The Sages

20 Século XX - A Origem (Spin-off)


Notas iniciais
Fala pessoal! Tudo bom? Aqui está o segundo spin-off! Este já é mais direcionado à situação dos Sábios no século XX, seu relacionamento, o que aconteceu para eles serem humanos, e mais um misteriozinho extra porque um mistério a mais nunca é demias :) Pessoal, eu sei que prometi três spin-offs, mas não tenho como dar previsão sobre o lançamento do terceiro. Tem muita coisa que quero colocar no papel ainda e não sei qual vai sair primeiro, então já peço desculpas adiantadas por qualquer atraso. É isso! Fiquem com o especial!

A temida Primeira Regra dos Sábios.

Ninguém nunca havia ousado quebrá-la. Lady Crystal sempre deixara bem claro as consequências que ela poderia trazer, a maldição que cairia sobre o Sábio que a quebrasse.

Por isso, quando a notícia de que o Vento o fizera chegou aos outros, foi como se tudo tivesse mudado.

Angélica, Kimberly e Gregory ficaram estupefatos quando seu irmão recém-chegado contou sua história: seus amigos estavam em perigo por causa de um monstro enorme, e ele, num ato de desespero, usou sua espada para salvá-los. Vento não tinha levantado a cabeça em nenhum momento enquanto falava. Devia estar com medo de ver a reação dos três. E com razão, Angélica percebeu: Kimberly estava claramente decepcionada, e Gregory, furioso. Luz sabia que logo, logo precisaria fazer algo para controlar uma situação desagradável.

Bastou o coreano tomar coragem para encarar seus irmãos para o Água explodir:

– Você tem ideia do que fez?! Quebrar a Primeira Regra pode botar todos nós em risco, e isso só por causa de alguns humanos!

– Nossa missão é justamente proteger os humanos – rebateu o Vento. – Apesar de serem uns ingratos...

– Concordo que essa seja nossa missão. Mas o que fez foi muito imprudente – Terra o repreendeu. – Esperava mais de você.

– Esperava mais de mim? Quem é você, a Mackenzie?

Gregory se levantou. Angélica já podia ver a confusão, então se levantou também.

– Como pode achar que tem algum direito de ficar nervoso? Você é um irresponsável!

– Chega! – Luz gritou antes que a situação piorasse. Se virou para seu irmão coreano, que ainda olhava com raiva para o outro garoto. – O que você fez foi realmente muito errado. Mas Gregory – se virou para o costa-riquenho –, também não vamos resolver nada gritando assim. O que está feito está feito. Não há utilidade nenhuma em ficar gritando com... Qual o seu nome mesmo?

Estavam tão preocupados com a história do Vento que nem se lembraram de perguntar seu nome antes. Ele revirou os olhos para Angélica.

– Kwan. Kwan Sung.

Tentando ser mais cordial, Luz estendeu a mão para ele.

– Angélica Burnier.

Kwan olhou para sua mão e para seu rosto. Angélica entendeu o recado; baixou o braço e voltou ao que estava dizendo:

– Não há utilidade nenhuma em ficar gritando com Kwan. Devemos nos concentrar agora somente em apoiá-lo justamente para que não ocorra nada de terrível. Ainda somos uma equipe. Ajamos como uma.

– Poupe seu fôlego, Luz – Água sugeriu. – Você vai ter que falar toda essa baboseira para o Fogo também, e de novo se quiser insistir em tentar nos convencer.

Não foi a primeira vez que a francesa sentiu vontade de enfiar a espada em Gregory. O temperamento difícil do rapaz era mesmo algo difícil de se lidar.

– Mais respeito, Gregory Ruiz. Ainda sou sua líder. Na ausência de Lady Crystal, eu porto o cargo mais alto nesse grupo.

– É ótimo saber que estamos sendo bem representados.

Angélica o fuzilou com o olhar. Quis xingá-lo pelo tom de ironia, mas se conteve. Com as narinas ainda dilatando de fervor, tornou a se virar para Kwan.

– Você está certo em dizer que nossa missão é proteger os humanos. Não vou julgá-lo por ter feito isso, embora tenha sido de forma imprudente.

Kwan, porém, balançou a cabeça.

– Nem precisa se preocupar; não o farei de novo.

– Fico feliz em saber que vai pensar melhor antes de agir...

