The Sages

21 Johanna - A Primeira Infância (Spin-Off)


Notas iniciais
Heeeey my people! Tudo ok com vocês? Demorei (eu disse) mas cheguei! Com vocês, o último spin-off, que fecha as cortinas de The Sages! O tema desse foi alterado porque, se fosse continuar no outro, não ia dar certo; estava com muito mais inspiração para este daqui. Tenho certeza de que vocês vão gostar mais do que gostariam do outro! O terceiro spin-off nos leva beeeeeem lá pra trás. Pra quem ficou curioso com o misteriozinho no capítulo anterior, tá na hora de viajarem de verdade. Já vou avisando: estou planejando uma continuação! Ou melhor, uma pré-história (anti-continuação?) de The Sages haha. Mas isso vocês vão ver depois :3 Então fiquem atentos! Vou deixá-los ler agora. Boa leitura!

Os empregados do castelo não paravam de correr de um lado para o outro. Aliás, o reino todo estava mais agitado que o normal desde que a notícia de que a rainha estava dando a luz se espalhou. Natasha não esperava que o nascimento de seu irmão – ou irmã – fosse ter tanta repercussão.

A garota de seis anos esperava pelo fim do parto ao lado do quarto da mãe. Estava ansiosa para conhecer a nova integrante da família real. Já pensava em tudo o que poderiam fazer juntos: passear nos jardins do castelos, brincar o dia inteiro nos grandes salões, contar histórias de terror antes de dormir... Seria maravilhoso ter mais uma criança em casa.

Quando seu pai abriu a porta do quarto, Natasha já era pura empolgação. Seu pai sorriu, apesar de estar um pouco suado e com sangue das mãos, e disse as palavras mágicas:

– Você ganhou uma irmãzinha.

Natasha deu pulinhos de felicidade e se apressou para entrar no quarto, mas os braços fortes do rei a seguraram.

– Ainda não. Deixe a parteira limpar o bebê primeiro.

– Limpar? Ela acabou de nascer e já precisa tomar banho? Mas não é nem de noite!

O homem riu e levantou a menina no colo.

– Ouça bem, Natasha: agora eu e mamãe, principalmente a mamãe, teremos de dar atenção especial à sua irmã, pois ela é um bebê e precisa de cuidados. Mas quero que saiba que amamos as duas da mesma forma. Nunca duvide disso. Entendeu?

– Entendi, papai. Não vou duvidar.

– Essa é minha garota. – O rei de uma olhada no quarto e se voltou à filha. – Pronto, agora podemos entrar.

Bastou Natasha voltar a pisar no chão para ir correndo até a cama da mãe. Esta estava muito suada e parecia estar muito cansada, mas ainda assim sorria para a criança em seu colo. A pequena princesa se aproximou para também admirar a irmãzinha.

– Não é linda? – Perguntou a rainha.

Natasha acenou com a cabeça.

– Qual o nome dela?

– Merida – respondeu sua mãe. – Merida Dowich. A nova princesa do reino.

– Como assim? – A filha mais velha se assustou. – Eu não vou mais ser a princesa?

A rainha não conseguiu evitar uma risada, o que não tranquilizou a menina.

– É claro que não, querida! Só quis dizer que agora temos mais uma princesa.

– Ufa... Mamãe, posso segurar ela?

– Desculpe, filhota. Você é muito pequena e Merida é pesada. Você poderia deixá-la cair.

– Eu nunca a deixaria cair!

– Sabemos que não, querida – seu pai disse. – Mas não podemos correr o risco. Não se preocupe; vai chegar o dia em que você também poderá segurar sua irmã no colo.

Natasha desejou que esse dia chegasse logo. Merida mal nascera e a mais velha já estava doida para interagir com sua nova irmã caçula.

Quando o rei mandou anunciar que sua segunda filha nascera, fez-se uma festa no reino. Gritos animados como “Longa vida à família real!” e “Viva o rei Hector e a rainha Samara!” não paravam de sair das bocas do povo. Natasha não conseguia deixar de se impressionar com o quanto seus pais eram adorados. A garota nunca tinha ouvido nenhuma notícia sobre fome ou qualquer outro problema grave no reino. O que seria daquelas pessoas sem os dois?

Enquanto o pai declamava um belo discurso sobre como estava feliz pelo nascimento de Merida e todas as benções que ela traria ao reino e a mãe amamentava a bebê, Natasha escapuliu para fora do castelo. Estava tão feliz que tinha que compartilhar isso com seu fiel confidente.

