The Reality That I Did Want To See

2 Primeiro dia de uma longa história


Notas iniciais
Espero que gosteeeem!

Lembro-me do dia em que nos conhecemos, eu estava sofrendo por um garoto do ensino médio, um garoto que havia acabado de assumir um relacionamento sério, e não era comigo. Randall o nome dele. Em minha defesa ele era o primeiro menino que me atraía a esse ponto. Triste, eu sei. E por isso, lá estava eu, sentada em posição fetal no banheiro feminino, chorando o suficiente para ficar vermelha. Bom, eu não me orgulho muito disso. Mas sei bem que não sou a primeira a chorar por um menino, então passa dessa vez.

Para minha infelicidade, a depressão realmente é tão ruim quanto dizem. A questão naquele momento não era só o menino e seu relacionamento, a questão era que eu sabia que alguém como Randall jamais olharia para alguém como eu, aliás, duvido que alguém tão sem atrativos como eu pudesse cativar outra pessoa, e mesmo assim alimentei a esperança de poder conquistá-lo. Quer tentar adivinhar quem se decepcionou no final? Acertou, eu mesma, mas superei rápido.

Eu tava no chão quando o intruso apareceu, em todos os sentidos.

Me lembro até hoje de seu costumeiro assovio, bela melodia, admito. E foi o suficiente para eu saber que tinha alguém mais ali. Mais um assovio, e agora eu já sabia que quem quer estivesse no banheiro feminino comigo queria chamar minha atenção. Ignorei-o, é claro, discretamente eu tentava limpar as lágrimas usando da cobertura que meus cabelos me davam. Sinceramente, o que eu menos queria é que me vissem chorando, seria apenas mais um motivo para comentarem, tudo era motivo para comentarem naquela escola. Principalmente a dor alheia. Infelizmente, no momento de desespero eu não pensei no mais inteligente, me trancar numa cabine, eu simplesmente sentei em qualquer canto e lá fiquei.

— Ei, você tá bem? Você não parece muito bem. — Oh! Era um garoto, aquilo sim me surpreendeu. Diferente de sua pergunta.

— Pelo que vejo você tem um dom natural para dizer o óbvio. Incrível. — levantei a cabeça para olhá-lo. — Sabe que está no banheiro feminino, não sabe?

— Ah, sim! — ele olhou para a porta desinteressado, mas logo seu olhar voltou a mim. Castanho. Era bonito, o tipo de tom castanho meio avermelhado que seria muito difícil pintar. Não que eu quisesse, ou pudesse pintá-lo. Suas íris castanhas tinham um brilho diferente, eram gentis e carinhosas, completamente diferente do que eu estava acostumada — O que aconteceu com você?

— Nada que eu lhe diria.

— Ei, eu só quero ajudar, tá legal? Não precisa ficar na defensiva comigo. — Ele sorriu, um sorriso bonito e sincero. Seus dentes alinhadinhos e brancos contrastavam com a pele morena. Covinhas apareciam nos cantos de sua boca. Completamente fofo, eu sei.

— Encantador! Mas prefiro não falar sobre meus problemas com um estranho.

— Tudo bem, nesse caso só me resta o silêncio. — o garoto se sentou ao meu lado, as mãos descansavam nos joelhos erguidos, cobertos pelo jeans. Seu olhar parecia perdido. Me questionava o que se passava na cabeça dele. Então ele olhou para mim novamente, e um sorrisinho surgiu em seus lábios. Tentador. Agora de perto eu podia ver as sardas que se espalhavam por suas bochechas, elas não eram muito visíveis de longe, provavelmente por sua pele mais escura. Aliás, gostaria de deixar claro que eu não o estava encarando, só observando discretamente.

— O que você está fazendo aqui, afinal? — olhei-o pelo canto dos olhos, pelo menos o que meus cabelos me permitiam.

— Uma amizade, oras, pensei que fosse óbvio. — agora ele já olhava para frente outra vez. Um sorriso sarcástico brotou em meu rosto.

— Olha, não que eu esteja me desfazendo de você, ou coisa do tipo, mas não gosto muito de amizades. Pensei que o fato de eu estar sentada sozinha no chão do banheiro deixasse isso perceptível.

— Na verdade, você não está sozinha, eu tô aqui, sentado bem do seu lado. Acho que isso pode significar algo. — ele sorriu para mim. Okay, talvez dessa vez eu estivesse o encarando, mas é só uma possibilidade.

— Bem, isso significa que você é tão estranho quanto eu, ou até mais, não que eu ache isso possível. — em seus olhos agora havia um brilho de diversão.

— É, talvez você esteja certa, não completamente, mas é aceitável. — e foi nessa hora que me dei conta que sequer sabia quem ele era, e estava ali, conversando com o mesmo.

— Então, quem é você? Digo, seu nome e história de vida, eu adoraria saber como chegou aqui. — o sorriso dele aumentou, mas antes que dissesse sua primeira palavra em resposta à minha pergunta a porta se abriu e alguém entrou. Legal, fomos pegos. Provavelmente, em pouco tempo correrão boatos de que estávamos nos pegando no banheiro, é assim que funciona na escola. Voltei meu olhar para o lado, onde ele estava antes. Quer adivinhar o que aconteceu? Pois eu lhe digo. Nada. Nada aconteceu, porque o garoto simplesmente não estava ali. Ou seja, eu era apenas uma pobre menina sentada no chão, nada tão incomum. Dei uma discreta olhada em volta, o menino realmente havia sumido. Só havia eu e mais uma menina se olhando no espelho.

[...]

Admito que tempos depois fui para casa pensando no acontecimento do dia. Não me julgue, ninguém em sã consciência simplesmente deixaria isso pra lá.

