The Scape

1 Prólogo: A primeira fuga.


Notas iniciais
"Longa viagem começa por um passo." - Provérbio Chines

O som era alto e ensurdecedor. As sirenes indicavam problemas, e era possível ouvi-las de todo o prédio. Ele estava sozinho quando o barulho tormentoso começou a penetrar seus ouvidos. A princípio sentiu-se confuso com a situação, a sirene nunca havia tocado em vinte anos, sequer lembrava-se do treinamento de segurança e não sabia o que fazer.

O alarme da sirene começava a misturar-se com o som dos passos apressados do lado de fora. Só então o homem, já grisalho, retomou os sentidos e seu corpo o alertou de que precisava sair dali.

Andou a passos apressados até a porta preta que, apesar de grande, mal se destacava perante a magnitude da sala. Mas detalhes como estes eram dispensáveis àquele momento de tensão. A porta não possuía maçanetas, assim como quase todas as outras no prédio, era acionada através de uma senha, pelo dispositivo ao seu lado.

Já angustiado, digitou a senha rapidamente e em seguida colocou seu dedo no leitor digital. A porta começou a abrir. Pela fresta que se abria, conseguia ver as pessoas correndo nervosas para todos os lados. Gritavam angustiadas, seus olhos expressavam medo. A luz vermelha das sirenes iluminava o corredor agora muito mais escuro que de costume. Aqueles segundos pareciam horas e a porta parecia abrir mais devagar do que nunca.

A porta não se abrira por inteiro, mas assim que houve espaço suficiente para a passagem do seu corpo largo e pesado, o Diretor não exitou em sair correndo junto aos funcionários assustados.

Não havia perigo aparente, nenhum sinal de fumaça, desmoronamento, tremores, alguma substância química, cheiro forte, nada. Sem entender o que acontecia, o Diretor parou de correr e olhou ao redor, as pessoas fugiam na mesma direção e algumas tentavam se esconder.

O som da sirene aumentava cada vez mais, e a correria também, ao avistar uma de suas colegas de trabalho abaixada na sala de pesquisa, lutou para atravessar o corredor entre as pessoas desesperadas até alcançá-la.

“HELENA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO?” Gritou na tentativa de ultrapassar o som da sirene.

“O QUE DISSE?” Respondeu.

“O QUE ESTÁ ACONTECENDO?” Gritou novamente, mas no exato instante as sirenes cessaram e houve um apagão. A luz de emergência se acendeu. Poucas lâmpadas ainda funcionavam, somente uma estava acesa no laboratório de pesquisa 03A. Bem acima da porta de entrada.

O coração do diretor batia forte. Pôde sentir as gotas de suor escorrerem em sua testa e a umidade em suas mãos. Sorrateiramente abaixou-se ao lado de Helena.

“O que…está acontecendo…?” Falou exitante.

Helena arfava. Sua perna estava ensanguentada, detalhe que o Diretor apenas notou quando se aproximou o suficiente da mulher. Uma pequena parte de sua panturrilha estava machucada, não existia mais pele, o sangue escuro até chegar ao pé. A carne estava exposta. Parecia marca de bala.

“O bebê…Ela teve o bebê…” Helena apoiava uma das mãos no chão enquanto a outra segurava a perna. Não havia uma lágrima sequer em seus olhos, mas a dor era nítida.

A cientista era uma das poucas pessoas, selecionadas minuciosamente pelo próprio diretor, que estava envolvida e sabia sobre a criança. Soube então o motivo do desespero.

“Não…Mas ainda falta um mês para a data prevista! Ela não…Droga” Os olhos do Diretor estavam arregalados. No primeiro instante sentiu-se esvair, anos de pesquisa perdidos, pilhas de dinheiro jogadas fora e agora a culpa pela vida de uma criança inocente. Ele havia planejado uma forma de evitar todo esse caos, mas não contava com um acontecimento como aquele. Durante sete meses sabia o que aconteceria, mas não teve fé, até que o momento chegara. Colocou uma das mãos no peito e sentou-se ainda perdido em pensamentos.

Não faz sentido! Pensou o diretor. Eu mesmo não sabia do nascimento até agora, como…Como ele soube? Foi tudo rápido demais.

Quando pensou em falar sobre isso com Helena, um estridente som ecoou pelo corredor. Tiros. O som não era isolado, era contínuo. Alguém está usando uma arma muito potente e a está usando para tirar vidas inocentes.Pensou sentindo pesar o coração.

O Diretor recobrou os sentidos e saindo do transe percebeu que precisava fazer alguma coisa.

“Temos que sair daqui. Vem, eu te ajudo.” O Diretor levantou e, com cuidado, tentou ajudar Helena a ficar de pé. Ele sabia que não conseguiria carregá-la no colo ou nas costas, mas podia servir de apoio.

Com muita dificuldade, conseguiram chegar até metade da sala. Foi quando uma figura surgiu em meio ao breu do corredor.

Sob a iluminação fraca da lâmpada roxa de emergência acima da porta, uma figura se aproximava. Primeiro as botas pesadas, depois a roupa preta, a arma e então a máscara. Feita de madeira, era cheia de detalhes artísticos, coloridos e um pouco assustadores. Uma máscara chinesa. Logo reconheceu, o diretor. Quando era ainda criança, morava em Kowloon Tong, uma cidade da classe alta chinesa, e sempre via em festivais as famosas máscaras, mas sempre sentia medo. Lembrava-se nitidamente de seu pai, com seu jeito frio e distante, seu olhar de reprovação e vergonha por ver seu filho chorar diante da cultura que ele tanto prezava.

