X
Giulio nunca achou que se acostumaria com a falta de certas coisas, como ele havia se acostumado nas últimas semanas. Por diversas vezes ele se pegou pensando as mesmas ideias que cruzaram sua mente quando Antonietta deixou sua vida. A casa agora era silenciosa, sem barulhos de passos pesados, risadas ou gargalhadas. Os corredores estavam quietos e não havia necessidade de falar mais alto, pois não existia mais ninguém entre aquelas quatro paredes. Não havia mais companhia para jantares, banhos ou algumas horas agradáveis sobre a cama. O moreno voltara a cozinhar para uma pessoa, a passar menos tempo no chuveiro e a não esperar companhia na hora de dormir.
Há um mês Mario havia entrado na casa e o visto com a antiga noiva na sala de estar. Há um mês o Vice-Inspetor correu atrás de seu amante, pronto para explicar o que estava acontecendo, mas apenas para receber um soco direto em seu olho esquerdo. A marca permaneceu por quase duas semanas e fez com que Giulio percebesse que o ruivo era mais forte do que ele imaginou... em todos os sentidos.
Não houve tentativa de contato por nenhuma das partes. O moreno sabia melhor do que ninguém que não conseguiria ter uma conversa séria com aquele homem, não enquanto sua mente precisasse se dividir entre proteger seu melhor amigo e lidar com a pressão no trabalho. Seus dias se tornaram ocupados e suas noites eram passadas basicamente na sede de polícia. Porém, o Vice-Inspetor não estava totalmente alheio ao que acontecia. Com Alaudi ainda afastado da mansão, ele recebeu a visita de Giuseppe duas vezes por semana. Os encontros eram feitos à noite e em locais de pouco ou nenhum movimento. O homem de longos cabelos louros possuía sempre um sorriso acolhedor e olhos tímidos, como se pedisse desculpas por tudo e por todos. As conversas eram breves e não duravam vinte minutos. O Braço Direito de Francesco contava como as coisas estavam e, embora Giulio tentasse não perguntar, ele mencionava o irmão, pedindo que o moreno tivesse um pouco de paciência.
Por um mês o Vice-Inspetor se acostumou àqueles encontros, imaginando até quando viveria através de outras pessoas. Giuseppe não se assemelhava ao Braço Direito de Ivan. Enquanto um era gentil, educado e até mesmo delicado, o outro era explosivo, temperamental e não possuía limites. Os únicos pontos semelhantes eram os cargos e a maneira como os irmãos se importavam um com o outro, a ponto do louro desculpar-se sem ter feito absolutamente nada.
"Eu não sei o que aconteceu entre vocês, mas eu tenho certeza de que Mario se arrepende. Apenas espere um pouco mais". As palavras foram ditas no dia em que eles precisaram se encontrar em um hotel noturno. O Braço Direito estava visivelmente constrangido por estar ali e até mesmo Giulio se sentiu tímido.
O pedido de desculpas não veio e as visitas de Giuseppe cessaram quando o Guardião da Nuvem retornou à mansão. Ele resolveu o problema em um dia. Mas Ivan não é teimoso como o amigo, ou Alaudi tem mais coragem do que eu... O pensando cruzou sua mente diversas vezes, no entanto, ele nunca se sentiu realmente inclinado a dirigir até a propriedade dos Cavallone. Uma parte do moreno estava profundamente machucada com os últimos acontecidos e infelizmente aquelas marcas não sairiam como a mancha roxa em seu olho. O Vice-Inspetor imaginava que eventualmente eles sentariam e conversariam, contudo, ele não sabia se continuaria naquele relacionamento. Eu não tenho mais vinte anos e de certa forma me acostumei a não tê-lo em minha vida. Talvez este seja o rumo natural das coisas. Giulio sabia que amava Mario. Seu corpo e sua alma se lembravam de tudo o que acontecera naqueles dez anos, entretanto, era impossível não divagar se o que eles tiveram havia sido realmente forte ou ele apenas acreditou que fosse.
O dia em que o moreno soube que as coisas poderiam mudar foi em uma manhã de segunda-feira. Alaudi entrou no escritório e disse que ambos precisariam conversar no final do expediente. O Vice-Inspetor passou o dia curioso, imaginando o que poderia ter acontecido e torcendo para que fosse algum trabalho que o fizesse deixar a cidade, pelo menos por alguns dias. A noite chegou e, quando o último policial deixou a sede, Giulio seguiu até a sala do louro e o encontrou esperando. A conversa foi longa. Mais longa do que o moreno esperava e também mais esclarecedora. Não haveria missão fora de Roma. Não haveria distância ou férias ou nada que lhe desse a oportunidade de clarear a mente e pensar seriamente sobre certos assuntos. E, no fim, o Vice-Inspetor conseguiu exatamente o que não queria.
"Eu quero saber se posso contar com você." O Guardião da Nuvem disse baixo. "Eu entendo perfeitamente se não quiser aceitar a missão. Eu pedirei a um dos idiotas dos Vongola que faça o serviço."
"Eu não me importo, mas resta saber se a outra parte não vê problema." Giulio cruzou as pernas. Aquilo estava sendo interessante.
"A outra parte disse que irá completar a missão desde que você não atrapalhe." Aquele comentário havia sido dito entre os dentes e foi clara a maneira como o Inspetor não gostou de ter mencionado tal coisa.
"Então não tenho objeções, quando começaremos?"
“Na noite de quarta-feira. Eu coletarei mais informações e irei repassá-las a você.” Alaudi abaixou os olhos e coçou a nuca. "Você sabe que pode recusar, Giulio. Não é um trabalho oficial e não é sua função ajudar a máfia."