Eles sempre se encontravam na parte de trás do castelo, no fundo do jardim. Seu amigo ficava envolto por uma plantação linda de rosas que pareciam ter sido escolhidas a dedo. Natasha não sabia seu nome; por isso, chamava-o simplesmente de Mistério.

A garotinha chegou ao ponto de encontro e sentou-se frente para ele, tomando cuidado para não esmagar nenhum rosa, e encarou a lápide de pedra como se ela pudesse falar tanto na realidade quanto falava em sua imaginação de criança. Como não tinha nenhum nome escrito na lápide, ela mesma já tinha escrito o apelido que lhe dera na terra sob ela.

Natasha já havia perguntado milhares de vezes ao pai quem estava enterrado ali, mas o pai sempre conseguia desviar da pergunta. Esse segredo todo só fazia a criança imaginativa ficar ainda mais atraída pelo Mistério e pela história dele – tanto que ela mesma já tinha feito várias especulações diferentes.

Mas, no final das contas, não importava realmente quem era ele, pois para Natasha a verdade não mudaria nada. Mistério seria sempre seu fiel confidente.

– Estou muito feliz hoje! – A garotinha começou a dizer. – Minha irmã finalmente nasceu! O nome dela é Merida. Mamãe e papai também estão muito felizes. O povo do reino ainda está agitado também! Merida é linda. Mal posso esperar para ela crescer e nós podermos brincar juntas. Assim que puder, a trarei aqui para te conhecer!

Natasha imaginou-o dizendo, com a voz gostava de imaginar que tinha: “Fico feliz por você. Estou ansioso para conhecer Merida”. Aquela voz, suave e calma – e sempre masculina na cabeça da garota – lhe parecia tão real que ela mais uma vez imaginou que, quem quer que fosse a pessoa sob aquele túmulo, estava realmente conversando com ela.

– Um dia, eu vou pegar uma pá e cavar até achar você. É uma promessa; nós vamos nos conhecer de verdade!

Dessa vez, a voz em sua cabeça ficou calada.

– Senhorita Natasha – chamou-a uma das muitas empregadas do castelo. – Seu pai requisita de sua presença no quarto real.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não sei, senhorita. Ele apenas me pediu para chamá-la.

– Eu já vou. Obrigada.

A empregada fez uma reverência e voltou aos seus afazeres. Natasha levantou-se e, antes de voltar para o quarto dos pais, fez questão de dar um rápido e carinhoso beijo na lápide do Mistério.

. . .

Natasha correu apressadamente até o quarto dos pais – mais por curiosidade do que por preocupação – para saber logo o que eles queriam falar com ela. Mas, para sua surpresa e estranhamento, o quarto estava vazio.

Como assim? A garota tinha certeza de que ouviu a empregada dizendo que seus pais a aguardavam ali. Será que eles tinham ido levar o bebê para outro lugar e voltariam depois? Mas ela ainda podia ouvir seu pai continuando seu discurso... E para onde sua mãe tinha ido sozinha?

Natasha já se preparava para dar meia volta e perguntar aos empregados onde estavam seus progenitores quando uma coisa lhe chamou a atenção: uma luz forte no canto do quarto. A menina, é claro, apressou-se em ver o que era.

Ela achou a origem da luz bem rápido; vinha de um colar que a garota nunca tinha visto antes, em cima da cômoda. Assim que chegou perto, a luz diminuiu, parecendo entrar dentro da joia. Natasha ficou maravilhada com aquela visão. Será que o rei e a rainha tinham deixado aquilo ali para a filha progênita? Talvez. Eles podiam fazer muitas coisas.

A menina pôs a pequena mão sobre o colar. Assim que o fez, uma brisa suave e de certa forma calorosa passou por ela. Natasha estranhou de novo. A janela estava fechada e, de qualquer forma, não estava ventando muito. Chegou a pensar que alguém tinha soprado em seu rosto, mas o corredor também estava vazio.

Saiu correndo do quarto – deixando o colar onde estava – antes que mais alguma coisa estranha acontecesse.

. . .

Encontrou sua mãe no quarto da bebê, afinal. A rainha estava deitada no largo sofá ao lado do berço, onde Merida dormia. Natasha pensou em chegar perto para perguntar se a mãe tinha deixado o colar para ela, mas mudou de ideia e se afastou.

