The Sages
3 03 - Regras
Notas iniciais
Demoraram dois dias para eu, Dustin, Chase e a maioria dos outros alunos do colégio receber alta.
Sophie e Liz foram me buscar. Antes de entrar no carro, vi meu ex-namorado indo para casa com seus pais e o Sábio da Água sendo acompanhado por uma mulher. Ele não parecia muito confortável com sua companhia.
No momento, estou em meu quarto. Depois do almoço disse à Sophie que precisava descansar e ela me deixou subir. Mas eu estou ótima, tirando o fato de ainda ter algumas curativos sobrando. Eu só quero um tempo para mim.
Sento na cama e olho para o telefone no criado-mudo. Antes de sairmos do hospital, Dustin e eu trocamos nossos números para podermos nos falar quando precisarmos. Estou com o papel agora no bolso e bem tentada a ligar para ele, embora não saiba ao certo do que conversar.
Ao lado do telefone está um retrato de mim e Chase nos abraçando no Central Park. Lembro que era nosso aniversário de um ano de namoro e ele me levou para uma das atividades ao ar livre que mais amo: piquenique. Preciso de um esforço surreal para guardar o retrato na gaveta.
Não sei como conseguirei encarar Chase quando nos encontrarmos no colégio. Ele pareceu realmente magoado com término. Não sei se foi por causa do motivo aparentemente ilógico e mal explicado ou se foi por eu ter terminado tão de repente depois de dois anos. Ou talvez... Por só ter contado essa história a ele agora. Vai ver ele se sentiu traído, como se eu não confiasse o suficiente nele. Isso está errado. Eu não contei porque eu não queria encarar a realidade.
Sinto uma vontade súbita e quase irresistível de ligar para ele e explicar isso, e imediatamente me reprimo. Sou uma Sábia, droga. Vou embora desse mundo assim que terminar meus afazeres e Chase nem vai mais se lembrar de mim, e com certeza não estarei pensando nele daqui a cem anos. Não tenho motivos para me preocupar com esse tipo de coisa.
Sabe, às vezes eu não entendo L.C. Ela não quer que nos envolvamos demais com os humanos. Então, porque nos dar sentimentos? Seria mais fácil se fôssemos apenas espíritos dentro de corpos totalmente vazios. Isso evitaria muito problemas.
Decido ligar para Dustin. Preciso ao menos saber onde ele está morando para o caso de precisar encontrá-lo alguma hora. Mas não preciso fazer isso; o telefone toca, e quando atendo ouço sua voz.
– Hailey, oi! Como vai minha irmã?
– O que nós conversamos sobre esse lance de “irmã”? – Solto um suspiro. – Estou bem. E você?
– Digamos que estou bem. Você sabe, esses curativos fazem a gente se sentir uma múmia.
Não, eu não sei.
– Aconteceu alguma coisa por aí? – Pergunto a ele.
– Não. Só queria saber se estava tudo ok mesmo. E... Você não me disse onde mora.
Sorrio. É engraçado como essas coisas acontecem. Às vezes chego a crer que há realmente uma espécie de ligação telepática entre nós, Sábios.
– Já ia ligar para você exatamente por isso.
Dou-lhe meu endereço e ele faz o mesmo. Anoto a informação no verso do papel onde está seu telefone.
– E também podemos nos adicionar no Facebook. Passa seu e-mail.
– Eu não uso essa coisa.
Ouço Dustin rir. Ele só para quando percebe que estou falando sério.
– Sem brincadeira? – Fala sério. Ele não devia estar espantado. – Qual é, Hailey, essa coisa é como o seu passaporte para a popularidade. Eu adicionei uma pessoa no primeiro dia de aula e já estou na lista de amigos de quase todo mundo do colégio.
– Só acho que é uma grande perda de tempo. Não significa nada para mim.
E falo sério. Sem querer ofender a ninguém, mas não vejo nenhuma grande necessidade de passar o dia em redes sociais. Já passei pela Terra em épocas em que as pessoas se contatavam através de cartas, se divertiam brincando na rua, indo ao teatro, qualquer coisa que os tirasse de casa. Ah, e também conversavam apenas com as pessoas ao seu lado. Estou cansada de ver pessoas mandando mensagens pelo celular e deixando a pessoa ao seu lado falando sozinha. Sendo que muitas vezes a pessoa que recebe a mensagem está a poucos metros de distância.
