The Purple Devil
1 O Retorno da Babá
Notas iniciais
A dor no meu braço era excruciante. Eu queria que ele caísse para não precisar mais sentir nada, queria arrancá-lo, queria que queimasse de uma vez. Qualquer coisa valeria se a dor parasse.
Ainda gritando de dor, ouvi o carro estalando e um rosto apareceu na janela quebrada à minha direita.
—Você consegue sair?-Uma voz masculina perguntou. Engoli os gritos e virei a cabeça, a única coisa que conseguia mexer.
—Não. -Respondi, chorosa.
—Eu vou te tirar daí. -Começou a se levantar.
—Espera!-Parou. -Não me deixa aqui sozinha... Tem... Tem coisas na estrada... Elas fizeram isso. -Olhou pra mim.
—Eu sei. -Se esticou, segurando minha mão. -Aguenta mais um pouco...
Abri os olhos, inquieta. O sonho, que na verdade era uma lembrança, tinha sido muito vívido. Não acontecia há um tempo e isso me incomodava.
O quarto estava iluminado pelas luzes da rua, por causa da cortina puxada para o lado. A janela estava aberta, pelo menos Klaus lembrou de abri-la antes de começar a fumar.
—Eu te acordei?-Perguntou. Sentei na cama.
—Não.
—Você parecia meio perturbada, dormindo. -Soprou uma nuvem de fumaça tóxica e cancerígena. Agradeci mentalmente pela janela aberta. -Pesadelos?
—Lembranças. -Toquei meu braço esquerdo com cuidado, como se ele ainda estivesse sensível. -Por que não está dormindo?
—Lembranças também. Ter... -Abaixou o tom de voz. -a Babá aqui está me deixando nervoso.
Eu tinha conhecido Klaus, e o resto dos Hargreeves, no ano anterior. Isso pra eles. Pra mim tinha sido semanas atrás. Depois de voltar para 2020 com o Doutor, eu levei um tempo para me organizar e viajar para os Estados Unidos, como prometi à Klaus que faria. Tinha chegado horas antes, e recebido a notícia de que os Hargreeves se meteram em outra confusão.
Quando eram crianças, os sete irmãos foram criados por Grace, uma mãe robô, já que o falecido sr. Hargreeves não estava interessado em um papel paterno amoroso e presente. Mas, durante um tempo, houve problemas com Grace e ela precisou ser substituída enquanto era “ajustada” antes de voltar a ser mãe de sete crianças especiais.
O sr. Hargreeves havia sido exigente em sua escolha e assim surgiu a Babá, uma mulher assustadora (como descrita por Klaus) que cuidou da educação das crianças até Grace voltar.
Agora, depois de anos, ela havia reaparecido. A Babá, não Grace.
Eu não tinha a visto ainda, e nem queria, pelo clima de tensão que ela havia criado na casa.
—Por que vocês a deixaram ficar?-Perguntei. -São crescidos, não precisam de uma babá.
—Eu não sei. Ela só veio e... Está aí. Juro, aquela mulher me dá arrepios, Mallory. E olha que eu vejo os mortos. E o feioso do Ben. -Ri.
—Ele está aqui?-Olhou em volta.
—Não. Deve ter se escondido. Ele também não gosta dela. Ben estava vivo quando ela chegou pela primeira vez. A achou aterrorizante, todos nós achamos.
—Deviam mandá-la embora. Fale com os outros amanhã. Digam a ela que não precisam de uma babá e que ela pode ir.
—Queria que fosse tão fácil. Aquela mulher é terrível e determinada. -Estremeceu. -Espero que ela vá embora logo. -Olhou pra mim. -Não vejo a hora de começarmos a nos divertir.
***
Aparentemente Klaus e eu fomos os primeiros a descer para o café no dia seguinte. Dormimos pouco e ficamos aliviados quando o dia amanheceu.
—Tem muita coisa pra fazer na cidade. -Contou, sentando do outro lado da mesa e dando um gole no café. -Não sei nem onde a gente devia ir primeiro. O que você costuma fazer quando não está viajando pelo tempo e espaço?
