The Reason Is You
22 Capítulo 22 - O Limite Do Amor E Da Loucura
Notas iniciais
Oh, boy, have you seen my head?
I've lost my mind, so I forget and
Oh, boy, have you seen my heart?
It's beating so loud, I'm falling apart and
Only you can bring me back to life
Only you can put me into right
Tell me when I can breathe again
The Pretty Reckless — Only You
Kara Leigh acordou no meio da floresta. A noite já havia caído. Ela não estava sozinha. Ao redor da fogueira crepitante estavam Bellamy e Octavia.
—Octavia? – Kara Leigh a chamou, se sentando e massageando as têmporas. – Quanto tempo eu dormi?
—Algumas horas. Aqui, você precisa se hidratar. – Octavia ofereceu o cantil com água para a terrestre, que bebeu rápido.
—Cadê eles? – Kara Leigh perguntou, olhando ao redor. – Eles estavam atrás de mim, onde eles estão?
—“Eles” quem? O que aconteceu com você? – Octavia perguntou, franzindo a testa.
Tudo bem que Kara Leigh não era a terrestre mais corajosa do mundo, mas o estado em que aquela garota se encontrava assustou Octavia. Ela nunca a havia visto tão apavorada.
—Os Homens da Montanha. Se não estão aqui, devem ter ido atrás de Clarke e Anya. Elas podem estar em perigo. – Kara Leigh respondeu. A menção do nome de Clarke pareceu ter lembrado Bellamy de seu objetivo, fazendo-o se levantar e sentar perto da terrestre.
—Sabe onde a Clarke está? – Bellamy perguntou, calmamente.
—Sei. Ou sabia, pelo menos. – Kara Leigh respondeu, suspirando. Aquela seria uma história longa. – Eu fui prisioneira da Montanha por quase quatro dias. Durante esse tempo, o que eles faziam comigo e com outros do meu povo... é cruel demais para explicar.
Ela mostrou as várias picadas de agulha pelo corpo. Algumas até estavam roxas, de tantas vezes que foram abertas e fechadas.
—Eu teria morrido se Clarke não tivesse aparecido e me libertado. Bom, ela também libertou minha líder Anya, e nós três fugimos pelos túneis dos Ceifadores. A última vez que eu vi a Clarke foi na margem do rio, depois que pulamos da cachoeira. – Kara Leigh continuou. Octavia arregalou os olhos ao ouvir que ela tinha pulado de uma cachoeira. – Eu me separei delas. Eu tinha que achar você e o meu irmão o mais rápido possível. Onde ele está, Octavia?
Octavia entristeceu o olhar à menção de Lincoln. Como ela iria contar para Kara Leigh que havia deixado o irmão dela ser morto? Nem ela própria havia superado.
—Levado pelos Ceifadores. Kara Leigh, eu sinto muito. Fiz de tudo para resgatá-lo, mas... ele havia sumido. – Octavia respondeu, com pesar. Os olhos da terrestre encararam o vazio, como se toda a esperança do mundo simplesmente se esvaziasse. Ela já perdeu a mãe, e agora perdeu o irmão. Só havia mais um para ela perder, que a mataria de vez.
—Cadê o John? – Kara Leigh perguntou, séria, engolindo o choro com todas as forças.
Octavia e Bellamy se entreolharam. Eles não tinham certeza se era uma boa ideia contar a ela onde Murphy estava naquele exato momento. Ela ainda não estava completamente boa, e contar agora poderia causar um ataque de pânico nela. O mesmo ataque de pânico que Bellamy estava tendo (e Finn também, em uma versão mais exagerada) por não encontrar Clarke.
—É melhor continuarmos. Precisamos chegar ao acampamento e tratar de vocês três o mais rápido possível. O, acorde a Monroe e a Mel. – Bellamy disse. Kara Leigh não parou de encará-lo um estante. – Ele está bem. Vai vê-lo de novo amanhã.
A terrestre não mudou a expressão ameaçadora. Era como se Bellamy e Octavia estivessem escondendo algo dela.