"Eu sei disso, mas você faz parte da máfia agora." O moreno sorriu. Quando o louro disse que aceitara o convite de Giotto e que agora fazia parte — provisoriamente, claro — dos Vongola, o Vice-Inspetor ficou realmente surpreso. "E eu sou seu amigo. Use-me no que precisar."
"Eu realmente gostaria que tivessem escolhido outra pessoa. Talvez eu consiga fazer com que Giotto envie o japonês."
"Deixe Ugetsu quieto, eu posso resolver isso." Giulio suspirou. "Mario é extremamente profissional e duvido que atrapalhe a missão."
"É o único ponto positivo daquele homem." O Guardião da Nuvem pareceu bufar.
Infelizmente eu terei de discordar, o moreno pegou-se pensando ao ouvir aquilo. O ruivo falava demais e era teimoso, todavia, também conseguia ser otimista, engraçado e agradável. Um dos momentos favoritos do Vice-Inspetor era definitivamente quando estavam deitados no sofá da sala de estar, o Braço Direito sobre ele, e ambos conversavam baixo e com vozes sussurradas. Mario sempre acabava caindo no sono e Giulio passava o restante do tempo observando-o cochilar, como se não houvesse nenhum problema no mundo e o mais importante fosse estar ali. Eu me acostumei a não ter mais aquele tipo de vida, embora eu sinta falta. Me pergunto se ele também pensa nessas coisas. Naquela noite o moreno retornou para sua casa vazia e jogou-se sobre a cama sem nem ao menos trocar de roupa. O cheiro do ruivo havia desaparecido há algum tempo, então tudo o que restava fazer era mergulhar em lembranças solitárias.
x
A missão repassada a ele envolvia apenas observação. Depois que Alaudi aceitou fazer parte dos Vongola, Giotto e Ivan decidiram que já havia passado da hora de colocarem um ponto final àquela situação. O louro contou sobre o incidente e sua certeza de que o Chefe Principal da polícia italiana era o mandante do ataque. O Chefe dos Cavallone expôs o que havia descoberto e, de acordo com o próprio Guardião da Nuvem, pareceu triste ao informar que infelizmente não havia mais ninguém por trás exceto o próprio Chefe Principal. Aparentemente, o homem, há alguns anos, planejava os ataques junto com membros estrangeiros e seu objetivo era desestruturar a máfia italiana e torná-la totalmente dependente da Polícia. Porém, com exceção do ataque ao Inspetor, não havia prova concreta e era nessa parte que o Vice-Inspetor entrava. A missão seria seguir o Braço Direito do Chefe Principal. Mario seria o representante dos Cavallone e ficou a cargo de Giulio lhe fazer companhia. O plano foi repassado por Alaudi, na conversa que tiveram no escritório, na noite anterior, no entanto, ele precisaria ser discutido pessoalmente pelos envolvidos.
E era exatamente nesse ponto que o moreno sabia que seria tudo ou nada.
A terça-feira havia amanhecido ensolarada, contudo, a temperatura continuava baixa. A manhã foi passada no escritório, entre relatórios e problemas rotineiros. O Vice-Inspetor permaneceu perambulando pelas seções, repassando ordens e recebendo notificações. As horas passaram sem serem percebidas e ele só notou que era hora de ir quando o louro deixou sua sala trajando seu costumeiro sobretudo escuro. O Guardião da Nuvem iria acompanhá-lo até a mansão; o almoço seria realizado com os Cavallone e Giulio tentava não sentir-se pressionado com aquilo.
"Tem certeza de que é uma boa ideia deixar a sede sem um líder? Eu posso dirigir tranquilamente, Alaudi."
"Eu sei. Eu estou indo porque quero." O Inspetor assumiu o assento do motorista e esperou o moreno fechar a porta para dar partida. "Prometi a Catarina que o acompanharia."
"Aposto que ela ficou feliz em revê-lo." O Vice-Inspetor sorriu com o prospecto de reencontrar a garotinha ruiva. Ele não a via há quase dois meses, pois, mesmo antes da briga, Mario geralmente era quem o visitava, logo, seus passeios até a mansão eram raros.
"Ela ficou." Um discreto sorriso cruzou os lábios de Alaudi. Aquele tipo de reação só acontecia quando os Cavallone estavam envolvidos.
A viagem até a mansão foi feita entre conversas breves e trocas de informações. Os dois não estavam no ambiente de trabalho, entretanto, seria uma real perda de tempo permanecer quarenta minutos em silêncio quando havia tanto para ser dito e compartilhado. A missão do dia seguinte foi discutida e Giulio não via grandes problemas além de sua companhia. Ele e o ruivo precisariam trabalhar em perfeita sincronia e ai morava o perigo. Os amantes (ou seriam ex-amantes?) permaneceriam dois dias observando o homem e então, na sexta-feira, eles o abordariam. Se a missão funcionar nós conseguiremos as informações necessárias para dar o próximo passo. A segunda parte ficaria por conta de Ivan e Giotto, todavia, o louro não mencionou como e nem quando aconteceria aquela etapa.
A mansão estava do jeito que o Vice-Inspetor se lembrava, com a diferença de que o inverno se despedia com passos lentos. O gramado já mostrava um pouco do verde e havia pequeninas flores crescendo nos canteiros. O carro foi estacionado em frente ao chafariz e a larga porta do hall foi aberta, mas a pessoinha que surgiu não se moveu. Catarina usava um vestido rosa e parecia impaciente. A figura de Ivan apareceu atrás da filha e os dois trocaram algumas palavras, e a próxima coisa que Giulio viu foi que a ruiva desceu as escadas e abraçou o Guardião da Nuvem pela cintura.
