The Path
3 Luar.
“Podia passar dias simplesmente pensando nela. Tudo naquele mundo a lembrava, desde a mínima flor até o mais belo luar. Perdera já a conta de quantas vezes se pegara chorando segurando uma pequena flor entre os dedos ou observando a vida se desenrolando a sua volta enquanto ele nunca poderia fazer parte daquele ciclo. Sempre seria o fim de tudo. Sempre seria a morte para tudo. Sempre seria as sombras que ocultavam tudo.”
Já fazia horas que estava sentado ali àquele rochedo. À sua frente a lua grande e brilhante se erguia para iluminar aquela noite sombria, sendo refletida em toda sua plenitude pelo mar calmo logo abaixo. Tudo estava parado, nem mesmo o vento parecia se mover. Tudo era silencio. Inclusive as lágrimas que escorriam devagar pelo rosto dele.
Levou a mão direita à face, secando as pequenas lágrimas que insistiam e escorrer pelo rosto pálido cada vez que se lembrava dela. Sua pequena luz fatidicamente apagada por ele. Se não fosse seu descontrole, suas raízes malignas e sua magia obscura provavelmente teria visto dezenas de vezes aquela lua com ela ao seu lado, dizendo coisas perspicazes sobre o mundo ao seu redor, ou comentando o quanto ele era depressivo e o quanto aquilo a deixava doente, para então rir, aquele riso límpido, alegre e inocente e empurrá-lo para lado de maneira brincalhona.
Então ela se ergueria, e correria dele, obrigando-o a correr atrás dela, os longos cachos loiros agitando-se ao redor daquele rosto sorridente. E talvez ele sorrisse pequeno e poderia até mesmo dar uma risada curta quando a alcançasse e escutasse suas reclamações, afirmando firmemente que de alguma maneira ele roubara, mesmo que isso não tivesse acontecido.
Permitiu-se um pequeno sorriso quando pensou nisso. Ela sempre fora assim. Brincalhona e esperta, séria quando precisava ser e mimada quando queria. Sempre encontrava novas maneiras de arrancá-lo de sua pequena bolha de sofrimento para fazê-lo se divertir o mínimo que fosse mesmo que ele afirmasse que não merecia nada daquilo.
A cada passo que ele dera com ela menos se reconhecia. Via surgir uma nova pessoa, um novo coração, que apesar de todos os temores, de todas as vidas destruídas que carregava com si, podia ao menos sorrir às vezes. E ela fazia por ele coisas que ele nunca esperaria dedicadas ao seu ser obscuro. Um sorriso atirado para si, um carinho momentâneo, um olhar que não o acusava de nada. Um olhar que era tão doce que ele nunca esperara existir. Muito menos dirigido para si.
E ele fizera promessas para ela. Mas quebrara a mais importante de todas. Quebrara a promessa de protegê-la para sempre. Quebrara a promessa que o mantinha no caminho do coração dela. A promessa da qual ela tanto rira e fizera troça e, no entanto que também tinha significado para a própria. Ele quebrara a promessa com seu próprio descontrole. E causara toda a desgraça que nunca desejara para a vida de seu pequeno raio de luz.
Incontáveis vezes depois de todo aquele episódio ele chorara e chorara pedindo perdão. Perdão por ter apagado a luz mais pura que alguma vez existira na terra. Perdão por ter destruído o futuro brilhante da garota que tanto fizera por ele quando todos já lhe tinham virado as costas. Perdão, perdão, perdão. Era isso que ele pedia todas as noites quando erguia o olhar para aquele céu estrelado lembrando-se das vezes que o contemplara com ela ainda viva ao seu lado.
Mas parecia que os deuses, se é que eles existiam, apenas riam de sua cara, de seu sofrimento, de seu desespero. Nunca sua dor era minimamente aliviada, por mais horas que pudesse passar de joelhos implorando àqueles deuses cruéis que o perdoassem. Talvez, pensava no fundo de seu coração, os deuses simplesmente tivessem lhe virado as costas. Por todos os seus pecados. Por todo o sofrimento que causara.
Agora, aos poucos ia se conformando com aquela dor. No fim, ele realmente a merecia. Destruíra uma vida que nunca mais se veria igual sobre aquela terra. Destruíra algo que talvez os próprios deuses pros quais tanto pedia perdão, tivessem feito surgir naquele mundo.
Sentiu mais lágrimas escorrerem pelo rosto enquanto imaginava como as coisas poderiam ter sido diferentes se não tivesse se mantido ao lado dela todo aquele tempo. Ao lado da garota que tanto o mudara. Imaginava que se tivesse seguido seu caminho de solidão ela teria continuado viva. Teria tido o futuro maravilhoso que sempre sonhara para si.
O futuro que ele roubara dela em um único segundo. Não, ele realmente não merecia perdão. Aquele caminho era tudo que ele deveria trilhar. Seu caminho de sombras e dor. Seu caminho de espinhos, banhado em todo sangue que ele já derramara. Caminhando para os braços da solidão que sempre fora sua única companhia. Ela era tudo que ele merecia.
Apoiou o rosto nas mãos desistindo de enxugar as próprias lágrimas, se entregando ao seu desespero, abraçando a solidão que o envolvia com seus braços gélidos. Naquele instante em que tudo parecia perdido, a pequena luz de tom dourado banhou seu rosto em desespero.
O mundo pareceu parar de girar naquele instante.
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