The Orphan: Endless Love
20 Capítulo 20 - Black Dog
Notas iniciais

— Junho de 1998 -
— Como você se apaixonou por ela? – perguntou Violet em uma das inúmeras visitas que Estevam lhe fazia desde que soube do parentesco entre eles – Digo... ela é uma pessoa difícil.
— Acho que poderia dizer o mesmo de você e seu pai. – replicou.
— É diferente. – argumentou – Ele era sozinho, não tinha família e estava com o coração partido há anos, não é como se fosse alguém fácil de se alcançar...
— Não precisa não ter ninguém no mundo para ser solitário. E não, não é diferente. – sorriu ajeitando-se na poltrona – Ela sempre foi... misteriosa. Não sei exatamente quando me apaixonei, mas... Lembro que começou com uma curiosidade. Digo, ela estava em sua lua de mel! Concordo que era fria, calculista, controladora, possessiva...
— Era?
— Tá, ela é. – corrigiu rindo – Mas tem seu charme. Eileen era uma pessoa totalmente diferente do que eu estava acostumado a lidar, seus olhos eram tão profundos que não pude deixar de me influenciar por eles... queria saber o que se escondia atrás daqueles diamantes azuis. Depois que fizemos o acordo de fingirmos um noivado eu comecei a observá-la melhor, passamos mais tempos juntos e eu vi pequenos detalhes que me encantaram... Ela nunca foi o tipo frágil, muito pelo contrário! E temos que combinar que é uma mulher incrivelmente bela.
— Então é isso? Ficou curioso, ela era bonita e pronto, se apaixonou?
— Você é estranha, sabe disso, certo? – perguntou retoricamente, ao que Violet apenas deu de ombros e esperou pela resposta – Não, não foi só isso... Ela tem um magnetismo que me puxa em sua direção, o modo como fala... a segurança. É uma mulher admirável e, embora eu nunca a tenha visto rir de verdade, imagino como será o som de sua voz. É forte, mas em algum lugar lá no fundo eu vejo uma garota frágil que perdeu a infância e fechou-se para tudo... Pretendo abrir essa porta.
— Ainda não entendo... desculpa, mas curiosidade e mistério não me parecem motivos fortes o suficientes para justificar um grande amor.
— E desde quando amor precisa ser justificado? Soube que tem um namorado... você o ama?
— Noivo. – corrigiu – Sim.
— Por quê?
— Acho que entendi seu ponto. – debochou encarando o teto – Sinto falta dele... Eileen não deixa ninguém chegar perto.
— É para o seu bem Violet.
— Eu sei, mas mesmo assim... é... sufocante! – exclamou com a repentina mudança de assunto – Esquece. – completou assim que percebeu o que disse.
Estevam, por outro lado, sabia que algo estava errado desde o momento em que conversaram pela primeira vez. Pelo que os amigos dela haviam dito, Violet era uma garota impulsiva e extrovertida, do tipo que sorri o tempo todo e, quando não concorda com algo, fala sem se importar muito com as consequências. Mas alí... Tudo que via era uma mulher fechada para o humor, que não ousava sorrir muito e quando o fazia deixava claro o esforço e a falsidade.
Eileen dizia que era normal, já que a neta passou por muita coisa e reprimiu sentimentos por um longo tempo, mas ele não se convencia. Estevam sempre foi bom em identificar mentiras, talvez por isso tenha se interessado em Eileen quando se conheceram, ela usava uma máscara o tempo inteiro e não permitia que ninguém visse por baixo... E ele queria desvendar seus segredos.
Ao olhar para Violet, via a mesma coisa. Uma máscara que escondia algo muito profundo e doloroso. Tinha quase certeza de que ela sentia mais do que dizia e não acreditou em nenhum dos “estou bem” que ouviu da menina nas últimas semanas. Estava disposto a descobrir o que aconteceu, mas sabia que ela não diria facilmente, então resolveu mudar a estratégia.
— Por que você tenta entrar na mente de todos que entram nesse quarto? – disse segundos depois.
— Eu... o quê? – confundiu-se.
— Não precisa mentir, sei que tem usado Legilimência nas últimas semanas.
— Não, eu não... não usei.
— Nenhuma vez? – estranhou.
— Só uma, com a Eileen... – admitiu – Mas foi logo que acordei e conversamos, eu queria entender tudo e não me contive, mas obviamente não deu certo. Não tentei novamente.