– Certo. Se você diz. – É meio irritante como Dustin nem se dá ao trabalho de disfarçar a risada. – Talvez eu dê uma passada aí mais tarde.
– Tem certeza disso? Minhas irmãs podem achar estranho. E elas sabem que terminei com Chase, então provavelmente Sophie vai me dar uma bronca sobre como eu estou sendo “fácil”.
Agora ele ri ainda mais.
– Certeza absoluta. Te vejo mais tarde.
. . .
E ele realmente vem. Sophie atende a porta quando ele toca a campainha e me olha com muito desagrado. Dustin, no entanto, sorri de orelha a orelha como se fosse o momento mais feliz de sua vida.
Dustin também tem alguns curativos no corpo, mas fora a isso parece muito bem. Veste uma camisa preta, um casaco xadrez azul claro e escuro e calça jeans preta. Suas roupas estão todas amassadas e ele nem se importa com isso. Gosto desse estilo despreocupado.
– Olá, sou Dustin Collins. Colega de escola e grande amigo de Hailey.
Ele estende a mão para Sophie,que a aperta ainda com um pouco de receio.
– Sophie Miller, irmã mais velha. Prazer.
Dustin não espera que ela permita sua entrada e já vai invadindo a nossa casa. Quando vai se apresentar para Liz, que está fazendo seus desenhos na mesa, ela o recebe com um sorriso enorme.
– Eu conheço você! É o Aqua Boy.
O sorriso de Dustin vacila. Eu preciso segurar a risada. Que nome ridículo.
– Como é? – Ele diz.
– É você mesmo – continua Liz. – O mágico australiano que fazia o maior sucesso em Sidney, até que rolou aquele acidente...
Encaro o Sábio d’Água. Ele também me olha por um instante antes de desviar o olhar para o chão. Lembro do que Lady Crystal disse: Mas o fato de você ter quebrado a Terceira Regra causou a morte deles. Ainda não havia lhe perguntado sobre Clarisse e Lester, mas já não podemos mais ignorar isso.
E a julgar pelo segundo olhar que ele me lança, Dustin também sabe disso.
– É isso aí – ele diz à Liz. – Sou eu mesmo. Você é bem inteligente.
O sorriso da minha irmãzinha fica ainda mais radiante.
– Eu vi vídeos de seus shows. Você é muito talentoso. Devia recomeçar.
– É bem complicado, baixinha. – A voz de Dustin sai tão baixo que eu mal escuto. Então ele disfarça com seu sorriso carismático. – Mas é bom saber que tinha uma fã tão bonita.
Tenho a impressão de que Liz vai explodir de alegria.
– Pode me dar um autógrafo?
– Mais tarde. Agora eu preciso conversar com sua irmã.
Ele também não espera o consentimento de Sophie antes de me puxar escada a cima. Antes de entrarmos em meu quarto, ainda consigo ouvir Liz resmungando: Sortuda.
. . .
Dustin não parece mais o mesmo garoto calmo e carismático que eu conheci. Agora ele está andando de um lado para o outro em meu quarto, passando a mão pelos cabelos e bufando o tempo todo de nervoso. E eu não gosto disso porque também me deixa nervosa.
Ainda assim, ele consegue dar uma risada nervosa.
– Sua irmã é bem antenada, não é?
– Liz sabe das coisas.
Ela é realmente a garota de dez anos mais antenada que conheço. Se você perguntar sobre qualquer coisa no mundo dos artistas – e só dos artistas –, Liz te responde na hora, e não erra em nada. O problema é que se você perguntar como anda a economia na Europa, ela vai dar de ombros.
Não que Liz seja uma dessas menininhas que só ligam para atores famosos, cantores pop e coisas do tipo. Todo o natal e aniversário, sem exceções, ela pede um livro de no mínimo cem páginas. É só que ela gosta do “mundo das artes”, como eu e Sophie costumamos dizer.
– Então... Você era um mágico. Aqua Boy. – O nome parece ainda mais ridículo quando sai da minha boca. – E aconteceu esse acidente. Tem a ver com Clarisse e Lester?