"Boa tarde, Giulio." Os olhos castanhos se ergueram e Catarina acenou. "Bom revê-lo!"
"É bom revê-la também!" O moreno tocou os cabelos vermelhos, bagunçando-os.
"Boa tarde." O Chefe dos Cavallone os recebeu na entrada e o Vice-Inspetor esticou a mão para cumprimentá-lo.
O hall estava parcialmente vazio. Francesco descia as escadarias e acenou animado ao vê-lo entrar. Giuseppe vinha um pouco atrás, porém, havia algo diferente no louro. Os olhos verdes permaneceram o tempo todo baixo e até mesmo a polida reverência que recebeu pareceu fria e distante. Ele não está aqui. Giulio olhou ao redor, procurando pelo outro Braço Direito. Não seria surpreendente se ele não quisesse me ver além do necessário. No entanto, antes que aquele pensamento pudesse ser totalmente concluído, a pessoa que ele tanto esperava veio do lado direito, provavelmente do escritório. Mario aparentava ser o mesmo homem que apareceu, há duas semanas, na sede de Polícia para carregar o Inspetor até a mansão. Os dois apenas se olharam naquele fim de manhã, contudo, o ruivo permaneceu indiferente. Seu único cumprimento foi um simples menear de cabeça antes de se retirar do hall. O homem de longos cabelos louros seguiu o irmão e, quando a porta se fechou, o moreno teve certeza de que aquela seria uma das missões mais difíceis que ele já realizara.
O almoço naquela tarde seria frangos decorados com maçãs e favos de mel. O arroz dos adultos possuía um leve toque de vinho branco, enquanto Francesco e Catarina comiam do arroz decorado com pequenas cenouras cortadas em formatos de estrelas. Os dois Braços Direitos não os acompanhariam durante a refeição e, apesar de ter ficado claro logo que entrou, o Vice-Inspetor gostaria de ter passado aquela refeição ao lado de Mario. Eu achei que havia superado. Eu me acostumei a não vê-lo e a não tê-lo ao meu lado, porém, quando meus olhos pousaram em Mario foi como se as quatro semanas não existissem. Eu quis abraçá-lo e pedir desculpas e dizer que o quero de volta. Giulio bebericou um pouco de vinho, eu tenho menos resolução do que Francesco.
A refeição teria transcorrido silenciosa se não fosse por Catarina. A garota disse várias vezes como estava feliz em ter o moreno à mesa novamente, mencionando que sabia que seu plano havia sido um sucesso. O Vice-Inspetor pensou em questionar sobre o assunto, todavia, Alaudi meneou a cabeça em negativo e disse que explicaria em outra oportunidade. Giulio terminou de comer enquanto conversava com a garota, mas por várias vezes seus olhos foram para a figura do rapaz de cabelos castanhos. Ele cresceu. Da última vez que o vi ele parecia mais baixo... e menos cansado. Foi através do Guardião da Nuvem que Giulio ouviu sobre Francesco ter escolhido uma noiva. Eu achei um pouco cedo e Alaudi concordou, mas ele não parece preocupado. O moreno ergueu os olhos verdes, estudando o herdeiro e perguntando-se se aquele assunto talvez fosse a resposta para a tristeza que viu nos olhos de Giuseppe. Mario deve estar preocupado. Todas as vezes que tocamos nesse assunto ele se mostrou arredio com relação aos sentimentos do irmão. Se Giuseppe gosta mesmo de Francesco, então eu não posso imaginar o nível de sofrimento que ele deve sentir nesse momento.
O Vice-Inspetor não notou nenhuma espécie de arrependimento ou preocupação em Francesco; nenhum sentimento conflitante ou expressão vazia que pudesse indicar que aquele rapaz sofria internamente. O futuro Chefe dos Cavallone sempre foi mais reservado e quieto, e por um momento Giulio quis ver algum vestígio de tristeza. Doía-lhe imaginar o louro sofrendo, ainda mais porque o Braço Direito era praticamente seu irmão mais novo. Naqueles dez anos os dois se tornaram próximos e, muitas vezes, quando Mario estava ocupado, Giuseppe se dava ao trabalho de ser companhia, fosse para refeições ou passeios tolos. Ele é como Mario sempre disse, uma alma gentil. Nada para ele é ruim ou negativo. Giuseppe merece amar e ser amado e eu gostaria de poder ajudá-lo. Infelizmente eu não estou em posição de pensar na vida amorosa de mais ninguém. A sobremesa foi servida em seguida, trazida em uma reluzente bandeja de prata. A mousse de chocolate estava decorada com creme e morangos e o moreno esqueceu-se momentaneamente de seus problemas, focando-se na deliciosa sobremesa.
"Bem, agora podemos tratar de negócios." Ivan ficou em pé e suas companhias adultas fizeram o mesmo.
"Giulio ficará para o jantar?" Catarina ainda tinha metade da mousse em sua taça.
"Não sei. Seria uma honra tê-lo para o jantar." O Chefe dos Cavallone sorriu sincero.
"Eu agradeço, mas terei de retornar. A sede de polícia não pode ficar vazia por muito tempo, mas Alaudi pode tomar o meu lugar."
"Eu? Eu pretendia voltar..." O louro pareceu surpreso.
