Notas iniciais
Sem notas. Vamos ao capítulo.

Illíane – Anos antes...

Já se passavam quatro meses desde o infeliz acidente na floresta. Willah estava sendo mais forte do que todos esperavam apesar das circunstâncias tão difíceis pelo qual passava. Suas criadas tinham passado por um breve treinamento para ajuda-la na adaptação. O quarto em que vivia sofreu algumas mudanças para facilitar sua locomoção e todos estavam empenhados em fazê-la o mais confortável possível.

A princípio, ninguém além da família, o médico e alguns criados sabiam da nova condição da princesa. Mas esconder aquilo para sempre não era uma opção. E essa foi à primeira decisão que Willah tomou. O povo tinha o direito de saber como tudo ocorrera. Portanto, Caius fez um comunicado em uma noite depois daqueles quatro meses para informar o que acontecera.

Em certa manhã depois do acidente, o rei recebeu a notícia de que um dos seus apoiadores da província de Harper, um grande político, estava chegando a Illíane para tratarem de negócios. Habitualmente ele não poderia deixa-los instalar-se em outro lugar senão o castelo e em uma quarta-feira nublada a família chegou ao lugar.

— Arturo, é sempre bom vê-lo novamente. – Caius cumprimentou o fazendeiro com um aperto de mão. – Espero que me traga boas notícias de Harper.

— Tudo está correndo perfeitamente bem. Os decretos mais recentes têm sido adotados na plenitude. E como sabe, precisamos discutir sobre os rebeldes.

— Já tenho tudo encaminhado em meu escritório para nossa reunião. Siga-me, por favor.

Os dois homens se retiraram, deixando Corine e a esposa do político, Stella, e o filho Nicholas no hall.

— Nicholas, querido, meus filhos Will, Alec e Willah estão no jardim tendo uma tarde divertida. Por que não se junta a eles enquanto sua mãe e eu vamos ao Salão das Mulheres? Os criados podem leva-lo até lá.

— Seria uma ótima ideia. – Stella aprovou. – Vá querido.

Nicholas assentiu e logo Daiana veio busca-lo, a pedido da rainha, e o direcionou ao jardim. Os três irmãos estavam sentados sobre uma manta na grama, cercados de comida e rindo. Will e Alec jogavam cartas, enquanto Willah estava ocupada em apenas sentir a brisa da manhã em seu rosto.

— Crianças, este é Nicholas White. Ele e sua família acabam de se instalar no castelo para o resto da semana. – Daiana anunciou, chamando a atenção dos três. – Espero que o acolham bem.

— Não se preocupe Day. Nós somos muito hospitaleiros. – Alec mandou uma piscada fajuta para mulher que apenas revirou os olhos e saiu rindo do garoto.

— Sente-se, Nicholas. Eu sou Will, este é Alec e nossa irmã Willah. – O primogênito apresentou a todos formalmente. – Nós não sabíamos que alguém vinha instalar-se no castelo.

— Meu pai é um político em Harper e veio tratar de negócios com o rei. – Nicholas explicou, enquanto se sentava.

— Uau. Harper é realmente longe daqui. Deve ter sido uma viagem longa.

— Um pouco. Ainda mais por que estávamos na fazenda, que é como uma segunda casa para nossa família. Papai mantém os negócios políticos, mas também tem uma fazenda no extremo sul da província apenas para descanso, o que nos rendeu algumas horas a mais no percurso.

— Eu me sinto exausta apenas em imaginar. – Willah comentou, tateando a frente para encontrar uma fruta para comer. – Onde estão as peras?

— À direita, Willie.

A princesa lançou a mão para direção onde o irmão lhe tinha dito, mas acabou passando longe novamente do cesto de frutas. Nicholas inclinou-se e apanhou uma das frutas e colocou na mão dela.

— Aqui está.

— Agradeço. – Ela mordeu um pedaço da fruta e se pôs a ouvir quietamente a conversa dos garotos.

— Acho que nunca fui para Harper. – Alec refletiu. – Você já foi Will?

— Sim. Papai me levou cerca de três anos atrás para uma visita durante sua estadia na província. Ele tinha uma reunião com alguém que não me lembro agora. Tudo que podia pensar era como queria chegar logo. A viagem é enorme.

