The Princess
1 1 – Invasion
Notas iniciais
Naquele dia, Crystal finalmente havia confirmado sua falta de sorte.
O chão tremia a cada explosão que alcançava seus ouvidos, mas não podia parar de descer os degraus com a maior rapidez que conseguia enquanto seus dois guarda-costas se preocupavam em retirá-la do prédio. A garota deveria estar histérica naquela situação, porém, a única coisa que sentia, era ódio daqueles invasores inoportunos e deveras irritantes que estavam destruindo a cidade que viera conhecer.
Assim que chegaram à recepção, havia um tumulto de pessoas indecisas, afinal, se ficassem, poderiam ser facilmente esmagados caso decidissem jogar uma bomba no prédio; se saíssem, poderiam ser mortos mais facilmente ainda pelos invasores cinzentos, feios... E familiares para a garota.
— Ahlan, precisamos sair daqui o mais rápido possível! — o tom alto e urgente de Philip a trouxe para o presente, focando no moreno ao seu lado. — Se ficarmos e o prédio vir abaixo...
— Se sairmos, seremos mortos também! — retorquiu o outro, passando uma das mãos pelos cabelos escuros e compridos. — Não é uma opção a se considerar. — dissera, como se encerrasse tal discussão, mas Philip continuou mostrando seu ponto de vista, acabando por esquecerem a loira naquele instante, que andou até a saída fascinada demais pela batalha que ocorria.
Ela nunca foi alguém que se metia em brigas, pois fora devidamente educada para burlar coisas como isso. Lutar não era algo que uma princesa faria para defender seu povo ou pessoas inocentes, de acordo com sua mãe. Deveria proteger sua vida antes de pensar em qualquer outra, afinal, quem reinaria se falecesse?
Contudo, Crys estava pouco se lixando para os sermões que já recebera, sentindo aquela estranha adrenalina correr por seu corpo tão rápido que, a próxima coisa que notou, era que havia saído do hotel. Carros pegavam fogo e pessoas tentavam se abrigar – ou apenas corriam apressadas para o mais longe que conseguiam.
O problema daquela situação era que, quanto mais explosões ocorriam, mais ela queria estar nas ruas fazendo algo para ajudar. Retorcia seus dedos pensando nas vezes em que sua mãe discutira consigo por se meter em situações pouco parecidas com aquela e, sempre, ser ela a machucar alguém.
Não era algo que alguém pertencente à realeza faria.
Não era o porte de uma princesa.
Não era sofisticado.
E, como sempre, a garota estava pouco se importando com tal opinião.
Percebendo tardiamente que não havia nenhum de seus seguranças por perto, ela correu em direção a uma rua qualquer, sempre olhando por sobre o ombro para confirmar que não estava sendo seguida. Objetos voadores iam de um lado a outro, saindo de um aparente buraco negro no céu sobre um grande prédio escrito Stark, e enormes alienígenas de metal costuravam pelas ruas batendo com certa força nos prédios de esquina, assim como aqueles que andavam por terra, atirando em qualquer coisa que se mexesse em seus campos de visão.
Algo no fundo de seu cérebro insistia em lhe dizer para sair dali, no entanto, quando um daqueles seres surgiu repentinamente em sua frente, a primeira coisa que fizera foi chutar aquela arma das mãos do mesmo, logo fazendo o mesmo no peito do alienígena tão forte que ele cambaleou, lhe dando tempo para pegar a bendita arma para acertá-lo no centro do peito. Ao observá-lo cair no chão, foi que se deu conta do que fizera, e fechou seus olhos por alguns segundos.
— Mas que... Droga! — exclamou baixo, soltando um breve suspiro em seguida. Ela estava se sentindo bem, mesmo achando estranho ter reagido tão rapidamente e, pensando naquilo, Crystal riu baixo. — Acho que meu nome do meio está me influenciando demais. — soltara outra risada, que soou mais alta que a anterior, logo percebendo outros bichos estranhos surgindo, então se posicionou no meio de uma das pistas, exalando uma coragem que nem sabia que tinha. — Que os deuses me protejam.
∞∞∞
Crystal entrou em um prédio para se esconder, retirando sua jaqueta jeans em farrapos apenas para jogá-la em um canto aleatório enquanto se recuperava. Havia derrubado diversos daqueles seres. Porém, parecia que, quanto mais matava, mais apareciam. Tinha de ter uma forma de fechar a porcaria daquele buraco de alguma forma...
