The Scientist

1 Capítulo I - Heads are a science apart


Notas iniciais
Boa leitura!

Nico di Angelo

— Bom, turma, por hoje é só. Próxima aula veremos um dos pais da sociologia: Max Weber. Aconselho que vão logo adiantando a leitura de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, seu mais condecorado livro. Será nossa para a terceira e última unidade do último semestre. Até segunda.

Suas últimas palavras bastaram para que todos se levantassem e saíssem da sala. Todos pareciam animados pelo eminente e próximo fim de curso, afinal, faltava mais ou menos um mês para isto. Eu estava três vezes animado: uma vez, também, pelo fim do curso, duas vezes pelo próximo autor a ser estudado, Max Weber, que é um dos meus sociólogos favoritos, e três vezes pelo terceiro CACH — Congresso Anual de Ciências da Hunter College. O lema do congresso é a união entre as três ciências: biológicas, exatas e sociais, apresentada em palestras. Antes de sair da sala, me dirigi até o professor Thomson, altamente renomado em sociologia, possuindo 3 doutorados.

— Com licença, Dr. Thom…

— Pode me chamar de Thomson, Nico, meu aluno favorito — Não pude deixar de sorrir.

— Bem, só queria dizer que Max Weber é…

— Já sei, já sei… seu autor favorito. Não foi difícil de perceber nas suas análises de indivíduo x sociedade, Nico. Acredite em mim, ele estaria orgulhoso de você.

— Uau, obrigado, professor.

— Bem, está ansioso para a sua palestra no Congresso? — perguntou, enquanto colocou a mão no meu ombro e se dirigia comigo até a saída.

E sim, eu fui convocado para palestrar no CACH. Recebi uma carta há três semanas do Departamento de Ciências Sociais da escola, anunciando minha convocação devido ao “enorme sucesso e aproveitamento nas disciplinas”. Bem, admito que fiquei nervoso de início, mas vi como uma ótima oportunidade para o meu futuro, já que somente um aluno palestra no evento.

— Devo confessar que sim, professor.

— Apenas relaxe, meu caro, faça de conta que é só mais um seminário valendo nota. Mas e aí, qual vai ser o tema? Ando com a mente cheia, mas realmente não lembro de ter te perguntado isso.

— Professor, o senhor sabe que sou um crítico do relativismo, então intitulei a palestra de “Relativismo Líquido”. Sabe, com um certo tom de Zygmunt Bauman no título.

— Boa escolha, Nico. Saiba que também sou contra essa moda. Estarei lá te assistindo e torcendo por você, meu caro.

— Obrigado, professor — Apertei sua mão e fui em direção ao estacionamento.

Olhei meu celular e vi que eram 13:00h. Ótimo, ainda faltavam 7 horas para o evento. Daria tempo de comer, dar os últimos toques na apresentação, me arrumar e etc.

Já no estacionamento, me encostei em um carro próximo ao meu Fiat Toro preto, e abri o WhatsApp. Álgumas mensagens de apoio, como do Percy, da Bianca, minha irmã, algumas mensagens no grupo da família, devaneios no grupo da sala, para, provavelmente, assassinarem o tempo da aula, e algumas mensagens de um número não salvo, o que era estranho. Abri a conversa.

“ Olá *-* ”

“ Deve estar na faculdade, né?”

“ Só queria agrade…

A leitura do que eu, mais ou menos já sabia o que era, foi interrompida pelo som de Ink, música do Coldplay que designei como toque para meu pai, Hades di Angelo. Logo em seguida, uma rara foto de nós dois juntos apareceu na tela. Prontamente, atendi o celular.

— Nico?

— Oi, pai.

— Então, o congresso é às 20h, né?

— Sim, por quê?

— Ué, vou te assistir, meu filho — Isso me pegou de surpresa. Fazia 3 dias que ele estava em Boston, Massachusetts, para reuniões da sua empresa de Hardware, HadCorp, e ele só disse que voltaria próxima terça.

— Mas você não só ia voltar terça?

— Sim, e vou. Mas eu acabei de acertar com o piloto do jatinho para ir até aí e voltar, ainda hoje.

— Mas você não tinha nenhuma reunião à noite ou algo do tipo?

— Tenho, mas você é muito aquém de você, Nicolas di Angelo. Você, sua irmã e Maria são as coisas mais preciosas e amadas da minha vida. Não perderia um dos momentos mais especiais da sua vida por nada, meu filho. Até mais tarde. Te amo.

— Também te amo, pai. Até mais — Desliguei o celular e, prontamente, algumas lágrimas caíram, enquanto um grande sorriso se formava.