—Se não me levarem até ele, eu não te ajudo a achar a Clarke. – Ela respondeu, tão ameaçadora quanto o olhar.
—Nós vamos procurá-lo amanhã. Eu prometo. – Bellamy disse, encarando Kara Leigh com um olhar determinado. – Mas vocês três precisam de cuidados médicos agora. E precisamos chegar ao acampamento.
Bellamy pegou Kara Leigh no colo outra vez, apesar dos protestos dela dizendo que conseguia andar sozinha. Octavia serviu de apoio para Monroe e Mel.
—Ele ao menos perguntou se algum de vocês me viu por aí? – Kara Leigh perguntou, enquanto Bellamy a carregava.
—Você está brincando comigo. Ele perguntou tanto que eu quase dei uma surra nele para ele parar... só que eu lembrei que também me sinto assim por Clarke. – Bellamy respondeu. Kara Leigh deixou escapar uma risada irônica.
—Acho que é ele quem iria te dar uma surra se visse o que você está fazendo agora... – Kara Leigh disse, olhando para a mão que Bellamy segurava suas pernas. – Você está colocando a mão num lugar onde eu só deixo ele colocar.
Assim que ela disse isso, Bellamy percebeu que estava com a mão na parte inferior das coxas dela, quase na bunda. Rapidamente ele retirou a mão e a colocou atrás dos joelhos dela. Aquilo fez ele se sentir enjoado. Mesmo por acidente, ele apalpou uma menina mais nova que sua irmã, correndo o risco de apanhar do namorado dela e de sua própria namorada. Isso é, se algum dos dois algum dia soubesse daquilo.
—Eu não precisava ouvir isso... – Bellamy disse, em um tom enjoado. – Agora eu vou ficar imaginando... O, por favor, diga qualquer coisa para tirar essa imagem dos infernos da minha cabeça!
—Que imagem? – Octavia perguntou, ainda servindo de apoio para as duas meninas.
—Ele ficou nervoso imaginando o John e eu fazendo... – Kara Leigh foi interrompida.
—Ah, que horror! Nem eu quero imaginar isso! – Octavia respondeu, franzindo a testa. – Assim que colocarmos os pés no acampamento eu vou colocar um cinto de castidade em você! E quando encontrarmos o Murphy... ah, só posso dizer que ele está bem ferrado!
Ferrado ele já está... preso com o maluco do Finn na aldeia dessa garota. Bellamy pensou. Por sorte, não faltava muito para eles chegarem ao acampamento. Ficava a poucas horas dali e o dia já estava amanhecendo. Kara Leigh se recostou no peito de Bellamy e aproveitou para dormir mais um pouco. Ela só acordou novamente quando eles chegaram ao acampamento e Bellamy a colocou no chão.
*~*
Clarke viveu os dois piores dias de sua vida nas últimas 48 horas. Fugiu de Mount Weather numa fuga completamente arriscada, com duas terrestres, uma gentil e uma agressiva. E quando ela acordou na margem do rio, apenas uma das duas terrestres estava com ela. E não era a gentil. O trajeto até ali foi complicado, as duas tiveram várias desavenças, se cobriram de lama, se brigaram, e quando Clarke finalmente conseguiu convencer Anya de que se unir contra a montanha era a melhor opção... Anya foi morta.
É oficial, Clarke é a pessoa mais azarada do mundo. Pelo menos agora ela estava em casa, em segurança, sua mãe estava viva e com saúde, para ficar perfeito só faltava Bellamy aparecer. Bellamy. Ela nem teve muito tempo para pensar no que faria quando o encontrasse outra vez. Afinal, ela fechou a nave e o deixou do lado de fora para morrer durante a luta com os terrestres. E descobriu que ele estava vivo. Ela ficou feliz e com medo, ao mesmo tempo. Medo de ele rejeitá-la pelo que ela fez.
—Ei! – Raven a chamou quando ela saiu da tenda médica. – Estou esperando aqui fora a noite toda. Abby disse que você precisava dormir.
