Hermione acordou no dia seguinte se perguntando se os acontecimentos da noite anterior tinham sido parte de um sonho ou se realmente tinham acontecido. Quando concluiu que era realidade começou a se perguntar se tinha tomado a decisão certa. Ela não sentia mais raiva ou angustia. Mas sentia um certo arrependimento. Passara tantos anos desejando ser a namorada de Ronald Weasley e tinha medo de se desprender. Levantou-se da cama e foi se lavar. Enquanto a água da ducha caía sobre seu corpo, sentiu as lágrimas virem.

Ao sair do banho foi direto se vestir. Era mais um dia de trabalho e não poderia ser negligente. Ela estaria lá. Firme. Lembrou-se do almoço que tinha marcado com Harry. Rony também estaria presente. Cogitou inventar uma desculpa para não ter que encarar Rony, mas ao mesmo tempo seu coração inventava desculpas para vê-lo. Ela não havia sido tão fria no fim do namoro. Ainda tinha muitos sentimentos por Rony. Mas ao mesmo sentia a necessidade de se desprender dele. Terminou de se arrumar e partiu para o Ministério sem tomar café. Não sentia nenhuma fome.

A hora do almoço finalmente chegara. Sentiu o nervosismo tomando conta de si mais uma vez. “Controle-se” ela pensava. Caminhou para o Átrio com calma e viu que Harry já estava lá. Chegando, abraçou o amigo. Conversavam casualidades até Harry a convidar para irem caminhando para uma lareira e irem logo almoçar. Hermione não entendeu. Rony ainda não estava lá.

—Não vamos esperar o Rony? – Num súbito de compreensão ela concluiu. – Oh. Ele não vem, não é?

Harry a olhou com espanto.

— Imaginei que ele tivesse te avisado. O que houve, Hermione? – Harry observou o semblante da amiga e logo compreendeu que ele haviam tido mais uma briga. Estava disposto a mudar de assunto, pois eles brigavam tanto e logo já teriam feito as pazes. Porém Hermione ainda estava muda, e pode observar que havia uma lágrima se formando em seus olhos, mesmo quando a garota se esforça para que isso não acontecesse. – O que houve com vocês? Por que Rony não veio hoje realmente?

—Nós brigamos ontem. – Hermione baixou os olhos. – Mas não foi como nas outras vezes. O que Ronald disse pra você?

— Como não foi como das outras vezes? O que vocês fizeram?

— Nós... Acabou. Nós terminamos. – Disse por fim. Não acreditava que estava dizendo aquelas palavras. A lágrima que ela se esforçara para conter, finalmente caiu. Ela enxugou com a mão e começou a andar em direção a lareira. – Vamos logo então, Harry.

— Mas Hermione...

— Não aqui, Harry! – Hermione o interrompeu e continuou caminhando.

Resolveram não almoçar no restaurante habitual próximo ao trabalho. Buscaram um mais distante para evitar que encontrassem conhecidos. Chegaram a um restaurante movimentado. Podiam-se ver canecas, pratos e garrafas voando de um lado para o outro. Havia no ar o barulho das conversas animadas em diversas mesas. Sentaram-se em uma ao fundo. E pediram logo seus pratos. Enquanto aguardavam, Harry retomou a conversa.

— Então. Conta logo o que houve ontem entre vocês!

— Harry, — Hermione começou apreensiva. Tinha medo da reação do amigo ao ouvir o que ela vinha sentido e os motivos de finalmente terminar aquele relacionamento. – Na minha cabeça não estava mais funcionando entre Ronald e eu. Sempre brigávamos por tudo e nesse último ano, a indecisão dele entre ser Auror e jogar quadribol acabou me fazendo apenas de reserva na vida dele. Eu não agüentava mais me sentir assim. Não agüentava mais os diversos atrasos, isso quando ele comparecia aos nossos encontros.

“Sabe? Eu planejava coisas pro nosso futuro enquanto Rony continuava só pensando no futuro dele. Felicidade dele no quadribol. Reconhecimento sendo Auror. Mas e eu? Onde eu me encaixava nisso tudo? As pessoas estranhariam ao ver que até eu estava disposta a trabalhar menos para que pudéssemos finalmente aproveitar esses tempos de paz, mas que ele não é capaz disso.”

