Notas iniciais
Após ler uma fic de drama/tragédia e ouvir uma música pouco depois tive essa ideia.Espero que gostem. Boa leitura.

A tensão sobre a mesa era palpável.

Os oficiais superiores do pequeno exército discutiam a situação. O terrível impasse que haviam chegado. Na cadeira mais próxima da saída da barraca estava o recém-promovido major. Ainda jovem demais para ocupar a posição em tempos de paz. No entanto não eram tempos de paz. Ouvia atentamente seus superiores, se preparando para dar sua opinião que sem dúvida seria cobrada. Mas não havia nada a dizer. Tinha sido escolhido por sua habilidade estratégica e por sua fria calma na hora de tomar decisões, mas a última coisa que estava naquele momento era calmo.

Ambos os lados tinham um exército de tamanho considerável. Quando atacaram, tentando avançar cada vez mais sobre o terreno estrangeiro, confiaram em seu treinamento por muito tempo considerado superior, mas não contavam com a forte defesa rival. O ataque foi desastroso. Muitos soldados morreram. Pelo menos o dobro voltou ferido e os inimigos estavam praticamente intactos, escondidos em suas trincheiras, donos da terra que defendiam. O que era pra ser uma importante vantagem que daria fim a guerra agora era quase uma derrota certa.

O ex-major, morto em batalha, tinha cumprido seu papel na guerra. O antigo capitão, agora major, observava a dura constituição do coronel, o homem que haviam ordenado o ataque. Todos haviam concordado, mas a responsabilidade estava sobre seus ombros. Mais do que qualquer um ele ansiava por uma solução. E ela veio.

O homem que entrou pela barraca não era o que esperavam. Não vestia a farda do exército, muito menos tinha um físico de soldado. Havia uma notável área em sua cabeça desprovida de cabelo, tinha um bigode mal aparado e ajeitava nervosamente os óculos, redondos como lentes de uma luneta. Quando o mais novo capitão o anunciou seu nome houve um lampejo de reconhecimento entre os presentes, mas nada específico, apenas um nome familiar. Um arrepio passou pela espinha do major ao ouvir o nome, como se algo de ruim fosse acontecer. O tenente-coronel foi quem o recebeu.

— Estamos ocupados! — anunciou, sem rodeios.

O homem foi recebido com olhares repreendedores. Ajeitou mais uma vez os óculos. E foi com o lábio inferior tremendo que falou:

— Tenho a solução para seu problema.

A sala improvisada para reuniões ficou mortalmente silenciosa. O capitão quis ficar, mas o papel de oficial intermediário o mandava sair se não fosse convidado. E assim o fez. O homem que acabara de entrar não era um soldado, mas sim um cientista. Trazia consigo uma maleta preta. Colocou-a sobre a mesa e mostrou os papéis que havia dentro dela. Uma pequena confusão de desenhos e fórmulas químicas rabiscadas às pressas. Começou a falar sobre seu projeto, um pouco mais tranquilo agora falando sobre o trabalho que conhecia.

Vários minutos se passaram com o cientista explicando cada detalhe sobre a “solução”. Qualquer um poderia tê-lo interrompido no meio da explicação. Nenhum deles era totalmente leigo sobre o assunto e sabiam do que ele estava falando, do plano que tentava mascarar sobre um véu de tecnicidades. Por fim foi o coronel que falou primeiro, durante uma breve pausa do cientista.

— Armas químicas…

—Bom… é uma forma de ver as coisas…

— Dispensamos! — o major disse com segurança. Todos os olhares se voltaram para ele. Não só tinha rejeitado totalmente a ideia como tomado à frente ante seus superiores, coisa que não deveria fazer.

— Esta não é uma decisão sua. — O tenente-coronel disse. Frio, mas ao mesmo tempo com o máximo de diplomacia que podia usar perante aquela situação.

— É proibido. Nós assinamos o tratado sobre armas químicas. Eu não vejo mais nada a ser discutido sobre isso. — Embora continuasse com sua posição o major sabia que tinha perdido a batalha. Imaginou que ficariam do seu lado, mas o contrário estava claro agora.