"Deixe comigo, está bem? Catarina ficará sozinha se você não fizer companhia."
O Guardião da Nuvem o encarou, esboçando o simples e discreto sorriso que sempre acompanhava aquele tipo de situação. O Vice-Inspetor acenou para os herdeiros antes de deixar a sala de jantar e os três homens seguiram juntos pelo hall e na direção do escritório. Giulio sabia que encontraria o ruivo, mas seu coração bateu forte ao entrar no cômodo e vê-lo recostado à mesa de madeira. O homem de longos cabelos louros também o acompanhava, sentado em um dos lados do sofá e vestindo a mesma expressão séria.
"Estamos todos aqui então não vamos perder tempo." O Braço Direito de Ivan cruzou os braços e olhou do Chefe dos Cavallone para o moreno. "Acredito que a situação já foi exposta. Existe alguma dúvida?
"Nenhuma." O Vice-Inspetor aproximou-se, porém, manteve-se distante. Seu corpo ansiava por um pouco de contato e ele sabia que talvez não conseguisse se controlar.
"Ótimo, então vamos ao que interessa."
Mario tomou a voz e basicamente explicou como a missão seria realizada. Ele mencionou o hotel que iriam se hospedar, o quarto escolhido e a função de cada um. Aparentemente, a pessoa em questão estaria hospedada no quarto ao lado e a missão seria observar seus passos dentro do hotel. Haveria subordinados que fariam o trabalho externo e isso incluía o Braço Direito de Francesco, que não abriu a boca uma única vez. A missão teria duração de 48 horas e durante esse tempo eles não poderiam deixar o quarto. O cômodo seria abastecido com o que fosse necessário, e na noite de sexta-feira a missão se tornaria real quando um deles se infiltraria no quarto, enquanto o outro aguardaria o aviso. O Braço Direito do Chefe Principal seria levado para um lugar ainda não divulgado e só sairia de lá depois de cantar todos os segredos. Giulio sabia que aquela parte envolveria algum tipo de chantagem ou tortura e ficou feliz por não ouvir exatamente o que aconteceria. Embora fosse um trabalho conjunto, ele era um Vice-Inspetor da Polícia colaborando com a máfia.
"Alguma dúvida?" O ruivo o olhou diretamente após o discurso.
"Não. Eu entendi perfeitamente. A que horas devo chegar ao hotel?"
"Carlo sempre sai depois das oito horas da noite, portanto, esse é o horário perfeito. Eu já estarei por lá, mas pedirei que uma cópia da chave seja entregue por algum subordinado."
"Entendo." O moreno coçou a nuca. "Se não existe mais nada a ser explicado eu gostaria de retornar ao trabalho."
"É compreensivo." Ivan, que esteve o tempo todo ao lado de Alaudi, adiantou-se e aproximou-se. "Desculpe por exigir demais de você, Giulio. Eu insisti para que Alaudi pedisse que algum dos Guardiões dos Vongola fosse em seu lugar, mas ele me garantiu que você era a pessoa certa."
"Eu não me importo." O Vice-Inspetor foi sincero. Parte dele estava realmente interessada em ajudar e resolver essa situação o quanto antes, no entanto, a outra parte — aquela que ele tentava a todo custo omitir — aceitara a missão porque não conseguiu conceber que o Braço Direito pudesse permanecer dois dias em um quarto de hotel com outro homem. Eu sou patético. Estamos separados e eu continuo me remoendo de ciúmes. Se ficarmos definitivamente separados eu não sei o que farei. "Assim como vocês eu quero resolver a situação e retornar a minha vida antiga."
Aquela parte foi dita sem segundas intenções, contudo, foi clara a maneira como Mario reagiu ao comentário. O ruivo virou o rosto e apertou as mãos que estavam entrelaçadas aos seus braços. E pensar que passaremos dois dias dessa forma. Giulio adiantou-se, despedindo-se do Chefe dos Cavallone e pedindo que ele tomasse conta de seu amigo. O louro o olhou sério, entretanto, não pareceu chateado. Ele está feliz em poder passar a tarde aqui. Eu posso ver em seus olhos. A despedida do Braço Direito de Ivan, todavia, foi um breve aceno e um polido "Até amanhã", que recebeu apenas um menear de cabeça como resposta. Giuseppe havia ficado em pé, mas ao se aproximar o moreno pediu que ele o acompanhasse até o carro. O homem de longos cabelos louros pareceu surpreso, porém, sua expressão não mudou. Os dois deixaram o escritório e seguiram pelo hall, mudos e parcialmente distantes. Ele ficará bravo. Eu não deveria me intrometer, mas não posso ignorar esse tipo de coisa.
"Tome cuidado com sua missão, está bem? Não faça nada precipitado." O Vice-Inspetor disse ao descerem os degraus que uniam a entrada ao jardim.
"Eu tomarei cuidado."
O Braço Direito respondeu baixo e ofereceu um sorriso tão falso que foi impossível para Giulio permanecer impassível. Seus braços se moveram e abraçaram Giuseppe. Ele não era uma pessoa sentimental ou que deixava suas emoções tomarem o controle, no entanto, seu peito tornou-se apertado desde o primeiro momento que ele viu o louro, e uma estranha necessidade em reconfortá-lo se apoderou de seu corpo. O abraço não foi retribuído, a princípio, contudo, logo as mãos pálidas e os dedos delgados subiram pelas costas do moreno.
"Mario foi duro com você, não foi?" A voz do Vice-Inspetor saiu sussurrada.
Não houve resposta, entretanto, o Braço Direito tremeu em seus braços.
