The Reason Is You
3 Capítulo 3 - Aflição (Kara Leigh Se Preocupa Com Murphy)
Notas iniciais
I believe I believe there's love in you
Grid locked on the dusty avenues
Inside your heart, just afraid to go
I am more I am more than innocent
But just take a chance and let me in
And I'll show you ways that you don't know
Skylar Grey — I Know You
Durante aquela noite, Kara Leigh teve um pesadelo. Ela sonhou com um motim em sua aldeia. Seu povo havia descoberto que ela estava ajudando Murphy e o mataram. Agora, ela via o corpo sangrento do garoto jazia no chão, sendo disputado por animais. Ela havia sido presa por traição e iria pagar com sua vida, sofrendo a penitência de morte por 1000 cortes. Amarrada em um tronco, foi apunhalada várias e várias vezes. Quando Anya foi dar a punhalada final, Kara Leigh acordou, suada e tremendo. Depois desse pesadelo, a menina não conseguiu dormir novamente.
Ao amanhecer, após refletir muito sobre como iria fazer isso, Kara Leigh decidiu ir encontrar Anya para explicar a situação sobre ela e Murphy. Talvez houvesse uma chance de não ser morta. Mas Anya a detestava tanto que essa chance era mínima. Estava a meio caminho quando o mesmo guarda da noite passada a agarrou pelo braço com violência.
—Você, sua pilantrinha! A líder não me deu ordem nenhuma sobre trocar de posição! – Disse o guarda, rudemente.
—Está me machucando! – Disse Kara Leigh, tentando se defender.
—Já entendi tudo. Você está ajudando o prisioneiro, não está? Achou que ninguém iria perceber que os machucados dele estão se curando? Você vai responder isso para a líder! – Disse o guarda, arrastando Kara Leigh com ele.
Ele jogou a terrestre brutamente no chão da tenda de Anya. A líder terrestre não esboçou nenhuma reação com aquilo, pelo contrário, sentiu um certo prazer sádico ao ver Kara Leigh se machucando.
—O que esse peso morto fez agora? – Perguntou Anya, com monotonia na voz.
—O que já era de se esperar. Está ajudando o prisioneiro do céu! Ela me distraiu para cuidar dos ferimentos dele! – Respondeu o guarda.
—Senhora, deixe eu explicar... – Kara Leigh não terminou a frase.
Anya foi até ela e a chutou no rosto, fazendo-a cair novamente, só que para trás. Filetes de sangue saíam do nariz e da boca da jovem.
—Explicar o quê?! – A voz de Anya era grossa e firme. – Que você traiu nosso povo? Que fez exatamente o que eu mandei você não fazer? Ou que é tão burra e fraca que está ajudando o inimigo?
Lágrimas involuntárias saíam dos olhos de Kara Leigh. Ela teria que mentir para continuar viva e para garantir que Murphy não seria morto. E ela odiava mentir.
—Senhora, ele não precisa ser um inimigo! – Disse Kara Leigh, ofegando. – Ele é útil. Ele tem informações valiosas que precisamos para nos defendermos do povo do céu. Eu posso consegui-las.
Anya levantou Kara Leigh pela blusa.
—E como planeja fazer isso? Curando os ferimentos dele? – Perguntou Anya.
—Ganhando a confiança dele. Se ele confiar em mim, vai me contar tudo. Mas eu preciso dele vivo! Se continuarem torturando ele desse jeito, ele não vai durar muito! – Completou Kara Leigh.
Anya refletiu por alguns momentos antes de largar Kara Leigh no chão, novamente.
—Eis o que vamos fazer: iremos torturá-lo durante o dia, só para ver se ele solta a língua. Caso não dê certo, usaremos você durante a noite. Use seu jeito irritante e enjoado para tirar informações dele. Caso nenhum dos dois dê certo, o matamos. – Disse Anya.