—Estou bem agora. – Clarke respondeu, reparando no suporte que Raven usava na perna. – Raven, eu...
—Isso é uma droga, mas estou lidando com isso. – Raven poupou Clarke o trabalho de terminar a frase.
Ao longe, uma voz disse para abrirem os portões. Clarke olhou e viu. Era ele. Ele havia voltado. E não estava sozinho. Clarke voltou a encher seu coração de esperança.
*~*
Abby veio receber Bellamy e as garotas. Kara Leigh estranhou aquele lugar completamente. Não era muito diferente da nave dos delinquentes, mas ali ela se sentia mais vulnerável ainda. Alguns a encaravam com um olhar feio.
—Conheço você, é da Estação Factory, certo? – Abby perguntou para Mel, que assentiu.
—Ela estava sozinha, os outros todos morreram. Mas tem vários suprimentos lá. – Bellamy disse.
—Levem-na para a tenda médica. – Abby ordenou e alguns guardas carregaram Mel até lá. Outros aproveitaram para carregar Monroe, que também estava ferida.
—O que uma terrestre está fazendo no acampamento?! – Uma mulher loira com uniforme de guarda perguntou, apontando uma arma para Kara Leigh.
—Ela está conosco, é nossa amiga. – Bellamy respondeu, colocando a garota atrás dele, de modo protetor.
—Esses monstros não são bem vindos aqui! – A guarda respondeu, mas antes que pudesse fazer alguma coisa, Octavia se pôs na frente dela, de modo ameaçador.
—Se encostar nessa garota você morre! – Octavia grunhiu, totalmente irritada.
—Major Byrne, abaixe essa arma agora! – Abby ordenou, e a guarda, relutante, obedeceu. – Guarda Stryder, leve a menina até a tenda médica, eu já estou indo para lá.
Outra guarda loira apareceu. Essa era mais nova, e tinha um aspecto mais amigável. Kara Leigh pensou que estava alucinando quando olhou para a tal guarda e a achou parecida com sua mãe. Mas devia ser coisa da cabeça dela, ela precisava descansar.
—Tudo bem, eu não vou machucar você. – A guarda disse, ajudando Kara Leigh a andar até a tenda médica. – Alguns guardas não sabem diferenciar um terrestre perigoso de uma garota apavorada. Você deve estar com mais medo de nós do que nós de você, não é?
Por que diabos aquela guarda estava sendo tão gentil com ela? Fora alguns delinquentes, os skaikru não gostavam de terrestres. Principalmente os membros da guarda. Kara Leigh sentiu uma estranha sensação de deja vu, como se já tivesse visto aquela moça antes. Mas era impossível, ela era skaikru.
—Me chamo Juliet. Juliet Stryder, e você? – A guarda se apresentou.
—Kara Leigh... – A terrestre respondeu, timidamente. Ainda estava estranhando aquela situação toda.
—Kara Leigh... seu nome me soa familiar... – Juliet disse, com uma voz aérea. – Mas enfim, você é a primeira terrestre que não tenta nos matar. Então, obrigada.
Kara Leigh foi acordada de seus pensamentos sobre como aquela situação estava estranha quando viu a figura de Clarke, sã e salva correndo a apenas alguns metros dela.
—Clarke! – Kara Leigh a chamou, mas não foi respondida.
Bem, pelo menos agora ela sabia que Clarke tinha conseguido fugir da montanha com sucesso. Mas onde estava Anya? Será que tinha voltado para a aldeia sozinha?
*~*
A emoção tomou conta de Clarke quando viu Bellamy entrando no acampamento. Raven disse para ela não perder mais tempo e correr até ele imediatamente. E foi isso o que ela fez. Correu, se jogou nos braços dele e beijou seus lábios de forma que ele iria sentir isso por uma semana. Bellamy, mesmo estando nervoso, assustado e confuso, correspondeu na mesma hora. Porém, os dois nem repararam que tinham plateia.