A manhã passou rapidamente e no almoço as crianças já estavam entrosadas. Na maioria das vezes não havia outras crianças no castelo para socializarem com os três, então era sempre uma novidade quando uma reunião como aquela ocorria. Naquela tarde, Will, Alec e Nicholas foram cavalgar depois de verificarem que Willah gostaria de permanecer em seu quarto. A caçula vinha recebendo aulas com um tutor particular para aprender a ler em braile e praticava geralmente todas as tardes.

Na sexta-feira à noite, depois de ter voltado de um passeio pela cidade com sua mãe, Nicholas caminhava de volta ao seu quarto quando encontrou a princesa sentada no canto de um corredor pelo qual precisava passar.

— Hum, Princesa Willah? – Ele perguntou incerto da situação que ocorria.

— Quem é?

— Nicholas... O que está fazendo sentada aqui? Quero dizer, posso perguntar?

— Eu achei que poderia chegar sozinha ao quarto do Will, mas parece que novamente me enganei. Não o vi hoje. Ele sempre vem me ver, mas hoje não apareceu. Fiquei preocupada. – Willah confessou. Seu olhar estava fixo no chão.

— Acho que o rei o levou para uma caçada junto ao meu pai e outros políticos. Desde quando está sentada aí?

— Cerca de duas horas, eu acho. Eu consigo ouvir o barulho de um relógio de pêndulo em algum lugar aqui, mas não é perto suficiente para saber com certeza. Que horas são?

— Quase sete. Ninguém veio procura-la?

— Eu pedi para que minhas criadas me deixassem sozinhas para dormir, mas escapei e tentei chegar até o quarto. Tenho treinado para saber quantos passos e quais as direções preciso para chegar até lá, embora ainda não tenha aprendido direito. Será que você poderia me ajudar a voltar para o meu quarto?

— Sim. É claro.

Nicholas pegou uma das mãos da garota e a ajudou a se levantar. Recebendo algumas orientações sobre onde ficava o quarto, ele se pôs a guia-la de volta pelo caminho que fizera anteriormente. Como alguns corredores às vezes pareciam como labirintos que sempre levavam a lugares parecidos, ele resolveu voltar ao hall e dali fazer o percurso mais correto até o quarto da princesa.

Levou cerca de dez minutos até que finalmente encontraram o local correto. Rosie, uma das criadas de Willah, estava na porta conversando com um guarda e aparentemente nervosa. Ela pareceu muito mais aliviada ao ver a garota chegar e até mesmo fez um breve agradecimento ao céu.

— Princesa, onde estava? Estive procurando-a por todo canto! – Rosie jorrou.

— Eu apenas me perdi. Estava tentando chegar ao quarto do Will.

— Bem, poderia ter pedido ajuda.

— Eu posso muito bem andar sozinha, Rosie. Não me tome como uma inválida.

— Perdão princesa, não foi o que quis dizer...

— Agradeço sua ajuda, Nicholas. Se não tivesse aparecido, eu provavelmente ainda estaria sentada naquele corredor.

— Não foi nada.

— Foi sim, obrigado. Boa noite.

Willah tateou a porta do quarto e a empurrou, entrando logo em seguida. Rosie a seguiu parecendo muito preocupada e o guarda voltou ao seu posto. Nicholas deu meia volta e partiu novamente para ir ao quarto que estava habitando no castelo.

***

Mesmo que se quisesse para o tempo, ele ia inevitavelmente passando. Por mais forte que Willah parecesse ás vezes, ela também tinha seus momentos de raiva. No primeiro ano, a adaptação tinha sido lenta, porém progressiva. Levou algum tempo também para que a família lhe fizesse perceber que não tinham pena dela, apenas zelo. Convencê-la a aceitar ajuda é que tinha se mostrado uma provação difícil, mas com o tempo conseguiram superar aquela fase.

Nicholas, aquela criança que uma vez se hospedara no castelo por alguns dias, acabou se tornando um grande amigo de Will, o que resultou que visitasse o lugar em certas épocas do ano. O rei considerava uma amizade saudável e tinha grandes estimas pela família do garoto. Com o passar do tempo e o envelhecimento de cada uma das quatro crianças de outrora, alguns sentimentos puderam finalmente vir à superfície. Não era surpresa para ninguém assistir Nicholas e Willah flertarem ao longo dos anos e em um dos momentos mais difíceis de sua vida, ele estivera lá.

