The Safe Place
44 Capítulo 44 – Sozinha
Notas iniciais
– Você é Rosalie Hale, filha de Hector Hale? – um dos policias perguntou. Eu apenas assenti, estava confusa demais para pronunciar qualquer coisa.
Na verdade estava apavorada, essa era a palavra certa para me definir no momento.
– O que aconteceu? Porque estão atrás da Rose? – Emmett tomou a frente, perguntando. Ele parecia irritado por tanta demora em ir direto ao assunto. Acho que era seu jeito de não demonstrar que estava nervoso com aquela situação também.
– Calma Emmett. – Carmen tocou o ombro do filho. — Policial, o senhor pode explicar o que quer com a Rosalie, por favor? – ela perguntou calmamente. Porém eu sabia que sua calma era fachada, notava-se isso em sua voz.
– Rosalie Hale, recebemos uma denuncia de uma vizinha da sua casa. Suponho que não more mais lá. – ele falou e eu neguei. – Pois bem. Nos avisaram sobre barulhos de disparos vindos da sua casa e quando chegamos ao local, encontramos a porta da frente escancarada. O incidente ocorreu na noite passada, mas só conseguimos te encontrar hoje. – ele relatou e minha boca se abriu, assustada. Minha mente começava a imaginar qual era a notícia que ele tinha para me dar.
– Tinha alguém na casa, policial? Aconteceu alguma coisa grave? O pai dela ainda mora lá. – escutei as perguntas de Eleazar direcionadas ao policial, mas eu não conseguia imaginar qualquer resposta diferente da que eu já estava supondo.
– Infelizmente, senhor. – o homem fardado, me encarou. Respirou levemente, antes de começar. – Lamento informar, Rosalie, mas encontramos o corpo do seu pai com três tiros, um deles acertou a cabeça. – falou e senti minha garganta secar. — Ele está morto. Homicídio. – concluiu o policial.
Ouvi as lamentações de Carmen, o sinto muito de Eleazar e senti os braços de Emmett em torno de mim, me abraçando. Eu não tinha reação. Fiquei lá, parada, com os olhos abertos e inexpressivos, sem saber como reagir. Não consegui sequer chorar.
Meu pai estava morto. Quantas vezes desejei isso? Entretanto, nunca pensei que realmente fosse se concretizar. Não foi como eu pensei. Não veio a sensação de alívio, de finalmente ter paz. Ao contrário, veio o vazio. Agora eu não tinha nem mãe, nem pai. Não tinha mais ninguém.
Não que Hector tenha sido um bom pai. Por um tempo ele até foi, mas aí a mamãe foi embora e tudo desmoronou. Porém ainda sim ele era meu pai, o único que eu tinha. A única pessoa viva com laços sanguíneos comigo, sem contar o bebê que eu carregava.
E agora eu não o tinha mais, mesmo que fosse apenas para gritar e brigar comigo.
As vozes a minha volta ficaram cada vez mais distante. Não, eu não iria desmaiar nem nada do tipo. Eu só não queria mais ouvir nada. Era como se eu forçasse uma bolha a se instalar a minha volta, para que eu pudesse ficar a sós com meus pensamentos.
– Emm, leva a Rose pra cima, nós vamos resolver isso aqui. – A voz de Carmen soou baixa e compreensiva. –Vai com o Emm, carinho. Tenta ficar calma, pensa no bebê. – Car acariciou meu braço, em seguida beijou minha testa.
Senti um braço de Emm em volta de minha cintura, me dando apoio enquanto eu caminhava na direção da escada. Meus passos eram lentos e automáticos. Emm não reclamou, apenas subiu comigo em silêncio.
Quando passamos pelo corredor e entramos no quarto, Emm me guiou até a cama, onde sentei e fiquei parada, encarando minhas mãos.
– Rose, eu sinto muito. – Emm respirou fundo. — Eu... Eu nem sei o que te dizer. – gaguejou, segurando e apertando minha mão.
