The Queen - Interativa
6 Six - Bônus
Notas iniciais
Illíane – Anos antes...
Era o último dia do outono, no dia seguinte iniciaria o inverno. Willah estava extremamente animada. Adorava o inverno, era sua época preferida do ano. Poderia sair e brincar com os flocos, fazer anjos de neve e a melhor parte é que o irmão poderia finalmente deixar aquele maldito escritório por pelo menos um dia se quer. Desde que Will completara doze anos, o pai havia lhe dado tantas tarefas quanto o possível. Precisava passar horas estudando e quase não tinha mais tempo livre. A única coisa que deixava a princesa feliz, era acordar todas as manhãs e encontrar a rosa ao lado de sua cama, como ele sempre fez desde que ela nascera.
Alec vivia pelo castelo aprontando e passava por uma fase terrível. Ás vezes os dois faziam algo juntos, mas precisavam admitir que o irmão mais velho era a cola que os unia com perfeição. Geralmente quando os dois juntavam-se, acabavam brigando por futilidades. Mas tudo aquilo iria acabar no dia seguinte em que ela já planejava sequestrar os irmãos para um dia de diversão. Poderiam lidar com qualquer consequência mais tarde.
Ela olhava os planos desenhados sobre uma folha em cima da mesa. Poderia gabar-se de sua organização, já que fizera um esquema muito bem estruturado para fugirem do castelo. Só precisava driblar as criadas e depois encontrar o caminho certo pelas passagens secretas. Passar pelos guardas no lado de fora é que seria um problema, mas já tinha algumas ideias. Só restava esperar pelo momento mais oportuno e tudo daria certo. Willie estava concentrada nos papéis e mal percebeu a entrada de Carrie.
— Posso perguntar no que está tão concentrada, princesa?
— Oi Carrie. Não é nada, apenas um desenhos para me distrair. – Ela deslizou as folhas para um gaveta.
— Por favor, princesa. Sei que está planejando algo e não posso deixar que faça alguma bobagem. Eu posso perder meu posto.
— Não estou planejando nada de errado. Eu juro. Por favor, Carrie! Será somente uma pequena diversão.
— Princesa...
— Carrie... – Ela fez uma carinha fofa.
— Pelo menos me diga o que é, para que possa estar prevenida.
— Eu não posso! É uma coisa que vou fazer com os meus irmãos, mas juro que não é nada sério. Então não precisa se preocupar, nada vai acontecer. Podemos descer para o jantar?
— Tudo bem. – A criada assentiu, ainda preocupada.
As duas desceram até o salão principal. Alec tinha uma cara emburrada quando chegaram. O rei estava sentado, olhando atentamente todos os movimentos da graciosa esposa. Will parecia terrivelmente cansado.
— Perdoem minha demora. Estava estudando. – Willah fez uma cara de paisagem para encobrir a mentira.
— Tudo bem, querida. – A rainha lançou-lhe um olhar carinhoso. – O importante é que já está aqui e podemos jantar. – Ela acenou para os criados começarem a servir.
— Você me parece doente, Will.
— Não é nada, Willie. Somente estou cansado. – Will sorriu para ela. – Mas me diga, o que tem feito de divertido sem mim?
— Nada é divertido sem meus irmãozinhos, ainda mais com o Alec totalmente mau humorado.
— Eu não estou mau humorado. – Ele retrucou. – Apenas entediado. E vou ficar ainda mais com o começo do inverno. Sem poder cavalgar ou jogar um de vocês no lago. Hipotermia, uhum.
— Graças a Deus, você sabe disso. – Corine disse um tanto exasperada com a possibilidade.
— O que você quer dizer é que não gosta do inverno? – A irmã questionou, erguendo uma sobrancelha teatralmente.
— Eu sei, maninha, que você adora está época do ano. Mas para mim é uma tortura ter que treinar no frio e na umidade. Não é bem o que eu chamaria de divertido e sempre fico muito dolorido.
— Bem para que está treinando tanto? Espera que uma guerra estoure amanhã ou algo assim?
— É sempre bom estar preparado. – Caius falou, pensativo. Mas era de se esperar que o rei sempre estivesse preocupado com aquelas possibilidades.
— Não se esqueça dos rebeldes, maninha. – Alec revirou os olhos.
— Podemos ter um jantar sem falar sobre rebeldes ou guerras? Por favor. Estou exausto de ouvir sobre eles. – O primogênito resmungou, cansado.
