The Sages
14 14 - Passado
Notas iniciais
Fico encarando a mensagem por um tempo, paralisada, sem acreditar que deu mesmo certo. Uma parte de mim se desespera com isso e torce para que seja uma brincadeira de mal gosto de Liz, mas outra parte lembra que isso seria impossível e que assim é melhor, pois posso finalmente saber de tudo.
Os outros nem precisam ver a mensagem para saber que funcionou: minha expressão já deixa isso bem claro. Todos se sentam na cama ao lado da que eu estou. Sohan torce as mãos, Paco agita as pernas, Michele mordisca o lábio inferior e Dustin permanece de braços cruzados, tentando esboçar um sorriso encorajador. Olho para todos eles só para me lembrar da importância do que estou fazendo e digito:
“Eu preciso saber o que aconteceu na primeira passagem dos Sábios na Terra.”
“Ah, eu não tenho como saber disso.”
Surpresa, começo a escrever uma resposta, mas ela é mais rápida.
“Creio que você esteja querendo saber a origem dos Sábios, certo? Isso, sim, eu posso te contar. Mas na primeira passagem de vocês como espíritos de luz na Terra, eu já estava longe. Pensei que já tivesse te contado isso.”
Ok, agora eu fiquei confusa.
“Do que você está falando?”
“A história da origem de vocês não é a mesma de sua primeira vinda à Terra. Aliás, a história da primeira vinda à Terra não é a mesma história de sua primeira vida. Entendeu?”
“Não muito.”
“Tudo bem, eu conto. Mas só porque eu quero que se lembre de mim. Além do mais, eu prometi fidelidade a você.”
Não sei o que ela quer dizer com essa coisa de fidelidade, mas não vou protestar agora. Apenas desativo o teclado e chamo os outros para ler também. Elena começa a mandar mais mensagens e eu presto o máximo de atenção possível nelas.
“Você tem que ver a cara desse Trevor agora... Coitado, não está entendendo nada. Mas isso não importa.”
“Essa história é de muitos e muitos anos atrás, antes mesmo de Cristo nascer. Na época, a guerra conhecida como Cruzadas estava em seu auge. Os guerreiros dos dois lados morriam cada vez mais, e os que eram feridos precisavam de socorro imediato. Era para isso que nós estávamos lá, de início. Nós, da Ordem cristã dos Cavaleiros Hospitalários, prestávamos atendimento médico aos necessitados.”
Ordem dos Cavaleiros Hospitalários? Tenho certeza de que já li algo sobre isso em alguma vida. Estou prestes a fazer uma pergunta quando Paco dá um tapa na minha mão. Faço cara feia pra ele.
— Shh – ele sibila. – Perguntas depois. História agora.
“Havia muitos na Ordem, mas eu me lembro de poucos além de nós seis: eu, você, Fogo, Água, Vento e Terra. Na época, Elena, Johanna, Mladen, Slaven, Vladimir e Mira.”
— O corretor automático do celular deve estar pirando com esses nomes – digo.
— Meu nome até que era bonito – Michele comenta.
— Meu nome era Slaven? Com um nome assim, é bom que eu pelo menos tenha prestado pra alguma coisa – Dustin diz.
— Slaven é mais maneiro que Vladimir – resmunga Sohan.
— Do que estão reclamando? Eu nem consigo pronunciar meu nome! – Exclama Paco. – Dá pra ficarem quietos agora?
— Você sabe que podemos ler o texto, não sabe? – Respondo a ele.
— Shh! Eu tenho que me concentrar!
Apenas dou um leve empurrão em sua cabeça e continuo lendo.
“Nós éramos muito unidos. Estávamos sempre juntos, trabalhando ou não, conversando ou não. A mais velha de nós era você, Johanna. A mais nova era eu. Pensando bem, parece que sempre foi assim: você na liderança e eu na sombra, apenas te seguindo.”
“No começo, nós apenas servíamos para prestar suporte aos guerreiros. Mas então nossos comandantes acharam que a Ordem seria mais útil se fôssemos mais do que assistentes. Passamos a receber treinamento de combate também. Tornamo-nos guerreiros completos. Ah, irmã! Ficamos tão admirados quando ganhamos nossas espadas e escudos! É uma pena que não se lembrem.”