Gritos alcançaram seus ouvidos, fazendo-a se apressar para o lado de fora, mas parou assim que viu um homem particularmente muito lindo em uma roupa azul, vermelho e branco carregando um escudo. Ele se encontrava sobre um táxi, e falava com altivez, passando instruções a dois policiais que, pelo que podia perceber, não estavam o levando a sério. Dois daqueles bichos que, agora, ela percebeu serem alienígenas vindos do espaço, estavam se aproximando do desconhecido, então Crystal gritou:
— Cuidado! — estava prestes a ajudá-lo quando ele se virou para trás, golpeando ambos com uma habilidade notável e uma força quase invejável.
Ela observou tudo com extrema atenção, como se o homem à sua frente fosse um deus em terra, logo sorrindo para si mesma pelo pensamento ridículo, afinal, era óbvio que aquele homem não era um. Deuses não vinham ajudar meros mortais em necessidade, apenas ouviam suas preces e mandavam seus subordinados. Viu que um dos policiais falou algo no rádio, em seguida começando a mover diversas pessoas para algum lugar assim que o olhar do loiro pousou na garota.
— Você deve ir com eles, aqui não é seguro. — avisou com seriedade, analisando as escoriações leves pelos braços dela, que nem ao menos os sentia. Arranhões não matavam ninguém.
Crystal ergueu a sobrancelha, mais do que disposta a retrucar, mas antes que pudesse, viu outro daqueles malditos bichos horrorosos e agiu por simples instinto. Pegou um pedaço de ferro que vira mo chão e simplesmente atirou na cabeça do alienígena com uma força que nunca tinha sentido antes, atravessando a cabeça do ser. De início, ficou surpresa consigo mesma. Logo a seguir, mudou sua expressão para algo mais firme.
— Acho que isso é um exemplo claro de que posso me defender perfeitamente sozinha. — pronunciou assim que voltou a encará-lo, notando certa surpresa em seu rosto quando pulou de sobre o carro, caindo com perfeição em frente à loira. — Essa roupa deve fazer sucesso entre as mulheres. — soltara com certo humor ao caminhar ao lado dele, que apenas a olhou de maneira estranha, arrancando um breve suspiro da garota. — Vocês precisam fechar aquele buraco no céu, senão essa porcaria não vai parar, e mais pessoas vão morrer nas mãos desses bichos horríveis.
Ele parou, parecendo refletir por alguns segundos antes de voltar seu olhar para a jovem.
— Qual seu nome?
— Crystal. — Falou, cruzando os braços contra o peito, e meneou a um pouco a cabeça, como se daquele jeito, fosse vê-lo melhor. — E você?
O loiro a examinou antes de dizer:
— Me chame de Capitão América.
Crystal quase bateu na própria testa, pois aquilo era óbvio demais, mas como sempre, era lenta o bastante para demorar a processar.
— Nossa... Como sou idiota! — exclamou, revirando os olhos para si própria por ser tão lerda. — Isso explica totalmente sua roupa estilo placa de néon.
O Capitão reprimiu uma risada antes de começar a se afastar.
— Fique de olho em um cara de verde voando nesses negócios...
— Os planadores? — chutou Crys ao olhar para cima, vendo diversos daquelas coisas indo e vindo. — Beleza, vou tentar, mas... O que faço com ele se o encontrar? — questionou alto, vendo-o olhar por sobre o ombro em seguida.
— Apague-o. — a garota sorriu de uma maneira quase indecifrável antes dele sumir de seu campo de visão, começando a olhar para cima vez ou outra enquanto matava alguns aliens que cruzavam seu caminho.
Crystal parecia ter nascido em meio a uma batalha, pois mesmo respirando de forma pesada, e com o corpo um tanto dolorido, ela não conseguia parar. Era como se sua alma fosse guerreira desde que era uma criança, mas só houvesse descoberto naquele instante, no meio de uma que nem ao menos sabia se venceriam.
Em uma pequena pausa, ela estava se recuperando encostada a uma parede quando viu ao longe um cara com chifres dourados dirigindo um planador. A primeira coisa que lhe veio à mente foi rir, contudo, quando mirou as roupas do indivíduo, ficou séria de imediato.
— Te achei, seu cretino... — seu olhar passou por tudo, encontrando uma flecha enfiada em um dos bichos, então correu até ela, puxando-a com certa dificuldade antes de olhar para cima e, aproveitando que seu alvo estava se aproximando, apenas reuniu toda a força que tinha antes de atirá-la contra o inimigo.
Demorou um curto espaço de tempo, mas quando viu o corpo dele caindo, se apressou para alcançá-lo, cuidando para que nada a surpreendesse... Até que parou assim que o viu ficar em pé com a flecha em uma das mãos, e um cetro na outra.