Encontrou-se com seu pai logo depois, no corredor. Quase perguntou a ele também, mas desistiu novamente. O rei sorriu calorosamente para a filha e perguntou se ela não queria ir ver Merida com ele. Natasha, sem pensar, disse que não e seguiu para seu quarto.

Chegando lá, parou em na porta. Por que tinha ido para lá ao invés de ficar com seus pais e sua irmã? Com certeza a segunda opção era muito mais atraente do que ficar sozinha em seu quarto. Que bizarro... Resolveu dar meia volta e ir ao encontro de sua família.

Porém novamente foi interrompida pela sua curiosidade. Aquela luz forte que vira no quarto dos pais estava ali de novo, dessa vez em cima de sua cama. A pequena Dowich não conseguiu se segurar; foi novamente até a joia, e novamente o brilho que ela emitia foi para dentro da mesma. Dessa vez, ao invés de apenas tocá-la, pegou-a na mão e a trouxe para mais perto do rosto a fim de examiná-la melhor.

Sentiu um súbito cansaço no corpo e desabou na cama. Viu um clarão a sua frente, e então apagou.

. . .

Já era noite quando Natasha acordou. Ela estava coberta e bem ajeitada na cama; seu pai devia ter achado a garota jogada sobre o colchão e cuidado dela. Era por essas e outras que Natasha acreditava que tinha o melhor pai do mundo.

Mas ainda não entendia o que tinha acontecido. Era como se o colar tivesse absorvido toda a sua energia. A princesa procurou por ele, mas não o encontrou. Talvez seu pai tivesse o guardado junto com as joias de sua mãe. Uma pena. Ainda queria descobrir de onde ele veio, e por que emitia tanta luz, e quem tinha o colocado no quarto real e depois em seu quarto.

Quis perguntar para sua mãe dessa vez. Levantou-se e saiu do quarto, pegando o caminho para o quarto da bebê; a rainha devia ter passado a noite ao lado da recém-nascida. E não deu outra. A porta do quarto estava aberta, então Natasha logo pôde ver os cabelos sedosos da rainha espalhados pelo sofá. A única surpresa foi descobrir que seu pai também quis passar a noite com elas e acabou por dormir no chão ao lado da esposa.

Natasha não conteve o sorriso. Amava esses momentos singelos e lindos de sua família.

A única acordada ali além dela era Merida. A mais velha se aproximou do berço para ver a caçula balançando os bracinhos para cima. Os olhos azuis que herdara da mãe brilhavam sob a luz do luar. A visão daquele pequeno ser deixou Natasha maravilhada.

– Eu vou te amar para sempre – prometeu num sussurro. – Você sempre será minha irmãzinha querida.

Merida sorriu como se tivesse compreendido cada palavra. Não importava muito para Natasha se tinha entendido ou não. O que importava era que a promessa estava feita, e, assim como a que fez ao Mistério, queria cumpri-la.

– Bom dia, filhota – disse um rei sonolento. – Você desmaiou ontem, hein?

Natasha riu.

– Ainda é noite, pai.

– Ah. Nossa. – O rei Hector levantou-se e alongou as costas. – Vou pegar um copo d’água. Quer também?

– Quero. E nós podemos contar histórias de terror depois?

Foi o seu pai quem riu dessa vez.

– Já quer assustar sua irmã?

– Mas ela vai aprender de qualquer jeito!

– Não agora, querida. – O rei Hector piscou para a filha primogênita. – Deixe Merida ter pelo menos um primeiro ano sem sustos.

O monarca saiu do quarto, enquanto Natasha tentava se lembrar se também tivera um ano impune de histórias de terror.

Talvez seu pai estivesse exagerando. Qual era o problema? Merida nem entenderia a história mesmo. Natasha só precisava ter cuidado para não fazer muitas caretas e gestos estranhos; isso sim assustaria a bebê.

Quando se inclinou no berço de novo, sua irmãzinha a encarava concentradamente, como se estivesse esperando pelo conto. A mais velha ficou ainda mais empolgada. Assim, preparou-se para começar.

Aconteceu tudo ao mesmo tempo: assim que ela abriu a boca, um grito grave e masculino soou, e o barulho fez Merida começar a chorar, e o choro de Merida fez sua mãe acordar. Natasha ficou fora de órbita por alguns segundos.