— Eu e Eileen somos bruxos poderosos Violet, temos experiência. Sabemos muito bem quando alguém tenta entrar na nossa mente... – começou – E sempre que entro nesse quarto sinto que minhas barreiras são forçadas, você tenta entrar na minha mente quase todos os dias! E Eileen também percebeu.
— Mas eu não... não tento. Juro que não tento fazer isso!
— Hey, não se preocupe... – tratou de dizer quando percebeu que Violet assumiu um tom desesperado – Deve ser apenas um ato involuntário. Você não está inteira ainda, então quando tentou da primeira vez isso se tornou um tanto automático, é natural que queira respostas e nós não estamos dando muitas. E como não consegue entrar, nem percebe o que está fazendo.
— “Não percebo”. – repetiu – Sou realmente anormal, não é? – sussurrou encarando o teto.
— O que quer dizer? – perguntou aliviado quando percebeu que a neta parecia mais disposta a falar que segundos atrás.
— Tudo isso... Merlin, eu me arrependo tanto de ter ido para Hogwarts.
— Por quê?
— Por quê?— debochou ainda sem encará-lo – Minha vida virou de cabeça para baixo quando Dumbledore apareceu no Internato aquele dia!
— Mas você conheceu muitas pessoas... sua família.
— Para perder depois. – completou com mágoa – De que adianta eu baixar a guarda e me apaixonar por todos eles se no final perdi a maior parte? Se nunca tivesse ido para Hogwarts eu continuaria naquele Instituto, provavelmente Voldemort iria me recrutar mais cedo, ou eu teria fugido. De qualquer forma estaria longe disso tudo. Com a primeira opção eu não iria me envolver com ninguém, seria apenas mais uma comensal corrompida sem sentimentos. Na segunda, eu viveria como uma trouxa e talvez vivesse bem para o resto da vida.
— Se fosse comensal iria encontrar seu pai, e sua mãe iria atrás de você caso fugisse. Em ambos os casos, não estaria preparada para a guerra.
— Mas não teria as lembranças da minha mãe, também não iria me aproximar do meu pai e não sofreria quando os dois morressem. – replicou irritada – Também não teria pessoas para me trair, sem dores e sem arrependimentos. Nada disso iria acontecer.
— O que, exatamente? – perguntou novamente, conduzindo a conversa para a direção que sabia que iria revelar a verdade sobre a situação da neta – Digo... você sofreria de qualquer forma.
— O que você sabe? – ironizou friamente – Não faz ideia de como é... se sentir dopada, como se sua vida fosse vazia... tudo que sempre gostou já não faz sentido e nata te satisfaz. Não faz ideia da dor que pulsa em seu peito todas as manhãs, quando você acorda se arrastando... e ninguém pode saber! – riu em deboche – O mundo é tão preconceituoso! E se alguém souber vai te julgar, dizer que tudo ficará bem e que vai passar, “o tempo cura”. Mas não tem como curar uma cicatriz sem deixar marcas, não é? E ninguém parece entender isso! Vivem suas vidas hipócritas com medo do que outros hipócritas vão dizer... Isso não é vida, manter uma mentira emocional é exaustivo. De que adianta ficar se sabe que não será feliz? Você sabe que não existe um propósito te esperando, então para quê continuar?
— As pessoas costumam ter esperança.
— Tolos.— concluiu com um sorriso semelhante ao que Bellatrix abria quando debochava de alguém – Sabe... O que mais dói foi estar tão perto, mas vê-los ir embora sem nunca saber o que poderia ter sido... E isso dói a cada batida do coração. Você já não tem orgulho próprio e chama milhares de vezes, acha que se não ouvir aquela voz de novo não conseguirá viver. É claro que tenta sorrir, mas sabe que não adianta. Dia após dia você convive com essa dor te consumindo e então fica pensando em como teria sido... em tudo que perdeu. – murmurou com a voz perdida, ainda encarando o teto – Então não consegue dormir e entra em desespero. Fica desejando que aquele sonho que teve fosse real, ou que Hogwarts nunca existisse... você percebe que está afundando em um mar de arrependimentos e dor, e a cada onda perde um pouco de suas forças. Aos poucos você desiste de tentar e começa a se deixar levar pela maré... A ventania é forte e você percebe que uma tempestade está prestes a cair, o céu está escuro... nada mais importa, você já perdeu boa parte de sua vida e sofreu o suficiente para uma inteira. Então para quê continuar? – perguntou confusa, como se falasse consigo mesma – Só vai se machucar ainda mais... Aí o desespero começa a aumentar e tudo que precisa é dormir... o único momento que nada te atormenta. Mas você simplesmente não consegue... e usa Imperius na enfermeira para conseguir remédios. Poção do Sono Sem Sonhos já não adianta e você fica em pânico, sozinha nas sombras... olhando para as paredes e remoendo tudo que passou, tudo que poderia acontecer e tudo que nunca aconteceu. Os remédios não te ajudam totalmente, mas é melhor que qualquer outra coisa, pois por poucos segundos você consegue relaxar e não pensa em nada... nada além de fechar os olhos e se deixar levar... E então você quer acabar com tudo isso, já não aguenta mais e precisa parar... de alguma forma, qualquer uma.
