The Safe Place
35 Capítulo 35 – Salvando Duas Vidas
Notas iniciais
Andei tão depressa pelas ruas frias de Forks que estava quase correndo. Minhas bochechas estavam vermelhas quando cheguei em casa. Quase dei um encontrão com meu pai enquanto subia as escadas, mas desviei a tempo. Não parei para ouvir suas reclamações, me tranquei no quarto e me atirei na cama fria.
Ele estava com ela. Emmett estava saindo com Mary-Kate e a culpa era toda minha. Eu o deixei ir, eu terminei com tudo que tínhamos sem mais nem menos. Eu merecia isso.
Do que adiantaria agora voltar atrás e contar tudo? Ele ficaria completamente bravo comigo, sem chances de perdão. Pra que ele iria querer de volta a garota sem graça e grávida se agora tinha uma loira linda sem bagagem para atrapalhar sua vida?
Chorei tanto naquela noite que acabei pegando no sono. Um sono perturbado, sonhando com imagens borradas e confusas. Quando acordei no meio da madrugada só me lembrava das cenas do meu pai batendo em minha mãe, depois em mim. Em algum momento apareceu a Grayson e suas amiguinhas rindo, mas a imagem mais dolorida foi me ver beijando Emmett e depois ele me empurrando.
Não queria mais dormir se fosse pra sonhar com isso. Até dormindo minha mente me torturaria? Resolvi descer e comer alguma coisa. Eu ainda estava vestindo jeans, camiseta e casaco. Troquei a calça por uma de moletom confortável e fui atrás de comida em plenas quatro horas da manhã.
[...]
Cheguei atrasado ao colégio aquele dia. De propósito, eu estava cansada, não havia dormido direito e nem mesmo queria ter levantado da cama. Bella me ligou lá pelas 8h perguntando onde eu estava e eu disse que chegaria na segunda aula. Contei para ele o motivo do meu desanimo, o encontro com Emmett e sua namoradinha ontem e ela entendeu perfeitamente. Além de ficar decepcionada ao saber, é claro.
Já no colégio, fugi de Emmett, de Mary-Kate e de suas amiguinhas a manhã toda. Não fui lanchar na cantina, mesmo quase sendo arrastada por Miah. A única pessoa que não me perguntou nada e ficou comigo, sem questionar, na sala durante o intervalo foi Jacob. Ele estava sendo um ótimo amigo e, segundo Bella, estava parecendo mais interessado em mim do que nela. Senti sua pontada de ciúmes, mas tratei logo de afastar essa ideia imbecil da cabeça dela.
Dei graças a Deus quando o sinal, anunciando o fim da aula, tocou e pudemos ir embora. Mas nem bem cheguei em casa e Bella já estava me ligando.
–Não Bella, não adianta insistir. Eu sei que eu deveria, mas eu não posso. – argumentei pela milésima vez ao telefone com ela.
Ela e Alice insistiam que eu contasse a Emmett sobre a gravidez, ainda mais depois que souberam sobre ele e Mary-Kate. A baixinha ficou completamente irritada e as duas achavam que talvez se eu contasse ele daria o pé na bunda da garota e voltaria comigo. Mas as coisas não eram, nem de longe, tão fáceis assim.
Emm parecia mesmo ter me superado, seguido sem mim. E estava no direito de fazer isso. Eu jamais poderia fazer o mesmo, jamais teria outro amor como o dele, mas tinha que começar a me acostumar com a ideia de que estávamos cada vez mais distantes e não iríamos voltar.
–Sério que vai deixar aquela loira azeda ficar com o seu grandão? Conte a ele Rose, por favor, o Emm largaria tudo por você. – Bells insistiu, imitando exatamente a voz persuasiva de Alice. Só que eu já estava treinada contra isso, sabia resistir as suas manhas e conselhos que pareciam ser completamente corretos a seguir.
– E é exatamente por isso que não vou contar, Bells. Ele largaria tudo, até a chance de ir pra faculdade. Está vendo? Eu o amo e não quero que faça isso. Além do mais agora a Mary-Kate deve estar lá se esfregando nele. – revirei os olhos, com raiva das minhas próprias palavras ao imaginar isso. –Então não, desiste. – teimei, abrindo a porta da minha casa.
Eu acabara de chegar e estava tão cansada. Louca para desligar a conversa no celular com Bells e cair na cama. Nem mesmo com apetite eu estava.
