The Same

6 Uma lembrança do passado


Notas iniciais
Oi! Desculpe o atraso, mas o capítulo é maior! Bjs ♥

Maggie gritava com a florista a respeito dos arranjos do seu casamento e eu ficava entre as outras madrinhas olhando o surto de minha irmã. Cassie, uma amiga de infância, tentava disfarçar sua indignação com a atitude de Maggie. Eu bebia meu champanhe e ria internamente pelo vexame. Aparentemente os arranjos para o jantar pré-casamento estavam trocados. Seriam rosas amarelas, mas a floricultura mandara rosas brancas. Faltavam pouco mais de 10 horas para o jantar e Maggie e minha mãe corriam para ajeitar os detalhes. O casamento seria em uma semana em um hotel de luxo. Eu teria que vestir um vestido verde oliva que me deixava desproporcional, mas tirando isso, era bom ver que os planos de Maggie estavam dando errado. No fundo do meu coração eu esperava que as flores continuassem trocadas, para quem sabe ela aprender uma lição.

Maggie voltou bufando para a mesa e tomou um gole de champanhe.

— Não beba tanto — Cassie falou com um sorriso controlado —Não vai querer parecer bêbada no seu jantar.

—Esses incompetentes — Maggie falou exaltada — Trocam minhas flores e ainda dizem que eu tenho que aceitar.

— É um absurdo mesmo, nós pagamos os salários deles e ainda temos que ver essa má vontade — falou uma amiga rica de Maggie, Sonia.

— Se Maggie se contentasse com as rosas brancas nada disso seria problema — exclamei.

— Ah tá bom — minha irmã voltou a se irritar — Meu casamento não vai ser um fiasco. Mesmo com esse meu mau olhado, Molly!

Me ofendi.

— Mau olhado? Por que eu teria? Você só está se casando para que Robert tenha uma boa imagem para os eleitores — todas as quatro madrinhas me olharam perplexas.

— Robert me ama! Você nunca vai saber o que é isso Molly. Vai morrer sozinha com seus homens de uma noite só. Nunca namorou ou soube o que é ter alguém que quer o seu bem. Só vive de aparências! — Maggie levantou e apontou um dedo para mim. Papai apareceu no jardim de nossa casa correndo — Não coloque em mim a culpa de você ser uma fracassada. Nossos pais quase faliram por sua causa!

— Você se acha a melhor, não é Maggie? Pois seja feliz com esse seu casamento por conveniência! — levantei da mesa e fui em direção a saída, passando por meu pai paralisado — E fique sabendo que minha vida sexual sempre vai ser melhor que a sua. Aproveite o casamento, porquinha!

Maggie gritou e jogou uma taça em minha direção, mas passou bem longe. Entrei em minha casa e fui até meu antigo quarto pegar minhas coisas, não ficaria ali. Maggie gritava no jardim, ela estava mais irritada porque eu a chamei pelo seu apelido na época do colégio. Minha irmã era um pouco acima do peso e ficava vermelha sempre que ia a pé para a escola, os garotos riam dela e a chamavam de porquinha. Na época eu era muito pequena para saber, mas anos mais tarde, quando beijei uns garotos mais velhos fiquei sabendo que eu era a “irmã bonita da porquinha”. Aquilo me chateou muito e eu nunca contei a Maggie que sabia daquele apelido, até hoje.

— Molly — papai entrou no quarto — Não vá embora! Sua irmã vai ficar muito triste se você não estiver lá.

— Não posso participar disso! Ela quer me colocar para baixo, joga em minha cara o passado que eu só quero esquecer.

— Ela está nervosa.

— Vou para casa e volto depois — respondi colocando minha bolsa nos ombros.

Meu pai me deixou passar pela porta e eu saí da casa. No fundo todos ali se lembravam do meu passado, eu não era uma santa. Era um pouco injusto eu ter que ouvir ofensas de algo que acontecera há muitos anos.