"Eu falarei com ele ou pelo menos tentarei. Enquanto isso se foque na sua missão e depois pensaremos no que fazer." Giulio não sabia ao certo o que quiser. Ele tinha medo de encorajar Giuseppe, todavia, não conseguia deixá-lo totalmente jogado ao vento.
"Obrigado." O louro afastou-se e o sorriso que surgiu foi mais sincero. Os olhos verdes brilhavam em lágrimas e ele tinha o rosto corado.
"Eu não sei explicar, mas algo me diz que as coisas acabarão bem." O moreno tocou o alto da cabeça do Braço Direito, bagunçando os cabelos como ele fazia com Catarina.
"Eu sinto sua falta, Giulio." Giuseppe corou. "Você foi a melhor coisa que aconteceu ao meu irmão, mas ele age como se os últimos dez anos não tivessem acontecido. Se existir algo que eu possa fazer, qualquer coisa, diga!"
"Não é culpa sua." O Vice-Inspetor sorriu. "Eu tenho minha parcela de culpa, mas no momento não posso me dar ao luxo de pensar a respeito. Quando tudo isso terminar, quando não precisarmos pensar em missões perigosas e planos mirabolantes, eu sentarei e conversarei com seu irmão e então tudo será decidido. Independente do rumo que as coisas tomarem você é sempre bem-vindo a me procurar quando precisar."
"Obrigado... novamente." O louro sorriu e dessa fez o dia se tornou ainda mais brilhante. "Volte com cuidado e boa sorte com a missão."
Giulio agradeceu e acenou, entrando no carro e dando partida.
O veículo deixou o jardim e seguiu pela descida que o levaria até o largo portão que dividia a propriedade. O moreno fitou a mansão desaparecendo do espelho retrovisor e sua mente martelava incansavelmente a mesma dúvida: eu terei a chance de retornar ou é a última vez que encaro esta paisagem? Entre uma e outra, o Vice-Inspetor diminuiu a velocidade e admirou o entorno o máximo possível. A vida era cheia de surpresa e infelizmente nem todas eram agradáveis.
x
A manhã do dia seguinte foi ainda mais atarefada do que a anterior. Giulio precisou trabalhar o dobro, sabendo que ficaria fora de ação por quase três dias. Relatórios foram relidos e despachados, casos arquivados e ordens compartilhadas. O Guardião da Nuvem chegou à sede de Polícia depois das dez horas, avisando que o moreno estava dispensado após o almoço. O Vice-Inspetor ficou curioso com aquela ordem, mas Alaudi apenas disse que ele deveria descansar para a missão. Ele está preocupado. Uma preocupação desnecessária. Giulio separou os relatórios pendentes e os entregou na sala do louro antes de se despedir.
"Não trabalhe demais. Delegue o que for necessário."
"Você deveria se preocupar com a sua missão, Giulio. O trabalho continuará aqui quando você retornar." O Guardião da Nuvem ergueu os olhos.
"Ivan enviou mais guarda-costas. Eu os vi quando cheguei."
"Aquele homem se preocupa demais." O Inspetor de Polícia deu de ombros.
"E você se preocupa de menos. Qualquer um na posição de Ivan teria feito o mesmo."
Alaudi não respondeu e o moreno sabia melhor do que ninguém que estava perdendo seu tempo. Os dois se despediram com um breve aceno e o Vice-Inspetor agradeceu mentalmente por aquele descanso. Eu preciso dormir, pois sei que será difícil pegar no sono depois. O caminho até sua casa foi feito sem casualidades. O local estava vazio, como esperado, porém, Giulio não se sentiu necessariamente solitário. Uma parte de seu peito ansiava para que a noite chegasse logo, sabendo que ele teria a companhia de Mario, mesmo que as coisas estivessem estranhas e embora ele soubesse que os dois provavelmente não conversariam. O terno escuro foi colocado sobre a poltrona do quarto — um dos poucos móveis do segundo andar — e a gravata logo fez companhia. O moreno desfez-se de toda a roupa, deitando-se na cama apenas com a roupa de baixo negra. Seu corpo relaxou no mesmo instante e pela primeira vez em muito tempo ele conseguiu dormir rapidamente.
O céu já estava escuro quando o Vice-Inspetor deixou o segundo andar, de banho tomado e com uma nova troca de roupas. Ele havia arrumado uma pequena mala, contendo as roupas que levaria para a missão, e foi com ela em mãos que Giulio desceu ao térreo. O relógio marcava pouco mais de 19h, e ele tinha algum tempo para uma breve refeição. Eu não terei tempo de preparar nada, então comerei em algum restaurante. As portas e janelas foram checadas e o moreno ganhou a rua após fechar o sobretudo creme. O restaurante escolhido foi um familiar e aconchegante estabelecimento distante dez minutos de sua casa. O Vice-Inspetor pediu risotto e um pedaço de filé ao molho, dispensando a sobremesa. Imagino se Mario lembrou-se de comer antes de seguir para o hotel. Nós não poderemos fazer as refeições no restaurante. Aquela dúvida incomodou Giulio até o momento em que ele chamou o garçom e pediu que lhe fosse preparado um prato de ravioli ao molho bolonhesa e outro filé.
"Eu levarei a refeição, por favor." O que eu estou fazendo? Ele pode entender mal esse gesto.