—Eu não sei... Não costumo sair muito...
—É, eu saquei que você era meio antissocial.
—Não sou antissocial.
—É? Como seus amigos se chamam? Quando foi à uma festa pela última vez?-Apenas olhei pra ele. -Viu? Os suéteres de vovó entregam tudo.
—Não tem nada de errado com meus suéteres.
—Não, eles só parecem pertencer à uma senhora de noventa anos.
—Bom dia. -Olhamos na direção da voz, pegos de surpresa. -O que fazem acordados tão cedo e onde estão os outros?
—É...
—Klaus, quando uma dama entra no recinto, os cavalheiros se levantam.
—Ah. Desculpa. -Se levantou, meio atrapalhado e nervoso. -Nós... Estávamos com fome e... Os outros devem estar dormindo.
—Você sabe que as refeições devem ser feitas em família. -O tom era reprovador. Olhou pra mim. -E você é...?
—Eu sou Mallory. -Respondi, tentando não gaguejar. Não queria que ela olhasse pra mim.
—Seja bem vinda, Mallory. Eu sou a Babá.
A Babá era mesmo aterrorizante. Se vestia como uma Mary Poppins de roxo, com olhos de águia e cabelos castanhos. Ela me lembrava a sra. Carter, minha antiga professora de matemática que parecia ser a enviada do satanás.
—Klaus, você sabe que...
—Estávamos com fome. -Ela estreitou os olhos na direção dele.
—Não é educado interromper alguém, Klaus.
—Desculpa. -Engoliu seco. Vê-lo assim estava me deixando mais nervosa ainda.
—Desculpas aceitas. -Sorriu. -Vou preparar o café de vocês, precisam estar bem alimentados. Depois, quero que treine seus poderes, Klaus. Não sinto que os dominou completamente.
—Mas eu...
—Nós já conversamos sobre isso. Você tem muito potencial, não pode desperdiçá-lo ou sufocá-lo com álcool e drogas. E aliás, não quero nem um nem outro nessa casa. Estamos entendidos?
—Sim, senhora. -Se sentou lentamente, o olhar dele parecia pedir socorro, mas infelizmente eu não era a pessoa certa para salvá-lo.
—Posso fazer uma pergunta?-Pedi. A Babá olhou pra mim.
—Pode. -Respondeu.
—Por que está aqui? Os Hargreeves são adultos. Não precisam de babá.
—O sr. Hargreeves está morto, assim como Pogo, e a querida robótica Grace. Esses jovens estão sozinhos, precisam de alguém. Precisam de mim.
A certeza dela de que era a salvação de pessoas (que não precisavam dela) era perturbadora. Me senti num filme de terror onde a psicopata é a babá. Tipo Emelie.
—Eles já me conhecem. -A Babá continuou. -Já estamos acostumados uns com os outros e eles sabem das minhas regras. Dos castigos... -Klaus pareceu ter um espasmo ou algo assim, e acertou sua xícara, que foi direto pro chão, quebrando. -Ah, seu menininho atrapalhado! Olha o que você fez!-Pegou um pano de prato. -Limpe isso antes que se espalhe.
—Eu ajudo. -Ofereci.
—Não, Mallory querida. Quem suja é quem limpa nessa casa. É uma lição importante. Klaus. -Entregou o pano. -Isso. Cuidado para não se cortar. -Olhou pra mim. -Assim não é melhor?
Depois do café, Klaus e eu fomos separados pela Babá. Ela o fez ir treinar seus poderes e me disse que eu devia me sentir em casa.
Eu não sabia exatamente o que fazer, então decidi ir para o quarto de Klaus e pegar o livro que tinha na mala. No caminho, fui surpreendida por Cinco.
—Onde ela está?-Perguntou.
—Quem?-Olhou por cima do ombro e avançou, sumindo no nada. -Okay, então.
—Mallory. -Me virei. A Babá estava no começo da escada. -Você viu o Cinco?-Ah, então ele estava fugindo dela...