– Não. Quis dizer que não voltarei a colocar a segurança dos humanos acima da minha. Nem sei mais por que fiz isso. Nós somos os seres de luz aqui, portanto nós temos prioridade.

– Agora sim falou sabiamente.

Ah, o humor de Gregory...

– Eu discordo desta atitude – Angélica disse veemente. – Também não sou fã dos humanos, mas não podemos nos desviar de nossa missão.

– Continuo ciente de nossa missão, Luz. Só estou mudando minhas regras.

– Mas isto é loucura... Terra, o que acha?

Kimberly deu de ombros.

– Acho que não faz mal mudarmos nossos critérios sobre algumas coisas.

– Não acredito que acha mesmo isso. E quanto ao Patrick?

– Vou protegê-lo com toda a minha força, como sempre. Mas talvez alguns sacrifícios sejam úteis, não acha? Talvez, para fazermos o que precisa ser feito, precisemos deixar de salvar algumas pessoas.

Angélica balançou a cabeça. Não podia acreditar que seus irmãos pensavam mesmo de maneira tão fria quanto aos humanos, aqueles que deveriam proteger! Sua preocupação agora era que o Fogo pensasse da mesma forma. Se assim fosse, não saberia como controlar as coisas.

Dias depois, Tafari desembarcou em Paris. Angélica logo soube que seu medo não se concretizaria; naquela noite, Kwan dormiu com uma marca roxa e bem feia no rosto.

. . .

– Ainda não consigo acostumar a beber café a essa hora. Mas quando voltar para a Inglaterra, vou fazer um manifesto para aderir o crossaint ao chá da tarde. Aposto que meus conterrâneos vão adorar!

Rindo da graça de Patrick, Kimberly levantou a mão.

– Estou contigo. Farei vários cartazes. Vamos fazer um tumulto na rua!

– Acho bom levarmos algumas amostras para convencer mais pessoas. Os donos das confeitarias vão ser obrigados a aceitar!

Angélica não conseguia parar de rir. Achava hilário ver Kimberly e Patrick armando um plano bobo desses com tanta seriedade.

Gregory também tinha seu eterno sorriso discreto no rosto, o qual Angélica acreditava ser a única a conseguir perceber. Kwan e Tafari, no entanto, nem olhavam para o britânico; seus olhos se revezavam entre suas xícaras e algum outro ponto aleatório do estabelecimento.

Luz odiava admitir, mas a situação estava feia entre os Cinco. Desde a discussão que tiveram quando Kwan deu seu relato, era como se o grupo tivesse rachado. Patrick estava atuando como uma emenda, mas líder temia que seu bom humor não durasse para sempre.

De qualquer forma, ela agradecia Kimberly por ter contado tudo ao seu amigo de infância. Patrick não só aceitara bem, como estava sendo de ótima ajuda na missão em seu papel de não atrapalhar.

– Então – Kwan falou alto, claramente com a intenção de interromper a brincadeira dos ingleses –, nenhuma novidade da Mackenzie?

Angélica endireitou a postura.

– Ainda não. Ela não se manifesta já faz algum tempo.

A última vez que Lady Crystal se comunicara com o grupo fora um dia depois da chegada de Tafari. Ela não disse muito além de que estava feliz por eles finalmente terem se unido, e que deviam se preparar para o que estava por vir. Só se esqueceu de dizer o que estava por vir.

Angélica pensava justamente nisso quando sentiu um fio de sangue tocar seu lábio superior. Nem precisou perguntar para saber se os outros tinham visto; o silêncio se instalara definitivamente na mesa, e seus irmãos já estavam olhando ao redor, à procura de alguma fera.

A líder limpou o nariz e se levantou. Rezou para que Mackenzie desse um jeito de dar-lhes suas espadas na hora H, já que eles não podiam sair por aí com elas sem chamar muita atenção. Viu Kimberly segurando a mão de Patrick com firmeza e sussurrando algo em seu ouvido. Seu amigo, porém, balançou a cabeça, se recusando a fazer o que quer que ela tenha pedido. Os dois começaram uma discussão silenciosa enquanto os demais Sábios se preparavam.

– Vamos nos retirar daqui – Luz disse. – Seja lá onde estiverem, eles estarão atrás de nós. É melhor evitarmos uma batalha dentro de um estabelecimento.