Kara Leigh foi embora com o estômago embrulhado, como todas as vezes que ia embora da tenda de Anya. Ela se sentiu realmente mal por ter dito aquelas coisas. Mas precisava garantir que Murphy não fosse morto. O problema é que ela teria que tirar informações dele para isso. E ele ainda iria continuar sendo torturado. Kara Leigh estava dividida. Não queria usar Murphy, mas também não queria que os dois fossem mortos pelos terrestres. Ela teria que pensar em algo, rapidamente.
Durante aquela manhã, ela foi até um riacho próximo da aldeia para se lavar. Estava suja de sangue, terra e suor. Claro, não podia ficar muito limpa, porque alguém muito limpo no mundo dos terrestres, fede. Enquanto se lavava, começou a chorar, preocupada com Murphy. Deveriam estar torturando ele naquela mesma hora. Ela passou mal só de pensar o que estariam fazendo com ele.
Kara Leigh voltou para a aldeia, sendo recebida pelos gritos ecoados de Murphy. O coração dela disparou na mesma hora. O que estão fazendo com ele? Pensou. Ela correu imediatamente até a jaula dele e viu os dois braços dele para fora, com inúmeros cortes e dois soldados segurando-os. Ela arregalou os olhos com a cena.
—Deveríamos apunhalá-lo. – Disse um dos soldados.
—Não. A líder disse apenas ferimentos leves. – Respondeu o outro soldado.
Kara Leigh saiu correndo novamente, dessa vez, em direção à sua casa. Ela pegou a sua trouxa com os remédios que preparara com Lincoln e procurou qualquer coisa que ajudasse com cortes de faca. Ela achou um pequeno tubo com uma essência de uma flor chamada calêndula. Havia várias propriedades antibacterianas e ajudava na cicatrização. Ela deixou o remédio separado, junto com algumas nozes e um pouco de água para levar para Murphy mais tarde. Sua vontade era de levar agora, e impedir os soldados de continuarem torturando Murphy
Kara Leigh esperou o que pareceu uma eternidade para escurecer. Os guardas não a permitiriam chegar perto de Murphy durante o dia, e isso a fazia se sentir horrível. Ela se lembrou da noite passada. As palavras confortantes que Murphy disse para ela. “Se eles não conseguem reconhecer alguém bom, então que se ferrem!” Ela começou a chorar novamente, pensando que ele estava sofrendo, sozinho lá fora.
*~*
Murphy passou o que foi um dos piores dias da vida dele. Foi torturado praticamente o dia todo. Aqueles soldados lhe faziam perguntas, e quando ele se recusava a responder, ou eles o batiam ou o cortavam. Depois de um longo questionário, Murphy estava tão machucado que mal aguentava ficar acordado.
Em parte, ele não se importava. Já estava acostumado a apanhar das pessoas, pois foi tratado mal a vida inteira. Apenas duas pessoas se importaram com ele durante sua vida toda. Uma delas foi seu pai, que foi executado por “cometer o crime” de se preocupar com a saúde do filho e roubar alguns remédios. A outra era Kara Leigh, uma terrestre, quem diria que estava arriscando sua vida para cuidar dele, sendo que mal o conhecia.
Falando em Kara Leigh, ele pôde notar, em uma visão turva, a garota vindo em sua direção. Ele pensou que havia apanhado demais, pois o guarda que o vigiava não fez nenhuma objeção com isso. Ela se aproximando dele foi como a visão de um anjo. Eu realmente apanhei demais. Ele pensou. Ela se aproximou dele com um olhar preocupado, tirando um remédio do bolso.
—Me desculpe por tudo isso... – Ela disse, com uma voz de quem havia se acabado em prantos.
—Não foi sua culpa... – Ele respondeu, com uma voz fraca.
Murphy estava tremendo e tossia um pouco. Kara Leigh estava sem graça de ter que pedir aquilo, mas era necessário.
—Preciso que.. que... – Ela estava corada – que tire a camisa para eu poder passar o remédio.