“Mesmo assim, nossa prioridade continuou sendo o suporte. Nossas armas seriam usadas apenas quando necessário. E quem nos deu essa ordem não foram os comandantes. Foi você, Johanna. Você mandou e nós a seguimos sem questionar. Penso que todos sempre quisemos a mesma coisa, afinal.”
“Contudo, essa decisão não pôde mudar nossos destinos. Hoje eu acredito que tudo tenha sido planejado para nós desde o começo.”
Quase peço que ela faça uma pausa para que eu consiga absorver essas informações antes de receber novas. Mas não preciso. Elena para de digitar e fica assim por algum tempo.
Olho para os outros, que também não estão entendendo. Será que Liz voltou e está lendo toda essa história? Isso seria péssimo.
Lanço um último olhar a Paco e digito, dessa vez sem ser interrompida:
“Elena? Você está aí?”
A resposta e o alívio vêm pouco depois.
“Desculpe. Eu não pensei que seria tão difícil falar nisso. Deve ser por causa desse corpo sensível de criança.”
“Como já disse, a guerra estava em seu auge. Se espalhava para todos os cantos, e mesmo os que ficavam nos ‘bastidores’ eram feridos. Quando a guerra veio para perto de nós, porém, não fugimos. Eu confesso que queria muito fazer isso, covarde como sempre. Mas você e os outros quatro continuaram ali. Disseram que era o momento em que seríamos mais úteis do que nunca, e por isso não poderíamos pensar só em nós mesmos e fugir. Então nós ficamos.”
“E então, uma noite, eu e você acordamos com gritos. Você saiu para ver o que estava acontecendo e só voltou para pegar seu equipamento e mandar eu ficar com os outros. E eu fiquei parada ali enquanto você ia para a guerra. Sinto muito por isso. Tudo teria sido diferente se eu ousasse desobedecê-la pelo menos uma vez na vida e fosse te ajudar.”
“Os gritos e a batalha continuaram e você não voltava nunca. Eu já estava desesperada quando os outros acordaram. Slaven perguntou por você, mas eu não soube o que dizer. Mladen deu uma espiada no lado de fora de nossa barraca e viu a batalha se desenrolando. Mira ficou desejando que você não tivesse feito o que ela achava que tinha feito. E Vladimir saiu correndo a sua procura, sendo seguido pelo resto de nós.”
“Infeliz foi aquele dia, irmã! Não vejo como descrever o que senti ao vê-la morta.”
Fico espantada. Eu morri? Não pensei que Sábios pudessem morrer; afinal, somos espíritos. Começo a digitar essa dúvida, mas Elena continua a toda:
“Todos nós ficamos extremamente tristes. Mladen e Mira ficaram te chamando por mais algum tempo, enquanto Slaven e Vladimir tentavam parecer fortes e eu chorava sem parar. Minha única irmã, minha única família, morta bem diante de mim. Não teria suportado se os outros não estivessem ali.”
“Imagine, então, qual foi meu desespero quando eles pegaram suas armas e foram lutar. Queriam te vingar. E eu, como sempre, não fiz nada. Não os impedi e nem os ajudei.”
“Quando finalmente tomei coragem para ir atrás deles, porém, já era tarde. Todos tiveram o mesmo destino que você. Foi horrível vê-los daquele jeito...”
Elena para de digitar de novo e imagino ela chorando, no corpo de Liz, com Trevor sem entender nada ao seu lado. Eu também me sinto mal, atordoada como se tivesse levado um golpe na cabeça. Nós, os Cinco Sábios, espíritos de luz, morremos em nossa primeira vinda à Terra. Como se explica isso? Nós não morremos em nenhuma outra vida. Nós não devíamos morrer nunca!
Como Elena não diz mais nada, tomo a liberdade de perguntar:
“Então Sábios podem morrer? É isso o que está dizendo?”
Sua resposta chega alguns minutos depois.
“Desculpe. Acho que eu não deixei muito claro.”
“O quê?”
Mais uma breve pausa.
“Vamos deixar isso para depois. Não terminei a história ainda.”
