The Queen

5 Capítulo 4 — Nice to meet you


A Rainha Navarriense encontrava-se sem reação. A notícia havia a abalado de uma forma inimaginável. Sabia que sempre existiram grandes chances de que seu casamento com Christophe se concretizasse antes mesmo de ser intimada, mas a sensação de não ter outro caminho a seguir parecia sufocá-la. Não havia paixão, conquista ou qualquer forma de afeto entre os dois noivos, Marie-Claire nem ao menos havia o visto antes. Sempre ouvira de sua mãe que uma Rainha não tinha o direto de seguir seu coração, mas também ouvira que seus pais eram o casal mais apaixonado que todo aquele reino já havia visto em sua vida.

— Mal posso esperar para conhecer meu futuro marido.

Ela forçou um sorriso, concentrando-se para não deixar escapar uma lágrima dos olhos marejados. Não odiava Christophe e nunca ouvira um mal rumor sobre o jovem rapaz, porém, o sentimento de não ter escolha fazia com que se sentisse fraca, vulnerável. Fechou seus olhos no momento em que o Rei começara a se afastar, procurando em si mesma alguma possibilidade de se apaixonar tão rapidamente por um estranho. Não demorou muito para que abrisse novamente os olhos, deixando com que lágrimas começassem a correr por seu rosto pálido. Suas mãos estavam trêmulas, o gosto salgado das gotas que saiam de seus olhos pouco a pouco tomavam conta de seus lábios. Ajoelhou-se ao chão, sem se importar com os olhares dos criados ao redor, colocando o rosto entre as mãos e deixando todo o desespero e estresse se esvair em forma de um choro silencioso. Ser Rainha parecia sugar sua vitalidade aos poucos, toda a sua juventude fora tomada por responsabilidades que nunca fora matura o suficiente para ter.

— Majestade? — Uma voz grossa fora ouvida, o que trouxe a jovem de volta para a realidade. — Está sentindo alguma dor? Devo chamar os guardas?

Ela retirou as mãos do rosto, se levantando e ajeitando seu vestido, recompondo-se. Sentia um tanto de vergonha de se encontrar com um homem que, por suas vestes, era um grande nobre. Ajeitou o vestido rapidamente e sorriu, esticando um de seus braços para que fosse devidamente cumprimentada. Os lábios do homem tocaram as costas de sua mão em um beijo rápido, logo seguido pela aproximação repentina do rapaz, o qual levara as pesadas mãos até o rosto da jovem e limpara uma das lágrimas que ainda se encontrava na bochecha de Marie.

— Estou bem, não se dê o trabalho. — Ela deu um passo para trás, aumentando o espaço entre os dois. Não queria que qualquer servo já começasse a espalhar rumores, transformando um simples diálogo em algo grande e que lhe traria ainda mais dores de cabeça. — Apenas alguns estresses políticos, nada que um copo de vinho não resolva.

Marie-Claire sorriu ao ser tomada pelo braço, sendo conduzida pelo belo moreno em direção a beira de um dos lagos. Ele tinha as feições bem marcadas, um tanto rudes, mas que entravam em contraste com seu belo e sereno sorriso. O caminho fora silencioso, mas as trocas de olhares foram o suficiente para que fizessem com que a Rainha, mesmo noiva de outro homem, corasse. Os dois se sentaram lado a lado em um conjunto de troncos, como velhos conhecidos.

— Para sua felicidade, eu sempre carrego um desses comigo. — Ele afastou o casaco, revelando preso em seu cinto um cantil que aparentava estar cheio. Retirou-o com cuidado e o entregou para a Rainha, a qual segurou o objeto com um sorriso sarcástico nos lábios. — Provavelmente não é o mesmo fino vinho que está acostumada a tomar, mas garanto que os efeitos são os mesmos.

— Não vai me dizer para ir com calma? — Ela perguntou retirava a tampa, aproximando o líquido de seu nariz e sentindo o forte cheiro alcoólico. — Ou então sua intenção é me embebedar enquanto passo por um momento delicado de minha vida?

— Nenhum dos dois, Majestade. Estou apenas oferecendo uma boa bebida e um ombro amigo. — Ele riu, observando-a tomar o primeiro gole do líquido. — Você pode fazer o que quiser.

