Alguns dias se passaram desde o julgamento de Eduardo e esse já pensava em aprontar.

“Um bar?” Patty dizia deslumbrada.

“A gente vai ganhar rios de dinheiro!” Eduardo dizia rindo para Fernando e Patty no ferro velho.

“É, mas com que grana que você planeja transformar isso...” Fernando abria seus braços pra indicar o ferro velho “Em um bar? Me diz irmãozinho.”

“Muito fácil.” Eduardo disse com um sorriso no rosto “Vamos assaltar!”

“Você só pode estar pirado!” Fernando disse enquanto Patty gargalhava.

“Você só pode estar brincando.” Patty disse ainda rindo “O que você pretende? Roubar a bolsa de alguma patricete na rua?”

“Não, né Patty!” Eduardo disse “Eu planejo algo grande. Uma loja grande ou talvez um supermercado.”

“É, ele pirou.” Fernando disse.

“Pensa só!” Eduardo disse “Vai ser nossa última vez! Depois dessa a gente entra nos eixos, constrói nosso bar e a gente fica rico!”

“Fala pra ele, Patty.” Fernando disse abrindo uma marmita “Fala que a gente não ta interessado e que ta bom assim mesmo as coisas.”

“Fala sério, Fernando!” Eduardo disse “Você vai poder largar essas marmitas frias aí por comida de verdade. Poderá ir à lugares que você nunca sonhou em pisar!”

“É verdade, meu amor.” Patty disse convencida “A gente pode mudar a nossa vida de vez!”

“O quê?” Fernando disse “Você também, neguinha? Agora eu acho que foram os dois que piraram.”

“Me ajuda aí, Patty.” Edu disse.

Patty rapidamente se ajoelhou perto de onde Fernando começava a comer e disse: “Vamos, meu amor. Vamos mudar de vida!”

Ao ver os olhos de cachorrinho pidão de Patty, Fernando não pôde dizer não.

“Ta bom. Ta bom.” Fernando disse “Mas é a última vez.”

“A última mesmo.” Edu disse coçando a cabeça “É pegar essa grana, fazer o bar e depois eu me torno um homem de família/ de negócios.”

“E a Beatriz aceitou essa história aí de assalto?” Fernando perguntou à Eduardo.

“Ela não pode nem sequer sonhar com isso!” Eduardo disse.

“Você vai mesmo deixar a patricete de fora?” Patty pergunta.

“Vou ter que deixá-la de fora ou não tem assalto, ou até pior, eu posso perder a Beatriz de uma vez por todas.” Edu disse.

“Então ta.” Fernando disse “Mas onde você ta pensando em assaltar?”

“Eu venho observando já tem alguns dias uma loja de carros aí, sabe uma revendedora?” Eduardo disse “Lá entra grana alta.”

“Legal.” Patty disse com um sorriso nos lábios.

“Mas também tem um monte de seguranças lá.” Eduardo disse.

“Seguranças?” Eu o perguntei chegando no ferro velho “Do que estão falando?”

“Beatriz?” Eduardo disse um pouco nervoso.

“Ta tudo bem?” Eu o perguntei.

“Ta.” Eduardo respondeu vindo me beijar.

“Bom, eu vim buscá-lo.” Disse “Já está na hora de irmos à festa de noivado do seu irmão, lembra?”

“É verdade!” Eduardo disse “Já tinha até me esquecido.”

“Boa festa aí pra vocês.” Fernando disse.

“E pode deixar que a gente vai ficar pensando aqui naquilo, ta?” Patty disse.

“‘Naquilo’? ‘Naquilo’ o que?” Eu perguntei.

“Nada.” Edu disse olhando furioso para Patty.

“Sei.” Disse desconfiada.

“Bom, até mais gente.” Edu disse e fomos para o jantar de noivado de Lisa e Miguel, que seria na mansão da Lisa.

Era uma mansão belíssima, e em dia de festa dona Arlete, mãe de Lisa, não economizava em nada! Ainda mais no dia em que sua filha noivaria.

Lisa estava linda, usava um vestido preto cintilante que a deixava belíssima. E Miguel parecia mais que estava no dia de seu casamento só, faltava mesmo o padre.