Estevam não sabia o que dizer e, naquele momento, teve medo de se arriscar. A neta era obviamente volúvel e mudava de ideia a cada segundo, e na situação que estava precisava tomar cuidado com o que iria dizer. Mas Violet percebeu a hesitação e aproveitou para provocar.
— Você sabe quantos objetos mortais existem nesse quarto? – disse como se fizesse um comentário qualquer sobre o tempo – O espelho pode ser quebrado, existem cordas que vocês amarravam nos meus pulsos e também têm remédios calmantes nas gavetas, que a enfermeira deixa porque fica mais fácil... eu poderia usar alguns desses equipamentos médicos, ou os que estão no armário do banheiro. Sabia que a janela do quarto não tem grades e dá para um longo e alto jardim? Estamos no subsolo, mas as possibilidades são tantas! – debochou friamente e, ao perceber o olhar assustado do homem, riu e voltou sua atenção para o teto – Mas não se preocupe, qualquer um desses métodos é muito doloroso e demorado, não vale a pena. – deu de ombros.
— E o que vale a pena? – perguntou ainda assombrado.
Sabia que Violet não estava bem, mas também não imaginava que fosse tão ruim.
— Nada, nada mais vale a pena. – murmurou fechando os olhos – Você está numa rua sem saída, quando vira... uma bifurcação com dois caminhos diferentes.
— E quais são esses caminhos?
— Em um deles você pede para a enfermeira te obliviar, você esquece quem é e o que sente, esquece o próprio nome... e então vive o resto da sua vida nas sombras, talvez consiga recomeçar em outro lugar, mas o bichinho da curiosidade sempre vai lhe corroer e viverá na dúvida até que a morte venha lhe buscar quando estiver tão velha que já não aguenta sair de sua cama. – falou – O outro caminho, por outro lado, é mais imediato... A enfermeira será presa por usar a Maldição Imperdoável, mas a paciente finalmente se verá livre... toda aquela dor que te persegue e insiste em te derrubar vai deixar de existir e então tudo ficará bem...
— E como pode ter certeza que essa enfermeira faria isso?
— A Maldição Imperius é tão fácil... e você se lembra muito bem de como usá-la! Não vai precisar de uma varinha, já que você não usa uma há quase dois anos. Mas mesmo assim sabe que vai dar certo, no fim todos estarão certo... vai ficar tudo bem. – disse com um sorriso calmo – Você finalmente ficará livre das vozes... de todos aqueles pensamentos de dó e pena das enfermeiras e do próprio médico, também se verá sem as amarras que sua mente insiste em manter com as lembranças... não precisa mais lutar. Aliás, não consegue mais lutar. E essa noite tudo iria acabar.
Merlin!, pensou alarmado. Violet estava realmente querendo desistir?
— Violet...
— Acho que essa é a hora que você fala que eu estou dizendo besteiras e que tudo ficará bem, que não vale a pena e eu não deveria pensar esse tipo de coisa. – debochou – E com “coisa” digo suposições, é claro.
— Eu não ia dizer nada disso. – discordou cruzando os braços – Na verdade ia te propor um acordo. – falou, pois sabia que tentar convencê-la a “aproveitar a vida” não ajudaria em nada.
— Acordo?