Gregory e Tafari concordaram de imediato. Kwan, por outro lado, se virou para Kimberly que continuava conversando com Patrick. Angélica viu seu rosto ficando mais vermelho e imediatamente percebeu o que estava para acontecer.

– Você vai ficar aí de papo com seu amiguinho ou vai nos ajudar?!

Terra também se virou para ele. Nem a expressão de fúria do coreano a fez abaixar o narizinho empinado.

– Com licença, estou tentando convencer meu amiguinho a ficar longe do perigo. Ainda me importo com alguns humanos, sabe?

– É, claro. Vou esperar ansioso para quando você perceber o quanto isso é inútil. Humanos são todos ingratos, Terra.

– Ei – Patrick se exaltou. – Não sei quais humanos você conheceu, mas eu não sou ingrato.

– Talvez não pareça, mas é. Está em sua essência. Vocês não valem nada...

Foi a primeira vez que Angélica viu Patrick socando alguém. E, pela cara de Kimberly, deve ter sido a primeira vez para ela também.

– Parem já com isso! – As garotas gritaram ao mesmo tempo.

Mas os rapazes ainda se encaravam, prontos para uma briga de verdade. À essa altura, todos no local já voltavam sua atenção para os dois. Angélica ficava cada vez mais estressada com essas situações. No século XIX era tão mais fácil! Eles tinham muito mais sincronia, não havia nenhum humano no meio do grupo, não havia discordância sobre a maneira de completar a missão... Às vezes, se perguntava o que tinha mudado.

A líder já ia dar uma bronca nos garotos quando foi interrompida pelo barulho de vidros se quebrando. Nem precisou ver para saber que eram os monstros invadindo a cafeteria.

O problema? Eram mais do que ela esperava.

O lugar ficou cheio das criaturas, que entravam sem parar, como se originadas de uma fonte ilimitada de escuridão. As pessoas saíram correndo. Algumas conseguiram achar um jeito de escapar, enquanto outras não tiveram tanta sorte.

Luz precisou despertar do choque antes de gritar:

– O que estão esperando?! Lutem!

O grupo se dividiu e começou a batalhar. Terra gritou de novo para Patrick fugir, mas ele teimou em dizer que não sairia do lado dela. Angélica bufou. Odiava humanos teimosos e que não sabiam o seu lugar.

Porém, teve de deixar isso nas costas de Kimberly. Foi lutar, usando suas magias para afastar os monstros da maior quantidade de humanos que conseguiu. Raios, flechas, lanças, discos e outros golpes de luz faziam as pessoas ficarem ainda mais assustadas, e por isso algumas delas acabavam correndo para o lado errado e caindo nas garras de uma fera. Angélica não se importou na primeira vez que isso aconteceu. Entretanto, quanto mais a cena de sangue e outras coisas desagradáveis se espalhando pelo chão se repetia, mais tinha vontade de parar ali para vomitar e chorar. O que era estranho, pois isso já tinha acontecido em outras missões. Já devia estar acostumada.

Foi quando ouviu o grito de Kimberly.

É estranho como quando uma coisa acontece e sentimos que algo importante mudou. Foi exatamente assim que Angélica se sentiu, mesmo antes de saber o que tinha acontecido. Demorou para conseguir ver Kimberly naquele mar de monstros enraivecidos, mas quando conseguiu sentiu-se péssima por sua irmã. Engraçado. Nunca tinha se sentido péssima por ninguém.

Era desnecessário chegar perto para saber que Patrick estava morto. O choro interminável de Kimberly e o sangue no chão denunciavam.

. . .

O que aconteceu depois foi uma confusão tão grande que Angélica precisou se sentar em um canto para processar tudo.

O grupo precisou terminar de aniquilar a horda de monstros antes de poderem dar atenção ao corpo inerte de Patrick. Somente Kimberly permaneceu ao seu lado até o fim da batalha. Ao final, todos se reuniram ao seu redor. Angélica fez questão de observar a todos: Gregory tinha os olhos vermelhos, Kwan estava com as bochechas coradas por algum motivo, e Tafari parecia tentar achar algo para dizer à Kimberly. Esta, por sua vez, continuava chorando compulsivamente.