E quando voltou, entendeu que o grito viera de seu pai. Olhou assustada para a mãe, que ainda parecia estar tentando se concentrar. Por fim a rainha pegou a caçula no colo e a aninhou até que parasse de chorar. Natasha continuava paralisada quando a mãe olhou para ela e disse:

– Filha, venha aqui.

A menina caminhou a passos trêmulos para perto da mãe. Estando na frente da porta, tentou olhar para o lado de fora, mas a rainha a puxou para perto antes que conseguisse. Porém Natasha não se assustaria por qualquer coisa que pudesse ver no corredor, pois o silêncio geral já estava assustador o suficiente para fazê-la tremer como num dia de inverno.

– Não importa o que aconteça aqui – a rainha Samara sussurrou ao seu ouvido –, nunca se esqueça de que eu e seu pai te amamos.

– Mãe...? O que está acontecendo?

Sua mãe não fez nada mais do que dar um beijo demorado na cabecinha da princesa. A pequena não gostou muito dessa vez; isso só a deixou mais apreensiva ainda.

– Por favor, querida, pegue sua irmã e se esconda.

– Mas você disse que eu não posso pegar a Merida ainda!

– Mas você disse que nunca a deixaria cair, não disse? Confio em você, minha luz. Sei que não vai deixá-la cair.

“Minha luz”. Era a primeira vez que sua mãe a chamava assim. Natasha gostou do termo, e ao mesmo tempo sentiu vontade de chorar.

Outro grito. Natasha gemeu. Merida voltou a chorar, e sua mãe apressou-se em acalmá-la de novo. A princesa mais velha queria ser um bebê também, pois assim poderia simplesmente ficar no colo de alguém sempre que as coisas ficassem assustadoras. Mas ela era a filha mais velha agora. Era seu dever ser forte para proteger a pequena irmã em momentos como aquele.

Enquanto sons metálicos começavam a ecoar no corredor, a rainha abaixou-se para lenta e cautelosamente passar Merida para os braços de Natasha. Primeiro, a menina ficou com receio de não aguentar o peso. Mas assim que sentiu o corpinho da bebê, teve a certeza de que não a derrubaria; uma força protetora especial estava lhe ajudando. Sabia disso pois podia sentir mais dois braços ali.

Agradeceu mentalmente ao Mistério. Só podia ser ele.

– Muito bem. Muito bem. – A rainha deu mais um beijo na cabecinha de cada uma das filhas. – Agora se esconda no armário e não saia de lá em hipótese alguma. Entendeu?

– Mas e você?

– Perguntei se entendeu, Natasha.

A menina assentiu rapidamente. Sua mãe nunca tinha falado com tanta autoridade com ela.

Enquanto era conduzida até o armário, Natasha ouviu um grito vindo do lado de fora. Sua mãe apressou-se em tapar os seus ouvidos, mas não adiantou muito; a princesa já estava assustada, imaginando mil e uma possíveis origens daquele grito.

“Tudo bem, Natasha, esqueça isso. Fique firme. Pela Merida.”

– E lembre-se: – a rainha disse quando suas filhas entraram no grande armário – não importa o que você ouça ou quanto tempo passe, não saia daqui de dentro até que alguém deste reino venha buscá-la. Posso contar com você?

A garota não hesitou.

– Pode.

– Obrigada. – Samara abaixou-se e novamente beijou as cabeças de suas filhas. – Eu e seu pai amamos vocês duas mais do que tudo. Nunca se esqueçam disso.

– Nós não vamos esquecer.

A pobre mãe continuou olhando para suas pequenas filhas demoradamente, até conseguir coragem para fechar a porta e ir para seu destino.

. . .

Foi a noite mais terrível de todos os meros seis anos de Natasha.

Ouviu sons terríveis – alguns mais barulhentos, outros mais silenciosos. Sentiu cheiros podres. Sentiu o chão tremer tantas vezes que teve vontade de vomitar. Tentou dormir, mas era impossível naquelas condições. Nem Merida dormia; a pequena ficou a noite toda acordada, fixando os olhos azuis na irmã mais velha. Era por ela que Natasha se recusava a chorar; se fraquejasse, Merida fraquejaria também, e as duas estariam perdidas.

Nunca soube quantas horas passou dentro daquele armário. Pareceu demorar anos para aquela porta ser aberta. E quando foi, Natasha sentiu seu mundo desmoronar.