Murphy, mesmo machucado, notou que havia algo estranho com ela. Kara Leigh estava com o rosto inchado, de quem havia chorado muito, e sua voz estava triste. Ele a obedeceu e tirou a camisa. Se antes Kara Leigh estava corada, agora ainda mais. A visão de Murphy sem camisa, mesmo com os braços e o tórax cobertos de sangue, a havia deixado arrepiada. Tanto que ela tremia ao segurar o frasco com o remédio.
—O que foi? Gostou da visão? – Brincou Murphy, tentando fazê-la descontrair.
Era incrível a habilidade que ele tinha de ser sarcástico mesmo seriamente ferido. E pareceu funcionar, pois ela deu outro de seus sorrisos tímidos. Murphy gostava quando ela sorria assim.
Eles ficaram quietos enquanto ela passava o remédio nele. Aquele toque estava sendo estranhamente agradável para os dois, mesmo que ela não estivesse tocando nele diretamente, pois estava aplicando o remédio através de um pano. Assim que ela terminou, pediu que Murphy recolocasse a camisa. Ela entregou a comida e esperou ele terminar de comer. Era a hora. Ela teria que contar pra ele o que seu povo estava planejando. Mesmo que ele fosse odiá-la para sempre.
—Preciso contar uma coisa. – Disse Kara Leigh, quando Murphy já estava um pouco melhor.
—O que é? Marcaram a data da minha execução? – Perguntou Murphy, fazendo outra piada.
—Eles não vão te matar. – Ela respondeu. – Pelo contrário, vão querer você do nosso lado. Eles querem que você... conte os segredos para derrotar o povo do céu. É por isso que... estão te torturando.
—Isso não vai adiantar enquanto você estiver aqui. Se eles quisessem respostas me torturando, você não estaria aqui agora. – Respondeu Murphy.
—É onde me meteram nisso tudo... me desculpe. – Ela disse, abaixando a cabeça. Não estava com coragem para falar, mas precisava. – Anya ordenou que eu conseguisse as informações de você, mas... eu não quero fazer isso! Eu não quero te machucar igual todos fazem!
Murphy olhou para aquela garota como se ela fosse um milagre. Qualquer outro já o teria traído, mas não ela. Ela estava sendo sincera. Ela realmente se importava.
—Qualquer um não pensaria duas vezes antes de me usar. Eu sou um cara mau, já fiz muitas coisas ruins. – Disse Murphy. – Por que você se importa tanto comigo?
—Porque eu acredito que todo mundo merece uma segunda chance. – Respondeu Kara Leigh. – Vou pensar em alguma coisa, mas não vou usar você, John.
Ao perceber que ela o chamou pelo primeiro nome, ele imediatamente reagiu.
—Vem aqui. – Chamou Murphy.
Kara Leigh deu a volta na jaula e ficou por trás dele. Murphy procurou as mãos dela por fora da jaula, e assim que as achou, as puxou para dentro, unindo-as, resultando em Kara Leigh o abraçando. Ela recostou a cabeça em uma parte do ombro dele, onde a jaula não atrapalhava. E assim eles ficaram, em silêncio por alguns minutos. Murphy realmente esperava o dia em que não existisse uma jaula para atrapalhá-los. Após um tempinho, Kara Leigh quebrou o silêncio.
—Se eu não ajudar o meu povo, Anya irá matar nós dois. – Ela disse. – O que iremos fazer?
—Eu tenho uma ideia. – Murphy respondeu.
Os dois passaram os próximos minutos discutindo como iriam sair dessa situação vivos. Acabou que Murphy decidiu fazer exatamente o que Anya queria. Ele não se importava realmente com o povo que havia tentado enforcá-lo, então não teria problema em dar algumas informações. O importante era que ele e Kara Leigh permanecessem seguros. Ela achou a atitude um pouco egoísta, mas não teve escolha, senão concordar. Após passarem algum tempo discutindo, adormeceram naquela posição. Estava agradável demais para saírem dela.
Continua.
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