Os humanos que tinham sobrevivido já tinham fugido. Alguns dos corpos sem vida que tinham ficado no chão eram cercados por uma ou duas pessoas desoladas, mas a maioria ficaria sozinha até alguém chegar para levá-los. Aqueles que lamentavam pela perda de um amigo ou parente culpavam a guerra. Angélica não conseguia entender como os humanos conseguiam associar um coisa tão sobrenatural – claro, comparado às suas vidas mundanas – com armas bélicas. Não via sentido nenhum em seus pensamentos.

Finalmente, Lady Crystal chegou. Disse que sentia muito, mas que talvez a perda fosse um alerta para que o grupo ficasse mais atento. Kimberly teria avançado para cima dela se Tafari não a tivesse segurado. Lady Crystal, sempre inabalável, enfim revelou o destino dos Cinco: as trincheiras.

A guerra já se desenrolava havia um ano e ninguém tinha certeza se estava perto do fim ou não. Só o que sabiam era que o mundo estava um caos completo, e com certeza não estaria melhor no lugar que se tornara o centro das atenções. Mackenzie queria mandá-los para o meio da Guerra das Trincheiras. Angélica achava que seria muito mais fácil se ela simplesmente os matasse de uma vez.

– E agora? – Gregory perguntou.

Ele tinha acabado de chegar onde a líder estava, encolhida num canto escondido da cafeteria. As autoridades já tinham chegado ao local e logo, logo os jornais falariam algo sobre o que aconteceu. Não que Angélica esperasse algo muito relevante.

– E agora vamos para as trincheiras e encerramos esta missão problemática. O século XX já foi cansativo o suficiente.

– Pois é. Mas acho que antes de irmos para a guerra, você deveria falar com Kimberly. Ela está arrasada.

Angélica viu Kimberly sentada no outro lado do estabelecimento, encarando o nada. Tafari continuava ao seu lado. Já Kwan tinha resolvido ficar longe de tudo e de todos. Luz não insistia mais em tentar em entender o que se passava por sua cabeça.

– Acredito que Terra precise de um momento sozinha.

Água deu de ombros.

– E eu acredito que a líder deva ter algo bom para dizer. O cargo mais alto é seu, a responsabilidade também.

Ela odiava quando ele tinha razão.

– Touché, Ruiz.

– Não tem de quê, Burnier.

Gregory se sentou e ficou encarando Angélica até ela se levantar. Esta assim o fez mais por irritação do que por qualquer outro motivo.

Não precisou nem abrir a boca para Kimberly soltar:

– Retiro o que disse antes.

– Sobre...?

– Os critérios. Não tem mais critério nenhum. Todos os humanos precisam de nossa proteção. – Angélica ficou surpresa com o quanto de convicção que havia em sua voz, mesmo que os olhos estivessem inchados e o rosto, molhado. – Vamos proteger todos, Luz.

A líder assentiu.

– Admiro sua decisão...

– Não. Quis dizer todos nós. Você tem que me prometer que também vai lutar mais pelos humanos.

Mais do que já lutava? Só naquele século, Angélica já tinha tido boas dores de cabeça por causa do assunto “humanos”. Achava que já fazia o suficiente por esses seres frágeis.

Mas tinha algo na voz e na expressão de Kimberly que não deixou Luz contradizê-la. Sentiu que não podia negar aquela promessa. Por isso, foi obrigada a dizer:

– Eu prometo.

– Eu também – Tafari falou. – Me esforçarei ainda mais a partir de agora.

Terra lançou-lhe um sorriso fraco, mas os olhos estavam cheios de gratidão.

– Quanto aos outros...

– Gregory também irá jurar – garantiu a francesa. – Estou ciente disto.

– Não tenho problema com o Água, e sim com o Vento. Kwan está traumatizado demais. Talvez nunca volte a gostar de humanos.

– Ele vai – Angélica insistiu. – Com o tempo, ele vai conseguir superar o que lhe aconteceu.

Mas no fundo, ela tinha certeza de que a possibilidade de seu irmão Vento voltar a gostar da humanidade era de praticamente zero.

. . .

Angélica estava mais do que animada para terminar logo o século XX, que tanto trouxera problemas. Mal podia esperar para voltar ao seu mundo e descansar pelos próximos cem anos.