— Te peço um mês. – começou aproximando-se e sentando à sua frente na cama – Um mês para mudar essa situação. Se não melhorar nem que seja um pouco, ou acabar piorando, faço o que quiser. A enfermeira seria presa, ninguém acreditaria nela. – afirmou e, satisfeito, viu um brilho diferente no olhar da garota... ela ainda se importava com o que aconteceria – Mas eu não. Se no fim de um mês nada mudar, posso te ajudar a seguir em um dos dois caminhos, e se quiser posso tirar sua magia, nada mais vai te prender.
— Por que está fazendo isso? Eileen diria que é burrice, esconderia todos os objetos cortantes ou perigosos e iria me amarrar de novo.
— Eu não sou a Eileen. – respondeu – E quero uma chance de realmente te ajudar. Talvez não dê em nada e eu quebre a cara, mas você vai ganhar das duas formas. Se melhorar se verá livre desses fantasmas, se piorar terá um especialista em feitiços que vai garantir que nada de mal aconteça no processo, a enfermeira não é das melhores com maldiçoes.
— E o que você ganha?
— Tempo. Quero fazer isso... quero provar que nenhuma cicatriz dói para sempre, que ainda existe motivo para lutar... quero tirar esses fantasmas da sua cabeça e matar um a um por te atormentarem. – garantiu segurando a mão da garota entre as suas enquanto a encarava firmemente – Mas obviamente Eileen não pode saber, ela me mataria e então voltaríamos ao drama da enfermeira.
***
— Depressão. – concluiu Robert no final da tarde, quando Estevam o chamou com Eileen para conversar sobre o que aconteceu – Eu estava prestes a fazer um teste amanhã para confirmar, mas parece que você foi mais rápido. Digo... é óbvio que ela tem um histórico de depressão não tratada.
— Os amigos dela não disseram nada disso...
— Não, mas descreveram uma depressão quando ela se isolou de todo mundo quando Voldemort começou a fazer contato. Ele a controlava e a empurrava para baixo... Durante o último ano ela esteve instável, e não foi só pelas Horcruxes ou pela interferência dele. Violet estava com depressão esse tempo todo e todos interpretaram como mágoa e tristeza, mas ninguém fica assim tanto tempo sem desenvolver algum tipo de distúrbio. Não duvido nada que ela também não tenha tido ansiedade em algum momento. Agora isso simplesmente explodiu a não dá para mascarar, como ela sempre fez.
— Por que ela não falou nada disso para mim? – perguntou Eileen com os olhos úmidos, era a primeira vez que chorava na frente de alguém que não fosse sua família – Nós conversamos tanto! Todos os dias... nós...
— O que faria se ela te dissesse?
— A impediria, é claro! Tentaria convencê-la de que isso não vai aliviar nada... que...
— É exatamente por isso que ela não disse nada. – continuou Robert enquanto Estevam abraçava Eileen pelos ombros – Tudo que ela não precisa agora é de alguém que fale que tudo vai ficar bem e que ela está errada.
— E o que faremos agora? Eu não faço ideia de como ajuda-la com isso... – assumiu Eileen.
— Queremos que ela receba visitas.
— O quê? Não! Isso vai piorar a situação, ela...
— Eileen, ela precisa de ajuda! – insistiu Estevam enquanto Robert saía para deixa-los a sós – Ela se sente sufocada querida, precisa ver pessoas...
— Ela já está sentindo dor Estevam, ver as pessoas que a acompanharam vai piorar tudo! Ela quase matou o Olho-Tonto, por exemplo, o que acha que vai fazer quando o ver novamente?
— Sim, mas ela precisa enfrentar isso. Não estou dizendo que vamos chegar à Ordem amanhã e dizer que a visita está liberada. Vamos fazer isso com calma... primeiro as pessoas que não se envolveram diretamente com o que ela passou. Aos poucos vamos trazendo os outros até o Olho-Tonto. Ela precisa ver o que vai perder caso desista, tem que saber que todos eles a amam e que fariam tudo para vê-la bem. E eu estarei aqui, não vou deixa-la sozinha com eles, eu prometo.
— Estevam...
— Eu entendo que está preocupada e que vê nela o nosso filho, mas ela não é o Severo! Violet é outra pessoa, precisa de outras coisas... não pode sufoca-la com sua presença e também não pode isolá-la do mundo. – argumentou virando-a para ele e segurando em seus ombros carinhosamente – Ela precisa deles.
— Tudo bem... – suspirou fechando os olhos, odiando ter que concordar com aquilo – Mas os padrinhos e os outros dois que ela tentou matar ficam por último.