O moreno tentou afastar aquelas ideias, e ao final ele deixou o restaurante com uma sacola de papel contendo o jantar do ruivo. O hotel que seria seu destino final não ficava longe, distante cerca de vinte minutos. O carro foi estacionado a duas ruas, e ele foi abordado por um subordinado dos Cavallone que avisou que Carlo já havia deixado o hotel, além de entregar uma cópia da chave do quarto. Eu estou nervoso. O Vice-Inspetor tinha as mãos ocupadas: a direita segurava o embrulho de papel, enquanto a esquerda carregava sua mala de roupas.
O hotel possuía seis andares e era conhecido pelas boas refeições — que ele não faria —, e pelas excelentes acomodações — que ele não utilizaria, pelo menos na teoria. Giulio entrou pela porta de vidro, sem direcionar nenhum olhar à recepção ou às pessoas que estavam no local. Seus pés seguiram direto para a escadaria que ficava à direita e ele subiu os quatro lances sem notar. O quarto reservado para a missão era o de número 14 e somente ao parar em frente à porta branca foi que o moreno conseguiu respirar. A mala foi para o chão e o Vice-Inspetor retirou a chave do bolso, colocando-a na fechadura e girando-a com gentileza. Outra pessoa abriu a porta e seu mundo tornou-se um pouco mais colorido ao ver o Braço Direito.
"Pontual, hm?" Mario deu passagem e olhou para os dois lados do corredor antes de fechar a porta.
Giulio deixou que seus olhos verdes estudassem o cômodo, sentindo que aquela missão seria difícil. Vigiar e observar o homem seria simples. Essa parte da missão lembrava muito os trabalhos iniciais na força policial, em que ele passava basicamente o dia fora, seguindo e vigiando suspeitos. Ele não me disse que o quarto era de casal. A grande cama era tudo o que o moreno conseguia ver. Havia um discreto banheiro ao fundo, a decoração era bonita e aconchegante, com cores vermelhas, douradas e brancas. A janela dava para a rua, as poltronas eram revestidas com tecidos que lembravam quadros, no entanto, nada ali parecia tão relevante quanto a cama. E eu ficarei aqui por quase três dias. É... cruel.
"Eu trouxe o seu jantar." O Vice-Inspetor ofereceu o pacote na direção de Mario, que pareceu surpreso. "Se você já jantou eu comerei mais tarde."
"Eu ainda não jantei." O ruivo segurou o pacote e se afastou, indo até a pequena mesa próxima à janela. "Eu estou faminto, na verdade."
"Bom apetite." Giulio deixou a mala em um canto do quarto e sentou-se afastado.
O Braço Direito parecia realmente com fome. O moreno o assistia de longe, um sorriso satisfeito nos lábios e o coração calmo e batendo em um ritmo que ele conhecia. Eu não lembro a última vez que o vi comer. Todas as lembranças parecem longe, como se outra pessoa as tivesse vivido.
"Eu posso pegar o turno da noite. Alaudi me liberou cedo e eu dormi o suficiente durante a tarde."
"Certo." Mario estava de costas e respondeu com um aceno. "Você tem certeza de que posso comer tudo?" Ele virou meio rosto, limpando o canto da boca.
O Vice-Inspetor meneou a cabeça em positivo, permanecendo onde estava. Nenhum deles disse nada pelos próximos minutos e Giulio levantou-se após um tempo, abrindo a mala e retirando as roupas. Havia uma parte reservada no guarda-roupa, ao lado dos ternos do ruivo. O moreno tomou seu tempo, saboreando aquela ação tão trivial, contudo, que significava tanto para ele.
"Obrigado pelo jantar." A voz veio de algum lugar atrás.
"Diga-me o que preciso observar e prestar atenção." O Vice-Inspetor inclinou-se um pouco mais dentro do guarda-roupa, ajeitando um dos ternos.
"Se Carlo entra ou sai do quarto com companhia e qual será a companhia. Seus olhos precisam estar na rua o tempo todo, pelo menos até sexta-feira."
"Você pretende se esconder no banheiro, não?" Giulio virou-se, observando o Braço Direito se servir de um copo d' água e depois sentar-se sobre a cama.
"Se você não tiver nenhuma objeção, sim."
Ele é totalmente cooperativo quando o assunto é trabalho, o moreno fechou o guarda-roupa e cruzou o quarto, aproximando-se da janela. A cortina era grossa e escura, omitindo sua figura, ao mesmo tempo que possibilitava visão total da rua. Eu gostaria que ele fosse tão ciente no começo de nossa briga. Uma das mãos do Vice-Inspetor puxou a cadeira que estava próxima à delicada mesinha de chá e ele testou várias posições, escolhendo aquela que permitia que seu braço esquerdo se apoiasse ao encosto da janela. Mario calou-se após os comentários iniciais, recostando-se melhor à cama e abrindo um grosso livro. Sem conversas, hm? Giulio afrouxou a gravata e retirou o terno, sentando-se na cadeira e afastando um pouco a cortina. O trabalho era fácil e ele sabia que seria um sucesso. O único problema é que aquilo era a última coisa que ele gostaria de fazer em um quarto de hotel e na companhia do ruivo. Definitivamente um desperdício de tempo.
x
A primeira noite passou sem nenhum imprevisto. Carlo retornou ao hotel por volta da meia-noite, sozinho e indo direto para o seu quarto. O moreno soube que sua missão estava completa naquele momento, mas ele precisaria permanecer em seu posto indefinidamente. O Braço Direito deitou-se pouco antes das 23h, escolhendo o lado direito da cama e oferecendo as costas. Depois da meia-noite, o Vice-Inspetor manteve os olhos na rua até notar que seu amante havia se movido na cama. Seu corpo endireitou-se e Giulio não soube dizer quanto tempo passou admirando Mario dormir tranquilamente. Ele está de pijamas, o pensamento fez o moreno sorrir. O ruivo gostava de dormir nu, e provavelmente escolheu dormir vestido para mostrar que aquilo era trabalho.