— Estamos em um momento delicado na guerra. — dessa vez foi o coronel quem falou — Devemos discutir sobre todas as possibilidades. — Fez sinal para que o cientista continuasse. Ele ajeitou os óculos. Uma gota de suor escorrendo de sua testa.

— Como eu estava dizendo… Temos o bastante para um ataque direito. Foram feitas antes de assinarmos o tratado, mas ainda tem utilidade. Podemos atacar logo pela manhã, se o vento for favorável.

— Não podemos permitir isso! — Não era uma ordem e sim um apelo para seus companheiros de farda. Porém o major estava sozinho.

— Não podemos permitir que o inimigo ataque. Isso acabaria com nosso exército, já debilitado. A guerra estaria acabada. Pense em nosso país. Não podemos deixar que tomem controle dele. — o coronel concluiu — Eu aprovo a medida.

O major lançou um olhar desesperado para o tenente-coronel. Eram inferiores em hierarquia, mas se ambos se opusessem poderiam impedir o ataque. Fitou apreensivo seu superior direto lançando um olhar cauteloso para o coronel e um compreensivo para ele, para enfim dizer:

— De acordo.

— Então está decidido. — O coronel anunciou — Prepare tudo que puder. Atacaremos amanhã de manhã.

O major olhou impotente o cientista apertar a mão do coronel. Com o maxilar contraído os pensamentos voavam para uma solução, mas não havia como impedir o ataque sendo ele o de menor patente naquela sala, tirando o cientista. Sabia que aquele seria o golpe que acabaria com a guerra. O inimigo não poderia se recuperar a tempo de impedir seus avanços. Mas sua consciência não poderia permitir isso. Não só pelo tratado, mas também por seus princípios. Mesmo na guerra havia honra. E ele não era o tipo de homem que a deixava de lado. Por fim tomou uma atitude mais estratégica.

— Se vão atacar mesmo, ataquem de noite. — Viu que o coronel abria a boca para contestá-lo, mas ele foi mais rápido — De noite será mais difícil enxergar a nuvem química se aproximando.

Todos ponderaram por um momento. O tenente-coronel foi o primeiro a se manifestar a favor.

— Me parece sensato.

O coronel fez um gesto displicente, como se assunto não fosse de grande importância. O cientista abriu a boca, mas vendo que sua opinião não importava fechou-a novamente.

— Se me derem licença, tenho que ver como o novo capitão está se saindo.

O major se levantou e saiu. O coronel esperou até que tivesse certeza que ele estava longe o suficiente para não escutá-lo.

— Se o vento estiver favorável, ataque pela manhã mesmo. Não vamos seguir as ordens dele. Ele nem mesmo major deveria ser. Não podemos perder tempo.

Todos não puderam fazer outra coisa se não concordar.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, um pequeno pelotão de soldados avançava para o leste, a favor do vento. Carregavam consigo granadas de fumaça tóxica, feitas para liberarem uma grande quantidade de gás venenoso na atmosfera. O gás, mais pesado que o ar, ficaria próximo ao solo, o vento o carregaria e apenas horas depois faria com que o gás se dispersasse a ponto de não ser mais mortal.

O coronel ordenou que os soldados parassem. Estavam a uma distância segura do acampamento inimigo. Na penumbra antes do amanhecer não seriam notados. As granadas foram alinhadas, o bastante para cobrir todo o acampamento inimigo. O vento aumentou, como se estivesse ansioso para ver as mortes. Um sorriso triunfante tocou os lábios do coronel.

— Amanhã, há essa hora, os soldados iram acordar de ressaca depois de comemorarem o fim da guerra. — ele comentou ao tenente — Foi bom não termos incomodado o novo major. Espero que ele ainda esteja dormindo em sua barraca.

O tenente não tinha uma resposta para aquilo. Os soldados resistiram um pouco em deixar seu antigo capitão para trás. A guerra tinha criado certa afinidade entre eles. Mas ordens eram ordens. E os soldados as seguiram. Tinha sido sábio não colocá-lo naquela operação. Sua oposição à ideia refletiria sobre os soldados. Depois que estivesse feito não haveria sobre o que reclamar. O tenente observou enquanto uma mosca importunava o coronel, e o mesmo a espantava com tapa.

— Essas moscas! Pelo menos deixamos a mais irritante dentro de sua barraca.