Entrei em meu carro e segui pela estrada ao som de Ride da Lana Del Rey.

~~~

Cheguei em casa e me joguei no sofá. Brigar com Maggie só servia para acabar com meu alto astral. Ela sempre conseguia fazer minha vida parecer um lixo, mas eu era feliz, apesar de tudo eu era feliz.

Não havia com quem conversar, Mely certamente estaria ocupada. E naquela cidade ela era a única em quem eu confiava para reclamar da vida. Levantei do sofá e fui para a cozinha, no fundo da geladeira estava uma lata de cerveja, peguei-a e a abri. O gole do liquido amargo fez com que eu me sentisse melhor.

Meu celular tocou no fundo de minha bolsa. Fui até ele e vi o número desconhecido na tela, eu não gostava de atender quem eu não conhecia, mas dessa vez não me importei. A voz do outro lado da linha era minha conhecida.

— O que você quer Mike? — perguntei irritada com a voz dele.

— Calma aí! Só queria te chamar para sair...

— Não estou em um bom dia — respondi amarga.

— Então vamos sair para você se divertir — Mike falou brincalhão — Prometo fazer apenas o que você quiser.

— Eu quero beber — falei.

— Então vamos beber — ele falou animado — Me passa seu endereço?

Passei meu endereço a ele e trinta minutos depois Mike estava na portaria do meu prédio me esperando. Eu coloquei o vestido que teria que usar no jantar de Maggie, um longo cor de creme. Meu cabelo estava solto de uma forma rebelde, como se eu tivesse fugido de uma festa chique — o que não era mentira —, e a maquiagem estava bem leve. Assim que a porta do elevador se abriu, encontrei os olhos de Mike. Ele estava usando um jeans escuro e uma blusa preta desbotada com a estampa de alguma banda que eu não conhecia.

—Uau — ele falou com um sorriso brincalhão —Eu ia te levar em um bar decadente da cena underground, mas acho melhor te levar para jantar.

— De jeito nenhum — protestei dando tapinhas no ombro dele — Vamos para o bar.

Eu sorri e fomos para o carro. Um carro esportivo que era a cara dele. No som tocava Sweet Dreams na voz de Marilyn Manson.

— Você quer falar sobre o que está acontecendo? — Mike perguntou atencioso.

— Não agora —respondi olhando para a janela.

Ele assentiu e continuou a prestar atenção na rua. Dez minutos depois estávamos estacionando em um bar. Mike desceu e eu fui atrás. Ele segurou minha mão e entramos. O lugar era muito diferente do que eu poderia imaginar. Primeiro porque eu era a única mulher do local e assim que entrei as dezenas de homens me observaram, mas quando olharam para Mike viraram o rosto como se não pudessem mais olhar para mim. Alguns caras cumprimentaram Mike e mesmo sendo muito novo, Mike agia como se já frequentasse aquele lugar há anos. Sentamos no balcão e o barman veio nos atender.

— Olha quem está de volta — o homem falou animado — Mike, o encrenqueiro! E você, quem é?

O homem apontou para mim.

—Eu sou a Molly — respondi.

— Viemos beber, Ryan! — Mike falou sorrindo.

— Isso — falei a vontade.

— Então vamos começar com a especialidade da casa —Ryan disse virando para buscar as bebidas.

Minutos depois uma bebida vermelha estava em minha frente. Provei e senti minha boca arder.

— Você colocou pimenta? — perguntei rindo. Ryan concordou.

—Estamos no recanto dos drinks, Molly — Mike falou — Ryan inventa um drink para cada cliente.

— E porque a pimenta? —perguntei a Ryan.

— Porque você é quente — ele falou e eu caí na gargalhada.

— Vamos parar com as brincadeiras, Ryan — Mike fingiu estar irritado — Eu quero uma coca cola.

Olhei para Mike sem entender. Ele não iria beber?

— Preciso dirigir em segurança — Mike respondeu convicto.