—Não. -Menti.
—Ele é um menino muito escorregadio. Se vê-lo, diga que estou o procurando.
—Claro. -Assenti.
Parecia que Klaus não era o único Hargreeves que não gostava da Babá. Eu conseguia entender. Havia alguma coisa que ele não tinha me contado. Mas, se for parar pra pensar, havia muita coisa que Klaus não tinha me contado.
Passei pela porta de Luther, que tinha uma luz passando por baixo da porta. Ele devia tê-la esquecido acesa.
—Luther?-Me perguntei se devia apagar a luz, então um braço enorme me puxou pra dentro do quarto. O sequestro mais rápido que já me aconteceu. -O que...?
—Shh, ela vai te ouvir. -Luther sussurrou. Franzi a testa. -A Babá.
—Ah. Também está fugindo dela?
—Estou. -Sentou na cama, que afundou um pouco e pegou um sanduíche de uma pilha que estava na cômoda. -Ela me assusta. -Contou, de boca cheia.
—Idem. Não devia estar treinando?
—Eu passei a vida toda treinando. Sabe, passei quatro anos na lua.
—Quatro anos?-Assentiu, terminando o sanduíche e pegando outro. -O que fazia lá?
—Era feito de idiota. -Suspirou.
—Posso?-Apontei pra uma cadeira. Ele assentiu, então me sentei.
—Meu pai me mandou pra lua dizendo que era uma missão. Eu fiquei lá fazendo relatórios, mandando amostras e... Achando que estava fazendo alguma coisa importante e útil.
—Parece importante e útil. -Negou com a cabeça.
—Ele nunca abriu os pacotes que eu mandava. Nunca se importou. Depois que me transformou nisso, -Apontou para si mesmo. -quis se livrar de mim.
—Você não nasceu assim?
—Não. Houve um acidente e... Foi o único jeito. -Olhou para um porta retrato na cômoda.
Havia seis crianças nele, todas de uniforme e máscaras negras. A postura delas era impecável. No fundo, um homem alto e assustador.
—São vocês?-Perguntei.
—A Umbrella Academy. Esse era o nosso pai.
—Tá faltando...
—A Vanya. É. Klaus não te contou? Ela só redescobriu os poderes ano passado. Papai a fez acreditar que era comum e a dopou para que não soubesse de seus poderes. Ela sempre ficava de fora de tudo, excluída. -Isso era horrível. Talvez fosse por isso que Vanya parecia a mais quieta da família, mais controlada.
—Seu pai era... Complicado.
—Complicado é pouco.
A porta abriu de repente exibindo a Babá. Luther espiou a pilha de sanduíches que felizmente já tinha sumido.
—Estávamos só conversando...
—Você tem treino, Luther. E eu sei que trouxe comida pro quarto. -Apontou para as migalhas. -Vou criar uma dieta pra você. -O homem olhou para baixo, para si mesmo. Ele parecia o mesmo grandalhão musculoso da última vez. Acho que era normal um cara daquele tamanho comer tanto. -Vamos, número 1. -Luther suspirou e ficou de pé. -E traga a bandeja. Não queremos ratos pela casa.
***
No fim das contas, Cinco foi o único Hargreeves que conseguiu escapar da Babá. Provavelmente a fuga bem sucedida dele renderia consequências.
À noite, os irmãos que não escaparam, e eu, foram reunidos na sala de jantar. Todos pareciam exaustos.
—Como foi?-Sussurrei, me sentando ao lado de Klaus.
—Péssimo. Preciso de uma bebida.
O jantar foi feito em silêncio, o que foi estranho e incômodo. Os Hargreeves eram falantes, animados e gostavam de discutir. A presença da Babá os deixou quietos e tensos. Me perguntei se era o mesmo quando eram crianças e isso só me deixou mais agoniada. Nem a criança mais bagunceira do mundo merecia uma babá assim.
Após o jantar fomos dispensados e avisados que as luzes deviam ser apagadas às nove da noite.
