The Real Gods
1 Capítulo 1 - Seus erros deixam cicatrizes
Notas iniciais
Lenith levantou cedo no primeiro dia de inverno, ao contrário do que fazia todos os anos. Amarrou o roupão em volta da cintura, puxou as cortinas do quarto com vigor e abriu a janela para o ar gélido entrar. O vento uivou pedindo passagem e Lenith fechou os olhos para recebê-lo de braços abertos. A paisagem do lado de fora mostrava montanhas rochosas com o topo encoberto pela neve e, olhando para baixo, via-se os portões do Castelo de Daesirias.
Uma luz azul gradualmente surgiu na muralha que separava o castelo das montanhas. Lenith se abaixou e pegou uma vela negra embaixo da sua cama. Acendeu-a com uma tocha tímida que iluminava seu quarto e uma chama esverdeada, vindo da vela, tomou conta do aposento, fazendo a tocha se extinguir. Lenith protegeu seus olhos à medida que o fogo verde foi ganhando mais tamanho e intensidade. Ela colocou a vela sobre o apoio da janela, recuando enquanto observava o brilho impetuoso da chama.
Enfiou-se embaixo da cama, percebeu que o vento frio havia perdido espaço para o calor que queimava a sua pele como o sol. O assoalho de madeira estava iluminado, revelando vários outros objetos que Lenith escondia vez ou outra sobre ele. Frascos de porcelana roxa com um lacre amarelo acumulavam-se aonde deveriam estar os travesseiros na parte de cima da cama. Ela pegou um destes frascos e abriu, mascou o conteúdo adocicado o mais rápido que podia.
“Por que nada acontece?” vinte minutos haviam se passado desde o surgimento da luz azul, ela ainda mastigava a substância doce, e estava apreensiva. Com um suspiro que por pouco não a fez engolir o doce, ela fechou os olhos e parou tudo o que fazia.
Uma sombra surgiu na janela em formato de asas angelicais, estava se aproximando do fogo verde. A criatura estava de costas para o quarto e suas mãos em forma de garras humanóides pairavam sobre a vela. Sua altura era a de um homem adulto e as asas eram penas alvas de andorinha. Não era possível ver seu rosto, pois estava de costas.
- Por que não está mastigando, Lenith? – era uma voz masculina e suave.
A garota abriu os olhos com expressão alarmada e arrastou-se para ver a criatura empoleirada na sua janela. Mastigou com rapidez e vontade, sem nada responder. “Deu certo!”, era tudo que conseguia pensar. “Depois de tantos anos tentando...finalmente o experimento foi concluído com sucesso e parece resistir mais tempo que os anteriores. Preciso tomar nota o mais rápido possível.”, ela sorria, ansiosa para ver o rosto da criatura, embora não saísse debaixo da sua cama.
- Realmente, depois de tanta dedicação, você poderia ao menos se aproximar e me cumprimentar de maneira adequada.
Lenith obedeceu e caminhou na direção do seu experimento, possivelmente, aquele era o momento mais importante da sua vida.
- Desculpe se fui rude por não agradecer a grande oportunidade que você está me dando...- a criatura falava em tom de deboche e estava evidentemente ofendido. Ainda aquecia suas mãos com o calor. Lenith parou e suspirou, tensa para ver o seu rosto. – Será que vou estar bom o suficiente para você?
As mãos da garota encostaram-se nas asas e ela tentou puxá-lo para frente. O humanóide puxou seu ombro para trás e desvencilhou do toque com violência, fazendo-a cair sentada.
- Posso ser sua cobaia preferida, mas isso não significa que devo fazer tudo o que você quer.
- Por que fala com tanto rancor na voz? Talvez ainda não tenha percebido o bem que fizemos a você, tenho certeza que a sua vida era bem menos interessante do que a que leva agora. Você renasceu, 14567.
-14567? Esse é o meu número como cobaia?
- Talvez sim, talvez, não. Você tem uma nova vida agora e a partir deste inverno vai poder escolher o nome que quiser para si.
-Tentador...
Lenith andou em passos mudos e encostou-se nas penas de 14567. Suas mãos tatearam a pele dele até encontrar a face. Ela estava recoberta por filetes de sangue coagulado e cicatrizes irregulares, porém o mais inesperado era a frieza incomum que emanava do seu corpo. A garota sentiu seus dedos serem tocados por lágrimas, mas não compreendeu o significado daquilo tudo, comprimiu-se entre as asas brancas e falou em tom brando, como quem fala com um animal enfurecido:
-Eu vou cuidar das suas cicatrizes. Eu prometo.
A face do humanóide enrijeceu e deformou-se de fúria. Com um impulso do corpo, ele lançou seu rosto em direção a chama da vela e puxou as mãos de Lenith consigo. O fogo ardeu nas mãos alvas da garota e um grito agudo de dor explodiu na garganta. As mãos latejaram com rapidez e segundos depois estavam sensíveis a qualquer movimento.
-Por que fez isso?!
-Você fez muito pior comigo!
A criatura revelou seu rosto marcado para ela, sua pele não havia se queimado como as mãos da garota, estava gélida ainda e acinzentada, semelhante a um cadáver. Guardavam vestígios de um rosto belo e jovem, com olhos amendoados e ângulos masculinos. As mãos em forma de garra continham o sangue coagulado do rosto e as pernas e os pés estavam recurvados, como as patas traseiras de um bode.
-Hadrian...? – ela falou com o único vestígio de voz que restava.
- O que eu fiz para merecer isto, Lenith? – Hadrian estendeu os braços, desconsolado. – O que eu te fiz?!
-Deve haver um erro, Hadrian...um erro...-Lenith já não sentia suas mãos, o ar lhe faltava. – Você não era a experiência 14567. Não era.
- Eu não sei mais quem eu era! Talvez você possa me explicar! – ele apontou uma de suas garras. Lenith caiu sentada no chão e ele veio em sua direção, tocando suas pernas e provocando pequenos cortes que a mantinham acordada. – Fale para mim o que eu me tornei!
- Lord Nouinn...bem, ele...me sinto tonta...- ela pendeu a cabeça sobre a cama.
Hadrian a abraçou em um impulso e suas garras rasgaram as vestes de Lenith para provocar outros pequenos cortes em sua pele, o humanóide percebeu que ela estava chorando mesmo quase desacordada.
-Lord Nouinn estava com um... novo experimento...você sabe que sou sua aluna favorita...não poderia deixar de lado...não é? Ele...ia fazer a coisa certa...
-Você nunca chegou a me contar isso.
-Você jamais aprovaria meu envolvimento com aquele nível de Energia.
-Lenith...eu sou seu namorado...poderia ter contado comigo.
-Mesmo? – ela fechou os olhos. – Suas garras doem...você age como...14567.
-Você provocou isto!
-Então...mate-me, 14567.
-Pare! Eu sou Hadrian! Eu nunca mataria você simplesmente porque eu te amo!
-Mate-me...eu mereço.
Lenith suspirou e em seguida desfaleceu. Passos marchando em fila subiam as escadas na direção dos quartos do Castelo de Daesirias. Hadrian recuou e, enfraquecido como estava, refletiu se não seria melhor se entregar. Mas preso ele não poderia reparar os danos que fez e os que fizeram a ele, a criatura ganhou os ares e irrompeu pela janela. Olhando para o quarto da sua namorada à medida que subia, ele decidiu que aquela não seria a última vez que iam se encontrar porque, afinal, não era bem assim que as coisas terminariam, ainda havia cicatrizes para cuidar.
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