The Revenge Of Apófis

5 Capítulo 4 - Um velho amigo da família faz uma entrada triunfal


Meu pai nunca havia me deixado desamparada, ele estava sempre do meu lado e sempre era sábio e resolvia os problemas com calma, aquilo não parecia coisa do feitio dele, correr de uma pergunta.

Jaz veio para o meu lado e me abraçou, a afastei antes que seus braços se fechassem ao meu redor e saí correndo da enfermaria, Lius veio atrás. Corri até não aguentar mais e me deixei escorregar para o chão em um canto, meu pai sempre foi o único que me entendia, mesmo ali, na Casa do Brooklyn eu me sentia solitária. Depois dele, apenas Lius poderia entender o que passava em minha cabeça, nem Will conseguiria.

As lágrimas que eu havia segurado por tanto tempo escaparam de meus olhos e mancharam meu rosto. Eu era uma aberração, monstros me caçavam o tempo inteiro, agora os deuses tentavam me matar e para completar, meu pai resolveu me deixar no escuro e me abandonar.

– Lúcia...! — percebi que Lius estava tentando chamar a minha atenção e já deveria fazer algum tempo.

– Quê? Me deixe em paz – gritei, sentindo uma pontada de culpa pelo olhar que cruzou o rosto do meu melhor amigo.

– Eu... Eu ouvi o que eles estavam falando ontem – disse ele.

– Conte – falei, um pouco grossa demais.

– Bem, é complicado – começou ele, o fuzilei com o meu melhor olhar de “vou te transformar em uma doninha raivosa” e ele continuou – Lúcia, por séculos os deuses egípcios, gregos e romanos têm se mantido em paz, uma paz frágil e que pode ser rompida a qualquer momento. No passado eles lutaram muito, muitas guerras foram travadas e muitos mortais e semideuses morreram. Então os deuses resolveram delimitar um território para cada lado, se esse território fosse transpassado, os deuses iriam para a guerra novamente. Você entende?

– Não – respondi, eu não era lenta, nem nada do tipo, mas meu cérebro se recusava a acompanhar, como se já soubesse a que final a conversa ia levar.

– Você é a ponte, Lúcia. Você une os dois lados, por isso eles querem te destruir. Eu fui avisado disso quando aceitei ser seu protetor, os Olimpianos querem te matar, mas sua mãe os mantém controlados.

– Minha mãe? — perguntei, minha mãe deusa que nunca havia se importado comigo, estava impedindo os Grandes Deuses de me matar?

– Sim, Hécate está chantageando os deuses, ameaçando não encobrir mais os olhos mortais, ela é a única que consegue conjurar e controlar a névoa em todo o mundo, se ela resolver parar, ninguém sabe o que pode acontecer. Além disso, ela está se arriscando encobrindo a visão dos deuses com a névoa, se eles descobrirem... A sua luta contra Serket não foi vista por nenhum dos outros deuses gregos, mas ninguém está agindo para impedir os deuses Egípcios.

Escorreguei ainda mais em direção ao chão, minha mãe estava me protegendo, ela nunca havia entrado em contato comigo, mas estava arriscando sua cabeça para me encobrir. Fechei os olhos por um momento, isso era demais para mim. Eu só queria uma vida normal, o mais normal possível para uma maga semideusa, mas eu era uma Kane afinal.

Olhei o horário para a semana:


Olhei para o céu, eram 11:30, segundo a posição do sol. Meus colegas deveriam estar quase voltando da escola essa hora. Ontem eu havia almoçado lá e ficado à tarde para falar com a diretora, mas normalmente nós vamos a aula somente pela manhã e voltamos para o almoço e para nossa aulas mágicas de tarde.

Fui para a beira da piscina e sentei o mais afastado possível, Filipe da Macedônia, um enorme crocodilo branco, nadava calmamente na água cristalina. Ele me cumprimentou batendo sua pata na água e fazendo um loop. Lius passou longe, um olhar de pânico em seus olhos. Sentamos em uma mesinha e comida se materializou em cima dela, comecei a comer mesmo sem ter fome, joguei umas fatias de bacon da minha pizza para Filipe.

Lius ficou me olhando com seus enormes olhos castanhos, enquanto comia um prato de porcelana. — O que foi? — perguntei.

– Você... está tudo bem? — gaguejou.