—O dia de hoje foi infernal. -Klaus reclamou, andando pelo quarto.
—Você disse isso do dia de ontem.
—Todos os dias com essa mulher são infernais. Ela é infernal. Onde foi que...
—Ei, você viu meu celular?
—Eu não acredito!-Se virou. -Ela sumiu com todas as minhas garrafas de bebida. Todas! Ela quer me matar, é?
—Talvez não beber seja bom.
—Não, não, eu não posso passar pelo dia de hoje sem uma bebida. A gente precisa sair.
—Eu não acho que ela vá gostar disso.
—Ela que se fo...
—Klaus. -Se jogou na cama, resmungando. Me sentei ao lado dele. -Eu entendo... Só... O lance da bebida... -Decidi não mencionar as supostas drogas.
—Eu preciso disso às vezes, Mallory. -Sentou. -Consigo parar, consigo mesmo. Fiquei limpo por um tempo e cortei as drogas. Mas essa situação é estressante...
—Talvez deva encontrar outros jeitos de desestressar. -Parou um momento, olhando para a parede.
—Sabia que o Reginald, meu pai, me prendia no mausoléu que tem no jardim?-Me encarou. -No escuro, sabendo que eu via os mortos. Eles ficavam muito agitados quando eu estava lá. Gritavam e riam... A ideia foi dela. Da Babá. Ela achava que isso ia aperfeiçoar meus poderes. Eu não gostava de ver os mortos, falar com eles... E tinha medo do escuro. Uma criança patética.
—Não. -Segurei a mão dele. -Uma criança. Sinto muito por tudo isso. Você não teve uma infância fácil, nenhum de vocês.
—Não mesmo. Drogas e bebidas foram minha terapia. Mas eu não quero ficar falando disso. Na verdade me sinto até um pouco melhor. Engraçado. Deve ser você. Um pontinho rosa de felicidade e apoio no meio de uma tempestade. -Sorriu. -Que bom que você veio... À essa altura eu já teria tido uma overdose sozinho aqui... Ah, não enche, Ben, é diferente.
—Você é terrível, Klaus Hargreeves.
—Eu sou. -Ouvimos um sino ser tocado em algum lugar da casa. -Hora de apagar as luzes. -Bufou. -Essa mulher vai enlouquecer todos nós...
***
Como no dia seguinte eu não achei meu celular, liguei para o Doutor com o telefone dos Hargreeves. Esperei Alisson terminar de falar com a filha, Claire.
—Queria que ela viesse pra cá no fim de semana. -Contou, me passando o telefone. -Mas com a Babá aqui, prefiro não arriscar.
—Ela está com o pai?-Assentiu.
—Patrick e eu nos separamos e ele tem a guarda dela. -O tom indicava uma história tensa, então decidi não perguntar mais nada.
—Você viu meu celular por aí?
—Não. Acredita que não faço ideia de onde o meu está? Espero que não me liguem pra nada importante até eu achá-lo. Te vejo no café.
Disquei o número da TARDIS, aliviada em tê-lo decorado. Milagrosamente o Doutor atendeu rápido.
—Estou ocupado no momento. -Revirei os olhos, achando graça.
—Eu acho que não. Atendeu no terceiro toque.
—Eu não disse o que estava fazendo.
—E não quero saber o que você faz na privacidade da sua TARDIS. Só liguei pra saber como está, falar que estou bem e perdi meu celular, então se precisar falar comigo pode ligar pra cá.
—Seu tom não parece muito feliz. -Abaixei o tom de voz, depois de olhar em volta.
—Tem umas... Coisas rolando.
—Precisa de uma carona pra casa?
—Não, estou bem. Te explico melhor depois, não posso me atrasar pro café. A Babá não gosta de atrasos...
—Quem?
—É uma longa... Doutor? Alô?-A ligação havia caído. Ele não tinha desligado na minha cara, tinha?
—Já terminou?-Diego perguntou, atrás de mim, quase me matando de susto.
—Jesus.
—Nem de longe. -Entreguei o telefone pra ele.