Annabeth

Aulas de anatomia não eram as minhas preferidas. Desde o momento em que escolhi medicina, eu sabia que teria de enfrentá-las. Mas mesmo assim eu necessitava de um certo preparo psicológico antes de entrar naquele laboratório. Além do silêncio mórbido e das peças humanas espalhadas pelas mesas, o que mais incomodava era o forte odor do formol, que teimava em atravessar o tecido da máscara e invadir minhas narinas.

Naquele dia, estávamos estudando o sistema locomotor. Um corpo inteiro jazia sobre a bancada na minha frente. Era completamente diferente da imagem que temos em mente quando se trata de analisar corpos reais. Pense na obra de Rembrandt, o pálido defunto sobre uma mesa de madeira, com sinais de morte recente e vários curiosos debruçados sobre ele observando o Dr. Tulp dissecá-lo, como se fosse uma operação cirúrgica. Em vez disso, agora imagine um cadáver ressequido e de coloração escura, praticamente sem pelos. Adicione alguns estudantes empacotados em jalecos e EPI’s, com aspecto mais morto que o próprio defunto, espalhados ao redor da bancada de metal com receio de que aquela coisa esquelética pudesse se levantar de lá a qualquer momento.

Uma garota havia passado mal e precisou ser levada para a enfermaria, apesar de não ser a primeira vez que manipulávamos cadáveres.

Enquanto metade da turma estava imersa nas explicações do professor Apolo, 25% estavam distraídos olhando para o tempo e as meninas da porcentagem restante tentavam flertar com o professor, eu me distraia tentando imaginar a história de vida daquela ameixa desidratada.

Notava-se que era um homem adulto, talvez na casa dos 40. Eu sabia que os corpos que iam para a universidade eram de indigentes, ou seja, moradores de rua, pessoas esquecidas e abandonadas pela família e pela sociedade. Um dia, ele foi vivo, andou, pensou, falou, amou, foi amado, construiu uma vida, teve uma história Dei um nome fictício para ele: Thomas. Foi um empresário muito rico e solitário, mas que, por algum motivo, foi à falência. Não tinha mais parentes, fora filho único e seus pais já haviam partido há tempos. Não tinha amigos, pois dizia que o dinheiro poderia dar-lhe tudo o que queria. Nunca casou-se, pois mulheres davam prejuízos. Apaixonou-se uma única vez, na quinta série, mas a garota o esnobou.

Thomas não suportou a dor de ver sua empresa desmoronar, levando consigo tudo que ele batalhou para alcançar, tudo o que ele possuía e venerava, então suicidou-se com algum veneno desconhecido. Nunca entendi essa urgência de enxergar na morte a única saída. Para mim, isso é covardia. Agora o Sr. Ameixa estava ali, sendo cortado por um bisturi, passando os dias submerso num tanque de formol, sendo usado até o último desgaste do seu corpo físico como uma importante ferramenta na formação de novos profissionais na área da saúde, que ajudarão o mundo preservando vidas, curando e descobrindo curas. Talvez, Thomas esteja sendo mais útil agora do que foi em sua vida inteira.

Meus devaneios fúnebres foram interrompidos pelo fim da aula. Segui a fila de alunos que descartavam as luvas e máscaras no cesto de lixo. Dessa vez, não fiquei para ajudar o professor a limpar os instrumentos e devolver o cadáver para o tanque. Ele já tinha um monte de alunas puxa-saco para isso.

Suspirei aliviada ao deixar o ambiente fétido. Dobrei desajeitadamente o jaleco antes de enfiá-lo na mochila, e soltei o rabo de cavalo, fazendo meus cachos loiros espalharem-se por meus ombros.

Mal pude dar dois passos que já fui confrontada por uma animada Thalia. Estranhei de imediato quando seus olhos azuis elétricos tomaram meu campo de visão. Na maior parte do tempo a garota vivia reservada na sua bolha de trevas e solidão. Ela só ficava animada dessa forma por motivos: algum álbum ou música novos de uma das suas bandas de rock preferidas ou alguma descoberta recente no ramo astronômico, cosmológico, ou qualquer outra coisa relacionada ao meio interestelar.

— Quais são seus programas para esta noite, doutora?

Minha amiga insistia em me chamar assim, mesmo depois de eu ter explicado milhares de vezes que “doutor é quem faz doutorado”. Com o tempo, passei apenas a ignorar ou revirar os olhos, como fiz naquele momento.

— Não soube do CACH? Em qual planeta você vive? — indaguei, como se fosse a coisa mais conhecida do mundo. E, de fato, era bastante. Pelo menos em NY.

— Ah, o Congresso Anual de Ciências Humanas? — desdenhou. — Puff, fala sério, Annie. Quer ver um monte de viagens mesmo?

Enquanto discutíamos o assunto, andávamos pelos corredores movimentados da universidade. Um dos meus favoritos era o que tinha paredes de vidro e proporcionava uma vista incrível da avenida turbulenta lá embaixo.

