The Proposal - Brittana
8 Doce Manhã
Em companhia das Pierces mais velhas, Santana e Brittany enfim se acomodaram à mesa da cozinha. O café da manhã sobre a madeira era farto, com diversas opções para se escolher. E o cheiro? Era tão, tão bom que dava água na boca e o estômago roncava em sinal de esperança. Talvez, a ideia de tomar café em família não fosse tão ruim assim. Ainda mais quando James, aparentemente, não daria o ar da graça tão cedo por ali. As quatro mulheres começaram a se servir.
— Papai já comeu? — Brittany perguntou a mãe.
— Sim, ele teve que sair logo cedo pra resolver uns negócios. Mas, não vai ficar o dia todo fora não. Até o fim da tarde ele volta, você vai ver.
— Entendi.
A dos olhos azuis fechou a cara, despejando cereal numa tigela. Então, Santana se atentou ao fato dela não pôr leite no cereal, e se questionou mentalmente se isso era reflexo de seu mau humor, ou se Brittany simplesmente o comia assim mesmo. A segunda hipótese era a correta. Mas, não era como se ela se importasse. Claro que não. Imagina só. Apenas... Era um pouco incomum ver a outra aborrecida daquela forma. De qualquer maneira, voltou a atenção para o próprio café rapidamente.
— Meninas, vamos levá-las pra sair mais tarde. — Susan avisou. — Preparamos uma surpresa na cidade.
— Ah, legal vovó... — Brittany olhou para Santana, que arregalou os olhos para ela de forma intimidadora no mesmo instante, como se exigisse que ela perguntasse para onde iriam. — E eu posso saber pra onde vão nos levar?
— Não, querida. Senão deixaria de ser uma surpresa, né.
— Tudo bem. Mal posso esperar... — Ela fitou a noiva de mentirinha mais uma vez, e sorriu. — Aliás, nós mal esperamos né, San?
— É... É tanta ansiedade que nem cabe em mim, coração.
Elas continuaram comendo, e ao passo em foram terminando, Amélia levantou-se indo buscar um álbum de fotos. A dos olhos azuis quase engasgou, ao se dar conta.
— Ah, Santana, querida... Olha só a nossa Brittany quando pequena.
— Mãe, não tem necessidade. — Ela riu sem graça, tentando impedi-la, mas Susan estava do lado de Amélia. Duas contra uma. — Por favor... Não.
Na verdade, eram três contra uma.
— Eu adoraria ver. — Santana disse, contrariando-a.
— Viu só? Deixe de timidez, Britt. — A vovó Pierce a repreendeu. — Onde já se viu querer privar a futura esposa de ver suas melhores lembranças.
— É, onde já se viu Britt-Britt. — Ela provocou.
— Pois é... Não liga, Santana. Ela era uma criança adorável. Olha aqui... — Amélia sentou-se do lado da nora, apontando foto por foto. — Essa tiramos ainda no hospital. Depois com a primeira roupinha, no carro... Aí quando chegamos em casa, no berço do antigo quartinho. A propósito, guardamos ele até hoje lá no porão, se quiser ver mais tarde te levamos lá.
— Claro, own... Tão fofa.
— Não é?
— Aqui o primeiro banho, veja. — Susan ajudou a contar. — Sempre foi muito fã de água essa menina, era uma festa toda vez... Ah, bons tempos. Parecia um peixinho.
— Ah, até hoje ela parece um peixinho. Olhem só essa cara.
Brittany foi se afundando na cadeira, ao passo que Santana divertia-se vendo as fotos e ouvindo as descrições sobre a infância da assistente. Estava amando, ainda mais porque fora obrigada a participar daquele café e agora achara algo muito divertido de se fazer e tirar algum proveito.
(...)
Enquanto a Pierce mexia em seu notebook, Santana tinha em mãos dois manuscritos diferentes e grifava coisas neles. Já fazia alguns bons minutos que as duas estavam ali sozinhas no quarto... Em completo silêncio, cada uma em seu canto. Uma hora, naturalmente, a Brittany se enjoou e resolveu fitar a morena. Bom, é só que... As redes sociais não estavam lá essas coisas no dia, apenas isso. Nada interessante pra ser visto na internet, nadinha mesmo. Não tinha culpa se era um mal dia para comentários e vídeos e memes e jogos, mensagens, séries e tudo o mais.
— Trouxe trabalho pra cá, é? — Ela puxou assunto, rindo. — Não é a toa o peso das suas malas.