Quem a abriu foi um guarda ferido. Não foi seu pai e nem sua mãe. Não eram eles quem deveriam estar ali, para abraçar e tranquilizar as filhas? O que eles estavam fazendo de tão importante para não poderem ir até elas?

– Como você está, Alteza?

Aquele guarda não era estranho. Natasha sabia que já o tinha visto em umas de suas voltas pelo grandioso castelo. Mas com tantos cortes no rosto, estava difícil de associá-lo a um nome.

– Onde estão meus pais?

O homem desviou o olhar. Natasha odiava quando faziam isso, porque sempre significava que estavam escondendo algo dela.

– Me fala!

– O rei Hector e a rainha Samara...

As próximas palavras foram curtas e breves. Porém ecoaram na cabeça de Natasha várias e várias vezes.

Merida chorou todo o choro guardado durante aquela noite fatídica. Seu sofrimento fez Natasha chorar também. O guarda não tirou os olhos do chão em nenhum momento; a menina sabia que ele era o único tentando não chorar. Entretanto não fazia muita diferença, já que o reino inteiro estava em prantos naquele momento.

. . .

Dois dias se passaram.

Já era de conhecimento geral que o castelo havia sido atacado por rebeldes. A rainha morrera ao ter o coração atravessado por uma espada. Já o rei... Este teve de suportar muito mais antes de seu assassino lhe dar o golpe final.

Muitos guardas e empregados do castelo também morreram. Havia estragos em todos os salões, inclusive o jardim. Até mesmo a lápide do Mistério sofrera pequenos prejuízos.

Todo o reino compareceu ao castelo para a homenagem ao rei Hector e à rainha Samara, feito pelos conselheiros do rei. O pai de Natasha foi lembrado como um homem valente e bondoso; sua mãe, como uma mulher graciosa e generosa. Pelo menos foi isso o que a garota ouviu. Não conseguia prestar atenção em nada desde que recebera a notícia.

Muitas pessoas foram prestar suas condolências à princesa após a cerimônia. Natasha agradeceu a todos fria e rapidamente. Só o que queria era voltar para seu quarto e dormir até o dia seguinte – assim como tinha feito no dia anterior. Mal via sua irmã mais; Merida era cuidada pelas empregadas que sobreviveram e concordaram em permanecer no castelo.

E então, no terceiro dia após a terrível noite, Natasha levantou da cama ao ouvir gritos durante a noite. Ficou assustada no começo, mas assim que percebeu que os gritos eram de raiva e não de dor, sua curiosidade agiu. Seguiu a voz até encontrar sua origem.

Descobriu que o gritos vinham do escritório, onde seu pai sempre discutia assuntos do reino com seus conselheiros. Quem estava lá dentro era justamente o principal conselheiros, Rosewald, e o guarda de rosto cortado que tirou Natasha e Merida do armário. Mas agora ele não estava com o uniforme de guarda; estava vestido como um conselheiro.

– Você está ficando louco, Elric! Sua ideia não tem cabimento algum! Eu me recuso aceitar isso!

– Não temos outra escolha. A situação lá fora está cada vez pior. As pessoas precisam que alguém assume o trono para que as coisas voltem ao normal.

– Mas uma criança?! Isto é ridículo! Deve haver algum parente que possa assumir a posição...

– Esqueceu-se da história? Rei Hector e rainha Samara se conheceram no orfanato em que moravam. Ele foi adotado pelo antigo rei, pois ele e sua mulher não conseguiam ter filhos, enquanto ela continuou sem família até o casamento. As únicas herdeiras são Natasha e Merida. Quem você prefere?

Ah, não. Ele não podia estar falando sério.

– Tolice! Não podemos deixar um reino inteiro nas mãos de uma criança de seis anos!

– Natasha não estará sozinha. Eu me comprometo em ser seu tutor. Tem uma ideia melhor?

Rosewald ainda encarou o mais novo furiosamente por alguns segundos antes de soltar um grito – ou latido, nunca se sabe – e jogar as mãos para o alto.

– Que seja! Mas se algo acontecer ao reino, vou matar você e as garotas!

Depois, foi saindo a pessoas pesados. Natasha se apressou em se esconder antes que o velho passasse pela porta.

A garota ouviu o suficiente da conversa para entender que aquele tal Elric queria traçar seu destino sem ao menos consultá-la. Rainha? Devia estar louco!