— É Congresso Anual de Ciências da Hunter College, Thalia — expliquei pacientemente. — Inclusive, minha mãe vai palestrar.

O esmalte preto descascando nas unhas roídas da garota parecia ser mais interessante que a nossa conversa.

Vasculhei a mochila atrás de um dos panfletos com a programação do evento e o estendi para a morena.

— Vê se algo aí é do interesse dessa sua cabeça avoada.

CACH — Congresso Anual de Ciências da Hunter College

20h: Abertura

20h20: Palestra 1: Ciência, tecnologia e sociedade, com Dra. Atena

20h50: Palestra 2: Bionanotecnologia, com Dr. Apolo

21h20: Intervalo

21h30: Palestra 3: Ecotecnologia: Consumo, consumismo e sustentabilidade, com Dr. Hefesto

22h: Main Event: Relativismo Líquido, com o aluno condecorado do ano

— Hum… seria interessante, se tivesse algo relacionado com Relatividade, já que é algo bem diferente de Relativismo, ou seja lá o que isso seja. Ou, quem sabe, algo relacionado a Bóson de Higgs, ou eventos de singularidade, ou…

Um dia, ela passou quatro horas inteiras falando sobre ondas gravitacionais. Eu tive vontade de vomitar.

— Tá, Thalia, entendi. E entenda que não tem nada relacionado com Astrofísica. Mas vale 3 horas complementares…

Nesse instante, seus olhos se arregalaram, num misto de surpresa e exasperação. Thalia andava desesperada procurando qualquer coisa que rendesse horas complementares, já que só faltavam dois períodos pra ela concluir seu curso. Infelizmente, eu ainda estava na metade do meu.

— Meus planos incluíam balada, cerveja e alguns amassos, para falar a verdade. Por falar nisso, eu iria te chamar para uma festa na casa dos Stoll hoje a noite. — Ela suspirou e encarou os portões do hall de entrada, ponderando sobre. — Mas a proposta é tentadora.

Sorri, me sentindo vitoriosa por ter uma chance de desconstruir um pouquinho dos preconceitos de Thalia em relação ao estereótipo de humanas.

Naquele momento, já havíamos chegado ao estacionamento. Avistei meu Honda Civic Branco parado a distância. Thalia tagarelava sobre algum assunto aleatório que eu “respondia” com acenos de cabeça, não prestando atenção realmente.

Encostado nele, estava um rapaz falando ao telefone. Aparentava ter seus 22 anos, com um cabelo “rebelde” que ia até um pouco acima do ombro. Vestia uma calça branca e uma camisa preta de manga longa que caí-lhe bem no corpo um pouco alto e ligeiramente atlético. Não consegui ver o desenho da camisa completamente, mas pelo visual do rapaz, deveria ser o emblema de alguma banda.

Não faço ideia do que atraiu tanto a minha atenção naquele sujeito, mas quando ergueu a vista do celular e suas íris de ônix cruzaram com o meu olhar, um arrepio estranho subiu pela minha espinha. Não era um arrepio do tipo “filmes de terror”. Era algo bom. E pela expressão que assumiu seu rosto, algo parecido aconteceu com ele.

Não sei se era impressão minha, mas notei que seus olhos estavam marejados. Senti uma vontade súbita de saber o motivo. E logo vi que não era impressão. Ele passou o dedo indicador abaixo dos olhos, como se estivesse enxugando algumas lágrimas.

— Terra chamando Annabeth — Thalia estalou os dedos na frente do meu rosto, me despertando do transe.

— Thalia? — O moreno falou, direcionando seu olhar para minha amiga, abrindo um grande sorriso.

Então eles se conhecem, pensei. Ele deveria ser um dos “peguetes” da morena. Por algum motivo desconhecido, essa ideia me fez murchar como o Sr. Ameixa Seca do laboratório.

— Ora, ora, se não é Nico di Angelo. — Ela devolveu o cumprimento e foi até ele, dando-lhe um abraço apertado — Quanto tempo, hein garoto? Pera… Você estava chorando? Nico di Angelo chorando?! — Sua voz subiu vários tons. Qualquer um que a visse naquele estacionamento a julgaria maluca. E ela era. — O que aconteceu?

O moreno revirou seus lindos olhos, enquanto afastava a histérica Thalia lentamente. Parecia não gostar muito de contato físico. Uma pena, pensei, pois estava imaginando diversas formas de contato entre nossos lábios.

— Apenas um raro momento familiar com meu pai, Thalia. Só isso — respondeu, mas sua atenção estava focada em mim. — Não vai me apresentar sua amiga?