— Não estamos de férias, Brittany. Logo, sim eu trouxe. Não gosto de acumular trabalho.
— Percebi... Posso ver?
Olhos castanhos a acharam, e a Lopez balançou a cabeça em afirmativa. Brittany se levantou e chegou perto da cama, pegando um dos manuscritos. Era de algum autor que nunca tinha ouvido falar até então.
— Hmm. — A mais alta sentou-se na beirada do colchão. — Parece uma ótima história, mas...
— Ele tem um sério probleminha com a gramática. É, ninguém é perfeito. — Elas riram, e Santana a entregou o outro manuscrito. — Esse aqui é melhor nesse quesito.
— Wow, olha só... Ousado.
— Excêntrico, eu diria.
— Qual tem mais chance?
— Você ainda me pergunta? — A editora-chefe satirizou. — Erros gramaticais do nível desse outro aqui é uma tortura pros olhos, mas que a história é interessante é. Dá raiva. Sinceramente, ele tem muita sorte de eu persistir na leitura, afinal nunca se sabe quando a próxima J.K. Rowling vai brotar.
— Verdade...
— Por falar nisso, foi uma experiência e tanto ver todos aqueles álbuns de família.
— Nem me fala. — A Pierce riu. — Sorte sua que só te mostraram os quatro primeiros.
— Acho que temos noções bem diferentes do que é sorte. — Santana a acompanhou no riso. — Sua infância foi um evento bastante badalado, e fotografado.
— É... Pior que foi mesmo.
Elas ouviram batidas na porta e se entreolharam, sem saber o que podia ser.
— Vou lá ver quem é. — Brittany avisou, afastando-se.
Quando abriu a porta, deu de cara com Amélia. Que sorriu.
— Tudo bem, mãe?
— Sim, sim. Só vim dizer que seu pai voltou e quer falar com você... A sós.
— Agora?
— É... Tá ocupada?
Ela olhou para dentro do quarto, enxergando Santana que desviou os olhos dela no mesmo instante. Talvez, fosse melhor ela sair do cômodo. Definitivamente, ir falar com seu pai era o caminho certo a se seguir. Seu coração andava estranho demais.
— Não. — Ela deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. — Cadê ele?
— Lá no campinho de golfe.
— Ok. Tô indo lá.
(...)
Olhos azuis avistaram James, e Brittany acenou com a cabeça para o mesmo, ao passo que chegava até o ponto onde ele se encontrava. Possuíam um pequeno campo de golfe nas terras da propriedade, e o homem vivia por lá quando não estava trabalhando.
— Queria conversar comigo?
— Sua mãe achou essas bolas ecológicas... — Ele tentou soar descontraído. Brittany odiava isso. — Elas dissolvem na água. Não sei como ela encontra essas coisas.
James deu uma tacada, e a loira cruzou os braços. Esperando, calada.
— Por falar nela, aparentemente ela tá meio zangada comigo. — O homem continuou. — Disse que eu fui um péssimo anfitrião ontem. Bom, é só que... Foi um choque descobrir que você ia se casar, ainda mais quando nem sabíamos que estava namorando. Mas, o que eu queria te dizer mesmo é que preciso me desculpar com você, filha... Por tudo o que eu disse ontem, e pelo meu comportamento também. Você sabe que às vezes eu posso ser difícil.
— É... E como.
Ele guardou o taco de golfe que usava numa bolsa própria, e abriu os braços.
— Você me perdoa?
— Tá... — Brittany aceitou o abraço, levemente esquiva. — Eu te perdoo.
Os dois se separaram, e James voltou a falar.
— Tem mais uma coisa que queria discutir com você...
— Sobre?
— Minha aposentadoria. Andei revendo meus planos e isso me fez pensar. — Ele retirou um outro taco da bolsa de golfe, para assim voltar a jogar. — Eu e sua mãe fizemos tanta coisa nessa vida, basicamente conquistamos toda a nossa fortuna do zero juntos. Mas, não vale de nada se...
— Não tiverem pra quem deixar. É, a gente já falou disso milhares de vezes.
— Sim, e vamos continuar falando. — Ele impostou a voz. — Você tem responsabilidades aqui, Brittany. Fui extremamente tolerante com você quando resolveu ir perder tempo em Nova York. O fato é que agora já chega, não acha? Preciso que pare de perder tempo e comece a agir feito uma adulta.