– Sim – respondi. Ao olhar receoso dele, continuei: — Lius, eu não vou mais sentar em um canto e chorar. Os deuses querem me destruir? Que venham, eu vou treinar e vou enfrentá-los. Eu tenho aulas importantes de tarde, não vou correr e me esconder como meu pai fez.

– Não fale assim – respondeu ele abismado, olhando para o céu, como se um deus fosse se materializar ali agora.

– Eu não tenho mais medo deles, Lius – respondi, o que não era inteiramente verdade, eu estava furiosa com a maioria dos deuses, mas serviu para acabar com o assunto.

Will saiu das portas duplas da mansão e veio sentar ao meu lado, seu sorriso morrendo quando me viu, eu deveria estar horrrível. Havia saído de uma luta com uma deusa direto para uma enfermaria e de lá direto para um vergonhoso ataque de choro e sequer havia olhado em um espelho no caminho.

– Você está horrível — esse foi Tomas, melhor amigo de Will — Aaai...!

– Deixe de ser idiota — falou Will, passando a mão na vassoura que deveria estar o meu cabelo e dando um soco no braço de Tom — como você está?

– Bem — respondi, pelo olhar que cruzou seu rosto percebi que ele não havia acreditado.

– Ah, qual é. Você derrota uma deusa e vai querer dizer que está tudo bem? — falou Tom.

– Não fui eu que derrotei Serket, foi Bastet. Eu apenas fiquei lá morrendo enquanto ela fazia tudo — remedei.

– Não — falou Lius, criando coragem para falar com meus amigos Magos, mesmo depois de dois anos de convivência — Se não fosse por você, eu estaria morto e Bastet poderia não ter ganho aquela luta.

– O que você acabou de dizer? — uma voz felina ronronou atrás de mim. Uma mão cheia de garras tocou meu cabelo e começou sua maratona de caça aos piolhos.

– Khufu– gritei, me virando para o babuíno que remexia em meu cabelo, eu não o havia visto desde que havia acordado — Bastet!

A deusa gato estava em seu tradicional macacão parecido com a pelagem de um leopardo, a ponta de suas facas brilhavam por baixo das mangas e um pó parecido com enxofre cobria sua superfície.

– Como você está hoje, minha querida? — falou Bastet.

– Estou melhor, graças a você — respondi — obrigada.

– Não tem por que agradecer, só estava cumprindo meu dever — miou Bastet, ela aparentava cansaço — seus avós virão vê-la em breve. Agora eu preciso falar com o Conselho, esteja lá após suas aulas.

– Ok — respondi. As coisas deviam estar feias mesmo para Bastet vir pessoalmente ter uma reunião com o Conselho da Casa do Brooklyn.

– Vocês viram o enxofre nas facas dela? — falou Tom.

– Não era enxofre — respondeu Lius– era areia de monstro, Bastet lutou para chegar até aqui, eu acho que você deve falar para o Conselho cancelar as aulas por um tempo, Lúcia.

Terminamos de comer em silêncio depois disso e fomos até a sala de Magia de Combate, Julius já estava lá, ele também havia sido um dos primeiros aprendizes de Carter e Sadie. Pedi se Lius podia assistir a aula, ele não objetou, nos sentamos no sofá mais afastado. Will não tirava os olhos do meu rosto, sua expressão dizia: "mais tarde", ele sabia que eu havia chorado, mas não queria me perguntar na frente dos outros.

As pessoas começaram a chegar e ocupar a sala de aula, todas me disseram oi e eu respondi com igual entusiasmo, afinal eramos como uma família, meus problemas não deveriam afetar isso. A sala de aula, como você deve ter percebido, não se parecia nem um pouco com isso. Haviam sofás espalhados ao redor da sala e Julius ficava em pé no começo do círculo, alguns novatos traziam cadernos para anotar, a maioria não. Eu estava entre a maioria.

Julius começou a aula, era sobre avatares de combate, do tipo que Bastet usou. Julius tinha muita prática nesse assunto, mas não tanto quanto Carter. Ele começou a falar sobre como se concentrar em chamar seu avatar, como moldar a sua forma e eu realmente estava interessada, até que ele começou a falar da enorme quantidade de energia que um avatar consome e eu automaticamente me desliguei. Eu tentava evitar coisas que consumissem muita energia e fossem muito poderosas, magia em excesso poderia me fritar, enquanto eu não conseguisse controlar direito.