Harry olhava para a amiga e não conseguia entender como ela acreditava que Rony não a tratava como prioridade.

— O Rony te ama, Mione. Você sempre foi a principal coisa na vida dele.

— Não, Harry. Ele não me ama. Ele “gosta muito de mim” – Disse sinalizando as aspas, representando o que Rony sempre falava pra ela. – E além do mais. Depois de tanto tempo vivendo imersa em brigas e mais brigas, me pergunto se ainda sinto algo por ele.

— Se você se pergunta isso, é porque já não sente o mesmo de antes.

— O que ele disse para não vir?

— Não muito. Tivemos uma reunião no departamento de Aurors. Ao fim da reunião ele saiu apressado e disse que tinha que resolver umas coisas em casa. E por isso não viria. Agora entendo o que ele tinha que resolver... Vou a casa dele mais tarde. E vejo como ele está com essa história.

Harry estava impassível. Compreendia Hermione se sentir assim após Rony de fato ter negligenciado diversos momentos com Hermione. Porém sabia o quanto Rony era apaixonado por ela e queria saber o que não estava se encaixando na história. Agora ele compreendia a atitude de Rony na reunião. Rony teria que se explicar.

Terminaram o almoço conversando amenidades. Harry sentia o pesar na voz de Hermione, que sorriu poucas vezes. Despediram-se a porta do restaurante, pois Hermione seguiria de volta ao ministério, enquanto ele iria até a casa de Rony.

Rony ouviu um “CRACK” vindo da entrada de sua casa. Ele imaginava que Harry apareceria, mas não tão cedo. Ouviu a campainha tocar e resolveu ignorar. Esperava que ele fosse embora. A campainha soou mais uma vez seguida por batidas na porta. Ele pode ouvir Harry dizendo.

— Abra, Rony. Precisamos conversar.

Eles precisavam conversar. Mas não esperava fazer isso tão cedo. Percebeu que Harry não desistiria após o mesmo bater novamente e então abriu a porta. Harry entrou e passou por ele, subindo as escadas e indo direto ao quarto. Rony ainda estava no pé da escada quando Harry apareceu de novo com a expressão de incredulidade.

— Então foi isso que você foi conversar com Abnec? Você foi aceitar aquela missão! Já está arrumando as malas. Eu não acredito, Rony. Você ia partir para a Albânia e não iria nos contar? Não... – Harry balançou a cabeça repensando na frase enquanto descia as escadas – Você iria partir pra Albânia? Essa missão pode durar meses. Anos!

— Alguém tinha que ir não tinha.

—Sim. Mas várias outras pessoas estão dispostas a ir e sacrificariam menos que você. Você não precisa ir.

— Eu preciso.

— Por causa de uma briga com a Hermione? Quantas vezes vocês já brigaram? Você não vai nem tentar se entender com ela? Já está desistindo?

Rony ponderou as palavras de Harry por um instante. Ele se sentia enjoado, nauseado. Reviveu em sua memória algumas palavras de Hermione. “Cansada”, “segundo plano” e outras que ela dissera durante a semana insinuando querer conhecer pessoas novas e viver novas experiências, indicando já que queria o fim do namoro.

— Hermione já estava pensando nisso a bastante tempo.

— Como você sabe?

— Eu a conheço, Harry. – Rony exaltou-se — Passei minha vida memorizando cada expressão, cada reação, cada mania dela. Ela vinha me dando indícios a algum tempo. Mas nunca achei que ela tivesse coragem. Justo agora que estava... – Interrompeu suas palavras por uns breves segundo e então retornou a falar com a voz mais amena – De qualquer forma, a decisão dela foi tomada a bastante tempo. Não há nada que eu possa fazer agora. Preciso terminar de arrumar minhas malas. Viajarei assim que o sol começar a se por.

Rony subiu de volta as escadas, deixando um Harry atônito. Harry ainda não entendia como aquilo estava dando errado. Rony e Hermione, que apesar de todas as brigas, eram perfeitos um pro outro. Dois extremos que juntos se equilibravam. E agora Rony ia partir. Passaria meses fora. Talvez anos. E a chance dos dois juntos estaria perdida.