— Claro, como quiser. – sorriu acariciando seu rosto – Pensei em trazer o Krum primeiro.
— O namorado búlgaro.
— Noivo, na verdade. – riu, porém, logo ficou mais sério – E eu preciso te contar outra coisa...
— O que é dessa vez? – perguntou cansada.
— Eu fiz um acordo com ela.
— Que tipo de acordo?
— Ela está usando a Imperius para conseguir remédios com a enfermeira durante a noite, e hoje iria mandar que ela usasse a Maldição da Morte ou a obliviasse para acabar com tudo de uma vez.
— Merlin...— assustou-se encarando o vazio.
— Eileen? – perguntou ao perceber que ela tinha ficado mais pesada e segurava em seus braços com força, como se fosse cair – Amor?
— Ela não... ela quer...
— Hey, acalme-se, ela não vai fazer nada disso. – garantiu e logo a morena o encarou, lágrimas escorrendo mais livremente e o semblante completamente preocupado e tenso – Nós fizemos um acordo.
— Qual acordo?
— Pedi um mês para ajuda-la. Se ela melhorar, nem que for um pouco, ela desiste dessa ideia.
— E se não melhorar?
— Eu faço o trabalho que seria da enfermeira. – confessou, no segundo seguinte Eileen desabou e ele precisou ajoelhar-se para conseguir mantê-la por perto. Seu coração parecia em pedaços ao vê-la tão desolada sentada naquele chão frio... Ele ansiou tanto para ver uma demonstração de sentimento que, agora que conseguiu, desejou nunca ter pedido aquilo.
— Não... não!— exclamou com a voz quebradiça – Você não pode fazer isso!
— Ela acha que você não sabe disso, aliás, teoricamente deveria ser só eu e ela. E pretendo usar Veritasserum no fim do mês, é claro.
— Você não vai seguir esse acordo, certo? Se ela não melhorar...
— Vou cumprir minha palavra querida.
— Não!
— Eileen, ela está destruída por dentro. Não consegue sequer fingir um sorriso porque já não tem forças para isso... Violet não aguenta mais, não podemos simplesmente mantê-la por perto só para nos satisfazer... seria egoísmo. Se ela realmente não melhorar nada, vou cumprir o que prometi e obliviá-la. Ela terá uma vida comum como qualquer outro trouxa e vamos todos nos afastar, vou garantir que ninguém a procure. – disse com o maxilar travado – Mas eu não quero ter que fazer isso.
— Então não faça! – pediu desesperada – E você sabe que eu posso te impedir.
— Sei, mas não vai. – disse soltando o aperto firme da mulher em sua camisa – Eileen, eu prometo que vou fazer o possível e o impossível para ajuda-la, nem que para isso eu vá até a exaustão.
— Estevam...
— Vai ficar tudo bem querida, tudo bem... – garantiu puxando-a para um abraço, ao qual ela não recuou, apenas aceitou ser confortada, estava cansada de ser forte. Ao menos naquele momento.
Robert não ficou sabendo sobre o acordo e Eileen deu um jeito de afastar qualquer outro médico ou enfermeira do quarto da neta. Por um momento quis tirar todos aqueles objetos que, como Violet mesmo dissera, poderiam ser mortais, mas no fim desistiu... ela precisava ver que Eileen e Estevam confiavam nela, e isso seria a primeira prova.
Conforme os dias passavam Eileen continuou a conversar com a neta todas as manhãs, na maioria das vezes sobre momentos especiais da infância e até sobre o romance entre ela e Estevam, que estavam namorando desde que Violet acordara.
Como o combinado, Estevam trouxe Vitor para visita-la em um dos finais de semana e permaneceu no quarto enquanto os dois conversavam sobre o mundo pós-guerra e até mesmo planos sobre o casamento ou os amigos. Em momento algum as palavras “você está bem?” foram proferidas, e Estevam garantiu que continuasse assim quando outras pessoas começaram a visita-la também.
Com o tempo ele e Eileen perceberam que a garota tinha um certo brilho no olhar e aparentava estar melhor, era pouco, mas já marcava um avanço. Entretanto, algo não saiu da cabeça dos dois um minuto sequer. Violet usara a Imperius para conseguir coisas com a enfermeira, mas não tinha varinha e, de acordo com a enfermeira, sequer usou a mão para isso.