Eu apenas encarei seu rosto e acenei com a cabeça negativamente. Ele não precisava dizer nada. Bastava que ficasse ali comigo e me abraçasse. Eu só queria que a sensação de vazio passasse. Só queria sentir que não estava sozinha.
Emmett passou os braços em volta de mim, beijou minha cabeça e me envolveu num abraço apertado cheio de carinho e compreensão. Encostei minha cabeça em seu peito e fechei os olhos. Eu não queria falar nada, apenas ficar ali, no conforto de seus braços. E ele entendia muito bem isso. Emm me conhecia melhor do que qualquer um, ele sabia que eu só precisava ficar no calor de seu abraço.
Deixei que a dor e a tristeza, até agora contidas dentro de mim, se libertassem. Chorei. As lágrimas rolaram fortes por minhas bochechas, como se não fossem parar jamais. Solucei e Emm me apertou mais, como se ainda fosse possível. Não estava me importando em chorar em sua frente, com a vergonha, nem com a dor que meu sofrimento causaria a ele. Eu só colocar para fora minha própria dor e esperar que passasse.
Passaria?
Eu tinha superado o sumiço da minha mãe, por assim dizer. Foi difícil, mas eu aprendi a viver sem ela. Entretanto sempre sentiria sua falta. Agora, eu conseguiria sentir a falta de Hector? Ele não fez nada para que o sentimento de saudade pudesse se despertado em mim, mas eu conseguiria ser tão fria e não sentir, ao menos, um pouquinho de falta que fosse?
No momento eu não sabia responder a essas perguntas. Eu não queria responde-las, tinha medo de qual poderia ser a resposta.
Enxuguei minhas lágrimas, me soltando do abraço de Emmett. O tempo tinha parado naquele instante, não saberia dizer quanto tempo estávamos na mesma posição. Ele me olhou, aguardando alguma reação minha. Seu olhar esverdeado era intenso, desanimado e preocupado. Sentia que ele queria que eu falasse qualquer coisa, meu silêncio o estava deixando sem saber o que fazer.
– Vai ficar tudo bem, okay? Isso vai passar, meu amor. – ele falou, tirando uma mecha do meu cabelo da testa e a jogando para trás. O simples roçar de sua pele macia na minha era tranquilizante. Eu só precisava senti-lo pra ter certeza que ficaria bem.
– Vai mesmo, Emm? – consegui fazer as palavras saírem e haviam mais delas presas em minha garganta lutando contra minha vontade de permanecer em silêncio e chorar. – Porque eu não tenho certeza disso. Primeiro a mamãe, agora ele. De uma forma ou de outra, eles foram embora. Eu não tenho mais ninguém, família nenhuma. Estou sozinha, Emm, sempre estive e isso dói. – falei, deixando as lágrimas rolarem, salgando meu discurso doloroso.
A mágoa presente em minhas palavras fez meu coração se afundar mais em dor. Tive que aprender a ser independente quando Lilian nos abandonou. Mas ir sozinha para o colégio, fazer minha própria comida e arrumar um emprego não quer dizer que não sinta falta de tudo que uma família me proporcionava e significava. Eu apenas me acostumei a sua ausência, fui forçada a isso, sem alternativa. Agora também teria que me acostumar a não ter mais Hector, mesmo que, em partes, isso seja um alívio.
– Não diga isso, Rose. Não é verdade. Como assim não tem família? E eu sou o que? Minha irmã, meus pais. Nosso bebê. – sua mão tocou minha barriga, sentindo o volume encoberto pelo moletom cinza que eu vestia. – Você já esteve sozinha, agora é completamente diferente. Nem se você quisesse ou tentasse iríamos te deixar.
Encarei Emmett, vendo toda sinceridade explícita em seu olhar. A dor, a compaixão, a tristeza também estavam lá, misturadas em seu olhar esverdeado. Mesmo assim não encobriam a confiança que ele insistia em demonstrar. Não podia duvidar de suas palavras e me senti egoísta e ingrata por ter dito aquilo.
