Eu não sabia como reagir. Eu o reparava da cabeça aos pés e ao mesmo tempo olhava para a caixa de correspondências. Eu olhava para o seus cabelos pretos e bagunçados e olhava para minhas unhas. Eu olhava para sua blusa cinza de moletom e olhava para o carro vermelho parado do outro lado da rua. E quando mais eu olhava, mais ele se aproximava. Sempre sério. Eu já ia encomendar um caixão pra mim, quando ele se aproximou.

— Olá. – ele falou, tímido.

E eu, mais tímido ainda, respondi: – Oi.

— Eu achei que aqui estaria um pouco frio. – ele tentou puxar conversa, apesar do inglês um pouco errado. Eu não sabia o que responder, pois eu me via perdido na perfeição que aquele garoto.

— Aqui é bem frio mesmo. – foi o que eu consegui dizer.

E ele continuou tentando: – Mora aqui há quanto tempo?

— Desde que nasci.

Então ele arregalou os olhos.

— Nossa, sorte a sua.

Sorte a minha? Por que sorte a minha? Se eu fosse hétero até ia, mas ele que não passou tudo o que eu venho passado aqui a vida toda. Mas eu não respondi isso, é claro:

— Eu não diria sorte. Na verdade, eu não gosto muito daqui.

— Por que não? Eu venho me mudando de casa a vida toda. E é um saco!

— Digamos que aqui não é o meu lugar. Eu não me dou muito bem com algumas coisas aqui.

— Mas não é por isso que temos que fugir sempre das situações. Já aconteceram muitas coisas com você e nem por isso você foi embora daqui, certo?

Eu não estava acreditando que o novato estava me dando lição de moral.

— Eu nunca parei pra olhar dessa forma.

Então, eu perguntei para ele por que ele havia vindo de tão longe.

— Minha mãe se divorciou do meu pai e eu tenho parentes na Inglaterra. Eles ficaram sabendo desta casa aqui na Irlanda e mostraram pra minha mãe. – ele respondeu sem hesitar.

— Eu sinto muito. – parecia que eles estavam bem sensíveis ainda.

Caio era bem curioso e não deixou de olhar para a minha perna. E logo quis saber:

— O que é isso? Você se meteu em alguma encrenca?

Ele era bem suave para falar. Até o seu tom de voz parece me tocar por inteiro. E quanto mais a gente interagia, mais eu queria conversar com ele.

— É uma longa história. – ainda não tive coragem de contar o que havia acontecido. – Vou ter que ficar com isso por quatro meses.

Caio olhou as horas no celular e respirou fundo.

— Bom, Breandán, eu preciso ir.

Eu confesso que fiquei triste com a despedida. Se dependesse de mim, ele não sairia de perto. Eu tinha tantas perguntas pra fazer. Queria saber o seu número de telefone. Qual o perfume que ele usava? Qual sua comida preferida? Qual seu estilo de música? Se eu poderia ser amigo dele no Facebook. Se ele namorava. E o principal: se ele era gay. Mas pelo visto, estas perguntas ficariam pra outra hora. Ele apenas deu dois tapinhas no meu ombro e voltou para sua casa. Eu fiquei olhando para ele até entrar em casa.

Minha mãe me chamou para jantar.

— Acho que vocês podiam chamar os vizinhos novos para almoçar com a gente qualquer dia. – eu sugeri. Meus pais se entreolharam.

— É uma boa ideia. – concordou meu pai.

— Caio me contou que sua mãe é recém-divorciada e parece que eles estão sofrendo bastante com isso. – eu sempre quis colocar um toque de drama.

— Sério? – perguntou minha mãe.

— Sim. Mãe, eu vou tomar um banho e dormir. – lembrei que acordava cedo amanhã.

Acordei e fui para a loja de CDs. E então me tornei a atração de todos. Ainda bem que consegui disfarçar o apetrecho com minha calça. Era um dos poucos lugares que eu era respeitado e que as brincadeiras não eram tirando sarro da minha cara e agredindo minha sexualidade. É lógico que a primeira coisa que contei para os meus colegas de trabalho foi sobre o Caio. O que foi a condenação em vista da minha mais nova paixão? E também não tinha nada a ver contar a eles, afinal, a loja onde eu trabalho fica perto do pub aonde tudo começou. Ou seja, do outro lado da cidade. O Caio não conhecia nada naquela cidade. O que ele faria naquela loja de CDs?

Mas as coisas são muito estranhas! E parecia que alguém estava tentando me matar. De ataque cardíaco, de preferência. Eu estava ajeitando a prateleira do fundo, a que fica os CDs de música clássica. Que quase ninguém procura. Estavam bastante empoeirados, inclusive.

— Com licença, você tem alguma coletânea de música clássica que tenha sido lançada esse ano? – eu havia reconhecido aquela voz. Eu me enganei pensando que o Caio não se atreveria a vir do outro lado da cidade.

Ele sorriu, meio tímido.

— Então você trabalha numa loja de CDs? – perguntou ele. – Já sei algumas coisas sobre você então. – completou. Eu retribui o sorriso e entreguei o CD para ele:

— Toma. Fica por conta da casa.

— Tem certeza?

— Absoluta. Eu estou te dando.

Naquele instante, eu queria mais do que tudo pedir seu número de celular ou até mesmo tomar coragem e chamá-lo para sair. Mas não rolou.

— Então... a gente se vê mais tarde? – ele se despediu.

— Claro.

Ele saiu da loja e eu fiquei parado, olhando para a porta feito um idiota.