— Você acha que ela pode manipular mentes também? – perguntou Goethe durante o jantar.
— Qual outra explicação? E ela já fez isso, pelo que as amigas disseram.
E não demorou para que Eileen resolvesse descobrir a verdade e confirmar suas suspeitas.
— Como foi a primeira vez que usou Imperius? – perguntou à neta na manhã seguinte.
— Que tipo de pergunta é essa?
— Estou com algumas coisas na minha cabeça, vamos Violet, me fala.
— Bom... eu... acho que foi... no Instituto. – respondeu confusa – Eu devia ter uns... 10 ou 11 anos...
— Certo, e como aconteceu? – insistiu sentando-se nos pés da cama.
— Minha mãe dizia que a melhor estratégia é aprender primeiro o mais difícil, porque aí o fácil não tomaria tempo depois. – começou ajeitando-se enquanto permitia que as lembranças lhe invadissem – Obviamente fez o mesmo com magia, então a primeira aula que tive com ela foi sobre Maldições.
Violet poderia parecer melhor, mas ainda estava longe de ficar recuperada. Enquanto repassava as manhãs em que a mãe ia até o Instituto para ensiná-la, sentiu algo bom... quase que gratificante, lhe preenchendo. Lembrava muito bem em como Bellatrix a explicou sobre a forma correta de segurar uma varinha e até mesmo agitá-la, o tom de voz que deveria usar e o quanto precisava querer...
— O sucesso em maldições é a respeito de o quanto você deseja causar algo no adversário. Quanto mais forte o sentimento, mais duradouro o efeito. – continuou, citando o que a mãe lhe falara naquele primeiro dia. – Ela levou alguns coelhos numa caixa, eram todos cálices transfigurados, mas mesmo assim... eram bem convincentes. Primeiro ela mostrou como e quando eu deveria usar e então fez os três feitiços. Quando chegou a minha vez eu não consegui de primeira, é claro... Não é algo fácil de se aprender. Mas então ela me disse...
“Seja forte Violet”. E ela queria, queria muito ser forte... A Violet de 10 anos olhava para a mãe de cabelos negros e desejava ser como ela, queria ser tão forte quanto Bellatrix! E se empenhou para isso.
— Treinei vários dias e quando finalmente consegui... ela abriu um sorriso enorme. Como se estivesse orgulhosa e feliz... e eu acho que estava. – comentou – Naquela noite eu não consegui dormir, estava eufórica com a próxima lição... Mas a governanta descobriu. Ela sempre me odiou... Era recíproco, é claro.
Naquela noite, quando a Sra. Thomas começou a discutir com a garota, Violet ainda estava ansiosa e com um ódio imenso da mulher.
— Eu nunca disse isso a ninguém, nem mesmo à Bellatrix, mas... naquela noite eu lancei a Maldição Imperius na governanta, sem varinha. Digo... foi um acidente! – tentou se justificar – Eu estava tão irritada que mandei que ela começasse a andar ao redor do castelo sem parar, até que seus pés estivessem tão cansados que a derrubassem... E ela fez isso. Eu não entendi como nem por que, mas resolvi não contar nada com medo do que diriam... na época não era de bom tom usar magia sem varinha. Enquanto eu lia meu livro em paz, a Sra. Thomas ficou quase a noite toda andando e no dia seguinte não saiu do quarto porque estava “indisposta”... Ela nunca tocou no assunto depois disso.
— E você não se arrepende.
— É claro que não. – confirmou – Ela teve o que mereceu.
— E depois disso você usou as maldições mais vezes?
— Bellatrix e eu sempre treinávamos sozinhas, mas depois que fui pra Hogwarts nunca mais usei a Imperius até o episódio do Gringotes. E você? Estevam comentou que tem... habilidades. – perguntou querendo se livrar do foco.
— Não é algo extraordinário Violet. – negou – Qualquer pessoa com Magia Negra pode fazer isso, basta praticar e se aperfeiçoar. Sabe... você começou a aprender magia aos 10 anos, certo? Eu tive minha primeira aula com 8.
— Oito? – surpreendeu-se – Em Magia Negra?
