Notas iniciais
Ei, estou de volta! Espero que gostem do bônus, por que ele ficou, tipo... De partir o coração. E mostra que a Willah é muito mais do que qualquer um de nós sonha.

Illíane – Anos antes...

Alec correu como nunca havia imaginado correr em toda sua vida. A adrenalina pulsando em seu corpo. A mente completamente carregada com a imagem de sua irmãzinha naquela fenda. O sangue escorrendo por sua testa. Era mais do que podia aguentar. A neve não foi um empecilho na corrida de volta ao castelo. Sentia que seus pés congelariam a qualquer momento, mas recusava-se a parar. Os guardas foram os primeiros a vê-lo, mas ele não parou para uma explicação. Apenas correu e correu, até estar de frente as enormes portas do escritório do pai.

Ofegante, exausto e acompanhado de uma pequena multidão de guardas, ele empurrou as portas e entrou no escritório, sentindo os músculos derreterem ao dar de cara com o pai do outro lado. O rei levantou-se, preocupado com o estado do filho, que acreditava que aquela hora da manhã ainda estaria dormindo.

— Alec! Por Deus! O que há com você?

— Pai! A Willah... Ela se feriu! A gente não conseguiu evitar! – O pequeno Alec disse, tragando lufadas de ar com intensidade. – Me perdoa.

— Respire primeiro e depois me diga, o que aconteceu com a sua irmã? – Caius aproximou-se, preocupado com o estado do filho.

— Nós fugimos, mas era só uma brincadeira! A Willah queria ir ver a neve. Então estávamos jogando bolas de neve uns nos outros, ela começou a pular e caiu em uma fenda.

— Onde?

— Na clareira aqui perto, na floresta...

— Eu quero uma equipe para resgatar minha filha agora mesmo! Estão me ouvindo? Agora!

O rei gritou em plenos pulmões para os guardas que estavam parados na porta e em seguida viu a esposa entrar no escritório, completamente preocupada. Ele voltou a olhar para o filho do meio, que ainda soluçava audivelmente e tinha os olhos cheios de lágrimas.

— Onde está William?

— Ele me mandou vir avisá-los e ficou com ela.

— O que está acontecendo, Caius? – Corine perguntou, preocupada.

— Um acidente com Willah. Aparentemente os três resolveram fugir para floresta e ela caiu em alguma espécie de fenda ou coisa assim. Estou indo seguir estes palermas para encontrar nossa filha. – O marido avisou, seguindo para fora do recinto.

A rainha aproximou-se do filho, segurando-o pelos ombros e o olhos ternamente.

— Não se preocupe, querido. Tudo vai ficar bem. Sua irmã vai...

— Não, mãe. – Alec soluçou. – O Will disse pra ela não ficar pulando sobre a neve, mas ela não o ouviu. Ela caiu. Nós deveríamos ter cuidado melhor da Willie.

— Seu pai vai trazê-la de volta, meu amor. Agora, é preciso de que se acalme. Tudo vai ficar bem.

~*~

Caius e vários guardas seguiam correndo pelas margens da floresta, em direção a clareira mais perto dali. Podiam ouvir de longe os apelos de Will que provavelmente clamava pela irmã. Em poucos minutos, eles chegaram ao local. O príncipe encontrava-se debruçado ao redor de uma imensa fenda na neve, onde lá embaixo, a princesa jazia desacordada e sangrando em algum ponto da cabeça.

— William! – O pai gritou, derrapando ao parar ao lado do filho e verificar o fundo da fenda. – Ela responde?

— Não. Eu estou gritando há vários minutos, mas ela não respondeu nenhuma vez. – Will respondeu, com a voz trêmula, porém controlada.

— Onde está o equipamento para resgate?

— Aqui, senhor! – Um dos guardas respondeu, trazendo um enorme rolo de corda atrelado com uma pequena placa de madeira que serviria para erguê-la. – Um de nós descerá até lá embaixo para posicionar da melhor forma a princesa, senhor.

— Não! – O príncipe interviu. – Pai, eles são muito pesados. Vão acabar fazendo com que a neve deslize sobre ela. Eu vou! Eu desço!

— Essa ideia é uma completa loucura, William!

