The Scientist
16 Burgas V - "A garota com quem você sai quer te matar"
Notas iniciais
05 de março.
Farol de Burgas. Porto de Burgas, Bulgária.
Percy sorriu ao se olhar no espelho. Ele estava no banheiro do quarto, ainda no barco de seu pai. Ele se sentia feliz de uma forma engraçada, quem sabe até um pouco empolgado. Passou o creme de barbear no rosto e ajeitou na cintura a toalha que cismava em cair. Enquanto fazia a barba, ele olhava para os arranhões no seu peito e abdômen e claro, como não poderia deixar de ser, fitava a mordida em seu ombro também. Doeu? Claro que doeu. Mas ele achava aqueles contornos dos dentes de Annabeth tão lindos, que estava até pensando em fazer uma nova tatuagem com as marcas.
“Ok”, ele se repreendeu. “Estou começando a ficar sadomasoquista, isso não é legal.”
Ele terminou de fazer a barba e tomou um banho rápido. Tinha marcado de se encontrar com Sofia e ele não queria chegar atrasado. Vestiu-se rapidamente. Pensou duas vezes se colocaria as roupas que Annabeth havia comprado pra ele ou não. Decidiu, enfim, abrir mão de seu suéter preferido e vestir uma blusa cinza de mangas longas que ela havia comprado. Optou por jeans pretas e um tênis social. Não usou o chapéu, nem os óculos escuros.
Desceu as escadas do barco, cumprimentou seu pai rapidamente e andou pelo píer em direção a rua. Ele tinha prometido levar Sofia a um lugar especial e, bem, o único que ele conhecia era o farol de Burgas. E era para lá que ele estava indo.
Pagou o motorista do táxi que pegou e foi andando em direção a colina a passos curtos. Ele não queria chegar atrasado, porém algo dentro de si alertava que tinha alguma coisa errado. Percy balançou a cabeça para esclarecer os pensamentos e continuou andando até o farol. Sofia já o esperava no topo da colina. Percy não pôde deixar de admirar a sua beleza. Ela vestia um vestido com mangas que iam até um pouco abaixo do ombro, era da cor azul marinho, quase preto. Os cabelos castanhos voam sob o efeito do vento que batia no topo da colina.
Percy se aproximou de Sofia lentamente e foi recebido com um sorriso. No lugar onde eles estavam, de frente para o penhasco que adentrava no mar, haviam algumas amuradas de ferro. Não eram totalmente seguras, mas eram perfeitas para se apoiar e enquanto se olhava nos olhos de uma pessoa durante uma conversa. E foi isso que Percy fez. Ele se pegou olhando nos olhos verdes da mulher.
–Acredita que eu sempre visitei meus pais aqui na cidade, mas nunca vim até aqui no farol? –Sofia perguntou com um sorriso que Percy julgou ser o mais lindo das mulheres. Claro que talvez não tanto quanto o de Annabeth.
–Eu o descobri há alguns dias atrás, apenas. –Percy respondeu. –Fico feliz em ser o primeiro a te trazer aqui.
Sofia sorriu novamente para ele, e Percy percebeu que talvez estivesse se dando bem pela primeira vez com uma garota sem fazer nenhum esforço desnecessário.
–É uma pena que falte apenas três dias para eu deixar a Bulgária. –Percy comentou.
–É, eu também terei que ir embora nesse meio tempo. Tem um evento muito renomado em Paris para os maiores cientistas mundiais. –Sofia falou e franziu o cenho logo em seguida. –É estranho você não ter sido convidado, já que você esteve na conferência na Holanda onde apresentou seu projeto do coquetel anti HIV.
Percy mais uma vez ficou impressionado pela moça ser tão bem informada sobre ele. Será que ele tinha conquistado alguns fãs? Ele afastou esse egocentrismo da cabeça e revirou lembranças na sua mente. Voltou mentalmente até o seu apartamento em Nova York e relembrou de uma carta jogada e ignorada no chão, ao lado da estante da televisão. Na época que ele havia recebido, um mês antes de começarem a missão, ele havia até ponderado ir, mas logo se esqueceu do tão sofisticado convite.