As horas passaram arrastadas até o Sol nascer e os raios baterem na janela, lembrando-o de que mais um dia estava para começar. A movimentação do quarto ao lado iniciou-se cedo e Carlo saiu quando o relógio marcava exatamente sete horas. Ele toma café em um restaurante e permanece fora do hotel até o começo da tarde. Havia um relatório em suas mãos, cortesia do Braço Direito. Outras pessoas fazem a ronda externa então meu trabalho por hora está concluído. O Vice-Inspetor levantou-se quando viu um subordinado dos Cavallone atravessar a rua e entrar no hotel. Seus passos foram até a porta do quarto e ele permaneceu imóvel por alguns segundos, abrindo a porta no exato momento em que o homem pretendia bater na madeira.
"B-Bom dia." O subordinado ficou surpreso e Giulio levou o dedo indicador aos lábios pedindo silêncio. "Eu trouxe o café da manhã. O almoço será entregue meio-dia. Algum pedido especial?"
"Sobremesa, qualquer coisa doce e uma garrafa de vinho." O moreno segurou os dois pacotes de papel e respondeu em um sussurro.
"Entendido."
O homem afastou-se após fazer uma reverência e o Vice-Inspetor fechou a porta com excessiva gentileza. Seus passos foram silenciosos e ele cruzou o quarto, aproximando-se da mesinha de chá e arrumando-a. Havia pães, geleias, biscoitos e frutas, enquanto uma garrafa de suco de laranja repousava ao fundo da outra sacola. Giulio consultou o relógio e se aproximou da cama, subindo sobre ela e tocando o ombro de sua companhia. Mario gemeu baixo, movendo-se. O moreno ofereceu um meio sorriso, acomodando-se melhor e abrindo os braços. Ele sabia o que aconteceria e seu coração bateu mais rápido ao notar que aquilo não havia mudado. O ruivo o abraçou, afundando o rosto em seu peito e continuando a dormir. O Vice-Inspetor tocou os cabelos finos, permitindo que seus dedos se perdessem nas mechas vermelhas.
"Mario, você precisa acordar. O café da manhã está na mesa."
O Braço Direito moveu-se novamente e levantou-se devagar. Os olhos verdes piscaram algumas vezes e ele se afastou, desculpando-se baixo e seguindo direto para o banheiro. Giulio levantou-se e arrumou a cama, indo sentar-se em um dos lados da mesa. Mario não demorou em seu banho, saindo com os cabelos molhados e totalmente acordado.
"Alguma novidade?" O ruivo sentou-se na cadeira à frente, agarrando um pão doce.
"Nenhuma. Ele chegou meia-noite, derrubou uma cadeira e provavelmente deve ter dormido no chão." O moreno serviu a ambos os copos com suco de laranja. "Acredito que estava bêbado."
Os olhos verdes se ergueram e o Braço Direito pareceu genuinamente curioso.
"Eu já fiz isso antes. Por anos meu trabalho foi seguir pessoas e você se acostuma ao barulho." O Vice-Inspetor continuou. "O quarto é padrão nesse andar, não? Então ele provavelmente estava bêbado o suficiente para chegar até a janela e encarar a rua procurando sinal de que está sendo seguido ou observado. Ele deve ter se virado e tropeçado na cadeira..." Giulio apontou para a própria cadeira, " caído no tapete e dormindo por lá mesmo."
"Por que eu estou aqui?" Mario bebeu um pouco de seu suco, aborrecido.
"Companhia? Esse trabalho é tedioso e companhia é sempre agradável." O moreno sorriu e pegou alguns biscoitos. Ele não costumava sentir fome durante a manhã.
"Você pode dormir se quiser. É meu turno agora."
"Eu ainda não estou com sono," o Vice-Inspetor deu o último gole em seu suco, "achei que poderíamos utilizar esse tempo para conversarmos."
O comentário não agradou ao ruivo, que automaticamente abaixou os olhos e calou-se. Eu já esperava por isso.
"Eu me refiro a Giuseppe." Giulio adicionou.
"Não há nada a falar sobre Giuseppe." O Braço Direito manteve os olhos baixos, entretanto, o moreno o conhecia bem demais para ver além daquela máscara de compostura. Ele está irritado. Eu só preciso dar um empurrão. O Vice-Inspetor cruzou os braços e aquilo surtiu efeito no mesmo instante. "Francesco aparentemente arrumou uma namorada e Giuseppe não gostou da ideia."
"Eu ouvi. Alaudi também acha que é cedo demais. Ele mencionou que Francesco nem sequer gosta da garota."
"Não é problema de ninguém. Se o rapaz quer namorar a garota, qual o problema? Giuseppe sabia que esse dia chegaria, mas ao invés de aceitar calado, como um bom Braço Direito, ele agora evita o próprio Chefe e se mostra visivelmente descontente. Até parece que ele... que ele..."
"... que ele gosta de Francesco?"
Dois grandes e sérios olhos verdes o encararam, todavia, Giulio manteve-se impassível. Sua função sempre foi ouvir e dar sua opinião ao final e Mario sabia disso melhor do que ninguém. Os dois geralmente discutiam sobre o assunto, e o ruivo tinha conhecimento que ouviria uma opinião divergente e era exatamente o que aconteceria naquele instante. O Braço Direito limpou a boca com o guardanapo e ficou em pé, afastando-se e colocando as mãos na cintura. O moreno permaneceu no mesmo lugar, apenas virando a cadeira e esperando pacientemente pela resposta atravessada.