Dustin faz que sim com a cabeça.
– O que aconteceu?
– Eu quebrei a Terceira Regra.
Quase digo que já sei disso quando percebo que ele não está falando comigo, e sim consigo mesmo. Dustin finalmente se sentou em minha cama e juntou as mãos com se estivesse rezando. Posso ver gotas de suor em sua testa. Deus, ele está apavorado.
Ou melhor, assombrado com o que fez.
– Clarisse e Lester foram meus primeiros pais adotivos – Dustin diz. – Ela nasceu no Havaí, e durante uma visita a Sidney, conheceu Lester. Ele era tipo um gênio, falava qualquer língua, então chamou Clarisse para sair. Se casaram depois de anos de namoro. Ambos queriam ter um filho, mas um acidente impediu Clarisse de engravidar. Por isso decidiram ir ao orfanato. Eu tinha oito anos e havia chegado a Terra apenas alguns meses atrás. Eles me viram, me adoraram e ficaram comigo.
Dustin dá um sorriso melancólico. Seus olhos estão marejados. Decido que é melhor não dizer nada. Ele disse que meu novo corpo gosta dos humanos, mas seu corpo atual também é assim. Ou apenas ama o casal que o adotou. E que, pelo visto, morreu por sua causa.
– Nós éramos uma família feliz. Raramente tinha algum desentendimento lá em casa. E éramos ricos, o que facilita muito as coisas. – Dustin diz a última parte como se fosse uma piada, mas eu não rio. Entendo que queira quebrar um pouco a tensão, mas não funciona muito quando nem ele mesmo acha graça no que diz. – Aí um dia... Já faz dois anos... Eles me viram controlando a água.
– Dustin!
– Eu sei! Fui descuidado. Mas eles viram e eu tive que mentir para eles pela primeira vez: disse que era um truque de mágica que havia aprendido e que estava praticando. Sinceramente... Clarisse e Lester eram tão ingênuos quanto era bons pais. Eles acreditaram. E quiseram que os outros vissem minha “incrível habilidade”. Então contaram para parentes e vizinhos, e de repente me tornei um mágico conhecido em Sidney.
– Foi aí que se tornou o Aqua Boy – concluo.
Mais uma risada de nervoso vinda dele.
– O nome foi ideia de Lester. Aqua Boy, o garoto aquático. Aquele que pode tirar água do nada. Lester nunca foi bom nessas coisas.
– Então você começou a aparecer em noticiários e jornais locais – adivinho –, o que quebra a Terceira Regra dos Sábios.
Dustin assente com a cabeça.
– Alguns meses atrás, os monstros apareceram na nossa casa e atacaram as pessoas que mais apoiavam minha carreira: Clarisse e Lester. Eram muitos. Pra você ter uma ideia da bagunça que foi, eles botaram fogo na casa. Eu não consegui salvar meus pais e os monstros sumiram logo depois de matá-los. Quando os bombeiros e os policiais chegaram, eu estava sentado no jardim chorando. Também não acreditaram na história dos monstros.
Franzo o cenho.
– O incêndio até podia ser óbvio. Mas como explicaram os ferimentos que os monstros causaram?
– Isso foi o que mais me impressionou. Eles não cortaram nem morderam os dois. Os monstros atacaram de uma forma que a morte pôde ser totalmente explicada por um incêndio. Monstros inteligentes, Luz.
Prendo a respiração com o susto. Monstros não deveriam pensar. Monstros deveriam ser seres que seguem os instintos de matança, o que nos dá uma grande vantagem e várias opções de como enganá-los. Mas se eles puderam pensar e atacar de forma que ninguém suspeitasse que algo sobrenatural havia passado pelo lugar, nós estamos com sérios problemas.
Os monstros estão evoluindo.
– Depois disso, a irmã de Lester se ofereceu para ficar comigo. Viemos para cá porque ela achou que quanto mais longe eu ficasse de Sidney, melhor. Mas eu sei que Kora não me adora e não tem tanto carinho por mim, e que só ficou comigo pelo irmão. Até parece que ela sabe que tenho culpa.
Sei que em conversas normais essa seria a hora em que eu deveria dizer que não foi sua culpa e tudo o mais, mas isso seria uma grande mentira. Tanto eu quanto Dustin sabemos que isso aconteceu por sua causa.