Tiro meus dedos do teclado e volto a ficar apenas lendo, juntos de meus irmãos tão confusos quanto eu.
“Eu estava aterrorizada. Demorei para conseguir tirar os olhos daqueles quatro corpos mortos. Comecei a correr para onde você estava. Porém, vi uma mulher te carregando nos braços e indo até onde os outros estavam. Uma mulher de pele bem clara, usando apenas uma túnica branca, se destacando naquele monte de guerreiros armados. Ela parecia tão aflita... Mas o que me deixou surpresa foi seu movimento. Ela tinha pés e eles claramente os tocava no chão, mas se movia com um leveza que era como se todo o corpo flutuasse. Não consegui tirar os olhos dela e fiquei por perto.”
“A mulher de branco colocou você no meio dos outros quatro e os examinou. Cheguei mais perto e perguntei o nome da moça. Ela me disse para chamá-la de senhorita Mackenzie e perguntou onde vocês cinco estavam abrigados. Guiei-a até nossa cabana, ajudando a levar os corpos, mesmo sem entender nada. Ela emitia algo que não me permitia nem pensar em desobedecê-la, sabe?”
“Lá, ela reuniu vocês cinco e os examinou por mais algum tempo. Depois olhou para mim e disse ‘Você era muito próxima desses jovens, não era?’ Disse que sim e ela disse que isso era bom, pois eu seria necessária.”
Mackenzie dissera em meu sonho com Elena que “nós precisávamos”. Agora esse assunto aparece de novo. Só está faltando alguém me explicar o que isso significa.
“Perguntei sobre o que ela estava falando e Mackenzie disse que só o que eu precisava entender era que eu poderia ser muito útil para vocês. Veja só! Justamente eu, que sempre fui a menos corajosa, a menos valente, a menos capacitada do grupo, tive a oportunidade de finalmente ajudá-los de verdade... Obviamente eu me entusiasmei. Então, a estranha pessoa disse: ‘Não posso trazer seus amigos de volta à vida, mas suas almas não abandonarão esse mundo. Eles continuarão reencarnando e você também reencarnará, e nunca se esquecerá de quem eles são e de quem você mesma foi. E prometo que eles também não se esquecerão de ti’. Meu ânimo apagou. Não acreditei no que disse.”
“Ela percebeu minha descrença e disse que eu deveria apenas esperar. E foi embora, deixando seus corpos inertes ali. Ainda não tinham perdido totalmente a cor e não tinha chegado a ficar gelados, mas algo dentro de mim me dava a certeza de que suas almas já estavam bem longe dali.”
“O resto foi um inferno. Já lhe disse isso: vencemos a guerra, mas nada foi o mesmo para mim. O tempo passou e minha vida solitária finalmente chegou ao fim.”
“Não sei quando foi que reencarnei, nem quanto tempo se passou depois de minha morte, nem quando foi que minhas memórias da vida passada começaram a voltar. Só sei que, durante minha infância, mais e mais memórias de minha vida como Elena voltaram, e eu as aceitei perfeitamente. E um dia, eu vi vocês. Sabia que eram vocês. Mas durante muitos séculos só consegui vê-los assim, uma vez a cada vida, por acidente. Até eu chegar ao corpo de Liz e ficar tão próxima de vocês quanto nunca.”
“Essa é a história, irmã. Juro que foi assim que aconteceu. A única que poderia te dar detalhes mais concretos é a mulher de branco.”
Mas minha cabeça ainda está girando. Nós, os Cinco Sábios, morremos em nossa primeira missão. Ainda não me lembro do que vivi nessa época e, a julgar pelas expressões atordoadas dos outros, eles também estão cheios de dúvidas. Também ainda não consigo entender o porquê de Mackenzie ter dito aquilo à Elena, ou o porquê de ela ter lembranças de todas as suas vidas. Sem querer perder tempo, já começo a enviar minhas perguntas, mas Elena se adianta de novo.
“Sei que ainda estão confusos. Afinal, são espíritos agora. Certamente que nunca experimentaram a morte do corpo físico. Vocês simplesmente... Se vão. Devem estar espantados com o fato de já terem morrido algum dia.”