—Você se move como um fantasma.
—Essa é a intenção. -Piscou. -Está mudo. Merda.
Seguimos para a cozinha, encontrando o resto da família. A Babá não estava presente.
—Allison, você não pagou a conta do telefone?-Diego perguntou.
—Eu? Por que está perguntando pra mim?
—Achei que você era a responsável.
—Não sou a única nessa casa. Luther, você não pagou a conta de telefone?
—Eu achei que a Vanya ia pagar. -Defendeu.
—Ninguém me disse nada. -A violinista avisou.
—Nem olhem pra mim. -Cinco disse. -Eu estava ocupado.
—Quem você matou agora?-Diego perguntou.
E começou a discussão, uns culpando os outros pela conta não paga e outras coisas aleatórias. Procurei Klaus através da mesa, notando pela primeira vez que ele não estava lá. Eu não tinha o visto quando acordei, mas tinha achado que ele havia levantado antes de mim.
—Onde você se meteu?-Murmurei.
—Estou vendo que estão muito bem dispostos. -A Babá disse, surgindo de repente. As discussões cessaram. -Vamos iniciar o café de maneira pacífica, sim?-Todos assentiram. -Ótimo. Um pouco de silêncio, por favor. -Se virou para o balcão.
—Você viu o Klaus?-Sussurrei para Vanya à minha esquerda. Ela fez que não.
—Ele deve estar se entorpecendo em algum lugar. -Diego sussurrou, sentado à minha direita.
—Droga. -Limpei a garganta, chamando atenção. -Klaus não está aqui.
—Eu sei. -A Babá disse, despreocupada. -Quem quer torradas?
***
O sumiço repentino de Klaus me deixou inquieta. Ninguém parecia preocupado e Luther até disse que isso era normal no irmão: Klaus era um espírito livre e incontrolável. “Ele vai aparecer”, disse por fim, antes de correr para o treino.
Tomei coragem para ir até a Babá, que estava num escritório, fazendo anotações.
—Com licença. -Pedi. A mulher ergueu a cabeça, me encarando. -Sabe dizer onde Klaus está?
—O número 4 está de castigo. -Não era isso que eu esperava ouvir.
—De... Castigo?
—Sim. Eu o peguei bêbado essa manhã. Parece que conseguiu sair de madrugada e comprar uma garrafa. Esse tipo de comportamento é inaceitável, então o coloquei de castigo. Agora, se não tem mais perguntas... -Ficou de pé. -Tenho muito o que fazer.
—Ah... Tudo bem. Eu... Com licença.
Comecei a me afastar, a mente trabalhando, cheia de perguntas. Klaus tinha fugido para se embebedar... Mas onde ele estava agora?
“A ideia foi dela. Da Babá. Ela achava que isso ia aperfeiçoar meus poderes”.
—Klaus. -Murmurei, o coração disparando no peito.
Comecei a correr, saindo por uma porta lateral e dando de cara com o jardim. Tinha começado a chover forte depois do café.
O mausoléu estava bem ali, uma coisa feia, assustadora e nada convidativa. Eu não conseguia imaginar Klaus indo pra lá por conta própria, e ideia da Babá o arrastando até lá me deixou em pânico.
—Klaus!-Abri as portas.
O dia mal estava claro, mas iluminou o suficiente o interior do mausoléu, me deixando ver as gavetas onde mortos repousavam e Klaus, encolhido no chão contra a parede, as mãos nos ouvidos.
—Você está bem?-Corri até ele, me abaixando. -Klaus, fala comigo...
—Parem!-Gritou. -Eu mandei vocês calarem a boca!
—Klaus!-Agarrei seus braços. Ele abriu os olhos devagar, confuso.
—Como fez eles pararem?
—O que?-Olhei em volta, mesmo sabendo que não podia ver nenhum dos fantasmas que o atormentavam. -Há quanto tempo está trancado aqui?