— Tem uma ótima mira, e uma força surpreendente, midgardiana. — Essa voz... Eu conheço essa voz, pensou ao se forçar a lembrar. — Pena que sua vida não irá durar muito. — e a mirou com um sorriso macabro no rosto que, até mesmo naquela expressão um tanto medonha, era bela aos seus olhos.
— Eu conheço você. — Crystal soltou antes que pudesse pensar. — Santo Odin, você estava em um sonho meu! — viu um ódio estranho passar rapidamente pelo olhar do homem antes de ser substituída pela curiosidade. E ela viu a gafe que cometera logo com o inimigo. — Droga...
Ele voltou a analisá-la, aproximando-se com certa desconfiança antes tocar a ponta do cetro no peito da garota, que se afastou com certa rapidez, confusa com tal ato. Os orbes verdes tornaram-se ainda mais curiosos, mas também interessados na humana que, aparentemente, o conhecia e venerava os deuses de Asgard.
— Como assim me conhece de um sonho? — questionou devagar, nunca desviando os olhos da loira, que começou a se sentir desconfortável por estar tão próxima a alguém que estava bombardeando Nova York com um exército de bichos feios.
E aquele pensamento a fez se tornar mais corajosa.
— E isso por acaso lhe interessa? — retorquira com uma grosseria notável, estreitando os olhos escuros, como também sérios, na direção do seu inimigo. — Eu vim para NY ter um pouco de paz e liberdade, mas um idiota sem ocupação de chifres ridículos e roupas completamente fora de moda inventou de invadir a merda da cidade com bichos horrorosos! — gritou com raiva, e o pegou pela roupa para puxá-lo com força, mas acabou tocando de forma involuntária na pele do pescoço dele. Um arrepio subiu por sua espinha, assim como um nome que não queria pronunciar, mas que saíra por seus lábios sem que pudesse ter qualquer tipo de controle, acompanhada de uma pergunta. — O que Sigyn tinha a ver com você?
Aquela pergunta tão simples o pegou de guarda baixa, pois a imagem de Sigyn se sacrificando para salvar sua vida viera à mente do Trapaceiro de súbito, fazendo com que seu coração se apertasse e sangrasse como nunca ninguém o fez. Sua princesa... Sua luz... Havia se transformado em mais uma estrela em meio a milhares de outras já existentes. A melancolia tinha tomado conta do rosto de Loki, mas assim que voltou a perceber a garota o observando com uma suavidade muito familiar, sua raiva aflorou.
Ele puxou a mão dela de suas vestes com brusquidão, apertando o pulso da loira com certa força.
— Não lhe diz respeito, sua insignificante! — pronunciara baixo, mas Crystal sentiu a dor que o desconhecido tentava esconder, e isso a fez encolher seus ombros, como se aquilo doesse dentro de si, mesmo sem uma justificativa coerente. — Eu deveria matá-la somente por se atrever a me dirigir a palavra.
Sabia que deveria sentir medo com as ameaças proferidas pelo que ela percebeu ser um deus, mas que ainda não conseguia crer realmente. Sigyn era a deusa da fidelidade, e recordava que, o único ao qual casou antes de se tornar parte do Universo era... Não... Não era verdade. Deuses eram apenas divindades que os nórdicos criaram para terem suas próprias crenças, não existiam na vida real. Foi nisso que sua mãe a forçou a acreditar.
O grande problema era que nem sempre Saleev Redwin falava a verdade.
— Loki, o deus da trapaça. — sussurrou para si mesma, logo examinando as roupas dele mais uma vez e quase batendo em si mesma de novo por não ter se tocado, embora fosse muito difícil de acreditar. — Este é você, não é? O irmão que viveu boa parte da vida à sombra de Thor, que por culpa do próprio pai, permitiu que o ciúmes e a inveja tomasse conta de seu coração. — as palavras saíam da garota como se alguém a comandasse, como se quem quer que fosse quisesse que ela se aproximasse dele.
O moreno apertou o pulso dela com mais força, trincando os dentes enquanto a loira guinchava baixo de dor.
— Você não sabe de nada! — rosnou entredentes, sendo encarado com coragem por olhos castanhos escuros confusos, que fez questão de ignorar para não ficar tão confuso quanto. — É só mais uma vida inútil nesse planeta!
— Vida inútil que não pode controlar, seu deus idiota! — Crystal revidou, pedindo mentalmente a qualquer divindade existente que ele não intensificasse seu aperto, senão seu osso partiria. — Espera... Você está comandando uma invasão, não deveria estar em outro lugar ao invés de estar em companhia de uma midgardiana desprezível?! — provocou-o com certa raiva concentrada em sua voz, mas não tanta quanto à dele. Aquela aproximação não estava indo conforme previra, ainda mais quando levava em conta a sensação incômoda de já conhecê-lo a ponto de poder pará-lo. Algo impossível, pelo que era capaz de notar.