–Além do mais, eu tenho minhas duas melhores amigas comigo, certo? Emmett não precisa saber da minha gravidez, não agora. Meu bebê vai ter as melhores tias do mundo, por enquanto basta. – respondi, ouvindo Bella rir do outro lado da linha, enquanto fechava a porta.
–Isso é verdade, mas Rose... – nem consegui escutar Bella completar a frase.
Tudo aconteceu rápido demais. Não percebi que Hector estava atrás de mim quando entrei. Logo sua mão estava em mim e senti meu pescoço ser apertado. Minhas costas baterem contra porta que eu nem havia conseguido trancar e o celular caiu de minhas mãos antes mesmo que eu encerrasse a ligação.
– Que assunto é esse de gravidez, Rosalie? Você tá grávida, sua vadia? – perguntou furioso. Eu não conseguia falar direito com sua mão apertando meu pescoço e o ar logo me faltaria.
–Eu... Eu posso e-explicar... – gaguejei, tentando falar. Seu olhar descontrolado me fulminava.
–Explicar? Explicar o que? Que deixou aquele garoto bombadinho te comer?! Como você é burra, garota! Que merda! – esbravejou ele, me soltando bruscamente.
Minha respiração estava entrecortada, eu puxava o ar com força, fazendo meus pulmões arderem. Minha mão direita voou para meu pescoço, na tentativa de aplaca a ardência do local.
–Pai, por favor, desculpa. – pedi desesperada. Minha voz saiu esganiçada e as lágrimas rolaram rápidas e fortemente por meu rosto quando apertei os olhos.
–Cala a boca! – um estalo soou pela casa e senti meu rosto queimar. Ele havia estapeado minha bochecha esquerda com força, me fazendo levar a mão ao lugar e chorar mais ainda. – Desculpa pelo que? Pela merda que você fez? – gritou mais ainda.
Se eu já tinha medo de Hector antes, agora eu tinha pavor. Seu olhar e sua voz grossa estavam me fazendo tremer. Me encolhi contra a parede, soluçando, e senti o gosto de ferrugem na boca. Quando olhei para minha mão que havia tocado meus lábios, percebi que havia sangue. Precisei constatar isso para sentir a ardência do corte e o sangue correndo pela ferida.
Hector, que depois do tapa estava andando de um lado para outro em minha frente, parou e me encarou. Tremi com seu olhar vermelho e furioso.
–Cadê ele, hein? Cadê aquele idiota pra assumir a merda que fez? Eu não vou cuidar de filho de ninguém, garota, não vou! – falou apontando o dedo pra mim.
Porque ele tinha que falar assim? Quem era ele pra chamar Emmett de idiota? Emm era uma das melhores pessoas do mundo, Hector não devia ter nem o poder de pronunciar seu nome.
A raiva e a vontade de debater tomaram conta de mim ao ouvir suas palavras. Ele também não iria chamar meu filho de merda e eu ficaria calada. Já estava acabada mesmo, que mal fazia rebater os insultos?
–Você não é ninguém para falar do Emmett assim, ele é mil vezes melhor do que você. E não chame meu filho de merda. Merda é você! – era minha vez de gritar e assim o fiz.
Mas quem era eu pra comprar briga com ele? Com facilidade fui atirada no chão logo após levar outro tapa. Meu rosto já estava pra lá de dolorido e agora meu corpo doía devido ao encontro brusco com o chão.
–Já falei pra calar a boca, infeliz! – ele desferiu um chute na lateral da minha barriga, me fazendo gemer e chorar desesperada.
Eu estava encolhida no carpete frio da entrada, imaginando quantos pecados cometi para que tivesse pagar dessa forma. Ele tinha razão em me chamar de burra. Eu era uma completa insana por confrontá-lo e agora estava me contorcendo pela dor pontiaguda que me atingiu na barriga.
–Abaixe o tom da voz pra falar comigo, garota. Aqui não tem ninguém pra te defender. – sua voz saiu rouca e extremamente pavorosa próxima ao meu ouvido. O cheiro forte de álcool batendo contra meu rosto me fez querer vomitar.
Hector puxou meus cabelos, erguendo minha cabeça, me obrigando a encará-lo. Meu coro cabeludo ardia e eu sentia que os fios poderiam soltar a qualquer instante.