—Eu não sei... Mal tinha amanhecido quando ela me pegou... -Esfregou os olhos. -Esse lugar continua assustador pra caralho. São todos perturbados aqui, não param de gritar... Péssimas lembranças.
—Então é melhor te tirar daqui. Vem. -O ajudei a levantar.
—Eu não quero voltar pra lá, Mallory. Não agora.
Nos escondemos numa sala no último andar da mansão. Klaus ficou um tempo sem falar nada e eu decidi não mencionar o rosto molhado dele. Nunca julguei ninguém por chorar, não ia começar agora.
—Se sente melhor?-Perguntei, sentada ao seu lado.
—Sim. Obrigado. Como descobriu que eu estava lá?
—Perguntei pra Babá se ela sabia onde você estava e ela disse que te castigou por fugir e beber. O resto foi um chute.
—O chute perfeito. Ben acha que tem algo acontecendo, alguma coisa grave. Eu vou ter que concordar, tem uma pessoa psicopata nessa casa além do Cinco.
—A gente devia chamar a polícia?
—Não. -Ficou de pé. -A gente tem que enfrentar ela, fazê-la ir embora... Vamos falar com os outros, nos juntar contra a Babá. Ela não vai ter a menor chance... -Ouvimos um sino tocar. -Não é hora do almoço, é?
—Não, o café da manhã acabou pouco antes de eu te encontrar.
—Talvez sejam os outros pedindo uma reunião. Vamos.
Descemos para a cozinha, mas ela estava vazia. Klaus sugeriu a sala de jantar, então fomos pra lá...
E as coisas ficaram ruins.
—Merda. -Ele sussurrou, segurando minha mão.
—Bem vindos, queridos. -A Babá saudou, um guarda chuva negro numa das mãos. -Estávamos esperando vocês.
Os cinco Hargreeves à mesa estavam amarrados em suas cadeiras, todos eles. Vanya parecia estranha, meio tonta, talvez dopada. Allison tinha uma mordaça na boca e lágrimas escorriam por seu rosto. As amarras de Luther eram reforçadas por correntes grossas. Cinco e Diego pareciam furiosos.
—Sentem-se. -A Babá mandou. Minhas pernas viraram gelatina. -SENTEM-SE!
Recuperei os movimentos ao mesmo tempo que Klaus. Ele sentou à cabeceira da mesa, e eu ao lado de Diego.
De repente, o sumiço dos celulares e o telefone mudo não pareciam só coincidências.
—Vocês devem estar se perguntando o que aconteceu... -A Babá começou.
—O que aconteceu?-Cinco repetiu. -Você enlouqueceu, é isso o que aconteceu! Você é completamente...
—Eu não aceito interrupções, mocinho.
—Queremos que você vá embora. -Klaus disse.
—E eu quero coisas que vocês crianças não podem me dar. Coisas que Reginald Hargreeves parece ter levado para o túmulo.
—Você não é babá. -Luther disse.
—Não, eu não sou.
—Nós vamos te matar de qualquer jeito. -Cinco avisou.
—Você é uma gracinha quando está de boca fechada, número 5, então faça o favor de se calar ou colocarei uma mordaça em você, como fiz com a sua irmãzinha. -Olhou para Allison. -Eu ouvi dizer que você perdeu sua voz. -Riu.
—Corram!-Diego gritou, virando para Klaus e eu.
Não sei da onde saiu aquela força dentro de mim que me fez levantar e correr, mas aconteceu. Meu objetivo era chegar até o telefone e pedir ajuda para Doutor...
Mas de repente Klaus estava gritando e eu parei. Não podia deixá-lo para trás com aquela psicopata.
—Três horas no mausoléu não foram o suficiente?-A Babá perguntou, o encurralando na sala de estar. -Vou garantir que não saia de lá por um bom tempo...
—Não, você não vai. -Avisei, parando atrás dela. A Babá girou o braço, e o guarda chuva acertou meu rosto.
—Eu não gosto de ser interrompida!-Recuei, pondo a mão no nariz que sangrava.