–Hã, na verdade, eu acho que fui convidado sim. –disse Percy. –Só tinha me esquecido que fui.
–Ah, então, isso significa que vamos nos ver daqui a uns dias? –perguntou Sofia esperançosa.
–Olha, eu não sei ainda se vou, sabe? –Percy coçou a nuca e a olhou nos olhos novamente. Mas quando viu a expressão de decepção em seu rosto, ele logo acrescentou: — Mas eu vou fazer o possível para ir, pode ter certeza!
E então ela abriu aquele sorriso cativante novamente. Eles ficaram conversando por um tempo, a cada palavra dita Sofia chegava o corpo para mais perto do seu e ele não se afastava. Ele gostava de conversar com ela, mas aquela sensação de que tinha alguma coisa errada voltou a batucar insistentemente dentro de si. Ele entendeu o quê era.
Sofia podia ser bonita, perspicaz e inteligente. Mas faltava algo nela. Talvez fosse um pouco de ironia no falar, ou até mesmo uma alfinetada, talvez fosse o sorriso dela, que não parecia correto. Era sempre esse mesmo maldito problema, as mulheres nunca eram boas o suficiente para Percy, por mais que elas fossem boas para o resto do mundo. E ele sabia por que: nenhuma delas era Annabeth. Fora isso que Rachel tinha dito quando terminaram: que ele não sabia dar valor a ela e nunca iria saber dar valor a nenhuma outra mulher porque ele estava procurando alguém como Annabeth. Fora isso que o ocasionara ter terminado com as suas outras namoradas.
Só que eis uma questão mais difícil ainda: ele não sabia o que de fato sentia por Annabeth,ele sabia que poderia ser apenas uma paixão ou algo do tipo, amor não era. Desesperador? Talvez um pouco. Mas ele finalmente tinha percebido que estava louco e em conflito consigo mesmo. Ele sentia algo por ela, só não sabia o quê eu era ainda.
–E aquele problema com a sua amiga há alguns dias atrás, conseguiu resolver? –Sofia perguntou tirando-o de seus pensamentos.
–Hã, que amiga e que problema?
–A amiga pra quem você estava comprando chocolates no outro dia. –Sofia deu uma risada empolgada. –Ás vezes você é um pouco...
–Lerdo, lento e qualquer outra coisa relacionado a atraso mental. Sim, eu sei. –Percy completou e deu uma gargalhada também. –Sim, está tudo bem entre mim e ela, sim.
–E vocês não têm nada juntos mesmo, não é?
–Não, já disse que não. –Percy sorriu gentil para ela. –Somos só amigos, como já te expliquei.
Aquilo pareceu uma deixa para que ela o beijasse, e assim ela fez. Percy pensou ter visto os olhos delas se desviarem um pouco para um ponto atrás dele, mas quando ele ia se virar para ver o que era, ela o puxou e juntos seus lábios. Ela beijava bem, ele não podia negar, mas depois que se beija tanto tempo Annabeth Chase, é difícil se acostumar com qualquer outro beijo. Sofia o abraçou mais contra ela, mas Percy não estava gostando daquilo, não dá forma que pensou que gostaria. Ele sentia que estava terrivelmente errado em ficar com outra garota quando também estava ficando com Annabeth.
Mas que merda estava acontecendo com ele?
Percy segurou os braços de Sofia delicadamente e afastou de si. Ela o olhou incrédula e talvez até um pouco decepcionada. Percy deu um sorriso de lado e beijou-lhe a testa.
–Olha, Sofia, eu não posso fazer isso. –Percy sussurrou para ela.
–Você gosta dela, não é? Não tente negar, dá pra ver quando você fala dela. –Sofia respondeu no mesmo tom de voz.
–Eu não sei o que é. Te juro que não sei. –Percy pegou um das mãos dela e beijou. –Eu vou indo para casa, preciso arrumar minhas malas para ir embora. Quer que eu te acompanhe até a sua casa?