“A explicação para isso é simples: naquela época, vocês não eram espíritos. Eram como eu, como Trevor, e como os outros bilhares de habitantes desse planeta. Eram humanos de verdade.”
O celular escapa da minha mão. Paco, com um reflexo surpreendente, o pega no ar e relê a mensagem de Elena.
— Isso é loucura – murmura.
— Não – Michele diz. – Isso faz sentido.
Olhamos para ela.
— Século XX – ela diz simplesmente.
Dustin assente devagar, olhando diretamente para mim. Desvio o olhar, vermelha, mas sei onde ela quer chegar. Século XX. Quando agimos mais como humanos do que nunca. E essa atitude continuou no século XXI.
Mas o que eu quero saber é o que explica isso. Pego o celular da mão de Paco e chamo por Elena, que também se calou.
“Você está aí? Explique isso melhor.”
“Hailey? Explicar o quê? Você é que tem que se explicar, me chamou e ficou um tempão sem dizer nada! Por que não pode me responder agora?”
Ah, não. É Liz.
— O que é isso? A vinda de Elena tem um tempo limite? – Dustin indaga.
— Não acho que Elena tenha ido embora inconscientemente – Sohan palpita. – Acho que alguém a obrigou.
Olho para ele, por algum motivo surpresa com a possibilidade.
— Acha que Mackenzie a proibiu de nos contar o resto? Mas ela mesma disse que nós teríamos que descobrir por nós mesmos!
— Então talvez ela queira contar o resto da história com suas próprias palavras – fala Paco. – O que quer dizer que teremos um encontro com ela em breve.
Deito na cama e cubro o rosto com as mãos. Minha cabeça está doendo com tanta informação nova de repente. Chego a desejar que L.C não venha tão rápido, porque assim eu terei um pouco de tempo para recompor meu psicológico.
...Não. É bom que ela venha de uma vez e ponha um ponto final nisso de uma vez.
— Se nós éramos humanos de verdade e morremos... – Sohan começa. – Então somos espíritos mesmo? Tipo almas penadas?
Paco tremeu.
— Ah não, cara. Não gosto de fantasmas.
— É melhor não tirarmos nenhuma conclusão precipitada antes da Lady Crystal chegar – Dustin sugere.
— O Água tem razão – Michele diz. – Pensar muito só vai piorar nosso estado. Fiquem firmes.
Ela olha para mim ao dizer isso e eu capto a mensagem. Era eu quem devia estar dizendo isso. Caramba, líder, recomponha-se.
Me levanto e olho para todos, tentando manter a postura.
— Terra está certa. Procurem ficar calmos.
— Nem você está calma, Luz. – Paco sorri, sapeca. – Mas tudo bem. A gente vai se acalmar. Quem sabe você não vem com a gente?
Sorrio para ele. Acho incrível como Paco consegue aliviar a tensão quando nem mesmo Dustin consegue.
O celular vibra com uma nova mensagem de Liz. Quem o pega para respondê-la é o Água. Ele digita qualquer coisa e o joga de volta na cama.
— O que você disse? – Pergunto.
— Que estaremos de volta em breve, que ela já pode devolver o celular ao Trevor e agradecê-lo e que espero que se recupere logo.
— E o que ela respondeu.
— Eu sei lá. Desliguei o celular.
— Certo, Aqua Boy, isso é muito útil – resmunga Sohan.
— Ei, como você sabe desse nome?
Paco tenta conter uma risada, mas não consegue e Dustin reage dando um tapa em sua cabeça. O resto de nós ri com a discussão que se segue, ninguém se importando se vai virar uma briga de verdade ou não. Nunca vira. São Água e Fogo, afinal.
A risada brincalhona de Paco cessa de repente quando ele olha para um ponto atrás de mim. Dustin o segue e também fica sério. O silêncio predomina no quarto até eu arranjar coragem para me virar também.
— Meus parabéns por ter conseguido conversar com Elena. Querem saber o resto da história?
Encaro Mackenzie, lutando contra a vontade tirar os olhos desse sorriso vazio e gelado, e respondo por todos:
— Conte-nos tudo. Agora.
. . .