O grupo havia combinado de se encontrar na saída da cidade; cada um tinha que pegar sua espada – sempre escondida em uma mala – e se despedir de sua família adotiva. Bem, pelo menos era o que tinham combinado. Angélica tinha se aproveitado da ausência de seus pais para não gastar saliva com despedidas ou dando qualquer explicação para eles. Luz pensava que eles não precisavam saber, pois ou morreriam em alguns anos, ou simplesmente se esqueceriam dentro de cem anos.

Os outros quatro Sábios logo chegaram ao ponto de encontro. Kimberly ainda estava com os olhos inchados e fungando de vez em quando, e Tafari continuava sem sair de seu lado. Gregory estava com a expressão indecifrável de sempre enquanto Kwan parecia mais carrancudo do que antes.

Angélica conseguia sentir a desarmonia do grupo. E o pior é que não sabia de nenhuma forma para melhorar isso. Talvez só pudesse esperar que no século seguinte fosse um pouco mais tranquilo.

– Então, o que vamos fazer para chegar até as trincheiras?

Angélica deu de ombros.

– Será uma árdua jornada. Estejam prontos.

– Meus pés já estão doendo – Gregory reclamou. – Não podemos pegar carona com um caminhão do exército?

– Podemos ter a sorte de encontrar um no caminho. Se sim, daremos um jeito de entrar. Mas não podemos nos dar o luxo de esperar que isso aconteça; vamos começar a viagem agora mesmo.

– E então chegaremos lá e faremos o nosso trabalho de proteger o máximo de humanos possível – Kimberly frisou. – Nada de sacrifícios.

Tafari e Angélica assentiram – o Fogo por solidariedade e compaixão, a Luz mais por não querer brigas – e Gregory deu de ombros. Kwan, porém, fez questão de dizer:

– Falem por si mesmos. Eu não estou nem aí. Se algum humano ficar no meu caminho, será sacrificado. Não estou ligando mais para eles, já disse.

O rosto de Kimberly chegou a ficar vermelho de raiva.

– Como pode se chamar de Sábio agindo dessa forma?

– Não seja hipócrita, Terra. Se não fosse pela morte de Patrick, você ainda estaria falando sobre seus “critérios”. Não me culpe por ser leal à minha palavra.

– Não me chame de hipócrita! Eu apenas entendi o meu erro, coisa que você não quer fazer porque insiste em fazer sua própria guerra contra os humanos.

E pronto. Já estavam brigando.

Angélica massageou as têmporas. Não adiantava. Sua cabeça ainda doía, independente do que fizesse. Isso já estava ficando tão frequente que temia que se estendesse até sua próxima vida.

Ela ainda pensava no que fazer quando de repente eles se calaram. Angélica levantou o olhar e viu que eles não tinham parado de brigar, e sim que estavam paralisados. Aliás, olhando bem, tudo tinha parado. Menos ela... E a mulher de branco que pousava ao seu lado.

– Como estão as coisas, Luz?

Angélica revirou os olhos. Mackenzie sabia bem como ser desagradável.

– Pergunta desnecessária. As coisas estão obviamente tensas.

– Ah, que pena. Espero que realmente que consiga resolver a situação.

– Também espero. Você poderia ajudar, não acha?

– Estou certa de que você conseguirá achar uma solução sozinha. Só peço que seja rápida. Seres de luz como os Sábios não podem ter sentimentos negativos por tanto tempo um pelo outro. Como poderão combater as trevas que se espalham pelo mundo se não conseguem nem ao menos eliminar as que se alojam em seus corações?

– Imagino que seja um bom motivo para você me ajudar.

Mackenzie esboçou seu clássico sorriso frio.

– Continuo rejeitando a proposta. Até porque, a semente da discórdia já foi plantada. Agora está mais em suas mãos do que nas minhas.

Angélica suspirou, balançando a cabeça.

– Se ao menos Patrick não tivesse morrido...

– Mas não foi aí que começou. Foi bem antes.

– Do que está falando?

– Não se faça de boba, Luz. Sabe muito bem do que estou falando.

E ela sabia. Lady Crystal falava do que aconteceu um mês atrás, quando Gregory e Angélica ainda eram os únicos Sábios na França. E resolveram passar um tempo sozinhos um dia. Depois de um tempo, decidiram se sentar um pouco para descansar. Ficaram conversando sobre assuntos aleatórios. E então... Aconteceu.