Eu já vestia um vestido branco belíssimo também, mas ainda não era mais bonito do que o de Lisa. Só Eduardo não pensava assim...

“Ai, ela ta linda.” Disse quase chorando ao ver minha melhor amiga.

“Você está mais.” Edu sussurrou no meu ouvido.

“Ai, para.” Disse pra ele encabulada “Mas olha que no dia do nosso noivado eu vou caprichar, viu?”

“É só você ficar nua que está bom.” Ele disse com um tom safado.

“Eduardo!” Disse.

“O que foi?” Ele disse me abraçando por trás “Só to dizendo a verdade.”

“Sei.” Disse sorrindo.

“Em, vem aqui comigo.” Eduardo disse me puxando para um canto do jardim.

“O que é?” Eu o perguntei.

“Eu quebrei o meu porquinho outro dia.” Ele disse.

“‘Porquinho’?” Perguntei “Que porquinho?”

“Eu tinha aí um porquinho que desde moleque eu guardava um dinheiro lá pra uma emergência e...”

“E...?”

“E... E que eu quebrei o porquinho, peguei o dinheiro e...” Ele dizia pegando uma caixinha de dentro de seu bolso “E comprei isso.”

Eu peguei a caixinha e abri-a.

Tinha o mais lindo anel de noivado que jamais vira em toda minha vida. Ele era de ouro branco, uma solitária na verdade, e a pedrinha era branca.

“Não.” Disse começando a chorar “Seu idiota. Ta me fazendo borrar a maquiagem.”

“Que susto.” Ele disse sorrindo “Pensei que tivesse voltado atrás e eu tinha comprado isso a toa.”

“Eu te amo.” Disse o beijando em seguida “Não vai colocar no meu dedo?”

Ele pegou o anel e colocou-o no meu dedo.

Eu fico a admirá-lo até hoje e não sei por que não me canso de olhar.

“Eduardo!” Helena nos procurava “Beatriz!! Aí estão vocês.”

“O que é agora?” Edu a perguntou.

“O jantar ta servido.” Helena disse.

“A gente está indo.” Edu respondeu à irmã e fomos para o jantar.

Três semanas depois...

“Eu tenho mesmo que ir?” Patty perguntou fula “E ainda por cima assim?”

Patty vestia uma blusa branca, uma minissaia creme e sandálias de salto alto. Ah, e seu cabelo havia passado por uma bela chapinha.

“Ah, eu não vou.” Ela disse se olhando no espelho “Manda a sua patricete, mas eu não vou não!”

“Você esqueceu de que a Beatriz não pode saber desse assalto?” Eduardo a perguntou “Ainda mais agora que a gente está tão bem! Seria péssimo!”

“Ele tem razão, meu amor.” Fernando disse “E se você quer mesmo ficar com essa grana toda você tem que se vestir assim igual a uma...”

“A uma patricinha.” Patty completou fula.

“Cara, revira tudo nessa entrevista.” Eduardo diz “Seduz o cara se for preciso, mas descobre a conta bancária do cara.”

“Ei, ei.” Fernando disse “Nada dessa parada de seduzir.”

“Calma, meu amor.” Patty disse “Não vou nem encostar no cara.”

“Só deixa ele maluco de desejo a ponto de te entregar a conta bancária dele.” Eduardo disse “E recapitulando qual é o seu nome?”

“Letícia...” Patty não conseguia se lembrar de seu sobrenome falso.

“Prado, Patty, Letícia Prado.” Eduardo disse “Vê se não vai dar furo. Você não pode inventar um sobrenome diferente do que a gente colocou na carteira de identidade falsa. E cadê seus documentos verdadeiros? Não vamos querer que você entregue ao cara os documentos de Patrícia Vasconcelos, não é?”

“Cadê o laxante?” Perguntou Fernando.

“Ta aqui dentro.” Patty disse apontando para a bolsa que combinava total com o que ela vestia, e adivinha só? Não era preto.

“E vê se usa o que aprendeu no curso de informática pra pegar a senha do banco do cara, em?” Edu disse.

“Eu sei!” Patty disse fula “Você já disse isso milhões de vezes.”

“Calma neguinha.” Fernando disse “Pensa que nós seremos ricos depois de hoje.”