Por isso eu escolhi seguir o caminho da deusa Nut, a deusa do céu e das estrelas, considerada a Mãe dos deuses. Quando um Mago hospeda um deus ele se torna muito poderoso, Nut nunca poderia usar meu corpo como seu hospedeiro porque ela não podia sair de seu lugar no céu. Longa história, Nut e Geb, deus da terra, eram apaixonados e então Nut engravidou de cinco filhos ao mesmo tempo: Ísis, Osíris, Hórus, Set e Néftis. Quando Rá ficou sabendo ele lembrou de uma antiga profecia que dizia que um filho de Nut e Geb estaria destinado a roubar seu trono, Rá proibiu Nut de ter seus filhos em qualquer um dos trezentos dias e noites do calendário. Não conformada, Nut apostou com o deus da lua, Khonsu, e ganhou luar suficiente para criar mais cinco dias no final do calendário. Em cada um desses cinco dias ela teve um filho. Desde então, Geb e Nut não podem mais se tocar, por proibição de Rár.

Nem percebi quando a aula acabou, vi que estavam todos se levantando e peguei minhas bolsa de mago e sai. Julius estava falando que na próxima aula todos teríamos que invocar avatares. Ótimo.

– Eu tenho treino de combate agora, Lius– falei para ele.

– Ok, eu vou para o seu quarto, mandar uma mensagem para o Acampamento — falou ele.

Fui para o terceiro andar da mansão, o qual fora todo transformado em uma arena, Will e Tom tomaram um corredor lateral, eles tinham outra aula. Tínhamos todas as nossa aulas-treino ali, Félix já estava esperando. Ele nos cumprimentou e começou a explicar como seria a aula.

– Hoje vocês irão treinar magia de combate e magia de defesa, em duplas, contra Shabtis cuspidores de fogo — com um aceno de sua mão, oito pedestais desceram de alçapões no teto e pousaram em formação ao nosso redor, os demônios de pedra em cima nos olhando com órbitas ocas.

Shabtis são estátuas, são comumente conhecidas como “aquele que responde”, e era o que eles faziam, nós até tínhamos um professor shabti. As oito estátuas de demônios cuspidores de fogo ganharam vida a nossa volta e aguardaram.

– Vocês farão cinco duplas, os menores de dez anos deverão ser protegidos — resmungos percorrerão as seis crianças que estavam ali — poderão ajudar, mas apenas isso. Nas duplas, que eu vou escolher — resmungos percorrem os maiores agora, eu preferia assim — um deve proteger e outro atacar. As duplas são: Joanna e Matt, Julia e Antony, Lúcia e Michael, Mary e Josh, Alexander e Aaron. Comecem.

Minha dupla era Michael, ele era um garoto baixinho mas muito poderoso com magias de defesa, ele iria defender. Eu fiquei com o ataque.

Os magos da defesa começaram a conjurar seus escudos e eu baixei minha visão para o Duat, como Sadie havia me ensinado a fazer, eu era a única que conseguia fazer isso dentre os meus colegas. Cinco esferas de luz começaram a se expandir ao nosso redor, cada uma de cor diferente e partindo de um mago diferente, que não eram vistas fora do Duat. Quando elas se encontraram, se fundiram em uma única cor verde-escura, um escudo perfeito se formou ao nosso redor, nada de rachaduras ou falhas hoje. Fiz um sinal de Ok com a mão, e Félix fez sinal para os Shabtis atacarem.

Seis deles convergiram contra nós e os outros dois lançaram chamas, que bateram contra o escudo inofensivas, mas no Duat vi a cor verde vacilar. Chamei uma rajada de ar e abafei as chamas, lancei minha espada grega contra o Shabti mais próximo que se desfez em pó. Ao meu lado, diversas magias foram lançadas contra os Shabtis, algumas acertaram os alvos, outras passaram inofensivas. Os pequenos pegavam tudo que encontravam e lançavam, um sapato acertou um Shabti no rosto e eu aproveitei a deixa e lancei minha varinha nele, menos um. A varinha voltou para minha mão como um bumerangue. Um shabti foi lavado por uma onda e outro esmagado por um cajado que havia se transformado em hipopótamo, e o exercício terminou.

Félix veio nos dar os parabéns e passar a próxima lição, quando a parede de um lado do prédio explodiu lançando enormes blocos de concreto para cima de nós, Félix moveu sua varinha e uma parede de gelo bloqueou nossa visão, parando os destroços. O gelo explodiu e do enorme buraco na parede, uma cobra com duas cabeças, pernas de dragão e corpo em U pulou para dentro, nos olhando com seus malignos olhos amarelos.