— Pai, por favor! O senhor sabe que estou certo. Eles vão piorar a situação. Eu desço com a corda e a posiciono para subida.

— Filho...

— Preparem tudo! Eu vou descer!

Will gritou, enquanto levantava-se e ia em direção aos guardas, que acataram sua ordem, já que o rei parecia incapaz de impedi-lo. Em poucos minutos, ele estava sendo içado até o fundo, onde a irmã se encontrava desfalecida. A corda havia sido presa por uma estaca e dois dos guardas ficaram para garantir que estaria firme durante a descida e principalmente a subida. Os outros, cercaram a fenda, tomando cuidado para não deixar que a neve escorregasse e atingisse as duas crianças lá embaixo.

— Pronto! – Ele disse, ao chegar ao fundo e alcançar a irmã.

— Tome cuidado com a cabeça dela, William. – Caius disse, parecendo finalmente recuperar a voz.

— Certo. Eu vou tentar levantá-la agora.

O príncipe cuidadosamente abaixou-se e levantou lentamente a irmã nos braços. A marca do sangue estava em evidência na neve branquinha. Ele sentou-se com cautela sob a placa de madeira, que parecia mais ou menos com o assento de um balanço e colocou a irmã em seu colo. Traçou mais duas vezes a corda em suas costas, passou um dos braços sob a barriga dela e inclinou-se levemente, firmando os pés na parede de gelo. Foram longos e torturantes minutos, enquanto os guardas puxavam as cordas lá em cima e Will sustentava o corpo de Willah sob o seu, enquanto escalava até o topo da fenda. Assim que chegaram a superfície, a sensação de alívio correu por todos os presentes no local.

— Willah precisa de atendimento urgente e agora mesmo. – O pai disse, levantando-a em seus braços. – Andem seus palermas! Me ajudem a carregá-la de volta para o castelo!

Três guardas aproximaram-se e ajudaram o rei a carregá-la, enquanto Will corria atrás deles pelo caminho para fora da floresta. A caminhada levou cerca de dez minutos, até finalmente entrarem na propriedade do castelo. Aparentemente a notícia já havia corrido, por que o médico já os esperava no jardim, cercado de duas enfermeiras. Em meio a correria, tudo que o príncipe conseguiu ver foi o pai e o médico sumirem dentro da enfermaria do castelo, enquanto um par de braços carinhosos o envolveu, em frente a porta fechada do local.

— Se acalme, querido. Ela ficará bem. – A voz da mãe se fez presente.

— Nada pode acontecer a minha irmãzinha, mãe. Não pode.

— Você precisa ter um pouco de fé, querido. Sua irmã é uma guerreira e logo estará correndo, completamente bem, por todo este castelo.

William virou-se para mãe, fazendo uma careta para segurar as lágrimas.

— Eu não sei se posso chorar. Papai diz que nós temos que ser fortes diante de situações difíceis.

— Você tem todo direito de chorar, Will. É natural que esteja preocupado e não tem nada de errado com isso.

Ele assentiu, deixando as lágrimas rolarem sobre seu rosto preocupado. Corine o abraçou por alguns minutos e em seguida, afastou-se.

— Venha, você também está machucado. – Ela apontou para alguns ralados que ele tinha em seus braços, devido a subida na fenda. – Vamos cuidar desses ferimentos.

A tarde passou e a noite caiu sob Illíane. Ninguém havia ouvido nenhuma notícia de princesa ainda. Caius continuava trancado dentro da enfermaria com o médico e as enfermeiras e não se atrevera a sair. Will e Alec estavam com a mãe, no quarto do primogênito. Depois de limpar as feridas superficiais do filho mais velho, ela tentara distraí-los, mas parecia ser uma tarefa quase impossível.

— Amores, vocês precisam comer algo.

— Nós não temos fome, mãe. – Alec disse, fungando longamente.

— Mas os dois precisam comer e estarem fortes para irmã de vocês. Sei que ela odiaria encontrá-los fracos e doentes quando estiver melhor.

— Mãe...

A frase de Will ficou no ar, ao verem o pai parar em frente a porta do quarto. Ele tinha uma expressão cansada, como se tivesse envelhecido muitos anos em poucas horas. Os garotos levantaram-se correndo e foram até ele. Corine os seguiu de perto.