“Eu sei.” Patty disse “Acredite, se não fosse por esse dinheiro idiota eu não estaria fazendo esse papel ridículo.”

“Ah, Patty. Mais uma coisa.” Edu disse.

“O que é?” Ela perguntou nervosa.

“Boa sorte.” Ele disse como se tivesse curtindo com a cara dela.

“Vai se ferrar, Eduardo.” Patty disse saindo do ferro velho.

Patty foi até a revendedora de carros, onde faria a tal entrevista de emprego, mas lá ela dá de cara comigo no pátio do lugar.

Quando ela me vê, ela tenta se esconder, mas era tarde eu já tinha avistado-a.

“Patty?” Eu perguntei incrédula ao vê-la vestida daquele jeito “O que você está fazendo aqui? E vestida assim...”

“Beatriz!” Ela disse nervosa “O que você está fazendo aqui?”

“Eu perguntei primeiro.” Disse.

“Ora, o que mais eu poderia estar fazendo aqui?” Patty estava muito nervosa “Entrevista de emprego! Mas e você?”

“Entrevista de emprego?” Eu duvidava.

“É.” Ela disse curta e grossa “Mas você ainda não me respondeu o que você está fazendo aqui.”

“Um documentário sobre essa revendedora.” Respondi “O Sr. Lúcio, provavelmente será ele quem vai entrevistá-la, ele me contratou para fazer esse documentário e eu vim ter a primeira reunião.”

“Bom, se você já acabou... Tenho uma entrevista pra fazer também.” Patty disse.

“Boa sorte.” Disse.

“Não vou precisar.” Patty disse indo rumo à sala de Lúcio.

Patty entrou na sala do homem e eu a segui e me escondi do lado de fora, onde poderia ouvir tudo o que acontecia, já que não tinha acreditado em sequer uma palavra que ela tinha dito.

“Letícia Prado?” Ele disse lendo o currículo dela “Me parece uma pessoa bem experiente no ramo de roupas, mas carros...”

“Eu sei, mas pra tudo se tem uma primeira vez.” Patty disse e parecia incrivelmente nervosa.

Eu estranhava aquela história toda, sabia que era tudo baboseira tipo: ‘Letícia’?

“Você me parece um pouco nervosa” Ele a disse “Gostaria de uma água ou café?”

“Água.” Ela disse.

Quando ele se virou para pegar a água dela, vi Patty colocando um troço (o laxante) na água de Lúcio rapidamente.

Quando ele se virou e a deu a água, ele também bebeu a dele com laxante.

Enquanto conversavam, não demorou muito para Lúcio sentir os efeitos do laxante. Ele disse para Patty que teria que encerrar a entrevista e depois ligaria marcando outra. Daí ele correu para o banheiro sem ao menos esperar Patty sequer se levantar.

Ela começou a rir, mas não tratou de armar um escândalo.

De repente ela correu para a cadeira de Lúcio, colocou luvas e começou a mexer no computador do homem.

Super estranhei e então ela disse: “Bingo.”

Ela anotou algo em um papel toda alegrinha, saiu da página que estava no computador e saiu da sala de Lúcio.

Do lado de fora, corri atrás dela e peguei-a pelo braço esquerdo.

“Letícia Prado?” Perguntei-a.

“Você estava me espionando?” Ela me perguntou incrédula.

“Inventasse uma desculpa melhor, meu amor.” Disse “Que eu nem sequer desconfiaria de você. Afinal o que é isso?”

“Nada.” Ela disse.

Como ela não me disse ‘nada’, eu rapidamente peguei a bolsa dela e de lá tirei o tal papel.

“Isso não seria o número de uma conta bancária e a senha?” Eu a perguntei.

Patty não respondeu nada.

“Só me diz que Eduardo não está envolvido nessa.” Disse.

“Na verdade a idéia disso tudo é dele.” Patty disse.

Eu não disse nada, só fui andando até o meu carro, mas aí Patty me perguntou: “Não quer saber mais de nada?”

“Já soube o suficiente pra deduzir o resto.” Disse entrando no carro e arrancando com ele dali.

Lembro que nesse dia sofri a maior decepção da minha vida.