Uma peste se propagara por todos os cantos do país e nenhuma província escapara. Apesar de todos os cuidados que a família real havia tomado, infortunadamente Corine havia sido atingida em cheio. Foram algumas semanas tortuosas de tratamento, que não a beneficiaram na cura e numa tarde chuvosa, a rainha perecera. Caius foi o único que a viu partir e tão logo teve a confirmação do médico, meditou para saber como informaria os filhos do acontecimento.

Foi talvez uma das coisas mais difíceis que precisou fazer em toda vida. Dor, sofrimento, angustia e todos aqueles sentimentos em redemoinho fizeram os corações de todos quebrarem de uma forma que parecia irremediável naquele momento. Caius realmente acreditou por algum tempo que ninguém se recuperaria daquele choque. Ele mesmo jamais voltaria a ser o homem que era antes. Mas mesmo que quisesse se preocupar com seus sentimentos, não era hora. Precisava curar os filhos primeiro e então poderia tratar de curar a si mesmos.

O funeral foi marcado por uma despedida triste e sem qualquer resquício de conformidade. Mesmo o povo chorava quase um mês depois do ocorrido. Muitas pessoas importantes estiveram no cortejo fúnebre daquele dia, mas ninguém era realmente capaz de sentir o que sentiam.

William estava em seu pior inferno nos primeiros meses. Era difícil qualquer um alcança-lo em sua bolha de isolamento. Por algum tempo, quase ninguém o via pessoalmente. Até mesmo a caçula estava sendo ignorada. Mas em algum momento, quando o ódio deixou de consumi-lo, ele efetivamente acordou e percebeu que de nada adiantava manter-se afastado. A dor não diminuía. E sentia-se egoísta por acreditar que era aquele que sofria mais. Todos sofriam a mesma dor.

Com Alec, as coisas foram parecidas. Mas não era o ódio o principal elemento daquela equação. Tampouco o isolamento. O irmão do meio afundara-se em uma depressão pós-traumática por cerca de seis meses. A única pessoa que podia chegar até ele era Daiana, que se encarregava de cuidar para que não morresse por inanição e que tivesse uma mínima interação social. E como o mais velho, lentamente ele foi saindo de sua concha e aceitando que não era o único a sofrer.

Willah foi um caso realmente trabalhoso. Com os irmãos presos em seus próprios mundos, ela não tinha exatamente a quem recorrer. Mesmo que seu pai sempre lhe dissesse que estava ali por ela, não eram palavras que queria, mas gestos. E Nicholas nesse ponto foi à pedra que a deu suporte. Ele se instalou indeterminadamente no castelo para cuidar dela enquanto nenhum dos outros homens que faziam parte de sua família tirasse suas cabeças de seus próprios mundos. E talvez essa tenha sido sua melhor decisão.

Aquele tempo, mesmo que cheio de dor e sofrimento, trouxe a luz todos os sentimentos que julgavam ser de crianças bobas e presas no tempo. Ambos agora tinham quatorze e dezesseis anos. Qualquer um poderia dizer que era apenas uma paixãozinha que logo passava. Um encantamento de criança. Mas não foi isso. Foi um processo lento, levou de fato meses até que Willah começasse a se estabelecer novamente e os irmãos voltassem a ser o que eram antes. Embora houvesse qualquer dificuldade, eles tiveram muito tempo para pensar e descobrir se o que sentiam era real.

Nesta altura, Willie já havia completado quinze anos e estava muito certa do que queria. Sabia que Nicholas correspondia aos seus sentimentos e foi o suficiente para iniciarem um relacionamento à distância, algo bastante incomum para uma princesa, mas ninguém se atreveu a se opor. Nem mesmo Caius quis posicionar-se contra, por que sabia que ao encontrar a felicidade, sua filha seria novamente aquela garota que era antes de todas aquelas terríveis provações acontecerem. E isso já lhe bastava.

Com muito esforço, todos reconstruiriam suas vidas. E o tempo... Este continuaria passando.

Notas finais
Alguém está lembrado de um tal Nicholas citado no capítulo 3? Ou vocês simplesmente deixaram passar? Se a resposta for sim, sugiro que retornem ao capítulo para saberem de quem estou falando. Espero que tenham gostado e deixem seus comentários para esta autora que vos fala. Nos vemos no comentários! Até mais, Selecionadas!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.