—Gente, vocês querem ir para um quarto? – Octavia perguntou, ironicamente. – Sério, isso é nojento.
—Dá um tempo. Faz quase cinco dias que estamos procurando por ela, eu preciso de um momento de paz. – Bellamy reclamou, voltando-se para Clarke, que ainda estava agarrada nele.
—Que bom que vocês estão bem, eu fiquei preocupada. – Clarke disse, ofegando pelo recente “esforço”.
—É, isso dá para notar... – Octavia ironizou outra vez. – Alguém mais veio com você?
—Não, eu vim sozinha. – Clarke respondeu. – Cadê o Finn?
Bellamy soltou um suspiro de reprovação. Ele não saberia como reagir com Finn naquele estado maluco obcecado com Clarke. Principalmente agora, que Clarke havia escolhido Bellamy. As coisas não iriam ser fáceis.
—Lá fora, procurando por você. – Bellamy respondeu, relutante. Clarke abaixou o olhar, com pesar. Nesta hora, a mãe dela apareceu outra vez.
—Clarke, a menina terrestre na tenda médica disse que quer falar com você. – Abby disse. – Ela disse que vocês fugiram juntas de Mount Weather.
—Kara Leigh está viva? E está aqui? – Clarke perguntou, surpresa.
—Ela passou por você, como pode não tê-la visto? – Abby perguntou.
—Deve ser porque a Clarke estava... distraída. – Octavia respondeu, olhando alternadamente para Clarke e Bellamy. – Vamos, eu vou junto. Não vou deixá-la sozinha numa hora dessas.
Clarke e Octavia seguiram juntas para a tenda médica. Kara Leigh estava deitada em uma das macas, sendo cuidada pelo aprendiz de Abby, Jackson. Ele parecia estar colocando curativos nas marcas de picadas de agulha pelo corpo dela.
—Vamos, Jackson. Elas querem falar a sós com a menina. – Abby o chamou e ele a seguiu, indo tratar das outras duas que estavam lá.
—Oi, Kara Leigh. – Clarke se aproximou e a abraçou delicadamente. – Fiquei preocupada quando acordei e não vi você na margem do rio, achei que tivesse sido morta na queda da cachoeira.
—Eu até pensei duas vezes antes de deixar você sozinha com a Anya, mas eu tinha que procurar algumas pessoas... – Kara Leigh respondeu, envergonhada por ter abandonado Clarke. – Falando em Anya, onde ela está? Ela voltou para a aldeia?
Clarke abaixou o olhar, escolhendo cuidadosamente a maneira mais agridoce de contar o que tinha acontecido com a líder do povo dela.
—Anya morreu. Ela foi baleada, antes de conseguirmos entrar aqui. – Clarke respondeu, com pesar. – Eu sinto muito...
Kara Leigh não sabia se se sentia aliviada ou abalada. Afinal, Anya podia ter abusado dela durante anos, mas depois da última conversa das duas, a relação delas havia mudado. Claro, Kara Leigh não pensou que fosse ser a última vez que veria Anya. Mas agora era tarde demais para tentar consertar alguma coisa.
—Agora não é hora de lamentar. Podemos estar cansadas e feridas, mas ainda tem alguém lá fora que precisa de ajuda. – Kara Leigh respondeu, se sentando na maca.
—É verdade, o Finn ainda está procurando por mim. Precisamos trazê-lo de volta. – Clarke concordou. – A parte difícil vai ser convencer a minha mãe a nos deixar sair de novo, mas acho que se explicarmos a situação ela irá entender.
—Finn? Não, eu estava falando do John... – Kara Leigh respondeu, franzindo a testa. – O Finn está lá fora também?
—Como é que é? O Finn está lá fora junto com o Murphy? – Clarke perguntou, preocupada. – Droga, por que ninguém me disse? Isso não vai prestar, precisamos ir atrás deles!
Kara Leigh ia se levantar e procurar algo para vestir, quando Octavia se aproximou e a segurou pelo braço.