–Não, não, não precisa. –Ela disse um pouco rápida e nervosa demais, fazendo Percy ficar desconfiado por um momento. Mas logo ela percebeu isso e suavizou a fala: — É que eu não quero te incomodar. E você precisa de um tempo pra pensar.
Ela encostou seus lábios de leve nos dele e deu um sorriso final.
–Nos vemos em Paris, Percy. –ela se despediu.
Percy ficou escorado nas amuradas do local e ficou olhando Sofia caminhar até o final da colina. Quando já não se dava mais para vê-la, Percy apoiou os cotovelos na amurada, abaixou a cabeça e entrelaçou as mãos atrás dela.
–O quê está acontecendo comigo? – ele murmurou para si mesmo.
[...]
Talvez o dia melhorasse para Percy e era essa a esperança que o motivava a voltar para o barco de seu pai com um sorriso no rosto. As coisas sempre podem melhorar, certo? Errado. E ele teve certeza disso ao entrar na pequena sala do barco e ver seu pai de braços cruzados com uma expressão preocupada, quase amedrontada, no rosto. Percy inspirou pesadamente e fez a pergunta que o estava incomodando:
–O quê houve, Pai? Que merda você fez dessa vez?
Poseidon virou o rosto tão lentamente na direção de Percy, que ele pensou que estava em um daqueles filmes de terror em que a pessoa fica possuída e que seu pescoço gira a 360°graus.
–O quê eu fiz? –Poseidon se levantou e andou calmamente até Percy. – Sua garota chegou aqui chorando e perguntando sobre você e sobre matérias suas em jornais. Eu tenho quase certeza de que eu não fiz nada. E sim você.
–Chorando? Mas eu... Eu não fiz nada, pai, juro. –Percy retrucou, começando a ficar preocupado. –Eu vou lá em cima falar com ela.
–É melhor ir preparado, ouviu? –Poseidon voltou a se deitar no sofá. –Pelos aranhões que aparecem no seu braço toda manhã, dá pra perceber que a garota é raivosa.
Percy revirou os olhos, petulância era uma palavra que descrevia diariamente o seu pai. Ele subiu a pequena escada, degrau por degrau, rezando para qualquer divindade que existisse que o problema de Annabeth não fosse ele. Ele se lembrada de quando eram mais novos, se lembrava também de como ela ficava quando era ele o problema e se lembrava também de quê era melhor falar mansinho com ela. Até fazer cara de inocente estava valendo.
–Annabeth? –Percy a chamou enquanto dava leves batidas na porta.
–Pode entrar. –ela respondeu.
Quando Percy entrou no quarto quase sentiu uma nostalgia quando viu aquele monte de papéis jogados em cima da pequena escrivaninha. Annabeth estava sentada na cadeira e a única coisa que ela fazia era sublinhar algumas palavras, diferentemente de Percy que quando estava com estava com um monte de papéis na mão seu único impulso era escrever compulsivamente.
–Uau, esse lugar aqui está parecendo meu laboratório. –ele comentou, se lembrando de sua antiga rotina enquanto caminhava e ficava parado ao lado dela.
–Eu não costumo fazer bagunça. –Annabeth sorriu de lado e encarou Percy, que estava agachado ao lado dela e também estava a olhando. –Tudo bem, digamos que de vez em quando eu sou muito bagunceira, sim.
Eles riram um pro outro. Percy começou a ficar mais relaxado e pegou na mão direita dela, impossibilitando-a de escrever. Ele depositou um beijo suave nas costas da mão dela e entrelaçou seus dedos. Era estranho fazer aquilo, porque ele sentia pequenas ondas elétricas percorrer seu corpo. Os olhos cinza de Annabeth ficaram agitados com a demonstração de carinho.
–Meu pai disse que era pra eu entrar aqui preparado para uma possível choradeira ou uma crise de histeria, mas você me parece bem normal. –Percy disse.