— Seu irmão tem razão. Neste momento somos apenas uma família reunida em torno da mesa de jantar para contar as particularidades de seus dias. Então, Alec, querido, pode começar.
O jantar transcorreu de forma mais tranquila a partir dali. Willah tinha razão quando dizia que o irmão do meio estava meio irritadiço. Mas quanto se poderia exigir de um garoto de apenas dez anos? Era normal que tivesse seus momentos. A madrugada fria trouxe consigo os primeiros fatores do inverno. O dia já quase amanhecia, quando a caçula saltou da cama ainda de pijamas e abriu as portas para sacada do quarto. A neve branca cobria até onde podia-se enxergar no horizonte e Illíane. Ela deixou um gritinho animado escapar por entre os lábios. Aquele dia seria incrível, caso tudo desse certo.
Pôs-se a vestir com roupas grossas e quentes. Calçou as luvas, as botas para neve e o gorro. Retirou os planos da gaveta e colocou-os dentro da bolsa azul em que levaria alguns cobertores e a comida que havia confiscado na cozinha durante a noite. Deslizou para fora do quarto, tentando ao máximo não provocar nenhum barulho. O guarda que cuidava daquela parte do castelo parecia cochilar levemente, sentado em uma cadeira no corredor. A princesa prendeu a respiração enquanto passava pelo mesmo com invejável cautela.
Assim que alcançou as escadas, pôde correr livremente por alguns cômodos não muito vigiados. Os quartos dos irmãos ficavam um pouco distantes, mas não demorou a chegar até lá. O guarda daquela parte estava ironicamente distraído com a neve em uma das enormes janelas de vidro e mal notou sua presença, fato que comemoraria depois. Sob as pontas dos pés, abriu a porta e adentrou ao quarto de Will. Encontrou o mesmo afundado sobre as cobertas, a sacada do quarto estava aberta, proporcionando um vento frio por todo lugar. Tudo que se podia ver sob a cama era uma cabeleira acobreada e o sobe e desce da respiração do príncipe. Ela andou calmamente até a beira da cama e puxou um pouco a coberta, em seguida cutucou levemente o ombro do irmão.
— Will... Will... – Ela sussurrou, baixinho. O príncipe resmungou algo, mas não abriu os olhos. – Vamos lá, Will. Acorde.
— Willah...? – Ele perguntou sonolento e confuso, finalmente abrindo os olhos. – O que está havendo? Ainda é madrugada.
— São cinco da manhã, na verdade. Não há sol, está nevando!
— Me acordou para ver a neve? – Will afundou a cabeça sobre as cobertas, abafando a própria voz.
— Não exatamente. Vim te sequestrar por algumas horas. Vamos, levante-se. Temos um lugar para ir e ainda precisamos acordar o Alec, o que será uma tarefa bem difícil.
— Eu tenho muito trabalho com o papai hoje, baixinha. Não posso fugir.
— Não só pode, como vai. Anda! – Ela jogou as cobertas no chão e o puxou pelo braço.
— O que você tem em mente, sua maluquinha?
— Você vai saber assim que sairmos daqui. Agora coloque roupas quentes e me siga. – Willah ordenou, abrindo a mochila e retirando uma rosa de dentro da mesma. Pousou-a sobre o criado-mudo. Aquele era o único sinal que precisava deixar para que todos soubessem que ela havia levado os irmãos.
Levou alguns minutos até que Will finalmente terminasse de se ajeitar. Os dois passaram pela suíte da princesa que era ligada ao quarto do príncipe herdeiro e saíram quase no fim do corredor. Entraram sem problemas no quarto de Alec, que dormia como uma pedra. O mais velho o sacudiu um pouco até acordá-lo. Com ele foi um pouco mais difícil, considerando que era o mais preguiçoso dos três e não gostava de ser acordado aquela hora da manhã, mas conseguiram convencê-lo a embarcar na promessa de aventura. E mais uma rosa foi depositada em um dos móveis do quarto.
Depois de mais uma vez driblarem os guardas pelo caminho, escondendo-se e fazendo barulhos de um lado, enquanto corriam para o outro, finalmente conseguiram entrar em uma das passagens secretas. Como Willah já havia estudado muito bem o caminho, não demoraram até alcançar uma das saídas, nos fundos do castelo, quase ao lado da saída da cozinha para o lago. Quase não podia-se enxergar sob a neve branca e cintilante do primeiro dia do inverno. Deram a volta nos estábulos e correram da forma mais rápida que puderam, tomando cuidado para não escorregarem.