— Querido? Como ela está?

Ele inspirou lentamente, como se buscasse o ar em meio a uma asfixia. E então encarou a família, que aguardavam ansiosos por notícias.

— Já podem vê-la.

Foi tudo que ele disse. Alec e William saíram correndo assim que ouviram a autorização que tanta almejavam. Caius os seguiu, segurando firmemente a mão de sua esposa, que sabia que algo ruim havia passado. O caminho foi feito rapidamente e logo os quatro adentravam a enfermaria. Haviam vários leitos vazios e um cheiro forte de álcool. Em uma das últimas camas, estava a figura de Willah. Aproximando-se do lugar, viram que a garota usava dois tampões de algodão sobre os olhos, enquanto dormia.

— O que ela tem, pai? – Alec virou-se para encará-lo nos olhos, buscando respostas. – Por que ela está com os olhos tampados?

E voltaram a observá-la, respirando lentamente, em um sono profundo. Will aproximou-se e segurou-lhe a mão, tentando passar algum tipo de conforto que não sabia se era possível naquele momento. Corine soltou um soluço esganiçado, parecendo finalmente dar-se conta do que acontecia ali. O rei a envolveu em seus braços e permitiu que ela chorasse em seu ombro, totalmente desolada.

— Pai?

— O que há de errado com ela? – Will questionou, observando a reação da mãe. – Pai? Mãe?

— Willah... Ela está cega.

— Como?

— Na queda, alguns vasos muito delicados se romperam e não puderam ser reparados. Doutor Cliver fez o máximo que podia, mas a situação é permanente. Sua irmã nunca mais voltará a enxergar.

— Isso não é verdade! – Alec gritou, transtornado. – Ela vai enxergar, sim! A mamãe disse que tudo ia ficar bem!

— Essa é a verdade, Alec. Sua irmã teve uma lesão muito grave na córnea e não pode mais...

— Não!

Will sentia que o chão havia sido puxado por baixo de seus pés. Não prestava atenção nos protestos do irmão ou no choro descontrolado de sua mãe. Tudo que ele conseguia fazer naquele momento, era segurar de modo firme a mão de sua irmãzinha e pedir que as lágrimas que ele tentara evitar mais cedo, viessem agora. Por que ele sentia-se seco. Como se elas tivessem secado completamente de seu organismo. E ele precisava saber que ainda podia chorar. Que ainda podia externar todo aquele sofrimento.

Foi só na madrugada do terceiro dia após a notícia que Willah finalmente acordou. Os sedativos haviam deixado-lhe em um sono longo e profundo por dois dias inteiros. Ninguém sabia como ela iria reagir, mas estavam preparados para ampará-la e cuidá-la durante a fase de adaptação que viria pela frente. Os irmãos colocaram-se um de cada lado da cama, segurando as mãos dela, enquanto o médico explicava-lhe sua nova condição. Corine disse palavras consoladoras, enquanto secava o rosto com um lenço de seda. Caius afirmou que todos estariam ali, para guiá-la e ser seus olhos.

Então, ela chorou. Chorou tudo que tinha para chorar. Lamentou tudo que tinha para lamentar. Deixou que as lágrimas lavassem todo peso de sua alma. Libertando-a para sua nova realidade. Não sabiam por quanto tempo a assistiram chorar, embrulhada nos braços dos irmãos. Mas em algum momento terminou. E mesmo com a voz rouca e trêmula, ela pediu a única coisa que lhe importava naquele momento.

A rosa que Will sempre lhe trazia pela manhã.

Por que, apesar de que não pudesse ver mais nada a partir daquele momento, nunca havia sido pela beleza da rosa que ela se apaixonara. Foi por seu aroma e sua textura, que sempre a encantaram. E isso, a cegueira não podia lhe tirar. Não. Mesmo que nunca mais voltasse a enxergar, uma rosa sempre seria uma rosa. E aquele gesto do irmão, sempre lhe trariam as melhores recordações.

“Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”.

— William Shakespeare.

Notas finais
E aí? Quero saber o que acharam desse capítulo do passado de nossos príncipes e a nossa princesa mais querida. O próximo capítulo está quase todo pronto. Teremos Jornal Oficial. E mais umas surpresinhas. Nos vemos nos comentários!