–Ah, é. Ele me viu chorando quando eu cheguei. –Annabeth colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha como sempre faz quando está nervosa.
–E porque estava chorando? –Percy perguntou.
–Apenas... Saudades de casa, dos meus pais, do meu irmão. Essas coisas.
Percy assentiu, era uma bela desculpa para se estar chorando. Ele mesmo não se continha de saudade da mãe e de Hazel, a melhor amiga que ele tinha deixado do outro lado do Atlântico. Porém, ele sabia e muito bem que não era por isso que Annabeth estava chorando. Ela sempre fora uma ótima mentirosa para o resto do mundo, mas ele sempre soube reconhecer que a voz dela ficava um pouco trêmula quando ela mentia.
Ele preferiu não comentar nada. Annabeth suspirou e o olhou de uma forma inquisitória.
–Eu não devia estar contando isso para você. –ela se levantou e começou a andar pelo quarto. –Mas eu não consigo pensar em outra forma de saber a não ser te perguntando. Percy, você conheceu alguma pessoa com o nome “Gorbochov” enquanto esteve aqui?
–Hã, sim, conheci. –Percy disse ficando em pé também e olhando para os próprios pés – É o sobrenome de Sofia, a garota com quem eu estava saindo.
–Espera, Gorbochov é essa mulher? –Annabeth colocou as mãos no rosto. –Droga, e eu pensando que ela apenas trabalhava para ele. –ela andou até Percy e o encarou com os olhos faiscando de raiva, ele só não sabia se era dele ou da mulher. – Como você ainda está vivo? Ela teve a oportunidade perfeita para matá-lo.
–Annabeth, do quê é que você está falando?
Ela finalmente parou de andar de um lado para o outro e o encarou. Ela estava com os olhos vermelhos e pela primeira vez Percy percebeu que o maior medo de Annabeth não era falhar na missão, mas sim perdê-lo.
–Nos documentos que recebi de agentes responsáveis pela nossa segurança, o nome Gorbochov aparecia sempre como uma ameaça. A princípio eu pensei que essa Sofia estava trabalhando para essa pessoa, mas pelo visto ela é a líder da equipe.
–Que equipe? –Percy perguntou e logo após se sentou na cama. Ele estava atônito, esteve tão perto do perigo naquele dia e nem ao menos tinha se dado conta.
–A equipe especial dos vermelhos cuja missão é exclusivamente te sequestrar, roubar todas suas informações que poderiam conter a cura do vírus e depois te matar. Na verdade, eu acho que foi por isso que ela não fez nada com você hoje pela manhã. Você estava sem a sua caderneta de anotações e eles não podem te matar sem antes acharem o que você anda escrevendo lá.
Percy soltou todo o ar que prendia de uma vez só. Annabeth se sentou do lado dele e segurou uma de suas mãos, como ele tinha feito com ela há alguns minutos atrás.
–Nem mesmo pra visitar meu pai eu tenho um pouco de paz. –ele sussurrou.
–Nós não vamos ter paz enquanto não terminarmos essa missão. –Annabeth brincou com os dedos da mão dele. –Agora me conta, ela te disse algo que você julga ser importante?
–Bem, ela me falou sobre um evento em paris. Acho que é daqui a três ou quatro dias. –Percy respondeu.
Annabeth permaneceu em silêncio enquanto Percy contava os detalhes sobre o que parecia ser um jantar de gala e entrega de alguns prêmios. Quando ele terminou de contar tudo, Annabeth o olhou como se estivesse com pena de dizer algo a ele.
–Percy, eu sinto muito, mas se despeça do seu pai e arrume as malas o mais rápido que puder. –ela disse.
–Mas ainda temos dois dias aqui, não é?
–Tínhamos mais dois dias aqui. Mas agora, eles nos descobriram. É perigo ficarmos, sem falar que podemos sem querer colocar a vida do seu pai em risco também. –Annabeth o fitou novamente, os olhos cinza entrando em uma tempestade irremediável. –Nós não vamos para Paris daqui a dois dias... Nós vamos para Paris agora.
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