The Phantom Rider
4 Capítulo IV – Família Watanabe
Notas iniciais
Aquela terça-feira, com certeza, seria especial. A família Watanabe estava abrindo o seu restaurante japonês, o primeiro do bairro. O nome era um tanto peculiar, mas nem um pouco estranha: Watanabe’s Family. O casal da família vivia nos Estados Unidos já fazia quase quinze anos e tinham duas filhas: Mayumi e Mayami. Mayumi era a mais velha e era quem estava para ajudar no restaurante, mas estava há apenas três anos na América do Norte, com a pretensão de terminar seus estudos junto dos pais. Quanto à pequena Mayami, tinha apenas dez anos de idade, nascida e criada nos EUA. A noite seria de estreia e todos estavam nervosos. Os preparativos para a festa estavam quase prontos e prometia ser um sucesso. Já haviam lotado suas reservas e a decoração já estava quase pronta. Vestidos com os trajes típicos do Japão, a família e mais seus três funcionários esperavam a hora de abrir as portas.
– Minhas filhas estão muito lindas! – Disse senhora Watanabe, maravilhada pela situação.
As irmãs se olharam, ansiosas e finalmente a hora já estava chegando. Mayumi ajeitou o kimono de sua irmã e abriram-se as portas para entrarem no restaurante. Com um sorriso franco no rosto, a jovem foi atender aos clientes. Era uma jovem japonesa linda, com um sorriso marcante. Seu olhar era puro e um carisma de dar inveja a qualquer americana. Seu cabelo estava amarrado em um coque, deixando jogadas sobre o rosto algumas mexas que acompanhavam a franja que cobria a testa. De fato, o que mais chamou a atenção, de início, fora a decoração e a beleza de Mayumi.
Em poucos minutos todo o estabelecimento estava lotado e as reservas completadas. A decoração era toda à japonesa, com enfeites, bolas, num ar completamente oriental e aconchegante. A noite estava sendo um sucesso e todas as pessoas estavam satisfeitas. Não pararam de trabalhar a noite inteira e as horas passaram-se rapidamente, sem que se dessem conta. Porém, quando chegou meia-noite já estavam acabados e prontos para fechar o local. Caíram as três na poltrona.
– Gente! Hoje foi cansativo! – Exclamou senhora Watanabe espalhada pela poltrona.
– Nem fale, okaasan¹! – Disse Mayami. – Estou um caco, mas adorei!
– Conseguimos, finalmente. Depois de quinze anos morando por aqui realizamos nosso sonho. – Disse senhor Watanabe, orgulhoso.
Mayumi, imediatamente, levantou-se e foi em direção ao pai, lhe abraçando com carinho e respeito.
– Parabéns, outousan². Estamos todos nós orgulhos de você e da okaasan. – Disse a menina maravilhada.
Como resposta, o senhor deu-lhe um sorriso franco e bastante aberto.
Os quatro viraram os olhos para trás e se depararam com Akio levando o lixo para fora. Imediatamente, Mayumi soltou de seu pai e foi até o rapaz, pedindo para que ela mesma levasse o lixo para fora. Ele insistiu, porém, após a insistência e delicadeza da moça, ele não pôde negar e deixou que ela levasse até o depósito de lixo que não era muito longe dali. Porém a rua que dava acesso até o mesmo era muito escura e deserta. Havia alguns becos escuros e muito silêncio no ar. Àquelas horas já não se ouvia mais o barulho dos carros nas rodovias e nem o som de muitas pessoas falando. Estava fria aquela noite e a menina já sentia seu corpo arrepiar-se e sentiu também um gelo na espinha por conta de todo aquele silêncio. De repente, um som ensurdecedor de uma moto passou no meio da rua. Ela estava sozinha por ali, mas deu-se para ouvir perfeitamente aquele veículo rodando em círculos no local. Não pôde vê-lo, não pôde aproximar-se, mas ouviu tão de perto que seu coração parecia querer sair pela boca.
Tomando um pouco de força, passou a andar um pouco rápido de volta para o restaurante. Aquele ronco de motor parecia não ir embora e sentia-o cada vez mais perto. Segurou em seu kimono e apressou mais os passos, chegando a quase correr. Parecia que a estava perseguindo, cada vez mais o sentia perto. Olhou para trás e nada viu a não ser uma grande escuridão. O barulho finalmente parou... Deu meia-volta e foi para o restaurante, assustada. Como um furacão, porta à dentro, trancou a mesma e olhou ofegante para todos os que estavam presentes no salão. Observou-os bem e sua mãe chegou para abraçá-la, um tanto preocupada:
– O que aconteceu, minha filha?
Ainda atordoada e confusa, olhou para sua mãe e respondeu:
– Nada, okaasan... Só estou um pouco cansada. Acho melhor eu ir dormir um pouco.
– Todos nós! – Afirmou Sr. Nagasaki, levantando-se da poltrona. – Vamos todos dormir que é o melhor que fazemos, porque... Amanhã tem mais!