Paralisados pelo medo, nem Helena, nem o Diretor ousaram dizer uma palavra sequer, ou até mesmo fazer qualquer movimento.

“Finalmente encontrei você.” – A voz era grossa e rouca. Fez com que os pelos do corpo de Helena se arrepiassem, a mulher sentiu frio na espinha e por um breve momento sentiu o impulso de correr, mesmo com a perna debilitada, assim como fizera ao levar o tiro. Mesmo que, novamente, fosse tomada pela adrenalina e quisesse correr, não conseguiria escapar, o homem estava em pé bloqueando a única saída do local. Não podia usar a janela, pois, mesmo que ele não atirasse, ela não teria como sobreviver à queda.

Na mente do Diretor algo totalmente diferente tomava seus pensamentos naquele momento. As informações. Ele as perderia por completo, se caísse nas mãos daquele sujeito, estaria tudo acabado.

“Diretor Wang, você tem uma coisa que eu quero. Você vem comigo.” A voz por trás da máscara era abafada e autoritária.

Espera, ele não sabe onde encontrar os arquivos. Somente duas pessoas tem a chave, se Will seguir o plano…Talvez ainda tenha uma chance….

“Não. Você não conseguir nada.” Enfrentou-o olhando com coragem para o lugar onde deviam estar os olhos do homem.

“Ou você vem, ou os dois morrem.”

Naquele momento o coração da mulher acelerou. O terror correu por suas veias e seus olhos, que antes não derramavam uma lágrima, agora transbordavam. Como um flash, várias imagens passaram na mente de Helena. O momento em que ela tivera sua primeira filha, foi o que mais lhe doeu. Sophie era um milagre, a cientista já tinha 39 anos quando conseguiu engravidar pela primeira vez.

A princípio, Helena não queria ter filhos por causa do trabalho, tinha acabado de conseguir uma vaga como estagiária na grande corporação para a qual ainda trabalhava. Mas alguns anos depois, já em um cargo alto na empresa, sentiu que era a hora de ter seu bebê. Junto ao marido, planejaram tudo para que seu filho viesse ao mundo. Mas acabou descobrindo, através de um exame médico, que não poderia gerar uma criança, por complicações no útero.

Passou por difíceis anos de depressão. Até que, inesperadamente, sentiu o sopro de vida cair sobre si e sem acreditar, pôde dar a luz à uma menina. Helena não era religiosa, mas tinha certeza de que aquele era um milagre divino em sua vida.

Os momentos com a filha e o marido passavam em sua mente. Ela não queria morrer. Mal aproveitara sua pequena Sophie. Respirou fundo e implorou ao homem que não os matassem.

“Não há motivos para matar Helena.” Disse Wang exasperado. “Ela não sabe e nem fez nada. Deixe-a ir.” Ele não sabe de Will, não pode me matar, mas talvez queira levar Helena como refém.

O Diretor não podia fugir e não podia ir com eles. Ele precisava ficar e as informações precisavam ficar com ele. Olhou ao redor e encontrou algo iluminado pela fraca luz roxa. Próximo a eles, avistou uma mesa com uma tesoura pontiaguda. Deve servir…Pensou.

Naquele momento Wang estava tenso e nervoso, mas sabia que era preciso fazer aquilo. Não tinha certeza se após seu ato, o assassino faria o que ele imaginava, mas se não o fizesse, as chances de mais vidas inocentes serem massacradas, era maior. E Helena não podia ser feita refém.

Se eu morrer…O que ele quer vai embora comigo. Will vai salvar a criança…Eu sei que vai…É a única chance que temos…

O Diretor desprendeu-se de Helena e deixou ela cair no chão. Com as mãos para o alto começou a caminhar na direção do homem de máscara, como se estivesse decidido a render-se e ir com ele.

Faltavam poucos passos até chegar a porta onde o assassino estava, apontando a arma para o Diretor, quando Wang correu até a mesa e pegou a tesoura. O homem atirou em suas duas pernas começou a caminhar na direção de Wang a passos rápidos, mas antes que pudesse alcança-lo, o corpo largo e grotesco do Diretor, já estava morto. Havia quatro buracos de bala em suas pernas, três na direita e um na esquerda, e uma tesoura cravada em seu pescoço.

O homem grunhiu alto e com raiva. Helena estava assustada e em choque com a cena que acabara de presenciar. Não conseguiu se mover. Não sentia mais dor, estava tomada por adrenalina e náuseas. As lágrimas cessaram e ela vomitou no chão do laboratório de pesquisa.

“Você…” o Homem disse em voz baixa. A sala ganhou um ar gélido.

Com raiva, o assassino despejou rajadas de tiro sobre a mulher inocente. Helena não teve tempo de sentir dor, pois várias balas atravessaram seu coração e sua cabeça.

Caída em meio ao vomito, Helena tornou-se mais uma vítima na cena daquele crime.

…

"Will, você está com a criança?"

"Sim, Marie. Já estamos bem longe do laboratório. A chave está comigo também."

"Ótimo. Fuja e termine seu trabalho."

Will desligou o telefone e acelerou ainda mais o carro pela estrada. O que estava fazendo era perigoso, mas era seu trabalho e a vida de uma criança inocente em jogo.

"Pequena Wei...Parece que seremos só eu e você por um bom tempo..."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.