Levaram pouco mais de dez minutos até chegarem a clareira sob as árvores, bem no comecinho da floresta atrás do castelo. Willah retirou uma cobertura plástica e forrou o chão em meio as árvores. Entregou os cobertores aos irmãos e todos sentaram-se em círculo. Will e Alec ainda pareciam curiosos com a ideia da irmã.
— O que exatamente estamos fazendo aqui? – Alec perguntou, enrolando-se em um dos cobertores.
— Tirando pelo menos uma manhã para sermos apenas crianças e não príncipes e princesa herdeira. Will, você não tem tido nenhum tempo livre ultimamente. Papai está pegando pesado em seu treinamento. Alec vive para o treino de combate. Acho que todos nós precisamos de um tempo de tudo isso. – Willah explicou, dando de ombros.
— Essa sua ideia de nos sequestrar de madrugada, com toda essa neve, me pareceu muito bem planejada. – Will comentou.
— Sim. – Ela sorriu, arteira. – Estou a algumas semanas planejando isso. Afinal, estava com saudades de poder passar um tempo com os meus irmão sem que fossemos interrompidos.
— Você poderia ter nos dito e a ajudaríamos.
— Oh, não. A parte divertida foi planejar e depois ver suas caras de assustados quando os acordei para sairmos. Deixei até um rosa em cada quarto para saberem quem os havia sequestrado.
— Tudo bem, conduza-nos. O que tem em mente, baixinha?
— Vocês já vão descobrir. Agora, estou faminta. E tem torta de morango na bolsa, então...
Os garotos atacaram a bolsa, levando Willah a soltar gargalhadas. Os irmãos eram completamente viciados naquela maravilhosa torta ou em qualquer doce em geral. Comeram pãezinhos com geleia, beberam chocolate quente e devoraram em alguns minutos a torta de morango. Tudo entre risadas e brincadeiras, um sempre implicando com o outro. Alec parecia o mais afiado naquela manhã, já que não deixava passar uma oportunidade de fazer alguma brincadeira com os irmãos.
Will e Alec, em certo momento, estavam distraídos olhando ao redor da clareira, quando sentiram algo lhes atingir com certa força. Viram os casacos com marcas de neve. Levantaram o olhar e encontraram Willah armando mais duas bolas de neve para acertá-los. Os dois entreolharam-se e trocaram uma mensagem silenciosa. De forma rápida abaixaram-se e começaram a armar suas próprias munições. Minutos depois, tudo que se podia ouvir eram as risadas contínuas e uma guerra realmente feroz de bolas de neve. Ninguém estava a salvo naquele momento, os três irmãos batalhavam entre si, tentando sempre acertar um ao outro com mais rapidez ou desviar com agilidade.
— Céus! – Will disse rindo, cansado. – Vocês tem muito gás.
— Oh, a idade já está batendo à porta, irmãozinho? – Alec provocou.
— Um pouco. – Ele riu.
— Vocês são muito fracos. Mal conseguiram me acertar. – Willah comemorava, saltando de um lado para o outro.
— Willie, não fique pulando sobre a neve. Por aqui existem muitas fendas no chão. É perigoso.
— Não se preocupe, Will. – Ela abanou as mãos, ainda animada. – Nada pode estragar este dia tão feliz!
— Calminha aí, pequeno gafanhoto. – O irmão do meio riu da euforia da irmã.
— Vamos lá, isso ainda não acabou!
— Tinha algum tipo de energético naquele chocolate quente e eu não percebi? – O primogênito questionou.
— Vocês são tão... – A caçula interrompeu-se bruscamente ao ser sugada para baixo, sentindo a a neve deslizar sobre os seus pés, direto para dentro de uma fenda.
Will e Alec gritaram assustados e correram rapidamente até a beirada da fenda, quase deslizando sobre a neve direto para o buraco. Olharam para dentro, vendo a irmã caída sobre uma elevação e o rosto com um filete de sangue vindo de alguma parte desconhecida. Os dois continuaram gritando, tentando chamá-la, mas a irmã não respondia. Will puxou o irmão mais novo pela gola do casaco e ordenou que o mesmo fosse correndo até o castelo para chamar ajuda. Alec assentiu, completamente desesperado, levantou-se e pôs-se a correr rapidamente para fora da clareira. O mais velho permaneceu por lá, gritando e tentando, desesperadamente, alcançar a irmã.
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