Marie-Claire fez uma careta ao sentir a cerveja descer queimando por sua garganta. Não estava acostumada a beber fora de jantares e festividades formais, nas quais apreciava os mais delicados vinhos, feitos especialmente para mulheres com paladares refinados. Tossiu uma ou duas vezes, tomando outro gole em seguida, desta vez menos assustada com o teor alcoólico.

— Na realidade, este é exatamente o problema. Estão me tirando o direito de escolha, me obrigando a casar com um príncipe cafajeste, inoportuno. Eu nem tive oportunidade de conhecer aquele...cabeça de ampola! — Ela entregou o cantil para o homem, balançando a cabeça em negação. — Espero que não conte nada disso para seu Rei, ele não iria gostar de saber o quanto repudio a decisão de casar com seu filho.

O homem segurou o riso e tomou o cantil das mãos de Marie, tomando um gole demorado. Ele provavelmente já estava acostumado com o gosto, então suas feições não mudaram nem por um segundo enquanto o líquido era engolido.

— Então irá se casar com o próximo Rei? Isto não havia chegado aos meus ouvidos. Mas não deveria repudiá-lo desta forma, nunca fora apresentada devidamente ao rapaz. Deveria lhe dar uma chance. — Ele olhou para o horizonte, vendo a água turva e escura do lago completamente congelada.

— Como você acha que poderei dar uma chance, recebê-lo de braços abertos quando seu pai está praticamente colocando o véu em minha cabeça no mesmo dia que cheguei a França? — Ela bufou, tomando o cantil das mãos do rapaz de uma forma não tão delicada, deixando que sua boca aproveitasse mais um pouco da tão conhecida bebida. — Eu não o conheço. E este é só mais um motivo para não querer me comprometer matrimonialmente.

— Então trate de conhecer. — Ele se levantou, beijando a testa da Rainha, que começava a parecer um tanto tonta com o excesso incomum da bebida. — Eu preciso ir. Pode ficar com meu cantil se desejar, apenas me devolva quando puder.

Ele colocou ambas as mãos nos bolsos e começou a caminhar em direção aos bosques, o contrário do que a garota imaginara. Seus passos pareciam apressados, quase nervosos, como se estivesse procurando a maneira mais rápida de se afastar daquele local.

— Espere! — Marie gritou, puxando levemente sua saia para que pudesse se levantar corretamente. — Eu não sei o seu nome.

Ele se virou enquanto ainda andava, sorrindo de forma irônica, até mesmo maliciosa. Seu olhar parecia divertido, como se a garota houvesse acabado de lhe contar uma piada.

— Christophe Bourbon. — Ele gritou de volta, rindo do espanto que se formava na face da Rainha. Ela apertava o tecido amarelo de seu vestido, transpassando o nervosismo em pequenos gestos. — Mas pode me chamar de Cabeça de Ampola se preferir, futura esposa.

Marie-Claire esqueceu de toda a sua compostura quando bateu a porta do quarto em que haviam a instalado. Não sabia se estava feliz por ter conhecido seu futuro esposo de maneira tão natural e agradável ou se se jogaria ao chão em prantos novamente por tê-lo xingado sem repúdios, então apenas gritou. Um grito agudo e rouco, uma mistura de desespero com ansiedade.

— Majestade! — Os guardas abriram a porta, encontrando-a parada em frente a janela. Os homens de armadura pareciam confusos, procurando por qualquer tipo de ameaça no quarto. — O que houve? Fantasmas?

Marie-Claire riu internamente, mas permaneceu séria. Não poderia ter a fama de Rainha louca — este cargo já era ocupado pela Rainha de Portugal — então procurou em sua imaginação um motivo para ter feito um escândalo daquela maneira.

— Um rato. — Ela apontou para uma pequena abertura da parede. — Eu vi um rato entrar ali. Este local não possuí higiene alguma? Ou pelo menos uma ratoeira?

— Perdoe-me, irei informar meus superiores e pedir para que providenciem os materiais necessários para corrigir esta infame ofensa. — Ele se curvou, em uma pequena reverência. — Precisa de algo mais, vossa excelência?

— Sim. Peça para que minhas damas se encontrem aqui o mais rápido possível. — Ele assentiu, esperando por mais alguma ordem. — Agora!