—Espere. – Octavia disse, impedindo Kara Leigh de levantar. – Você é a mais ferida entre todos nós, não é uma boa ideia você vir junto.
—Octavia... eu estou sentindo cheiro de mentira. – Kara Leigh retrucou, franzindo a testa outra vez. – Você sabe que pelo John, eu poderia estar sem meus braços e pernas que eu iria atrás dele de qualquer jeito. Qual o real motivo de você não querer que eu vá junto? Onde esses dois se enfiaram?
—Ok, já vi que não adianta mentir. – Octavia respondeu, se rendendo. – Eles estão na sua aldeia.
Kara Leigh quase teve um ataque cardíaco quando ouviu isso. Finn e John estavam na aldeia dela armados? Com o exército fora, agora só tinha o resto dos aldeões lá. Ou seja, crianças e idosos. Pessoas inofensivas.
—Droga... agora eu entendi por que o Bellamy não quis me contar. – Kara Leigh respondeu, levantando e vasculhando o cantinho da tenda, procurando algo para vestir. – Temos que correr, aqueles dois vão fazer besteira!
John pode estar desesperado atrás de mim, e se ele machucar alguém? Eles não sabem de nada! Kara Leigh pensou. Ela estava implorando para si mesma que ele usasse o bom senso da percepção e não fizesse nada comprometedor. Mas ela também sabia que ele era meio cabeça quente...
—Vou falar com a minha mãe. Se eu não conseguir convencê-la... Octavia, procure o Bellamy e a Raven e explique o plano. – Clarke disse, saindo de perto delas para ir falar com Abby.
—Octavia, que plano é esse? – Kara Leigh perguntou, sussurrando. – A Clarke não parecia muito segura de que a mãe dela vai nos apoiar...
—Caso a Abby nos proíba de sair... o que é bem provável de acontecer, você, eu, Bellamy e Clarke vamos sair escondidos. Raven vai dar um jeito para que ninguém nos veja. – Octavia respondeu, também sussurrando. – Isso pode levar algumas horas, você devia dormir mais um pouco antes de irmos. Vou deixar os suprimentos prontos.
—Octavia, espere. – Kara Leigh pediu, segurando a mão da amiga. – Tente demorar o menos possível... eu não me sinto segura nesse lugar sozinha.
—Não se preocupe. Abby já proibiu todo mundo de machucar você. – Octavia respondeu. – E mesmo se alguém tentar... é melhor eles não tentarem se não quiserem descobrir se existe vida após a morte.
O período de tempo que se passou foi incerto, já que a impressão que Kara Leigh teve foi de ter piscado antes de Octavia voltar. Poderia ter se passado um minuto ou uma hora. Ela não sabia.
—Danou-se, eu sabia que isso ia acontecer. Abby não quis saber, ela pretende deixar os dois lá fora. – Octavia sussurrou, acordando Kara Leigh. – Mas não interessa, vamos assim mesmo. Temos que ir agora, Clarke, Bellamy e Raven já estão esperando.
As duas, na maior surdina do mundo, saíram da tenda e foram até o ponto de encontro. Octavia explicou para Kara Leigh que eles iriam ter que atravessar a cerca elétrica, já que passar pelo portão principal era impossível. Chegando lá, elas encontraram Clarke, Bellamy e Raven perto da cerca.
—Ok, só está faltando o Wick desligar a cerca. E a Pocahontas e a Xena aparecerem, é claro... – Raven disse, sem perceber que Octavia e Kara Leigh estavam atrás dela.
—Eu não vou nem perguntar quem é a Pocahontas e quem é a Xena, porque eu sei que isso vai acabar mal. – Octavia retrucou, com as mãos na cintura. – Vocês estão prontos?
—Estamos, mas... o que a Kara Leigh está fazendo aqui? Achei que ela estivesse machucada demais para esse tipo de missão. – Clarke disse, olhando para a terrestre.