Angélica se esforçava para não pensar nesse dia, e esperava que Gregory fizesse o mesmo. Quando a Terra chegou, decidiu que isso era motivo o suficiente para que aquele dia se apagasse de suas memórias; afinal, a missão estava começando de verdade. Torcia também para que Mackenzie não soubesse do ocorrido, ou que tivesse ao menos ignorado. Que tolice a sua.

– Devo dizer que estou decepcionada com vocês. Você e Gregory se deixaram levar por desejos carnais, Kimberly se aproximou mais do que devia de um humano, Tafari se apegou demais à uma mera família adotiva, Kwan quebrou a Primeira Regra por causa de quem achou que era amigo... Não queria admitir, mas parece que vocês estão trilhando um rumo muito errado neste século. E a líder é obrigada a resolver esta situação.

Luz olhou para sus irmãos congelados. Tafari se posicionava entre Kwan e Kimberly, ambos com expressões nervosas, e Gregory parecia muito entediado com a cena. Não ia dar certo.

– Sabe o que tem que fazer. Então faça.

E assim, Mackenzie sumiu. Em um estalo, o tempo voltou a correr e os gritos voltaram a soar.

– Já chega, Kwan! – Tafari gritava.

– Por que está gritando comigo?! Não sou o único problema aqui!

– Mas é o único que ainda não entendeu que precisa mudar! – Kimberly revidou.

– Eu fui o primeiro a perceber!

– Jesus! Vocês são muito irritantes! – Gregory exclamou.

– Calados!

Todos olharam assustados para Angélica. De fato, ela sabia o que fazer, só não tinha entendido até Mackenzie dizer. Incrível... Por mais que a francesa tivesse suas adversidades com a chefa dos Sábios, era obrigada a se impressionar com essas suas habilidades mentais.

– Não quero ouvir mais nenhuma discussão. Vocês vão parar com esta infantilidade agora mesmo. De agora em diante, se tiverem algum problema sobre qualquer coisa, venham falar comigo!

Kwan não se abalou:

– E o que você vai fazer?

Angélica respirou fundo e disse:

– Vou assumir toda a responsabilidade e tentar resolver a situação. Sou a líder; é meu dever. Já chega de tantos conflitos. A partir de agora, eu mesma assumirei tudo.

Ninguém soube o que dizer. E Angélica até agradeceu por isso, pois não queria discutir sobre isso também. Só esperava que desse certo e que seus irmãos voltassem a obedecê-la se ela voltasse a impor alguma autoridade. Era seu dever. Afinal, a responsabilidade já era dela, para começo de conversa.

– Agora, vamos parar de discutir por coisas idiotas e seguir viagem.

O futuro era incerto. A única coisa que Luz sabia era que ele devia ser melhor do que o presente.

. . .

– Senhora...

Lady Crystal nem precisava ouvir o que o espírito tinha a dizer. Já sabia do que se tratava.

A missão dos Sábios no século XX tinha acabado. Eles derrotaram a Grande Fera nas trincheiras e quiseram voltar imediatamente para seu mundo. Mackenzie lhes concedeu esse desejo; afinal, eles mereciam um descanso depois de tanto estresse. Mas o seu próprio estresse estava só começando.

– Não há mais o que conversar, Zacarias. Minhas visões do futuro não falham. Se não vi nada de diferente, é porque nada mudou.

– Então as guerras...

– Elas ainda irão acontecer. O século XX será um caos. A guerra que meus filhos acabaram de presenciar está apenas começando, e ainda haverá muitas outras tragédias pela frente.

Zacarias foi para o lado de sua senhora.

– É uma pena. Depois de tanto sofrimento, eles mereciam ao menos uma vitória.

– Concordo. Mas lembre-se de que você nunca pode contar-lhes que eles falharam.

O espírito soltou um som parecido com uma risada.

– Não há nem como eu fazer isso. Eles não me conhecem. Não sabem nem o que eu faço!

– E que fique assim. Agora, é melhor descansarmos. Temos um longo século pela frente.

Zacarias fez um curta reverência e se desfez no ar. Lady Crystal ainda deu uma última olhada para onde suas crianças dormiam e, desejando-lhes sorte, partiu para seu próprio descanso.

Notas finais
E então? Qual a opinião de vocês sobre o século XX? E quem acham que é Zacarias? Quem acertar ganha um pirulito de uva :) Até mais, galera!