Valéria dirigia devagar para casa,ela mantinha os olhos na pista e uma das mãos no volante,o outro braço estava apoiado na janela,uma brisa quente soprava naquele fim de tarde e ela agradecia por ter vencido mais um dia de trabalho sem nenhum stress,seu celular tocou e ela esticou a mão para pegá-lo,o identificador de chamadas mostrava o número de Letícia:

-Oi,Lê,eu estava mesmo pensando em te ligar.

-Valéria. – A voz de Letícia demonstrava sua tensão. – Precisamos conversar,imediatamente.

Valéria freou bruscamente e o carro atrás dela buzinou,ela acenou um pedido de desculpas e parou o carro no acostamento,respirou fundo antes de levar o celular à orelha novamente:

-O que foi?Alguma coisa com as crianças?

-Sim.São os dons deles,Valéria,eu acho que estão começando a se desenvolver.

Valéria ficou em silencio por alguns segundos,apenas absorvendo a informação que a amiga acabara de lhe dar,sabia o que aquilo significava:

-Lucas me contaria.

-Ele não faz idéia do que está acontecendo,Valéria.Eles são adolescentes,uma mudança em seus corpos não é motivo pra correr pra mamãe.

-Tudo bem,você está certa.O que sugere?

-Precisamos nos encontrar no meu escritório. Letícia fez uma pausa antes de dar a informação seguinte. — E você precisa ligar para a sua sogra.

Valéria sentiu o sangue arder nas veias,pensou em gritar e xingar Letícia,mas sabia que a amiga estava certa:

-Tudo bem,eu vou ligar para ela e nos encontramos em meia hora,tudo bem?

-Ótimo,estarei te esperando.

Valéria assentiu e desligou o celular,depois ligou o carro e acelerou para longe dali,enquanto discava os números de Neide,sua sogra,o coração ainda batia forte contra o peito,ela temia que a qualquer momento ele sairia por sua garganta,tamanha era sua agonia.

Valéria chegou ao escritório de Letícia cerca de vinte minutos após desligar o celular,passou pela secretária,que já sabia que ela viria,portanto,apenas sinalizou com a mão que ela deveria entrar:

-Onde está ela? – Perguntou Letícia quando a amiga entrou.

-Está vindo. – Respondeu Valéria.

Ela se sentou numa das cadeiras que havia diante da mesa de Letícia e cruzou as pernas,as duas permaneceram em silêncio,alguns segundos depois a porta voltou a se abrir e Valéria se virou para trás,a mulher tirou os óculos escuros e jogou os cabelos avermelhados para trás antes de passar os olhos por elas:

-O que é tão importante a ponto de me fazer perder um fim de tarde maravilhoso como este? – Perguntou Neide,sentando-se ao lado de Valéria.

-Me desculpe,Neide,nós não te incomodaríamos se não fosse importante...

-Imaginei que não descumpririam nosso trato de jamais nos falarmos novamente por uma bobagem qualquer. — Falou Neide interrompendo Letícia.

A mulher assentiu e baixou os olhos,Neide soltou um murmúrio de impaciência e revirou os olhos:

-E então? – Perguntou ela.

-Os dons dos nossos filhos estão se desenvolvendo. – Falou Valéria.

Neide virou-se para ela,só agora parecia ter notado a presença da nora ali,suas sobrancelhas formaram uma linha única no meio da testa e ela balançou a cabeça,parecia confusa com o que acabara de ouvir:

-E o que lhes faz ter tanta certeza? – Perguntou ela,a expressão voltando a ficar neutra.

-Você conhece o meu dom,naturalmente,quando abracei Hiago esta manhã tive algumas visões desfocadas onde ele descobria seu dom e depois avistei um enorme deserto,uma batalha parecia estar acontecendo. – Respondeu Letícia.

Neide encarou a mulher por alguns instantes,a boca se contraiu e seus olhos se desfocaram,ela parecia pensativa:

-Precisamos separá-los. – Falou Neide alguns minutos depois. – As crianças dos Okada e dos Scheffer provavelmente também começarão a desenvolver seus poderes logo,não podemos nos arriscar.

-Estaríamos nos arriscando se os separássemos assim tão bruscamente,eles desconfiariam de algo,Neide.

-Não acho que preciso te lembrar do que aconteceu da última vez que um grupo de mutantes jovens resolveu se juntar para ‘lutar por seus direitos’,não é Valéria?

A mulher não respondeu à provocação da sogra,apenas desviou os olhos dos dela e voltou a se concentrar em Letícia,lançando um pedido de ajuda silencioso:

-Valéria tem razão,Neide. – Falou ela,Valéria agradeceu pela amiga ter entendido sua mensagem. – Não podemos simplesmente separá-los.

-Eles sofrerão as conseqüências,vocês parecem ter se esquecido do que ocorreu no passado,mas eu não,perdi muitas pessoas que amava por imprudência,pensem bem no que vão fazer com o destino dos seus filhos.

Neide se levantou e foi até a porta,lançou um último olhar de desprezo à Valéria e Letícia,antes de batê-la com força

-O que nós vamos fazer,Val? – Perguntou Letícia,seu rosto ainda preso à porta por onde Neide acabara de sair.

-Eu não sei,por um lado ela tem razão,apesar de odiar concordar com ela,desta vez a bruxa velha venceu,precisamos ter cuidado,avisar Angel e Carolina,Nágela e Naraiana provavelmente também estão desenvolvendo seus dons agora.Precisamos mantê-los o mais próximo possível e agir a qualquer movimento estranho.

-Quando você diz agir...

-Quero dizer separá-los de vez,estas crianças não podem estar juntas quando seus dons aparecerem por completo,nós sabemos os perigos que isto pode trazer.

Letícia assentiu e apoiou o queixo nas mãos,olhou o porta-retrato onde uma foto de Hiago,Lucas,Naraiana e Nágela com nove anos de idade estava exposta,um sorriso se formou automaticamente em seus lábios,ela sentiu saudade do tempo em que tudo não era tão complicado:

-Sabe,um dia eles irão entender que só queremos o bem deles. – Murmurou ela.

-Eu espero que sim.

Valéria ficou ali por mais alguns minutos,depois se despediu da amiga e deixou o escritório,Letícia continuou encarando a foto das quatro crianças,as imagens difusas da imagem no deserto não saíam de sua cabeça,ela temia que alguma das figuras que batalhavam poderia ser uma das quatro crianças.

-Vocês vão ficar bem. – Sussurrou Letícia para si mesma. – Nós não vamos deixar nada de ruim atingi-los.Vocês não vão cometer os mesmos erros que seus pais.