O deus pensou por mais tempo do que ela estava disposta a aguentar, então resolveu puxar seu braço para soltar-se do maldito, no entanto, ele o soltou apenas para pegá-la pelo antebraço. Crystal o olhou confusa, mas também curiosa.
— Você vai me ajudar a chegar ao topo do prédio, e virá comigo por precaução. — o rosto da garota fora tomado pela incredulidade. O que ele estava pensando, afinal?! — Quero saber quem é você, de onde vem e por que sabe tanto sobre nós.
Crystal, de forma completamente repentina, começou a rir da cara do moreno, que deixou a seriedade tomar conta de suas feições, e ficou daquela forma até que a loira parou, encarando-o de sobrancelha erguida.
— Por que acha que pode me controlar? — enfim perguntou, erguendo o queixo de forma que tomasse uma postura defensiva, e tão arrogante quanto à do deus da trapaça. — Sou uma princesa, seu insolente idiota! Minha mãe me ensinou tudo sobre vocês, que era sempre para respeitá-los. Mas vendo como está agindo aqui e agora, não merece um pingo do respeito que demorei a criar com relação a você. — ela não iria aceitar que mandasse em si por nada no mundo. Se não permitia que sua mãe o fizesse, imagina um deus burro que inventou de invadir a Terra apenas pelo desejo de poder... Mal sabendo o que tinha em mãos ali, a sua frente.
Loki já estava perdendo sua preciosa paciência com aquela garota e, quando foi para colocá-la em seu devido lugar, a loira arregalou os olhos, puxando-o para dentro de uma das construções. Assim que o obrigou a se abaixar, uma explosão soou atrás de ambos, tremendo o chão e fazendo cair alguns escombros em cima dos dois, mas nada que os ferisse gravemente. Ambos esperavam a poeira baixar antes de erguerem as cabeças, logo se sentando em lados opostos enquanto se recuperavam do imprevisto ocorrido.
— Por acaso você avisou seus soldadinhos que não deveria acertá-lo com uma bomba caso estivesse em terra? — zombou da cara do deus, que a encarou com os olhos estreitados. Crystal riu por um momento. — Suba por essa escada, vai dar no topo e você vai poder realizar suas “maldades”. — a princesa fez questão de destacar as aspas em sua frase ao se levantar, logo sacudindo suas roupas para tirar ao menos um pouco da poeira que tinha nelas. — Espero não vê-lo de novo. Você é um pé no saco. — falara por fim, em seguida tomando um caminho para longe de Loki, e evitando qualquer contato visual com ele pelo simples fato de lhe trazer uma sensação engraçada no estômago.
— Espere, sua insolente! — suspirando, ela parou de caminhar para olhá-lo por sobre o ombro, vendo-o se erguer e encará-la com tudo, menos com indiferença. — Quero seu nome. — pediu, embora parecesse mais um comando.
A garota refletiu por alguns instantes. Crys poderia contar numa boa, afinal, quem acreditaria que logo ele, o deus da trapaça, havia batido um papo com uma reles mortal como ela?
Então acabou dando de ombros ao afastar uma mecha de cabelo para longe dos olhos, assim fitando-o melhor.
— Sou Crystal Redwin, princesa de Swoodwing. — e lhe deu as costas, saindo do prédio, mas tomando cuidado para não cruzar com mais um daqueles malditos monstros, afinal, não queria ser morta por um deles.
Quanto mais se afastava, mais apressava o passo e, quando se deu conta, saiu correndo em disparada, entrando no primeiro prédio que encontrara para se recostar na parede. Escorregou pela mesma, não demorando a sentir o chão embaixo de si, então fechou os olhos, respirando fundo vez e outra para controlar seu agitado coração, que batia forte contra o peito. Não conseguia entender a bagunça que sentia dentro de si. Deveria ter capturado Loki ao invés de ter conversado com ele e, ainda por cima, o ajudado a fugir.
Contudo, um lado seu sentia uma sensação ótima de dever cumprido, como se houvesse realizado sua boa ação do dia, e isso a confundiu de tal modo, que acabou por sentir raiva de si mesma. Não conseguia entender o que tinha em comum com aquele deus metido, idiota, inconsequente, arrogante, irritante e perigosamente lindo, mas queria distância dele.
Ou, ao menos, o máximo de distância que poderia se manter de um deus. Ainda mais quando ele era o mais difamado de todos.
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