Apagaram então as luzes do estabelecimento e, num pequeno corredor por trás do restaurante, havia uma pequena saída que dava para uma casa, que era onde todos moravam.
Todos os integrantes do restaurante eram imigrantes japoneses. Além de Sr. Watanabe e sua esposa e filhas, haviam mais três cozinheiros: Akio, amigo da família, que viajou junto com eles para os Estados Unidos, Keiko, esposa de Akio, e Kojiro, o senhor que ajudou a família a crescer, sem contar também com Hajime, filho de Keiko e Akio. Quando os Watanabe vieram para os Estados Unidos, o que eles queriam mesmo era crescer na vida. No Japão eles tinham suas famílias, suas casas, mas essa mudança de vida fez com que eles buscassem muitas outras oportunidades. Durante muitos anos, a luta foi complicada. Sra. Nagasaka trabalhou como caixa de supermercado, grávida de Mayami, enquanto seu marido trabalhava de carpinteiro, enfim. Foi uma época muito difícil, mas que, depois de muito trabalho, conquistaram tudo o que desejaram com êxito. A volta de sua filha mais velha do Japão trouxe para eles uma grande alegria. Ela morava por lá, porque eles tinham o propósito de se estabelecerem primeiro, antes de levá-la para lá. A menina tinha apenas sete anos quando se foram e agora, com dezessete, só queria mesmo saber de ajudar. Ela viveu com as tias, teve uma educação primordial e isso a fez ser uma moça completamente recatada e simples, além de uma pureza rara em qualquer pessoa hoje em dia. Ela tem em si um carinho muito grande pelos pais, desde o momento que foi criada com os avós maternos em Tóquio. Estudou durante todos os seus anos letivos, dando o melhor de si, esperando pelo dia que pudesse ir para os EUA ter com seus pais. Era um motivo de orgulho para toda a família.
Seu jeito, entretanto, era tão ingênuo que nem mesmo ela notava a atenção que causava nos rapazes à sua volta. Inclusive o próprio Hajime só tinha olhos para a moça. Mas a menina, entretanto, nem mirava os olhos nele com outra intenção, que não fosse amizade das sinceras. Logo, ele não queria isso. Porém, aceitava calado. No dia seguinte, fora assim. O rapaz voltava ao restaurante, quando se deparou com a figura de Mayumi, que estava ajoelhada ao solo de grama, regando algumas flores da fachada. O jovem, rapidamente se ajeitou para poder conversar com a menina. Mayumi ergueu os olhos e deu-se com Hajime a observando. Escancarou o sorriso e cumprimentou:
– Bom dia, Hajime-kun³!
O rapaz congelou, mas, na tentativa de disfarçar, respondeu:
– Bom dia, Mayumi-san. Está regando as flores?
– Sim. – Respondeu apreciando a beleza das plantas que ela cuidava. – Não sei se percebe, mas elas estão muito lindas e vivas hoje... Eu amo a primavera!
– Muito linda... – Respondeu o rapaz, por sua vez, apreciando a beleza da jovem que, sequer notava o olhar dele.
A menina arrancou uma pequena muda e levantou-se. Segurou as mãos do rapaz com firmeza e deu a ele a flor, com um sorriso tão singelo no rosto que o fez ficar totalmente paralisado com aquela situação.
– Tome. – Disse a menina. – Eu gosto muito de você, Hajime-kun.
Ao terminar de dizer isso, a menina voltou a abaixar-se para cuidar de suas plantas. O jovem sentiu seu rosto corar imediatamente, permanecendo imóvel diante dela. Porém, quem disse que Mayumi reparou? A menina estava mesmo com vontade de cuidar das plantas. Hajime achou que, talvez, aquela fosse a melhor hora para confessar à menina os seus sentimentos. Talvez aquele “gosto muito”...
– Hajime! Mayumi! Venham aqui, queridos, por favor!
Uma voz que vinha do restaurante atrapalhou-lhe o pensamento, fazendo com que, imediatamente, se assustasse com a voz estridente. Olharam para a janela e era Sra. Nagasaka querendo falar com eles. A menina se levantou e chamou-o para entrarem. Era mais uma vez que seus sentimentos teriam de ficar guardados dentro de si. Talvez Mayumi, sequer, tomaria conhecimento disso, ou talvez, ela mesma o sentisse. Aquela frase dela entrou pela mente do rapaz e fez com que ele já imaginasse as coisas daquela forma. “Talvez ela sinta o mesmo!” – Pensou, enquanto andava. Mas ela, sequer o olhou depois disso, nem trocaram palavras e ela nem comentou mais nada sobre o acontecido. Talvez também tivesse vergonha em falar... Se a jovem sentisse a mesma coisa por ele, seus problemas estariam resolvidos! Ele iria lutar por ela até o fim e jamais que os pais de ambos iriam contra um relacionamento com eles. Muito pelo contrário! Iriam adorar! Estava já decidido... Hajime iria lutar por Mayumi.
Notas finais
[2] Nota: Otousan: Pai.
[3] Sufixo kun: Utilizado para se referir aos garotos japoneses, geralmente novos, por amigos.
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