— Isso, e acredite: nunca é cedo para aprender magia, só depende de como isso acontece. – falou – Foi logo depois de a minha mãe morrer no parto da Goethe, e meu pai sempre foi fascinado por poder, então não é muita surpresa. Ele me ensinou muitas coisas antes, mas quando chegou às maldições comentou que existiam diferentes níveis para a Imperius, e ele queria que eu fosse perfeita no mais alto, aquele que era só um boato entre os nossos e nos livros. Entenda... Imperius é um tipo de manipulação da mente, o feitiço te permite dominar qualquer pessoa, em qualquer momento – explicou –, mas há limitações. Como... se você não mandar que a pessoa esqueça, os efeitos vão passar e ela vai se lembrar de você. Então ele começou a me explicar como potencializar as habilidades, e como ele não tinha Magia Negra, investiu tudo em mim. Enquanto minhas irmãs estavam com a babá, eu ficava trancada com ele em seu laboratório, lendo... procurando... Eu já dominava as maldições aos nove, mas ainda estava longe de atingir o nível que ele queria, então treinávamos todos os dias... Mas eu nunca consegui. – disse encarando o vazio e lembrando-se dos olhos azuis em fúria de seu pai quando desistiu – Ele se convenceu de que eram apenas lendas, porque ele confiava inteiramente em meu potencial e dizia que se eu não conseguia era porque tudo não passava de um boato.
— Mas não era.
— Não, mas eu não disse isso a ele. – sorriu travessa – Ele foi viajar a negócios aquele mês e ficou fora, então me dediquei exclusivamente a isso, fiquei trancada o dia todo na biblioteca e li tudo que podia sobre o assunto, me aprofundei em anatomia e psicologia... E no fim de um mês consegui. Quando ele voltou eu quis fazer uma surpresa, então pedi que se escondesse atrás do armário da cozinha. Nossa babá era muito severa e não deixava que comêssemos doces antes do jantar, não importava quem pedisse... Então eu me sentei na bancada e olhei bem fundo em seus olhos... “Eu quero biscoitos Nanny, e você vai me dar. Vai até o armário, pegará um e me entregará. Depois vai sair da cozinha e esquecer o que aconteceu aqui”. Ela fez tudo isso, parecia hipnotizada... e nunca soube que me deu biscoitos antes do jantar.
— E seu pai?
— Ohhh, ele ficou bem orgulhoso, quando a babá saiu ele se aproximou com um sorriso enorme, os olhos azuis que estavam sempre gelados pareciam quentes, me aqueciam... e foi então que eu entendi que faria tudo para vê-lo tão feliz e satisfeito como naquele dia. Ele riu! E Joseph Prince não era dado a sorrisos desde que nossa mãe tinha morrido. Mas além dele... A sensação de poder que se tem quando está fazendo isso é maravilhosa, e desde então percebi que minha especialidade era a manipulação da mente humana. – afirmou – Segundo ele essa é a mais difícil, porque exige um nível de concentração e controle absurdo, mas eu também era poderosa. Ele sempre me dizia isso, “você é forte Eileen, tem um grande futuro e sei que será ainda melhor que nossos antepassados, confio em você”.
— Como funciona isso exatamente?
— É exatamente como a Imperius, mas a capacidade persuasiva não depende do seu tom de voz ou da sua varinha, muito menos das suas mãos. Tudo depende da intensidade do olhar... do quanto deseja que aquilo aconteça ou não. É a sua mente trabalhando para controlar outra. – explicou – Você não precisa, mas falar torna tudo mais verdadeiro, como se não fosse uma mentira da sua cabeça... por isso costumo falar às vezes, mas um olhar basta, só precisa desejar e entender os caminhos da mente, saber como funciona e o que a pessoa costuma fazer. Você, por exemplo... – disse quando percebeu que Violet não parecia ter entendido – Quando a fiz parar de destruir o hospital eu sabia o que estava sentindo, entendia tudo o que passou e suas motivações... Então usei isso ao meu favor. E você parou, porque viu nos meus olhos que eu iria te proteger e te tirar dalí... Por alguns segundos você colocou sua vida na palma das minhas mãos. É algo inconsciente, e eu me aproveito disso. – comentou – Se perguntar à Ministra, que viu tudo, ela dirá que meus olhos ficaram mais claros, como se tivesse uma espécie de brilho esbranquiçado saindo do azul... mas isso acontece porque eu crio o ambiente de segurança, como se fosse uma cobra prestes a dar o bote... Por isso tenho que chamar a atenção e prendê-la nos meus olhos, enquanto minhas habilidades e minha mente fazem o resto do trabalho. E no fim não preciso mandar que esqueça, porque já é natural da mente humana negar eventos fora do normal.