—Primeiro, é a minha aldeia para onde vocês estão indo. Eu sei o caminho. – Kara Leigh respondeu, com uma voz autoritária. Era difícil vê-la falando assim. Todo mundo era acostumado com o jeito quieto e delicado dela. Clarke até estava com os olhos arregalados. – Segundo, é o meu namorado que está lá fora. Acho que eu não preciso explicar mais, não é?
—O que deu nela? – Clarke perguntou para Bellamy, sussurrando.
—Ela está assim desde a madrugada. É melhor ficar de olho. – Bellamy respondeu, também sussurrando.
—Wick, desligue a cerca. – Raven disse, através de um walkie-talkie. Após alguns segundos, ela tocou a cerca com um pedaço de madeira. Estava desligada. – Andem, vão.
Octavia e Kara Leigh passaram primeiro, sendo seguidas por Clarke e Bellamy. Enquanto eles começavam a andar, Kara Leigh reparou que todos estavam armados, menos ela. Bem, Octavia estava com uma espada, mas ainda estava armada. Ela reparou que a terrestre estava encarando sua espada e retirou uma adaga do cinto.
—Tome isso. Eu sei que você não gosta muito de armas, mas é melhor ter uma em caso de emergência. – Octavia disse, entregando a adaga para ela.
—Obrigada. – Kara Leigh respondeu, pegando a adaga. – Eu perdi minha espada...
—Você tem uma espada? – Octavia perguntou, olhando para ela e franzindo a testa. – Desde quando?
—Eu não te contei como eu fui parar dentro da montanha? O que eu estava fazendo durante o anel de fogo? – Kara Leigh perguntou e Octavia negou. – A história é bem longa, mas a caminhada também é.
Então Kara Leigh contou tudo. Sobre como Anya capturou ela e Murphy após os dois fugirem da nave e a forçou a lutar com o exército dos terrestres. Ela até disse que chegou a ver Octavia e Lincoln no meio da batalha, por uns dois segundos, mas achou que fosse coisa da sua cabeça. Daí veio o anel de fogo, ela foi capturada pela montanha, torturada por quase quatro dias até que fugiu com Clarke e Anya. Mas essa parte Octavia já sabia.
—Foi onde eu percebi que eu precisava me defender e proteger as pessoas que eu amo. Mesmo se o jeito for com violência... – Kara Leigh concluiu. – Mas e você? Eu acho que te vi com meu irmão um pouco antes do anel de fogo. O que houve depois?
Octavia começou a contar sua história. Durante a batalha na nave, uma flecha envenenada atingiu sua perna, e Bellamy a entregou nas mãos de Lincoln, para que a tirasse dali e a protegesse. Como Octavia estava prestes a morrer, Lincoln teve que buscar o antídoto do veneno na aldeia. Lá, ele foi capturado e Octavia teve que ir atrás dele. Quando ela finalmente achou que iria conseguir resgatá-lo, vieram os Ceifadores e o levaram. Depois disso, Octavia passou um tempo com Indra e outros terrestres, lutando em pequenas batalhas, o que explicou seu novo penteado. Até que ela reencontrou Bellamy perto de um penhasco e Kara Leigh apareceu rolando morro abaixo poucos minutos depois.
—Se eu soubesse que você iria aparecer... e que sabia do paradeiro da Clarke, eu teria impedido aqueles dois de irem para a aldeia. – Octavia terminou. – E pensar que não fazia nem cinco minutos que eles haviam saído...
—É normal, eu sou azarada mesmo... – Kara Leigh ironizou. – Precisamos ir mais rápido.
*~*
Murphy já havia perdido a conta de quanto tempo estava na aldeia. Um dia? Dois dias? Nem ele sabia mais. Mas ele não sentia fome nem sono. Só a extrema necessidade de sair dali. Principalmente porque Finn já estava ficando fora de controle. Ele achou roupas do céu na aldeia e estava convencido que o resto deles estava ali. Eles estavam fazendo os aldeões de reféns desde que chegaram ali. Aqueles terrestres estavam assustados. Aqueles olhares nos rostos deles... faziam-no lembrar dela. Ele sentia como se estivesse apontando a arma para ela.