Natasha logo entrou no escritório para confrontá-lo sobre isso, com um firmeza que nunca tinha sentido antes. Era de certeza forma confortável sentir-se assim, tinha que admitir.

– Eu não quero ser rainha.

Elric não pareceu muito surpreso com sua chegada. Sentou-se numa cadeira e, com ar pesaroso, disse:

– Me perdoe, Alteza. Mas precisamos de alguém para assumir o trono.

– Eu tenho seis anos!

– Eu serei seu tutor. Prometo que não sairei do seu lado em momento algum.

Natasha continuava a recusar fortemente.

– Não posso fazer isso!

– Juro que nunca faria isso se não fosse preciso. Mas eu era o braço direito de seu pai; não só seu conselheiro como também seu guarda mais fiel. Vi o trabalho dele de perto e por isso sei que não tem mais ninguém no reino que possa continuá-lo tão bem quanto a senhorita. Confio em seu potencial. Além disso, não há mais nenhum descendente do trono! A Alteza é única esperança deste reino.

– Mas e quanto a mim? Não pensa no que será de minha vida, de minha infância?

– Olhe... Seu pai salvou minha vida. Devo tudo o que tenho a ele. Se eu puder retribuir tudo o que fez por mim salvando seu reino, eu o farei.

– Papai o odiaria se soubesse o que está fazendo.

Disse isso com toda a firmeza que tinha, pois tinha certeza de que era verdade. E Elric também deve ter tomado consciência disso, a julgar pela sua feição. Torceu os lábios, olhou para baixo e pôs-se a pensar, enquanto Natasha o olhava com mais força do que devia ter.

Então, o conselheiro levantou o olhar para a pequena.

– Talvez haja uma saída.

. . .

“As princesas estão mortas.”

A notícia, anunciada pelo conselheiro Elric, calou todo o reino. Ele contou com muita tristeza como encontrara os corpos das meninas, que, de tão desfigurados, nem poderiam ser mostrados no velório. Muitos habitantes indignados foram levados para o porão onde os corpos foram achados, onde ainda restavam marcas de sangue, rastros de pele e fios de cabelos perdidos.

Elric alegou que ninguém sabia quando elas foram capturadas ou quem tinha cometido tal atrocidade. Só o que podia dizer era que era uma grande perda para todos e que o luto pela morte da família real seria eterno.

Por ele ter sido comprovadamente o braço direito do rei Hector, a corou desceu sobre sua cabeça no mesmo dia.

Natasha não se incomodava com esse fato. Era estranho e triste ver seu povo chorando pela falsa morte dela e de sua irmã, mas era o único meio de conseguirem fugir sem atrair um alvoroço.

A garota já tinha conseguido se afastar bem de seu reino, considerando que tinha um bebê pesado no colo. Não estava com medo. Seus cabelos curtos lhe davam certa força, e as marcas dos cortes em sua pele a faziam sentir que o pior já tinha passado.

Não queria ser rainha, nem com aquela idade nem nunca. Natasha queria apenas saber quem tinha assassinado seus pais e acabado com sua vida. E então, dar um fim nessa história. Precisaria ser forte para isso.

Esperava que Mistério lhe ajudasse novamente. Se ao menos pudesse ter se despedido dele...

Depois de horas de caminhada, o choro de Merida começou a ficar mais estridente. Que culpa era tinha? Natasha sabia que precisava alimentá-la, porém não tinha como lhe dar leite nem qualquer outra coisa que pudesse satisfazer sua fome. Também não poderia simplesmente deixá-la para trás. Não conseguiria fazer aquilo sem a irmã.

– Pobres crianças... Estão com fome?

A voz sedosa veio de uma mulher ao seu lado. Natasha virou-se para ela: uma mulher alta, de pele clara, olhos brilhantes, cabelo negro e trajando belas vestes brancas. Sua imagem radiante admirou a pequena.

– Estamos sim.

– Eu posso ajudá-las – disse a brilhante mulher. – Meu nome é Mackenzie. Qual o de vocês?

Natasha não precisou pensar muito; já tinha chegado àqueles nomes desde o começo da viagem.

– Sou Johanna. E esta aqui é minha irmã... Elena.

Notas finais
Agora acabou... Foi um prazer enorme estar com vocês nesta jornada. Amo cada um de vocês! Muito obrigada por tudo! Nos vemos na próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!