– Me desculpe, eu sei disso. É só que... – minha garganta se fechou e mais lágrimas vieram. Não consegui terminar de falar.
Outra vez lá estavam os braços de Emm me rodeado, me prendendo eu meu peito e me fazendo sentir segura, amada. Aspirei seu cheiro delicioso, tranquilizador, enquanto tentava, em vão, fazer as lágrimas pararem de jorrar. Senti que poderia ficar ali pra sempre. Era exatamente assim, toda vez que ele me abraçava. Afinal, ali era meu lugar seguro.
– Tudo bem, meu amor. Não tem que se desculpar, nem consigo imaginar o quanto isso deve estar sendo difícil. Mas, Rose, por favor, você não está sozinha. De maneira alguma. – ele depositou um beijo lento no topo da minha cabeça.
– Queria ela estivesse aqui, Emm. Minha mãe. – falei baixinho. Minha voz, aguda e chorosa, soou quase inaudível. Fechei os olhos.
– Ela vai estar, Rose. Um dia, tenho certeza. – afirmou ele, me apertando ainda mais. Emm balançava o corpo lentamente, como se embalasse um bebê no colo.
No momento, eu realmente estava me sentindo assim. Só queria ficar ali com ele e chorar. Chorar não só por Hector, mas também por todas as coisas ruins que já e aconteceram e pareciam encobrir todos os bons momentos.
Um dia.
Isso era tão vago. Nem Emmett, com toda certeza e confiança, poderia me dizer realmente quando seria esse dia.
Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=axw6ukqQ3bY
Tempos depois, quando abri os olhos, percebi que estava deitada na cama com uma coberta sobre meu corpo. Emmett não estava ali, eu devia ter dormido em seus braços e ele me deixou descansar. Era muita informação para processar e, por alguns segundos, pensei que tudo não tivesse passado de um sonho. Ou melhor, um pesadelo.
Me remexi na cama, tirando o cobertor e pegando o celular de Emm no criado ao lado da cama. Já passava da meia-noite. Quando pensei em me levantar e procurar por Emmett ou Carmen, minha sogra apareceu na porta do quarto segurando uma xícara. A fumaça densa pairava sobre a louça e, pelo cheiro, deveria ser chá.
– Eu já ia te acordar, carinho. – ela falou se aproximando da cama e depositando a xícara com o líquido quente sobre o criado. Carmen se sentou na beirada do colchão e me encarou com seus grandes olhos brilhantes. – Não vou perguntar se está bem, pois sei que não está. – começou. – Rose, querida, eu também já perdi pessoas importantes na minha vida. Sei exatamente como está se sentindo. Apesar de tudo, ele era seu pai, merece sua compaixão, suas lágrimas. Mas quando isso passar, quando você se conformar, não fique se martirizando. Não sofra mais que o necessário. Lembre-se que tem um bebezinho vindo aí e ele precisa de uma mãe feliz, que tenha forças para cuidar dele. Promete que vai fazer isso? – pediu, segurando minha mão e a apertando.
Ela tinha toda razão, Carmen sempre tinha. Sempre sabia o que dizer e eu agradeceria todos os dias por tê-la como sogra. Ultimamente, Car tinha sido bem mais que isso. Na verdade, desde o primeiro dia que a conheci, quando cuidou dos meus machucados e me deu carinho que só uma verdadeira mãe daria. E era assim que eu a considerava, uma mãe pra mim.
– Prometo Car, obrigada. – sorri, leve e sinceramente. Meus dedos se fecharam com mais força em torno de sua mão, num sinal que cumpriria o que ela estava pedindo.
