The Phantom Rider
2 Capítulo II - A força interior
Notas iniciais
“Tá muito escuro... Eu não sei aonde eu to. Tá doendo todo o corpo e tem um barulho me irritando muito. Não consigo me mexer... Será que eu morri? Tô sentindo minha pele quente, está ardendo todo o meu corpo, é como se meu corpo estivesse cozinhando. Não sei, ao certo, o que está acontecendo... Ouço um barulho na porta... Deus? É você, Deus? Eu morri? Fui para o céu? A única coisa de que eu lembro é do meu pai me gritando e de fogo, muito fogo... Pai? Onde você está, pai? Pai! Pai! Por que não consigo mexer meu corpo? Por que tá queimando tudo? Ajudem-me, por favor! Eu quero o meu pai!”
O menino não estava acordado. Na verdade, estava em coma já fazia quase um mês. Davam poucas esperanças para ele sobreviver e a maior parte dos especialistas na área já estavam desistindo do caso. O rapaz que acompanhava o caso era o irmão mais novo de Michael, seu nome era Oliver. Ele não saía do hospital em hipótese alguma, ficava ali, ao lado do sobrinho, e só comia uma vez por dia. Sentia-se cansado, mas se culpava por não ter estado ao lado do seu único parente vivo, enquanto ele ainda podia estar com ele. Se arrependimento matasse... Ele olhava para o corpo do menino, deitado e inerte sobre a cama, enfaixado, paralisado... Com uma quantidade incontável de tubos e fios, com inúmeras bolsas de sangue, soro e mais um monte de líquidos que até mesmo ele não sabia para que serviam. Não tinha filhos, nem esposa e, muito menos família. Morava sozinho numa cidade pequena, próxima de Nova Jersey. Agora que perdeu o irmão mais velho, a única família que tinha era o sobrinho... Se sobrevivesse. Seu coração estava apertado e lhe agoniava ver aquele menino de oito anos estar preso em sua própria sorte. Ele teve 40% de seu corpo queimado, a parte lateral de seu abdômen e peito esquerdo e também a parte esquerda de todo o seu rosto, além de seu braço esquerdo e pescoço. Médicos disseram que, por muita sorte, não foi atingida também a vista. Os aparelhos ensurdecedores, que ajudavam o menino a respirar, todos aqueles remédios e, a cada seis horas, era hora de trocar os curativos... “Que sorte a do menino! Sabe-se Deus qual vai ser a reação dele quando souber do que o pai fez.” Refletiu o jovem, observando aquela pequena figura deitada.
De repente, sem, sequer imaginar, surpreendeu-se com um cochicho fraco, quase silencioso e cheio de dor:
- Papai...
Espantado, levantou-se do banco como num pulo e ficou fitando, com os olhos arregalados, o menino que permanecia ali. Sua boca se movia e os sussurros eram de dor e que pediam sempre pelo mesmo nome:
- Papai... Papai...
Oliver correu até a porta, gritando urgentemente pela enfermeira ou pelos médicos. Nervoso, nem ele mesmo sabia por quem chamava.
- Alguém aqui, pelo amor de Deus! – Gritava desesperado.
Finalmente, mas não com muita demora, apareceram o médico e a enfermeira que estavam cuidado do caso. Rapidamente prestaram socorro e observaram os aparelhos. O que media as batidas do coração estava normal e o médico, sem saber o que dizer, ficou abismado. Ele ainda não abria os olhos, mas a forma como falava já era um ótimo sinal. Fez umas anotações recorrentes ao caso e, por fim, aplicaram um medicamento para a dor. Após todos os cuidados, pediram para que Oliver se aproximasse e tentasse conversar com ele.
- Bill... Oi, aqui é o tio Oliver, se lembra? Você tá me ouvindo?
Entretanto, parece que fora em vão.
- Ele está com febre, doutor... Deve estar delirando. – Comentou a enfermeira, que estava ao lado da cama.
O médico olhou Oliver e disse:
- Venha comigo, precisamos conversar. Lucile, olhe o menino enquanto isso, por favor.