Ryan trouxe mais drinks para mim. Eu bebia todos com animação. Em algum momento eu estava jogando sinuca com Mike e alguns homens. Eu era boa na sinuca. Em outro momento estava dançando em cima de uma mesa e apesar de haver muitos homens naquele bar, eu olhava para Mike.

Mike e eu sentamos novamente no balcão. Eu já não bebia. Estávamos apenas conversando como velhos amigos, embora eu não pudesse controlar o que saia de minha boca por causa do álcool. Fomos interrompidos quando meu celular tocou. A foto da minha melhor amiga apareceu na tela. Mike viu e me olhou atento. Fiz que não ia atender, mas ele pegou o celular da minha mão. Ele atendeu e deve ter escutado muitas coisas de Amelia, sua expressão leve dava lugar a uma de inquietação. Assim que ele desligou eu gritei:

— Você não devia ter atendido!

— Hoje é o jantar de casamento da sua irmã, isso explica o vestido — ele falou olhando para meu vestido que estava amassado.

— E eu não vou — falei indiferente.

—Você não pode deixar sua irmã na mão em um dia tão importante — ele me repreendeu.

— Você não conhece a Maggie.

— Vou conhece-la agora — ele puxou minha mão e saímos do bar.

Mike me colocou no carro e me obrigou a falar onde meus pais moraram. Depois ele pegou a estrada em silêncio. Minha cabeça girava, eu não estava bêbada o suficiente para desmaiar, mas nem sóbria para se comportar no jantar da minha irmã.

—Acho que a Maggie prefere que eu não vá — falei depois de um longo período de silêncio.

— Amelia parecia preocupada ao telefone — Mike falou olhando rapidamente para mim — Acho que sua irmã quer sim sua presença.

Eu ri.

—Por que você se importa? Não vou deixar você me levar para a cama só porque está bancando o responsável.

Ele me olhou de uma forma intimidante.

—Não acho legal brigar com a família — ele falou melancólico.

Ficamos mais um tempo em silêncio, até que eu indiquei onde era minha casa. Ele destravou a porta e eu desci. Caminhamos até a porta da casa da minha infância.

— Vou te deixar aqui — ele falou baixo. Sua mão estava em meu rosto. Minha boca se abriu quando ele se aproximou devagar. Fechei os olhos esperando seu contato, mas fomos surpreendidos com a voz de minha mãe.

— Você chegou — Minha mãe falou, olhando para Mike e eu — Quem é o senhor?

— Mãe... — tentei falar algo, mas Mike não deixou.

— Sra. Smith, meu nome é Mike Olivier, sou amigo de sua filha — ele estendeu a mão para minha mãe.

— Ah Mike, muito prazer. Pode me chamar de Susan! — minha mãe apertou a mão dele e nos mandou entrar — Estão todos no jardim.

Minha mãe foi para a cozinha e eu olhei para Mike.

— Isso não é uma boa ideia — falei para Mike.

— Isso não é uma ideia — ele me corrigiu — Sou seu amigo.

— Molly! — Amelia correu para me abraçar — Que história é essa?

Amelia olhou para Mike com um olhar inquisidor.

— Estou bem — respondi.

— Você bebeu? — Mely observou — Vamos lá para cima, não vamos deixar Maggie te ver assim. Mike, Tom está sentando em uma das mesas no jardim.

Mike entendeu o recado e foi procurar o amigo, mas antes ele piscou para mim.

Mely e eu fomos para meu antigo quarto. Lá ela abriu umas gavetas e tirou uma escova de cabelo. Sentei na cama e ela começou a juntar meu cabelo em um coque. Depois ela abriu sua bolsa que estava em meu quarto e tirou um batom rosa claro.

— Está melhor — ela falou para mim — Que ideia foi essa de ir beber logo hoje?

— Eu não queria vir.

— Claro que não — Mely revirou os olhos — Vamos descer.

Minha amiga segurou minha mão e fomos em direção ao jardim que estava ridicularmente arrumado. Minha chegada não chamou a atenção de ninguém, por sorte. Eu sentei na mesma mesa que minhas primas. Há três mesas de distância, Mike, Tom, Amelia e sua mãe estavam sentados. Eu olhei eles com um olhar sofredor.