–Você não tem ninguém pra te proteger, Rosalie. Sua mãe te abandonou, esse moleque também. Não tem ninguém pra te defender, garota. Ninguém, entendeu?!
Calafrios mais intensos tomaram conta do meu corpo quando ele disse isso. O que ele iria fazer? Me matar? Eu já estava morta por dentro mesmo, só temia pelo meu filho. Fechei os olhos quando outra pontada aguda atingiu minha barriga. Gemi mais pela dor quando Hector largou meus cabelos, fazendo minha cabeça tombar no chão gélido.
Ele ficou de pé e quando estava prestes a me chutar outra vez, a porta foi aberta num rompante. Ele não teve nem tempo de pensar no que fazer, já estava sendo atirado contra a parede. Um vaso se estilhaçou no chão quando Hector caiu por cima da mesinha na entrada da sala. Meus olhos tentaram focar a pessoa que agora desferia uma série de socos no rosto dele.
Então o vi, a pessoa que eu mais ansiosa na vida. Emmett batia tanto e tão veloz em Hector que achei que seu rosto já deveria estar desfigurado. Esse velho bêbado não levantaria dali tão cedo e eu esperava não estar próxima dele quando o fizesse.
A dor se fez presente em meu corpo outra vez e eu gritei, fechando os olhos. Eu estava deitada em forma fetal no chão e chorava tanto que meus olhos doíam também.
–Rose, meu anjo, olha pra mim. – mãos grandes e quentes envolveram meu rosto e eu abri os olhos, dando de cara com um par de olhos verdes intensos e amedrontados.
A voz de Emmett soava desesperada, angustiada, e eu me senti mal por fazê-lo sofrer. Me senti ainda mais destruída quando seu olhar buscava de forma desesperada algum sinal em meu rosto de que eu estava bem.
–Emm, desculpa, me ajuda. – implorei, num fio de voz. Era a única coisa que eu conseguia falar naquele momento, pedir sua ajuda. Se ele não me ajudasse agora não saberia o que seria de mim.
–Eu vou te ajudar, Rose. Eu vou te ajudar. – repetiu. – Vai ficar tudo bem, meu amor, eu estou aqui. – ele beijou minha testa e um alívio instantâneo correu por meu corpo ao sentir seus lábios macios encostarem-se a minha pele.
Meu coração acelerou com o registro de suas palavras. Ele havia me chamado de “meu amor” e só isso fez meu peito inflar. Então ele ainda me amava. Era pra ele estar decepcionado comigo, triste ou até com raiva. Mas não ele não estava, ele realmente parecia me amar ainda. Só isso já me dava forças para sorrir.
E foi o que eu fiz. Sorri fraca e debilmente para ele. Com certeza eu estava horrível, com o lábio cortado, rosto vermelho e inchado e cabelos completamente bagunçados. Mas ele não se importou. Emmett se esforçou em devolver o sorriso, roçou o nariz no meu e tornou a beijar minha testa. Ele estava tão próximo outra vez, somente seu cheiro já aplacava parte do meu desespero e medo.
Emmett passou um braço entorno do meu pescoço e outro por baixo de minhas pernas. Ficou de pé, me erguendo junto e eu agarrei seu pescoço, passando os braços em volta. Ele começou a andar para fora dali comigo em seu colo e aconcheguei minha cabeça em seu peito, absorvendo mais de seu cheiro maravilhoso.
Como eu queria poder dizer para ele o quanto estava feliz por tê-lo tão perto outra vez, mas sentia uma dor tão intensa, na barriga e no corpo, que se abrisse a boca com certeza gritaria. E sei que isso só aumentaria o sofrimento dele.
Emm atravessou a porta comigo nos braços, o vento frio da tarde nublada fez meus pelos arrepiarem e me agarrei mais a Emmett. O movimento causou uma nova onda de dor, me fazendo gemer baixo.
–Shii, vai ficar tudo bem Rose. –ele afirmou com voz baixa e eu acreditei. Ele estava ali, eu acreditava nele.
Cuidadosamente ele me colocou no banco de trás, deitada, e foi para o do motorista. Emmett deu partida no carro, me levando pra longe daquele inferno. Alguns minutos depois o carro parou e não estranhei quando Emmett me pegou no colo outra vez, me tirando do carro, me permitindo ver a fachada do hospital da cidade.