Em silêncio, ambos se dirigiram até a sala do médico. Oliver estava nervoso, suas mãos tremiam e seu coração, acelerado, era a única coisa que conseguia ouvir, além das solas dos sapatos que andavam lentamente pelos corredores do hospital. Seu corpo estava cansado, sentia sono e sua cabeça pesava. Fazia vinte dias que sua vida parou para cuidar do sobrinho. Chegando à sala, o médico se sentou e, em seguida, pediu para que o rapaz se sentasse também.
Percebendo que o jovem não iria puxar assunto, começou:
- Como sabe, o caso de Bill é muito delicado... Ele é só uma criança e ter resistido até agora foi uma grande luta pra ele. Sinceramente, eu achei que ele não fosse aguentar...
Oliver apenas o observava com os olhos escancarados, cheios de olheiras, mas querendo saber mais sobre o que viria pela frente.
- Ele ter acordado, significa que é um menino forte, com vitalidade suficiente para aguentar os traumas... Mas as queimaduras dele foram muito sérias. Ele jamais poderá ser um homem dito “normal”, pelas suas condições. Sua parte esquerda do rosto está completamente desfigurada.
- Mas não existe nenhuma cirurgia que possa fazê-lo voltar ao normal? – Interrompeu Oliver sentindo seu coração apertar.
- Ainda estão em testes, mas, ainda assim, se houver, será muito cara. Vamos testar mais alguns dias, ver até onde vai... O tratamento não será nada fácil, vai ser dolorido demais. Remédios e mais remédios, substâncias e mais substâncias... O menino sofrerá muito. É apenas uma criança.
- Mas, se meu irmão se sacrificou para que Bill sobrevivesse, então devemos respeitar a vontade dele, até o fim! – Interrompeu novamente, agora alterando o tom de voz.
- Sim, isso é certo.
Respirou fundo e, depois de uma longa pausa, Oliver perguntou:
- Quanto tempo vai durar esse tratamento? Para que cicatrize, para que pare de doer...?
- Isso depende muito do metabolismo dele. Ele é uma criança, forte, aguentou tudo, até agora, bravamente. Mas compreenda que não depende somente dos medicamentos. O menino tem que querer também. Nós somos feitos de carne e osso e temos nossos pontos fracos. Quando somos atingidos com água fervente, podemos sofrer de queimaduras fortíssimas, imagine quando somos atingidos pelo próprio fogo! As feridas de Bill são de um grau muito forte. Precisamos de muita calma e de não termos pressa. Temos que acreditar para que ele acredite também.
Oliver balançou a cabeça positivamente e, por fim, perguntou:
- E... Como vamos contar a ele sobre o que aconteceu?
Nessa pergunta o médico refletiu. A situação não era fácil. A criança era muito apegada ao pai e, por estar naquela situação, sabe-se lá o que ela poderia pensar! Levou sua mão até sua barba esbranquiçada e refletiu. Após algum tempo, respondeu:
- Ele acabou de responder a nossos estímulos... Ele precisa encontrar um tempo para se recuperar... Contaremos no momento certo, quando sentirmos que ele já pode saber da verdade.
- Obrigado, doutor... – Disse Oliver sentindo seu coração apertado.
- Não há de quê, meu jovem. Só acho que deveria descansar... Vá à sua casa, tome um banho, durma um pouco. Ficaremos cuidando do menino. Qualquer coisa, nós avisaremos.
- Mas...
- Não, por favor. Tudo o que menos precisamos é de mais um doente por aqui! – Brincou para quebrar o ar de seriedade que estava no ar.
Afinal, não era uma situação para se comemorar, mas também não era para se lamentar. O menino havia sobrevivido e estava acordando. Aconteceram muitas coisas ruins, uma vida se foi, mas a outra “viveu novamente”. E, por mais que as coisas sejam dolorosas agora, todo lado ruim, possui um lado bom também. Só depende do ângulo de quem vive.
“Tenho um mau pressentimento...”
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