— Por que chegou atrasada? — Maggie apareceu do nada para me perguntar — E por que seu vestido está amassado?

— Estou aqui, não estou? — falei irritada.

— Você está bêbada? Não acredito que você fez isso Molly! — Maggie falou baixo, mas seu tom era de raiva.

Levantei da mesa e fui em direção a Mely. Puxei uma cadeira de alguma mesa e me sentei ao lado da minha amiga.

— Não vou conseguir me segurar se ela vir falar comigo de novo — falei para todos da mesa. A mãe de Mely sorriu como se quisesse me acalmar.

— Só mais um pouco, aí você vai embora — Mely falou me abraçando.

— Qual é a de vocês duas? — Mike perguntou para mim — Vocês brigam assim desde criança?

Eu não queria responder. Falar sobre isso me lembrava de seis anos antes.

— Champanhe? — um garçom perguntou e eu logo peguei uma taça.

— Não beba mais — Mely me advertiu.

Tomei a bebida. Tom e Mely começaram a conversar. E Mike apenas me observava. Eu era louca mesmo.

— Molly Smith — uma voz conhecida me chamou e eu virei o rosto com um sorriso no rosto.

— Morgan — corri para abraçar meu amigo— Meu Deus, quanto tempo!

—Você está do mesmo jeito — Morgan continuou me abraçando e quando ele me soltou caímos na gargalhada.

— Este é o Morgan, meu amigo — falei para todos na mesa, que nos olhava sem entender a situação.

— Amigo é o que você se torna depois de namorar essa moça por dois anos — Morgan falou ainda com a mão na minha cintura.

Mike se remexeu na cadeira. Mely se levantou para cumprimentar meu ex namorado. Tom e Mike o cumprimentaram de longe e a mãe de Amelia o abraçou.

— Nós saímos por dois anos — eu o corrigi bem humorada — Nunca pensei que você viria hoje.

Antes de ser meu namorado, Morgan era a grande paixão de Maggie. Minha irmã passou anos apaixonada por ele, mas no fim era comigo que Morgan queria ficar. Ele tinha 30 anos, era dez centímetros mais alto que eu, era musculoso e possuía um sorriso que faria qualquer mulher ficar de quatro.

— Susan me mandou um convite — Morgan falou —Sai do escritório e vim correndo para cá, é bom voltar a essa casa.

Morgan trabalhava como diretor de marketing em uma indústria automobilística, eu não o via há bastante tempo e era estranho está tão perto do cara que fez eu esquecer meu passado por mais tempo.

— Sente-se com a gente —falei buscando uma cadeira em outra mesa para ele. No fim eu estava sentada entre Mike e Morgan, os dois me observavam como homens da caverna, eu só estava esperando para ver qual seria o primeiro a me puxar dali.

—Você ainda mora na cidade? — Morgan perguntou muito interessado. Eu observei seus lábios quando ele bebeu um pouco do champanhe.

—Não, estou morando na capital — falei e contei como foram os anos depois que ele saiu da cidade.

Tom e Mely já estavam conversando sobre outros assuntos. E a mãe de minha amiga saiu da mesa para falar com outros convidados, por esse motivo Mike ficou prestando atenção em cada palavra que eu falava.

—Você sabe que eu trabalho com marketing —Morgan falou sorrindo — Estamos precisando de modelos lindas como você... Se você me passar seu número novo, acho que posso entrar em contato.

Fiquei alguns segundo sorrindo. Morgan ainda estava interessado em mim, e, diga-se de passagem, ele era um ótimo pretendente.

— Ela tem um contrato de um ano com a minha gravadora, acho que é exclusivo, não é? — Mike me encarou impaciente.

—É... — respondi rápido — Mas vou te passar meu número, podemos tomar um drink.

Morgan sorriu e segurou minha mão com ternura.

— Senti falta dessa sua determinação — ele falou e Mike levantou bufando da mesa —Acho que seu amigo não gostou de mim.

—Vou falar com ele — eu disse a Morgan me libertando de sua mão grande.

Notas finais
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