— Ah, é, faz parte — Thalia coçou a nuca, bagunçando ainda mais seus cabelos negros e repicados. — Tá, Nico, essa é Annabeth Chase e Annabeth, esse é Nico di Angelo.

Cumprimentei-o com um maneio de cabeça.

— Estão se pegando há quanto tempo? — Fui direto ao ponto. Só notei o que eu havia dito depois que Thalia explodiu em risadas.

— O quê? Tá usando maconha há quanto tempo, Annie?

— Ah, confundiu meu curso, querida. Sou de biológicas, não humanas — Pisquei, aderindo às brincadeiras frequentes de Thalia em relação a esses estereótipos.

— Pera lá, que preconceito é esse? — O moreno adotou uma postura mais séria.

Ótimo, Annabeth. Que bela primeira impressão. Meu cérebro ativou o modo “fez merda” e suor frio começou a se formar na minha nuca.

— Pois é, Annie, o Nico é de Ciências Sociais e tal… — Thalia começou a falar apressadamente, mas logo foi cortada por Nico.

Não tive tempo de formular uma desculpa coerente.

— Sinceramente, não tenho mais palavras para descrever o quanto odeio seres “racionais” — Gesticulou aspas no ar — como você. Se você soubesse a importância do meu curso, ou pelo menos de uma das matérias, qualquer uma, não diria coisas grotescas como essa. Adeus — Então ele se virou e começou a andar em direção a algum carro.

Enquanto eu contava seus passos, minha consciência parecia me esfaquear cada vez mais. Um passo, uma facada. Dois passos, duas facadas, três passos… E o moreno parou subitamente. Lentamente, virou seu rosto na nossa direção e, logo após, aquele tom sombrio e fatal sumiu, dando lugar a um sorriso debochado.

— Estou brincando. Já estou acostumado com essas coisas de vocês, robôs de exatas — falou, revirando os olhos e se reaproximando de nós.

— Sou de biológicas, estressadinho — Usei o tom brincalhão para tentar esconder o alívio na minha voz. — E prezo bastante as matérias de humanas, até. Inclusive, estava comentando com Thalia sobre o congresso de hoje.

Ele direcionou seu olhar a mim, me analisando friamente da cabeça aos pés, por alguns segundos que pareciam uma eternidade.

— Não precisa disfarçar o alívio, loira.

Não sei o que me irritou mais, se foi o fato de dirigir-se a mim pela cor do cabelo ou sua percepção minimalista.

— Como… Como você… O que te levou a pensar isso?

Ele deu de ombros e respondeu:

— Sou um quase cientista social, Annabele. Sei como algumas relações entre indivíduos funcionam.

Enquanto Thalia fingia colocar o dedo na goela, pressionei o indicador e o polegar na têmpora como se fosse uma espécie de botão de “delete” para excluir o que eu havia acabado de ouvir. Annabele.

— Não vou levar para o lado pessoal o fato de você ter acabado de se referir a mim como uma boneca satânica. É um cientista social, mas mal decora meu nome.

Mais uma vez, ele deu de ombros e respondeu:

— Exato, sou um cientista social, não um banco de dados. Sorry, Lady.

Seu jeito zombeteiro e o irritante ar de superioridade estavam me dando nos nervos.

— Continuando… Eu e Nico não nos pegamos — Thalia interviu, antes que tapas começassem a rolar. — Ele é primo do Percy, Annie. E, bem, sobre ele, não posso dizer o mesmo, né…

Estava tão irritada que havia esquecido completamente dessa parte da conversa. E essa foi a vez do moreno fingir colocar o dedo na goela. Pareciam até irmãos. Ele já não era mais TÃO interessante quanto me pareceu de início. Ou talvez eu só estivesse de ego ferido por causa da “discussão”.

— Tá, Annabeth, continue o que você falava sobre CACH — Ele falou, gesticulando com a mão direita.

— Então… Estava mostrando a programação à Thalia, e achei bem interessante a palestra sobre relativismo. Você vai assistir?

— É… Vou, de certa forma. Horas estão em jogo, afinal.

Um silêncio pairou sobre nós, meio desconfortável. Resolvi quebrá-lo.

— Bom, Thalia, acho que devemos ir — Abri a porta do carro. Virei-me novamente para Nico — Nos vemos à noite, então?

— Se você torce tanto para isso…

Meus deuses, que cara convencido. Revirei os olhos dramaticamente e entrei no carro, enquanto Thalia contia um sorriso malicioso. Sim, eu torcia.

Notas finais
Hey o/ Meu amigo kizimachi é antissocial, mas eu não sou, então amo ler comentários! É muito importante saber a opinião dos leitores, se encontrou algum errinho ou algo que poderia melhorar... Enfim, usem e abusem desse recurso ♥ Prometo responder a todos. Beijo e até o próximo!