Fui colocada numa cadeira de rodas assim que entramos, uma enfermeira empurrava e Emmett segurava minha mão. Quando meus olhos viram o sangue em minha calça jeans entrei em pânico.
– Emm – murmurei, mostrando a mão livre suja de sangue. Minha voz saiu como de uma criança apavorada. E eu realmente estava me sentindo assim com medo de perder meu bebê.
A cadeira de rodas parou de ser empurrada e um Emmett com olhar cheio de preocupação se ajoelhou ao meu lado, segurando meu rosto entre as mãos grandes e macias.
–Vai dar tudo certo, Rose, fica calma. Me perdoa não ter chegado antes, eu poderia ter impedido tudo isso. – ele olhou pra minha mão com sangue e voltou a me encarar. – Mas agora vai ficar tudo bem, vão cuidar de vocês.
Emmett beijou minha testa e se pôs de pé, a cadeira voltou a se mover e ele segurou minha mão de novo. Não pude evitar as lágrimas quando ele disse a palavra “vocês”. Ele sabia, não sei como, mas sabia. Eu só não sabia se estava chorando de felicidade ou medo.
Ainda perdida com o choque recente quando a cadeira de rodas parou em frente a uma sala. Apertei mais a mão de Emmett e senti a sua em meu ombro.
–Agora você tem que ficar aqui, só ela pode entrar. – a enfermeira avisou tranquilamente.
Apertei ainda mais a mão de Emmett, segurando agora com minhas duas mãos. O pânico por ter que me separar dele agora me dominando. Tinha medo de entrar ali e quando sair não vê-lo mais.
–Não, Emm, por favor. Não me deixa sozinha, por favor, estou com medo. – implorei encarando seus olhos verdes. Podia ver ali o reflexo do meu desespero.
Havia dor em seus olhos, ele estava mal por me ver sofrer. Notei isso quando outra pontada me atingiu na barriga e eu gemi, me encolhendo pra frente e ele afagou minhas costas.
–Eu não posso entrar mesmo? Por favor! – ele pediu a enfermeira a encarando e eu o acompanhei.
–Sinto muito. – ela torceu a boca, negando com a cabeça. Então começou a empurrar a cadeira novamente, mas eu agarrei a mão de Emmett com mais força ainda, a máxima que ainda conseguia fazer.
–Não, não, por favor. – chorei mais, agarrando sua blusa entre meus dedos fracos. – Não vai embora, por favor. – pedi entre soluços. Senti sua mão acariciar meu cabelo e a outra continuar alisando minhas costas.
–Eu não vou embora, Rose. Eu prometo. Mas você precisa entrar aí com a enfermeira. – falou ele, como quem explica algo a uma criança, com toda paciência.
–Não Emm, fica. Por favor. – funguei, escondendo o rosto em sua barriga. Ele acariciou mais meus cabelos.
–Eu vou estar aqui quando você sair de lá, okay? — ele garantiu, erguendo meu rosto. Apenas assenti, acreditando nele.
A enfermeira voltou a empurrar a cadeira de rodas e antes de passar completamente pela porta olhei para Emm.
– Emm, chama a Carmen. – pedi com a voz chorosa. A mãe dele saberia o que fazer pra me acalmar, ela sempre sabia. Eu queria Carmen aqui do meu lado quase tanto quanto queria ele. Ela era o mais perto da figura maternal que eu tinha.
– Eu vou chama-la, não se preocupe. – me garantiu.
Depois que cruzei a porta, deixando Emmett para trás, me colocaram numa cama e tiraram a roupa que vestia, colocando aquela camisola do hospital. Senti a picada quando injetaram algo no meu braço e poucos minutos depois estava ficando zonza.
Não sabia se estava delirando por causa do possível sedativo, mas notei quando uma mulher vestida de branco dos pés a cabeça entrou dando ordens às outras pessoas ali da sala. Ela se aproximou de mim e, apesar da visão estar ficando turva, eu percebi o quão parecida ela era com minha mãe. Muito mais cuidada e arrumada, mas ainda assim quase uma cópia.
As vozes das pessoas foram ficando cada vez mais distantes e meus olhos estavam se fechando. Antes de apagar completamente senti a mão macia e quente da tal mulher acariciar meu rosto marcado. Então adormeci desejando que tudo ficasse bem, que Emmett ainda estivesse lá fora quando eu acordasse.
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