Quando cheguei em casa minha mãe estava jogada no sofá assistindo uma séria na Netflix. Sabe, eu gostava da minha mãe, nós não tínhamos muita intimidade, do tipo mãe e filha de filmes, que conversam sobre o dia e tudo o mais, porém ainda assim, era bom tê-la.

— Cheguei. — sentei no outro sofá, tirando os tênis e colocando a mochila no chão.

— Oi, filha. Acredita que o Ragnar foi capaz de trair a Lagertha na cara de pau?

— Vikings? É, ele engravida a moça, aliás.

— Alexis! Puxa vida, eu não queria saber disso. — ela me jogou uma almofada, ou pelo menos tentou. Cara, ela errou feio, minha mãe é definitivamente muito ruim de mira.

— Acontece. — me joguei no encosto do sofá, cansada. Quer saber o que uma garota como eu faz ao chegar em casa? Bom, nada muito incomum, eu escrevo, desenho, leio e faço o que mais gosto, toco. Violino, mais especificamente. Eu aprendi com meu pai, quando ele ainda era vivo, achava que tinha herdado o talento dele, mas a verdade é que nunca serei capaz de tocar tão bem. Meu pai era incrível. Já eu... era boa. Sempre me vi como um pato, entende? Ele nada, anda, voa e é bom em tudo isso, mas não tem algo em que seja excelente. — Vou subir.

— Tudo bem. Ah, hoje a janta é pizza. À noite eu peço.

Segurei a alça da minha mochila e fui para a escada. Meu quarto ficava lá em cima, assim como o de minha mãe. Nós tínhamos uma mini biblioteca em casa, toda a família era apaixonada por leitura , e como meus pais tinham um bom emprego, a biblioteca não foi um projeto tão difícil assim de se realizar. Apesar de tudo, o cômodo que eu mais gostava na casa era o meu quarto, e por um motivo bem simples: portas, portas que eu podia simplesmente trancar e fingir que o mundo lá fora não existia. Isso, para mim, era o máximo. Fora que minha cama super confortável ajudava nessa decisão.

Me joguei no colchão pouco depois de pendurar minha mochila num dos ganchos perto da porta. O teto do meu quarto tinha estrelas, sim, estrelas. Bom, luzinhas parecidas com estrelas, que eu e meu pai levamos quase três dias para colocar no lugar. Eu adorava observá-las, fora a parte que isso permitia que minha mente ficasse vazia o suficiente para me trazer outros pensamentos.

Às vezes eu me sentia culpada pelo fato de estar tão constantemente mal. Quer dizer, eu sei que existem pessoas com dificuldades reais, pessoas que têm motivo para sofrer. Eu não me via como uma dessas pessoas, o que me faz pensar que o que sinto só me torna ingrata pela vida que tenho. E ainda assim, eu me sinto mal, por ser ingrata e por estar triste sem ter o direito. A vida é realmente complicada.

Mas pense comigo, como estar feliz quando sua vida se baseia em acordar, ir para a escola, aturar sozinha um dia quase inteiro em meio a gente detestável, voltar para casa, pensar na vida, tocar, ler, jantar e dormir? E então... tudo começa outra vez, tudo isso durante sete dias por semana, quatro semanas por mês. Aliás, sim, eu tomo banho, só não achei uma informação necessária. Enfim, minha vida completamente monótona é extremamente sufocante. Todos os dias eu desejo um pinguinho de emoção, algo que me faça sorrir de verdade, algo que me faça querer mais e mais, e todo dia eu me decepciono ao perceber que esse "algo" não veio e não virá tão cedo. Acho que me vi no fundo do poço a partir do momento em que tentei pensar no futuro e tudo o que eu via era mais e mais infelicidade.

Respirei fundo antes de levantar da cama. Próximo passo do dia: um belo banho quente para relaxar, não que funcionasse tão bem, mas era bom mesmo assim.

(...)

Os acordes do violino soavam lentos e melancólicos. Era sempre a mesma música, há dois anos era sempre a mesma música. Meu pai havia composto, com a minha ajuda, para mim e mamãe. Era a música da família, mas nunca havíamos terminado. E por algum motivo, eu não tinha ideia de como dar fim à nossa música. De vez em quando me vinham uns acordes à mente, mas nunca pareciam bons o suficiente para se juntar à nossa melodia. Bom, quem sabe um dia eu a termine.

E foi sentada na minha cama, com o violino no colo e o arco na mão que voltei a pensar no acontecimento no banheiro feminino. Me diga, o pensaria ao perceber que o cara com quem conversava desaparecera, de um lugar fechado, do nada? Minha primeira sugestão era um fantasma. Mas bem, admito que se fosse para ver um fantasma, sei lá, mas acho que eu ia preferir o do meu pai. Depois parei para pensar que poderia ser efeito dos novos antidepressivos que estava tomando. A doutora Halt tinha receitado novos já que a receita antiga não fazia tanto efeito em mim. Estávamos tentando algo novo.

20:57. Eu não tinha certeza, mas alguma coisa me dizia que minha mãe havia dormido no sofá e esquecera de pedir a pizza. Desci para me certificar, e bom, eu estava certa. Desliguei a televisão e ajeitei a coberta dela. Não era sempre que minha mãe tinha o luxo de dormir bem, então eu evitava acordá-la quando a mesma pegava no sono.

Minha vez de dormir. Ou tentar. Subi as escadas devagar e fui para meu quarto. Guardei meu violino e as partituras, ajeitando minha cama. E então me deitei para observar, mais uma vez, minhas estrelas particulares.

Foi naquele dia que meu pedacinho de felicidade passou a existir para mim. Num banheiro feminino.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.