– Você não imagina o quanto é sortuda – continua o Sábio. – Pode não ter mais pais, mas ainda tem duas irmãs que te amam.
Sorrio.
– Eu também amo elas.
Demoro segundos para perceber o que disse. Olho para Dustin e vejo que ele também sorri.
– E eu também continuo amando Clarisse e Lester. Uma pena que, de uma forma ou de outra, acabamos nos separando deles cedo demais.
Não entendo de primeira, e então compreendo o que Dustin quer dizer. A nossa missão já está começando – na verdade, já começou. Nunca demoramos mais de dois meses para terminar nossos afazeres e sair da Terra.
Penso em como não verei Liz crescer, se apaixonar pela primeira vez, ir a sua primeira festa, se formar. Em como não poderei ver Sophie conhecendo o cara certo, se casando e formando sua própria família.
Com esses pensamentos, sinto como se já as tivesse perdido. E a sensação é que estou mergulhando em um poço de veneno.
Também preciso me sentar.
– Nem queira imaginar isso – alerta Dustin.
Mas já é tarde demais. Sinto vontade de chorar e Collins deve notar isso, pois se aproxima e passa o ombro em volta de meus ombros. Sem pensar, deito minha cabeça em seu ombro e encaro a parede.
– Desculpe por arruinar seu dia – Dustin diz depois de minutos de silêncio. – Normalmente eu faço o oposto.
Apenas meneio a cabeça antes de mudar de assunto:
– Eu contei para Chase.
– Contou o quê?
– Tudo. O que nós somos e o que viemos fazer aqui.
Dustin se afasta e me encara com um olhar repreensivo.
– Você não podia fazer isso.
– E como acha que iria terminar com ele? Com uma desculpa esfarrapada? – Rebato. – Chase não mereceria isso.
– Não importa se ele merecia ou não; é muito arriscado contar a verdade para qualquer um. Me surpreende que a chefona ainda não tenha aparecido para te fazer engolir pregos.
– Chase não é qualquer um. Confio nele mais do que em qualquer pessoa. Se não fosse essa maldita regra, pode apostar que teria mantido nosso namoro até meu último dia aqui na Terra.
O garoto ao meu lado solta um suspiro.
– Caramba. Você ama mesmo esse cara – murmura.
– Qual o problema? Não tem nada nas Regras que fale sobre isso.
– Não tem nada nas Regras porque a chefona espera que sejamos espertos o suficiente para perceber sozinhos. É quase a mesma coisa que quebrar a Terceira Regra, só que ao invés da pessoa se perguntar como você pode fazer magia, ela já sabe.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E os monstros não iriam atacar Chase só por ele saber quem somos... Certo?
– Os monstros não têm nada a ver com isso dessa vez, Hailey. – A voz de Dustin sai calma e séria ao mesmo tempo.
Antes que possa perguntar do que ele está falando, o telefone toca. Atendo no terceiro toque e escuto uma voz masculina vindo do outro lado.
– Oi – diz Chase.
Meu coração dá um pulo.
– Oi – respondo.
Dá para ver na cara de Dustin que ele já sacou quem está no outro lado da linha. Estende a mão e aperta um botão para ativar o viva-voz.
– Você está bem? – Pergunto a Chase depois de um breve silêncio.
– Não. Estive pensando no que você falou.
Espero que ele continue. O Aqua Boy não tira os olhos de mim, o que me deixa ainda mais nervosa.
– Cheguei à conclusão que o que realmente importa nessa história toda não é que temos que terminar – continua Chase. – O que importa mesmo é que você vai embora e só vai voltar daqui a um século, e que eu não vou poder estar aqui quando você voltar. – Ele espera que eu diga algo, mas continuo quieta. – Eu te amo, Hailey Miller. Não me importa se você é um espírito num corpo temporário. É por isso que não posso conviver com a ideia de que você vai embora em breve.
Como não digo nada, Chase desliga. Coloco o telefone no gancho e olho para Dustin, que já está de pé e com a mão na maçaneta. Já sei o que ele vai dizer antes mesmo de ele abrir a boca; sua expressão diz tudo.
– Entendeu agora?
Faço que sim com a cabeça e o garoto sai.
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