—Quem você pensa que é?-Klaus gritou. A Babá virou pra ele. -Sua mulher asquerosa e má! Você não é bem vinda aqui e se erguer a mão pra Mallory de novo... -Parou de falar, engasgando.
—Você vai fazer o que, número 4?-A Babá perguntou, se afastando, e me deixando ver uma mancha vermelha na camiseta do homem, que só ia aumentando.
—Klaus!-Gritei. Ele caiu no chão e eu corri, empurrando a Babá e me abaixando ao lado dele. -Klaus!
—Corre. -Sussurrou. Coloquei as duas mãos na barriga dele, sentindo o corte e o sangue quente se espalhar e molhar o chão, a camisa de Klaus, minha pele...
—Não. Não. Não... Não! Você não pode morrer!-Apertei com mais força, sentindo as lágrimas vindo, fazendo meus olhos arderem e minha garganta doer. -Por favor, não.
Eu sabia que ia acontecer. Era muito sangue. Klaus estava pálido. Não havia ninguém pra ajudar... Ele ia morrer e isso me deixava desesperada.
—Por favor. -Sussurrei, me obrigando a apertar mais forte, como isso pudesse ajudar. Minhas mãos começaram a formigar e eu senti a pele de Klaus mexer abaixo da minhas palmas ensanguentadas. -O... Que... O que...?
Me afastei, vendo que não havia mais corte nenhum. Klaus sentou, afastando a camisa e vendo a pele intacta por baixo.
—Como você fez isso?-Perguntou, espantado.
—Não fui eu.
—Eu é que não fui.
—Interessante. -A Babá disse. Olhamos pra ela. Eu tinha esquecido de sua presença. -Agora são nove...
—Missy. -Então o Doutor estava na porta, com aquela cara de “Eu estou muito irritado” que costumava me deixar preocupada.
—Ah, droga. Você me pegou de novo. -A Babá girou, olhando pra ele. -Sentiu minha falta?
—Você sabe a resposta. Fiquei me perguntando o que você estava aprontando.
—Agora você sabe. Quarenta e três crianças especiais e o velho Hargreeves só conseguiu sete. Consegue imaginar um exército de 43 pessoas com poderes? Eu consigo.
—Então era esse o seu plano?-Ela deu de ombros. -Matar minha companheira fazia parte?
—Eu não tentei matá-la. Ainda. Klaus foi rápido ao se meter na minha mira. Na verdade, preciso dizer que estou surpresa. Ouvi dizer que a Comissão teve um encontrinho com você.
—Você disse à eles como me achar.
—Bem, eles estavam a tanto tempo consertando a bagunça da Grande Anomalia Destruidora Temporal que achei justo ficarem cara a cara com ela.
—E deixá-los me matar.
—Você me parece bem vivo.
—Não graças à você.
—Sem ressentimentos?-O Doutor deu um passo na direção dela. -Okay, entendi, você ficou bravinho. -Olhou para Klaus e eu. -Quer deixar o Doutor zangado? Mexa com as companheiras dele. É tiro e queda.
—Vocês... Se conhecem?-Consegui perguntar finalmente. A Babá, ou Missy, revirou os olhos e virou para o Doutor.
—Uma coisa não mudou... Você ainda escolhe as mais burrinhas.
O Doutor prometeu que voltaria para explicar tudo, mas primeiro tinha que se certificar de sumir com a Babá. Enquanto ele saía, levando a mulher com ele, Klaus e eu tentávamos processar o que tinha acabado de acontecer.
—Que confusão. -Murmurei.
—Mallory, preciso que responda uma coisa. -Olhei para Klaus. -Qual sua data de nascimento?
—Hã... 1° de outubro de 1989. Por quê?-Se levantou, uma expressão muito séria no rosto.
—Todos nós da Umbrella Academy nascemos no mesmo dia. Achamos que é por isso que temos poderes. A Babá falou em 43 crianças especiais.
—E...?
—Mallory, nós todos nascemos em 1° de outubro de 1989. -Fez uma pausa. -E eu acho que você também tem poderes, como a gente.
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