A Aversão dele ao major só se comparava a sua determinação em vencer a guerra, o tenente pensou, mas não comentou nada. Quando a última granada foi alinhada um momento de tensão se passou por todos os presentes. O coronel deu a ordem para a ativação das granadas. Soldados se posicionaram e as ativaram ao mesmo tempo, recuando rapidamente para longe das mesmas, tinham apenas um minuto antes que o gás fosse liberado. Um interminável minuto de tensão transpassou até mesmo o coronel que ficou com o maxilar contraído, sério, perante a possibilidade de falha de seu plano. E então viu a primeira granada a soltar a fumaça. Depois outra. E mais outra. Todas as granadas formando uma imensa parede branca entre eles e os inimigos. Os soldados recuaram, a imagem era assustadora demais. A imensa nuvem parecia querer engolir qualquer um que estivesse por perto. A tensão só se foi quando o vento carregou o monstro de fumaça para longe deles indo em direção aos inimigos.

— Mande alguém organizar todo o exército. — o coronel ordenou — Quero todos aqui para testemunhar a derrota do inimigo.

Após horas de espera, com todo o exército de prontidão em frente ao acampamento inimigo, nenhum indício da imensidão branca e mortal foi encontrado e eles decidiram marchar cautelosamente para o acampamento. Um sentimento de triunfo tomou conta dos soldados ao não receberem qualquer ataque. Invadiram o acampamento fantasma que havia se formado após a cruel matança.

A visão era assoladora. Corpos caídos por todas as partes, peles desumanamente pálidas. Soldados que haviam corrido para se salvar, mas ao inalarem o gás caíram para morte. Alguns ainda estavam em suas barracas, mortos antes mesmo de acordarem. Alguns soldados haviam desabado por cima de suas armas, outros tentaram se salvar enrolando suas roupas em torno da cabeça, uma tentativa inútil de deter o gás venenoso. O coronel viu como seus soldados caminhavam com cautela entre os mortos, ainda receosos. Eles já haviam visto mortos outras vezes, mas a morte ainda era a morte. Por mais que tentassem nenhum deles conseguia encará-la sem ao mesmo tempo temer ela. Porém o coronel não se preocupou com eles, sabia que aquilo era apenas um problema temporário. Tudo estava de acordo com seu plano até ouvir gritos. Viu um amontoado de soldados em volta de algo que ele não conseguia ver. Estavam bem ao centro do acampamento, onde deviam estar os comandantes inimigos.

O coronel abriu caminho entre os soldados, empurrando-os ao mesmo tempo em que ordenavam que afastassem, mas sua voz se perdeu no murmúrio. Quando chegou ao centro da confusão não entendeu o porquê de tanta agitação. Havia apenas mais um corpo, diferente dos outros não carregava um arma, mas sim um tosco e comprido pedaço de madeira que, ele percebeu, servia como mastro para ascender uma bandeira branca que agora cobria o rosto do morto. Um sorriso nasceu nos seus lábios. Estariam planejando alguma rendição? Mas tão logo o sorriso se formou ele morreu. O coronel voltou sua atenção à farda do soldado morto, não era uma farda inimiga. Levantou o a bandeira branca e viu o a descrença dos soldados encarando o corpo. O segundo major que perdia em uma semana.

O capitão supervisionava o enterro dos corpos. Todos os soldados ajudaram. O coronel havia sido expulso de seu cargo, os soldados se recusando a seguirem suas ordens. O tenente-coronel havia se retirado por vontade própria. Depois de darem um enterro decente ao major, cuidaram dos outros milhares de corpos também os enterrando. Ao centro, onde o major havia morrido e também onde o haviam enterrado, ergueram um pequeno memorial onde escreveram a frase que havia em seus corações: Um homem honrado não foi suficiente para deter a ganância de outro, mas nós honraremos sua decisão.

Foi a última coisa que fizeram antes de deixar o acampamento, lamentando o preço de algumas poucas milhas que haviam ganhado com o triste avanço.

Notas finais
Essa a primeira vez que me aventuro nesse gênero então eu agradeceria muito se deixassem seus reviews aí embaixo. The Price of a Mile - https://www.youtube.com/watch?v=BEY7Ton1gO4 Muito obrigado por lerem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!