– O Emm contou como você está se sentindo, o que disse sobre estar sozinha. – falou, mas em seu rosto não havia sinal de desapontamento ou mágoa. Expressava apenas compreensão e isso me deixou tranquila, não queria entristecê-la de forma alguma. – Carinho, você não está sozinha, nós somos sua família agora. Antes mesmo de namorar meu filho, eu já sentia que você seria muito especial para nós. Prometemos cuidar de você, não foi? Estamos fazendo isso, não estamos? – eu assenti para suas perguntas. – Então, vai ser sempre assim. Não se preocupe, família é muito mais que laços sanguíneos, meu bem. E você, Rose, faz parte da nossa. É tão importante pra mim, quanto Emm ou Irina. – terminou, sorrindo docemente.
Não pensei em outra coisa a fazer no momento além de abraça-la. Meus braços passaram por trás do pescoço de Carmen e ela me recebeu gentilmente. Suas mãos afagaram minhas costas repetidamente, enquanto eu tornava a chorar, só que desta vez mais controlada.
Emocionada, agradecida e amada eram pouco para me descrever no momento. Por esses instantes, tudo isso se sobrepôs as tristezas anteriores.
– Pode chorar, carinho. Nós estamos aqui com você, eu estou aqui, filha. – apertei os olhos, deixando as lágrimas rolarem por minhas bochechas e pingarem no ombro de Carmen. Ela era a melhor pessoa do mundo, a mais doce e mais gentil.
Naquele momento percebi que não era apenas nos braços de Emm que estaria segura. Não só seu abraço, seu peito quente, sua pele com aroma delicioso que eram meu lugar seguro. O abraço materno de Carmen era igualmente especial. Tão seguro e necessário quanto o dele.
– Obrigada Car. – me afastei para encarar seu rosto, notando que ela também chorava. As lágrimas cristalinas enfeitavam seu rosto, fazendo as bochechas brancas como porcelana brilharem. – De verdade, obrigada por tudo. Jamais vou saber agradecer pelo que fazem por mim, por me aceitarem como parte da família, por nunca me julgar. Você é incrível. Incrível é pouco! É a melhor mãe do mundo, espero ser pelo menos um pouquinho como você. – agradeci, segurando suas mãos.
– Você vai ser até melhor, Rose. Pode apostar, querida. – ela sorriu confiante, mas eu não tinha a mínima certeza disso. – Agora toma esse chazinho e vai dormir, porque amanhã o dia será longo. – ela me passou a xícara que já não saia mais fumaça. – Nós vamos resolver tudo, meu bem, não precisa se preocupar. – Carmen tirou uma mecha do meu cabelo que caía no rosto quando abaixei a cabeça para beber.
Assenti, tomando o primeiro gole. Não queria nem imaginar quão longo seria o domingo. Car beijou minha bochecha, ficou de pé e ajeitou o cobertor sobre minhas pernas. Avisou que mandaria Emm subir, antes de sair do quarto. Da porta, ela soprou outro beijo pra mim, me fazendo sorrir.
Antes que eu pudesse terminar de tomar todo o chá, Emmett entrou. Perguntou se eu estava melhor e eu respondi afirmativamente, tornando a me desculpar pelas coisas que dissera antes. Ele não pareceu se importar, beijando meus cabelos, pegando a xícara vazia de minhas mãos e colocando sobre o criado.
Quando se deitou, Emm me puxou outra vez para o conforto de seus braços, depositando um beijo na minha nuca. Suas mãos envolveram minha cintura larga, repousando sobre minha barriga volumosa.
Rapidamente adormeci, não sei se por efeito do chá. Acho que, na verdade, minha cabeça precisa descansar e absorver a nova realidade.
“Quando me encontro em momentos difíceis
A minha Mãe Mary vem até mim
Dizendo palavras sábias
...
E nas minhas horas de escuridão
Ela está em pé bem diante de mim
Dizendo palavras sábias
...
E quando as pessoas sozinhas
No mundo concordarem
Haverá uma resposta
...
Haverá uma resposta
Deixe estar...”
Let It Be – The Beatles
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