— Huh... Pode parecer estranha pra você a ideia da minha vida em Nova York sentada num escritório, lendo livros, só que... É isso o que me deixa feliz todos os dias. Consegue entender, pai?
O Sr. Pierce olhou para o chão, bufando. Balançou a cabeça, sisudo.
— Feliz, claro. Você sabe muito bem o que é isso.
— Quer saber? Foi um erro ter vindo aqui, eu não aceito suas desculpas. — Ela se virou, indo embora enraivecida. James estava cada vez mais desagradável. — Bom jogo pra você!
(...)
Brittany retornou ao quarto, pisando forte no chão. Santana a fitou, notando o mau humor dela instantaneamente. Era melhor nem perguntar. Ela passou a abrir o guarda-roupa, e mexer nas roupas indelicadamente. Puxou algumas peças próprias, e virou-se em direção a morena.
— Se troca. — A Pierce mandou. — Vamos atrás de um celular pra você.
— Agora? Achei que fossemos esperar pra ir com sua mãe e sua avó.
— É, mas houve uma mudança de planos. A gente encontra com elas em algum lugar da cidade depois. Aí aproveitamos e almoçamos bem longe daqui.
— Certo...
Ela se ergueu da cama, indo separar um modelito também. Não gostava de ver a loira daquele jeito... Certamente, não a importava tanto assim. Óbvio. Mas, ainda sim, não gostava. A latina se dirigiu ao banheiro para vestir a roupa de sair e Brittany fez o mesmo, só que no quarto. Quando ambas estavam prontas, elas desceram juntas as escadas para o primeiro andar da residência, Brittany na frente de Santana praticamente correndo.
— Oh, vão a algum lugar garotas? — Amélia indagou.
— Sim, Santana perdeu o celular e estamos indo comprar outro na cidade. — Brittany explicou, depressa. — Nos encontramos mais tarde em frente ao restaurante da Carole, tá bem? Mandem mensagem pra mim. Beijo, amo vocês!
— Tchau! — Susan acenou, encarando a nora na sequência. — Essa juventude, tsc, tsc.
As noivas atravessaram a ponte, e pararam frente a um dos dois barcos estacionados naquele ancoradouro da ilha particular. Um deles pertencia a James, o outro era o que Amélia e Susan sempre usavam, havia um terceiro extra na garagem, mas ele era para emergências, logo o que sobrara para elas usarem naquela ocasião era o jetski. Brittany esperou que Santana se vestisse com o colete salva-vidas, então decidiu avisá-la, enquanto o fazia também.
— Vamos de jetski.
— O quê? Não, não vamos não...
— Vamos sim. A não ser que queira ir com a minha família depois. — A loira subiu no veículo, e chamou-a com a mão. — Vem logo, vou devagar.
— Por que não podemos usar um dos barcos?
— Ué. Achei que não curtisse barcos, chefe. — Ela ironizou, suspirando no segundo seguinte ao notar as feições infelizes da outra. — Um deles minha mãe e minha avó vão usar, naturalmente o outro é do meu pai e ele raramente para em casa.
— Vocês só têm dois barcos?
O tom na voz de Santana era de descrença total, afinal de contas, os Pierces eram ricos. Aquilo não colava.
— Vai subir ou não? — Brittany não respondeu, aborrecida. — Tô cansando aqui, decide logo ou eu tô indo sem você.
— Tá, tá... Eu vou.
— Ótimo.
Santana se aproximou, sem jeito e montou no jetski, atrás da Pierce, gradualmente... Bem devagar, temendo pisar em falso. Tudo bem que já havia aprendido que o Alasca não era lugar de salto alto e portanto não estava usando um, mas mesmo assim, o perigo era evidente.
— Você precisa se segurar em mim. — A mais alta avisou.
— É, eu sei!
— Então, segura!
— Quieta!
A latina alcançou o tronco da outra e envolveu-o, hesitante.
— Até que enfim...
— Quer parar de falar?
— Eu adoraria.
Por sorte, o fato de ambas estarem de colete salva-vidas diminuía o contato físico entre elas, por mais que ele ainda existisse, não era tão próximo e acentuado assim. Zona segura. A viagem até a cidade foi sossegada, o que significava que, muito provavelmente, estava fazendo bem ao humor da dos olhos azuis, como também a Lopez. Isso era bom. O jetski não parecia tão tenebroso mais. E a paisagem das montanhas preenchendo o horizonte era linda. O frio ainda presente, mas suportável.
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