The Same
3 Episódio do Restaurante
Notas iniciais
Meu carro ficou pronto e logo pela manhã eu fui pegá-lo. Paguei o mecânico com o resto do dinheiro de um cachê, minhas mãos fraquejaram ao entregar o dinheiro para o caixa, mas pelo menos meu carro estava bem. Assim que entrei em meu chevette senti a presença do meu avô. Ele me colocava sentada em seu colo e me ensinava a dirigir quando eu tinha sete anos. Vovô adorava carros e me passou essa paixão.
Dirigi pensativa até a sede da Sound Records. Antony estava animado para que a banda e eu começássemos o trabalho. Passei pela recepção e a secretária loira e siliconada me levou até uma sala de reuniões. Ela me olhou da cabeça aos pés como se pensasse no que eu estaria fazendo ali. Fiquei incomodada, minha roupa estava coerente com o ambiente — uma calça de tweed cinza, uma blusa de alças estampada com flores e um salto quadrado azul —, meu cabelo ruivo estava preso em um coque lateral que eu fazia sempre que estava com preguiça de lavar o cabelo. A secretária loira parou em frente a uma porta dupla e indicou para que eu entrasse.
— Molly — Antony me saudou.
A banda toda estava sentada em uma grande mesa redonda. Um a um foi se levantando para me cumprimentar. O último foi Mike que beijou minha mão e fez uma piada sobre a minha aparência. Definitivamente aquela roupa estava exagerada demais para uma reunião.
— Obrigada, Mike — falei com um sorriso falso.
Sentamo-nos a mesa e Antony começou a repetir tudo que ele havia me dito no dia anterior. Depois ele me mostrou as estampas das camisetas que eu devia usar quando fosse aos shows e depois deixou com que a banda falasse sobre esse projeto. Todo o dinheiro arrecadado com o leilão das camisas seria destinado a instituições que recebiam crianças abandonadas. Eu fiquei feliz em fazer parte disso e, além do mais, o cachê era bom demais.
— Acho que podemos almoçar — Mike sugeriu a todos.
— Sim — respondi, estava com um pouco de fome.
—Não posso — Brad falou e Alex se juntou a ele.
— Eu tenho que resolver os trâmites legais dessa campanha — Antony falou como se fosse o rei das causas jurídicas. Se Mely ainda fosse advogada da banda ela que teria que fazer todo o trabalho duro.
— E vou almoçar com a minha namorada — Tom piscou para mim — Tenho que aproveitar as férias dela.
— Então somos só você e eu, Molly — Mike soltou um sorriso travesso.
Só você e eu...
A forma como ele disse era bem intima.
— Claro —respondi pegando minha bolsa na cadeira ao lado.
— Está de carro? — ele perguntou.
Confirmei e ele veio andando ao meu lado. As mãos no bolso e assoviando uma dessas músicas pops que sempre tocam no rádio. Passou pela secretária loira e deu um sorriso que fez a mulher quase abrir a camisa social e mostrar os peitos para ele ali mesmo. Revirei os olhos. Eu estava acostumada com o tipo de Mike, o mesmo que acha que as mulheres são como figurinhas para colar em um álbum imaginário.
Cheguei ao meu carro e destranquei as portas. Mike pulou para o banco do passageiro e passou a mão pelo painel.
— Nossa, ele é todo original!
— Sim, é. Meu avô amava esse carro — respondi lembrando-me de meu avô polindo a lataria todo fim de semana com religiosidade — Onde você quer comer?
—Que tal a gente ir a um pub aqui perto? Eles servem uns hambúrgueres deliciosos...
— Bom, não posso exagerar — falei ligando o carro — Eles por um acaso têm uma boa opção de salada?
Mike riu de mim. Dirigi por quinze minutos e estacionei em um lugar pouco convencional de se frequentar durante o dia. Era um pub que com certeza ficaria lotado a noite, mas que naquele horário estava bem vazio. Também não era um pub que um astro do rock frequentaria. Isso fez com que eu encarrasse Mike antes de descer do carro.
A entrada do pub era bem antiga. Uma única porta estreita separava o interior do exterior. Passei primeiro e Mike veio logo atrás, com a sua mão boba na minha cintura. As mesas e cadeiras ocupavam um terço do espaço, eram de madeira antiga, mas brilhavam como se tivesse acabado de ser polidas. O balcão me lembrava de um bar de filme de faroeste. Dezenas de bebidas estavam colocadas em uma estante na parede. O atendente era um homem de uns cinquenta anos, que apesar dos cabelos grisalhos e uma pequena barriga, era bem atraente. Os olhos azuis do homem passaram por todo meu corpo, depois ele olhou para Mike e gritou com um sotaque italiano:
— Michael.