Assim que a porta se fechou, a Rainha retirou seu casaco e puxou o fio que prendia o seu colete, o desamarrando e o colocando sobre a cômoda. Odiava a quantidade de roupas que era necessário usar diariamente, principalmente em dias gélidos como aqueles. A lareira estava acesa, crepitando e esquentando todo o quarto, trazendo conforto o suficiente para que todas os grossos tecidos fossem retirados aos poucos, até que ela ficasse com nada além do forro amarelado. Sentou-se em uma das poltronas, cruzando as pernas enquanto aguardava. Sua respiração era pesada, seu coração parecia bater mais forte do que o comum. Sua mente passeava entre um turbilhão de pensamentos, tanto bons quanto ruins. Estava satisfeita por saber que não casaria com um monstro insensível, mas ao mesmo tempo apavorada pela simples palavra "casamento".

Quando a porta se abriu, não apenas as damas de Marie-Claire entraram aos aposentos, mas também a atual amante do rei, Rosalinda. As cinco pareciam animadas em estar juntas novamente, mas logo suas feições transformaram-se em preocupadas quando viram os olhos de sua Rainha lacrimejando. Como amigas, sabiam reconhecer quando algo a afligia.

— Marie, o que houve? — Arabella perguntou ao se aproximar, seguida pelas outras. Sentaram-se envolta a Rainha, afagando seus cabelos e limpando suas lágrimas. — Eu soube que teremos um baile esta noite, achei que estaria animada! Eles estão nos recebendo tão bem...

— Não é um baile de boas vindas, Bella, é um baile para o anúncio de meu noivado. Elliot tinha tudo planejado antes mesmo de chegarmos aqui. — Ela disse com a voz baixa, quase um sussurro. — Preciso que encontrem um vestido para mim. Um que me deixe bela o suficiente para compensar Christophe de minhas atrocidades esta tarde. Explico tudo a vocês depois.

As quatro damas concordaram e foram em busca das bagagens de Marie, que ainda se mantinham arrumadas nas grandes malas aveludadas. As portas do quarto se fecharam, deixando Marie-Claire e sua antiga dama, Rosalinda, sozinhas. As duas se abraçaram rapidamente, um tanto confusas sobre como agir. Toda a amizade que tinham antes fora quebrada quando Rose se mudara para a França atrás de seu maior amor, Elliot.

— Marie, eu sei que não está feliz. — Ela suspirou, sentando-se ao lado de sua antiga Rainha. — Mas ainda assim você considera a possibilidade de se casar com Christophe desde que descobrira que era a vontade de seu pai. Então não é tão ruim, não é mesmo? Você veio para a França em busca de fortalecer esta aliança. E Christophe não é um ser humano ruim.

— Eu sei que esta era uma das possibilidades. O que me deixa insanamente irritada é a falta de escolha que seu amante me deu. Eu não me sinto uma Rainha, estou praticamente me curvando ao poder da França e o entregando Navarre.

— Bem, posso te dizer que seu noivo é um homem muito bom. É gentil, caridoso e, apesar da fama de galanteador, tenho certeza que será um homem fiel. — Ela afagou os cabelos morenos, começando a trançar os cabelos de Marie. — Eu não posso fazer nada além de te garantir que sempre terá meu apoio e companhia neste castelo. Não posso mudar a opinião de Elliot, mas posso fazer com que ele se torne um tanto mais amigável.

A mulher terminara de fazer a trança, a prendendo com um pequeno laço da cor amarela. As lágrimas haviam parado de cair pelo rosto de Marie-Claire, mas ela ainda sentia o pesar no peito, até mesmo um tanto de vergonha pelo que havia passado alguns minutos antes. Imaginava-se em um vestido de noiva, andando pelo salão lotado de nobres enquanto iria em direção ao altar ao lado de Christophe. Imaginava o olhar de desaprovação de sua mãe por não ter pedido seus conselhos antes de se tornar noiva e tirar qualquer possibilidade de aliança com os Ingleses que ela tanto admirava. Podia ver os olhares satisfeitos de Elliot e a repulsa de Grace ao aceitá-la na família. Até mesmo imaginava quando chegaria o momento que a família Bourbon exigiria os primeiros herdeiros, trazendo mais um fardo para a sua vida.

O que era para ser uma viagem em busca de grãos se tornara seu novo destino.

Notas finais
E aí, cabeças de ampola?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.