Hampton, Estados Unidos
Mais uma noite entediante. Estou ficando cansado de fazer sempre a mesma coisa: eu fico sentado no sofá lendo qualquer livro, enquanto a TV fica ligada num canal qualquer porque meu irmão mais velho quer ver qualquer programa e meus pais ficam conversando sobre qualquer assunto.
Fiquei feliz quando as aulas voltaram porque assim pelo menos eu não preciso ficar em casa o dia inteiro fazendo as mesmas coisas. Assim eu posso sair, ver o pessoal e me distrair. Mas à noite... Não tenho como escapar. A rotina me atinge de novo como uma bala no peito e volto para esse ciclo infernal.
— Não tá passando nada de bom – meu irmão diz. – Acho que vou ver um filme.
— Que bom – resmungo.
Ele não falou isso à toa. É que ele é preguiçoso e quer que eu vá buscar pipoca para ele comer. Sozinho.
Meu irmão me dá um chute na perna.
— Tá me ouvindo, Miles?
Odeio essa atitude. Só porque ele é mais velho e mais descolado do que eu? Fala sério. Wyatt enche o meu saco desde que soube que eu precisava de óculos. E olha que isso foi quando eu tinha uns cinco anos.
Vagabundo. Vá pra faculdade logo e me deixe em paz.
— Se quer pipoca, vá buscar. Não me incomode.
— Se está tão incomodado comigo, sente-se em outro lugar.
Penso em responder, mas fico em silêncio. Não porque quero. É estranho mas, quando se entra numa rotina, por mais que a odeie, é difícil rejeitá-la.
— E aí? – Wyatt continua. – Vai mudar de lugar ou não?
Me preparo para respondê-lo, mas minha atenção se volta para outra coisa. “Ou não”... Por que essa expressão me parece tão familiar e tão importante?
— Miles? Você tá aí? – Meu irmão balança a cabeça. – Nossa, você tá bem estranho ultimamente! Eu te vi ontem na rua, conversando sozinho. Arrumou um amigo imaginário ou tá maluco mesmo?
Conversando sozinho? Agora que ele falou... Realmente, eu estava andando na rua ontem, e sei que conversei com alguém. Mas quem? Por mais que eu force minha memória, não consigo me lembrar dos rostos dessas pessoas.
Wyatt bufa quando o programa que estava vendo é interrompido para a transmissão de uma notícia. O repórter está a frente do hospital, contando sobre um ataque que ocorreu agora à noite. Ele diz que todas as testemunhas contam ter visto monstros invadindo o local, que eles destruíram tudo e machucaram várias pessoas e, por fim, desapareceram de repente. Muito parecido com... Com o que mesmo?
A imagem some do nada e o programa de Wyatt volta sem o repórter ter terminado a notícia.
— Eu hein. Vai ver era só um trote.
Como ele pode ser tão indiferente quanto a isso? Será que só eu estou achando tudo isso estranho?
— Eu vou até lá.
Digo isso antes mesmo de pensar no assunto. Mas é isso mesmo. Se eu for até lá, talvez entenda alguma coisa.
Wyatt me olha como se eu fosse maluco
— Tá mesmo levando isso a sério?
— Você não fica nem um pouco curioso?
— Por que ficaria?
— Não ouviu a notícia? Ele disse que monstros atacaram o hospital.
— E daí? Foi a mesma coisa que disseram quando sua escola foi destruída e todos concordaram que era só piração das crianças. Vai ver que é por isso que cancelaram a matéria: para evitar que alguém pense que o cara tá louco.
Quando minha escola foi destruída...
Tudo volta a minha mente do nada. Eu estava lá no dia. Vi os monstros. Vi eles seguindo Chase Watterson. E vi eles desaparecendo do nada também, um pouco de cada vez, pouco depois de eu ficar encharcado.
Tem mais uma coisa... Eu vi eles nocauteando alguém. Esse alguém foi socorrido por outro alguém, eu sei que vi isso. Mas por que não consigo me lembrar de seus rostos?
— Wyatt?
— O que é?
— Eu vou para o hospital.
Ele ri e balança a cabeça.
— Aproveita e vê se tem um remédio pra sua cabeça.
Ele provavelmente diz mais alguma coisa, só que eu já estou correndo demais para me importar.
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