— Alberto — Mike foi até o balcão e bateu na mão de Alberto.
— O que faz aqui depois de tanto tempo?
— Vim comer. E trouxe uma amiga para experimentar seu hambúrguer.
— Ah, trouxe? — Alberto olhou para mim depois de quase me devorar viva — E qual seu nome, gracinha?
Eu estava irritada perto daquele homem. Primeiro ele olha para meu corpo como se tivesse visão de raio-x, depois me chama de gracinha.
—Preciso beber alguma coisa — falei ignorando a pergunta de Alberto. Mike riu de mim e eu só queria dar um soco nele.
— Vamos nos sentar — ele me puxou para uma mesa.
Fiz questão de ir para a mesa mais ao fundo, assim Alberto não ficaria me encarando.
— Que cretino — joguei minha bolsa na cadeira ao lado e falei alto — Devia aprender a respeitar uma mulher!
— Alberto faz isso com todas as mulheres, já até me acostumei — Mike falou tentando me convencer que aquela atitude era normal.
—Então foi com ele que você aprendeu — conclui aborrecida.
— Hey, não jogue as pedras em mim — ele se defendeu.
— Odeio machistas — gritei para Mike e ele deixou de sorrir.
— Eu não sou machista!
— Não? O cara quase me coloca pelada no balcão e você diz que ele faz isso com todas as mulheres. Me poupe!
— Não é fácil não pensar em você nua — Mike disse e a raiva floresceu em mim com mais força.
— Filho da puta — falei e saí da mesa, indo mais ao fundo no pub. Entrei no banheiro feminino e tentei me acalmar.
Nunca gostei de ser vista como um pedaço de carne. Os homens sempre ficavam atrás do meu limite, só faziam o que eu queria. E sempre que um babaca me tratava como um bife eu o colocava no chão. Eu até poderia ficar com vários caras em uma festa, quase nunca dormir desacompanhada, mas eu nunca deixava um homem me maltratar.
Voltei para a mesa com o semblante mais calma.
— Fiz o seu pedido — Mike disse devagar, como se estivesse com medo de mim.
Peguei meu celular na bolsa e fingi que estava ocupada. Tinha três mensagens de três caras diferentes, os três me chamavam para sair. Ignorei as mensagens e fiquei mexendo em qualquer coisa, só para não olhar para Mike.
Um garçom deixou os pedidos na mesa e saiu. Olhei para o prato de salada de frango e dei um sorriso agradecido para Mike. Ele pelo menos não pediu um hambúrguer gorduroso para mim.
—Fui um filho da puta mesmo — ele disse.
— Que bom que você sabe — respondi olhando para ele.
Mike tinha o cabelo bagunçado, umas mexas caiam em seu rosto e toda hora ele tirava uns fios do olho. Seus olhos eram castanhos claros. Pareciam que sempre queriam implorar algo. Era por isso que Mike era um galinha, todas as garotas caiam em seus olhos suplicantes.
— Me desculpa?
—Tenho outra opção? Vou trabalhar com a sua banda, não quero me indispor com meus colegas — falei em um tom profissional.
—Alberto não vai mais te importunar. Ele é só um velho que não come uma mulher há alguns anos...
— Tudo bem — eu sorri.
— Você fica linda com cara de brava, mas seu sorriso é irresistível.
— Não flerte comigo — eu retruquei com outro sorriso.
— Como?
— Você me chamou para almoçar para flertar comigo? — perguntei incrédula.
— E se for?
Eu ri.
Espertinho.
— Você começou bem mal, não é? — eu ri — “Não é fácil não pensar em você nua”, isso é flertar para você?
— Eu falei sem pensar — Mike parecia na defensiva — O que posso fazer se você me fez pensar em você nua deitada no balcão?
Eu ri mais.
— Você é muito novo Mike. Tem que aprender a falar como uma mulher sem parecer um adolescente tarado!
— Idade não é o problema — ele piscou para mim e senti sua mão subir por minha coxa debaixo da mesa — Eu posso te deixar louca!
Arfei surpresa, os pelos do meu corpo se arrepiaram e sentir uma dorzinha entre as pernas. Ele era mais rápido do que eu esperava. Sua mão apertava minha coxa enquanto subia. Coloquei minha mão sobre a sua e a retirei. Ainda com um ar surpreso, ele era bem ousado.
— Melhor comermos — falei sorrindo para ele. Uma camada fina de suor se formava em minha testa. Eu não resistiria a Mike se ele me tocasse novamente.
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