito, Annabeth? — Falou com uma dramaticidade de um verdadeiro ator.

Aquilo me pegou de surpresa.

— Para falar a verdade, eu nem esperava que você me beijasse.

Mas até que não seria má ideia, acrescentei mentalmente, mas não tive coragem de dizer em voz alta.

— Estou brincando, não se estresse.

— Estou perfeitamente calma — rebati, meu tom de voz me contradisse.

— Touché! Agora você está se estressando. Thalia, sua amiga está ficando estressada, o que faço? — Perguntou à morena com um falso tom de preocupação.

Thalia me encarou com expressão de puro tédio, então voltou o olhar para Nico.

— Sei lá, se beijem — Gesticulou com a mão, em desdém. Então enlaçou o braço no pescoço de Percy.

Senti meu rosto esquentar. Nico di Angelo soltou um sorriso carregado de malícia e começou a, lentamente, se aproximar de mim. Na minha mente, tentei calcular a distância que nos separava: Três passos. Uma parte minha ansiava por romper de uma vez aquela maldita distância, mergulhar os dedos naqueles cabelos negros e beijá-lo loucamente. Dois passos.

Mas o bom senso me venceu, e eu dei um passo para trás. Nesse tempo, ele avançou ainda mais. Um Passo. Tentei recuar, mas suas mãos seguraram minha cintura. Ainda com o sorriso malicioso, ele aproximou seu rosto, até que passei a sentir sua respiração. Fiquei imóvel, paralisada como a estátua do velho na entrada do campus.

— Sabe, Annabeth, Jean Racine dizia “beijo o meu rival, mas é para sufocá-lo”. — Nesse momento, fechei os olhos, sem saber o que esperar, sem ao menos saber o que pensar — Mas você não terá essa sorte.

Então, de forma súbita, o moreno afastou-se. Ficou um estranho vazio no lugar onde suas mãos ocupavam minha cintura, como um quebra cabeça com peças faltando. Ansiei tê-las de volta, encaixando-se ali. Abri os olhos e vi-o com o mesmo olhar malicioso. Lentamente, jogou sua cabeça para trás, e, num ato quase psicótico, gargalhou.

Revirei os olhos dramaticamente.

— Quer saber? Foda-se.

Agarrei Nico di Angelo pelo colarinho da camisa e, sem dar-lhe tempo para processar o que estava acontecendo, selei nossos lábios, ali mesmo, na entrada do campus.

Notas finais
~Soltei a bomba e corri~ hahaha Ansiosos para o próximo capítulo? Comentem aqui embaixo! Beijos da Luh