—Finn, só porque as roupas deles estavam aqui não significa nada! – Murphy disse, numa última tentativa de acalmar Finn. – Isso já está ficando ridículo, vamos embora!
—Aquele cara disse que nossos amigos estavam aqui! – Finn respondeu, parecendo estar confuso e irritado ao mesmo tempo. – Por que ele faria isso?!
—O cara com um olho? Talvez porque você estava apontando uma arma para a cabeça dele! – Murphy respondeu, começando a se irritar com aquela situação.
—Um homem com um olho! – Um dos terrestres começou a falar. – Você viu o Delano. Um trapaceiro, um ladrão. Ele e os capangas dele foram expulsos. Vocês são a vingança dele.
—Finn, isso faz sentido. Nós temos que ir embora agora! – Murphy disse, tentando puxar Finn para longe.
Um dos terrestres tentou fugir, pulando a cerca, e Finn atirou nele sem dó nem piedade. Agora era oficial, Finn havia enlouquecido.
—Ele só estava tentando escapar! – O mesmo terrestre exclamou.
Mais terrestres criaram coragem para tentar fugir. E o que aconteceu em seguida foi horrível. Finn, completamente louco, começou a atirar em todos que tentavam fugir. A expressão no olhar dele era de dar medo. Murphy o puxava, tentava abaixar a arma, dizia para eles irem embora, mas tudo era inútil.
—Finn! Chega, pare com isso! Vamos sair daqui! – Murphy gritava, tentando inutilmente tirar a arma da mão de Finn.
Aquilo era um pesadelo. Todos os gritos, todos os baleados. Para Murphy, era como se ele estivesse assistindo Kara Leigh ser baleada vinte vezes seguidas. Era insuportável. A única coisa que fez Finn parar foi o ensurdecedor grito feminino vindo da floresta. Pessoas começaram a sair de trás das árvores. Clarke, Bellamy, Octavia e... Kara Leigh. Ela estava viva afinal.
Contudo, ela não pareceu ter notado que ele estava ali, apenas a alguns metros dela. A expressão horrorizada no rosto dela sobre os corpos dos terrestres mortos a entregava como a dona do grito que fez Finn parar. Ela parecia prestes a vomitar, de tão horrorizada que estava. Octavia correu até os feridos e tentou fazer algo, mas era tarde. Clarke e Bellamy se aproximaram logo depois, os dois extremamente perplexos.
—Eu te achei... – Finn disse, se aproximando de Clarke. Bellamy colocou um braço ao redor dela, de forma protetora.
—O que você fez? Seu monstro! – Uma furiosa Kara Leigh, derramando lágrimas de ódio, partiu para cima de Finn. Ela deu um tapa tão forte no rosto dele que com certeza iria ficar marcado. – Eles eram inocentes!
Ela continuou a surrar Finn com uma fúria enorme. Murphy tinha que fazer alguma coisa, ela nem tinha percebido que ele estava ali. Deus o livre se ela ficasse louca igual Finn. Sem perder muito tempo, ele correu, a afastou de Finn e a segurou firme, forçando-a a olhar para ele.
—Pare! Só... pare. Sou eu... eu estou aqui. – Murphy disse, segurando o rosto dela, fazendo-a se acalmar. Logo, ela foi percebendo o que estava acontecendo.
—John... é você? É você mesmo? – Kara Leigh perguntou, se jogando nos braços dele, logo em seguida. – Achei que eu tinha te perdido.
Ele a apertou contra si com todas as forças do mundo, com medo que aquilo fosse um sonho e que ela desaparecesse outra vez. Por um minuto, ele esqueceu de todos que estavam ao seu redor. Vivos ou mortos. Esqueceu tudo o que havia acontecido. Naquele minuto, apenas ela importava. Ele a beijou, antes que a realidade do momento viesse a sua mente. Quando ele foi obrigado a soltá-la, também foi obrigado a encarar todo aquele pesadelo outra vez. Os próximos dias não seriam fáceis.
Continua
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