"Eu disse a você, não? Eu disse que tinha algo estranho nisso. Eu estou apenas esperando a missão terminar para pedir que Ivan o afaste da mansão por algum tempo."
"Acha que isso irá resolver?" O Vice-Inspetor deu de ombros. "Se Giuseppe realmente gosta de Francesco isso não mudará nada."
Mario permaneceu irritado até soltar um longo suspiro. Giulio sabia que só estava tendo aquela conversa porque a missão possibilitou contato entre eles. Do contrário, ambos provavelmente ainda estariam afastados. Mario me responder é um pouco assustador, o moreno chegou a essa conclusão quando sua companhia ficou em pé. Aquilo só poderia significar duas coisas: o ruivo estava pronto para uma conversa ou ele já não se importava com a presença do Vice-Inspetor. A última opção o deixava incomodado e ansioso, e infelizmente tais sensações eram proibidas, pelo menos até o final da missão. Mas eu tenho sangue correndo em minhas veias e não consigo permanecer quieto. Giulio engoliu seco. Aquele seria um movimento arriscado e se mal-interpretado custaria qualquer chance de diálogo pelas próximas 24 horas.
"Eu não acredito que a distância vá ajudar. Esta é a primeira vez que eu te vejo em um mês e meus sentimentos permanecem os mesmos. Eu continuo completamente louco por você, independente dessas quatro semanas."
"Achei que estávamos falando sobre meu irmão." O Braço Direito permaneceu de costas.
"E estamos. Eu apenas dei um exemplo real. Retirar Giuseppe da presença de Francesco não mudará nada. Talvez ele acabe se conformando eventualmente, mas eu duvido muito que ele vá esquecer. Se ele amar Francesco como você afirma, isso jamais irá desaparecer."
Mario coçou a nuca e soltou outro suspiro. Seus passos o levaram até a cama e ele sentou-se na ponta, encarando Giulio diretamente. Os dois se estudaram por um tempo e o ruivo fez sinal para que ele continuasse.
"Eu só peço que me ouça, apenas isso." O moreno quase não acreditou que realmente havia ganhado a chance de se explicar.
"Não vou me desculpar pelo soco. Foi merecido." O Braço Direito ergueu uma sobrancelha e por um momento o Vice-Inspetor quase sorriu.
"Eu me encontrei com Antonietta três vezes antes do dia em que você a viu na sala de estar. A primeira foi puramente acidental e as outras duas foram convites feitos por ela. Eu sabia que havia alguma coisa acontecendo e reconheço que deveria ter perguntado diretamente o motivo desde o começo." Giulio inclinou-se, apoiando os cotovelos sobre suas pernas. "Naquele dia que você nos viu na sala, ela havia acabado de me contar o motivo pelo qual tentou manter contato depois da primeira vez que nos vimos. A mãe de Antonietta estava adoentada e quando meu nome foi mencionado a mulher pediu para me ver. Eu sempre tive uma ótima relação com a família dela, principalmente a mãe, e me senti na obrigação de ajudar. Antonietta agora é casada e tem três filhos; ela não sabia como abordar o assunto, pois não tinha ideia se eu havia me casado ou coisa parecida." Recordar-se daquilo não era agradável. Nunca um mal-entendido pareceu tão proporcionalmente doloroso.
"Você foi visitar a mulher?"
"Sim, uma semana depois eu a visitei e desde então não tive mais contato com Antonietta." O moreno umedeceu os lábios. "Eu falei de você para ela e pedi que não me procurasse mais. Eu realmente sinto muito por ter levado a situação por tanto tempo, mas nunca existiu absolutamente nada entre nós. Antonietta é parte do meu passado."
Mario o encarou por alguns segundos e ficou em pé. Seus passos o levaram até o guarda-roupa e ele escolheu uma calça e uma camisa. Ao retornar, os olhos verdes se ergueram e por um momento o coração do Vice-Inspetor pulou uma batida.
"Eu ouvi o que você disse, mas não há nada que eu tenha a dizer." O ruivo tinha a voz séria. Não havia raiva, rancor ou nada que demonstrasse ira. "Eu não tenho mais interesse em continuar com você. Na verdade, eu não consigo confiar em você a ponto de tentar novamente, então, quando tudo isso terminar, eu quero que siga a sua vida e não me procure mais. Você faz parte do meu passado, Giulio, e eu não costumo viver olhando para trás."
"Esta é sua última resposta?"
"Sim."
O Braço Direito deu as costas e entrou no banheiro sem fazer nenhum outro comentário.
Giulio permaneceu imóvel por um momento, engolindo seco e levantando-se no segundo seguinte. A mesinha de chá foi limpa e arrumada e ele recostou-se à janela, fitando a rua. Mario deixou o banheiro após alguns minutos e não houve mais nenhum comentário sobre o assunto. O que eu farei agora? O moreno ergueu os olhos, seguindo o horizonte. A luz do Sol machucava seus olhos, mas ele se forçou a olhar. Eu não faço ideia de como seguir com a minha vida sem Mario. Eu estou completamente perdido.
Continua...
– x –
Aos leitores, a Condessa Uchiha fez um esboço de como seria o quarto do Giulio e estou compartilhando com vocês. Nossa, é muito emocionante ver algo que você criou ganhando vida. Muito obrigada mesmo ♥
Fale com o autor