— Espera, então... Enquanto eu me distraio com a cor dos seus olhos, você está... “hipnotizando” minha mente? Quer dizer... aquele ditado então é mesmo verdade, “os olhos são a janela da alma”?
— Quase isso. Mas sim, eu não preciso canalizar minha magia nas mãos ou numa varinha, posso apenas exterioriza-la.
— E qualquer pessoa com magia negra consegue?
— Desde que aperfeiçoe, sim. Entenda, é algo complicado... O nível que você atinge quando faz isso é muito maior que qualquer outro feitiço que eu tenha visto, exige tempo, dedicação, concentração e controle total de suas habilidades.
— E você conseguiu isso com oito anos.
— Assim como você aos dez. – rebateu – Foi instintivo sim, mas você fez a mesma coisa que eu e, pelo que tenho percebido, também tem certa inclinação à mente humana.
— O que quer dizer?
— Quero que pense bem, ok? – pediu – Alguma vez, desde que entrou em Hogwarts e tirando o episódio no Gringotes, você já pediu algo para alguém e essa pessoa fez? Sem qualquer explicação, do nada... Como aconteceu com a Sra. Thomas?
— Eu nunca tentei fazer isso.
— Sim, eu sei, mas certamente já fez pedidos que, sem se dar conta, foram atendidos imediatamente?
Violet não acreditava no que a avó dizia, mas antes que pudesse responder com uma frase grosseira, lembrou-se de seu primeiro dia em Hogwarts... Ela e Draco discutiram em frente à sala de poções e, quando Snape perguntou o que aconteceu...
— O que está acontecendo aqui? – perguntou uma voz gélida, que imediatamente reconheci sendo o professor de poções. Continuei encarando o garoto loiro, para ele entender o recado, e então me virei para o professor.
— Não está acontecendo nada professor. Apenas o Malfoy me parabenizando pelos pontos que ganhei. – respondi, com um sorriso no rosto – Não é Malfoy?
— C-claro! Só... parabenizando. – concordou me encarando, tentando sorrir também, porém, sem sucesso.
Quando Sirius invadiu o castelo e se encontraram naquela sala abandonada, ela havia lhe dito uma coisa que, na época, não fez muito sentido, já que ela apenas sabia. Mas agora... agora ela entendia o real significado.
— Digamos que eu tenho um... pressentimento... que nunca falha. Eu sei “ler” as pessoas. E muito bem.
E então todos os últimos sete anos passaram como um filme em sua cabeça. Eileen estava certa! Ela realmente fez muitos pedidos para muitas pessoas, e todas elas atenderam prontamente sem sequer questionar... mas isso abriu um baú de questões.
Então todas as vezes que achou que as pessoas a seguiam por estar certa... eram mentiras? Estavam apenas fazendo o que ela mandou?
— Você comentou que sempre foi boa em desvendar pessoas, de olhar alguém e só pelos olhos descobrir o caráter ou a personalidade... Precisamos fazer alguns testes, é claro, mas acho que você tem mais de mim do que imaginávamos. – falou e, depois de perceber o olhar da neta, completou – Não, pode parar! Eu sei o que está pensando... Acha que só conseguiu o que queria porque as pessoas não tinham escolha, não é?
— Como...
— Sua expressão é bem óbvia às vezes. – debochou aproximando-se – Podemos treinar isso e...
— Não, eu não quero manipular ninguém! Quer dizer... droga, eu não quero olhar para o meu padrinho ou meu noivo e pedir alguma coisa e eles atenderem porque foram manipulados!
— Você não está entendo... você faz isso porque não tem controle, nunca chegou a saber que essa habilidade existia e jamais praticou. Mas se você o fizer, estudar todos os dias e entender como fazer e o que sentir, não vai acontecer novamente sem que queira.
— Tem certeza?
— Te dou a minha palavra.
Embora Violet não acreditasse muito, aceitou. Ela realmente não queria manipular ninguém, nunca quis! Por alguns dias ficou extremamente pensativa, e mesmo que Estevam tentasse conversar, ela apenas tentava se lembrar se alguma vez usou essa “recém-adquirida” habilidade em seu pais...
— Violet!
— O quê? – perguntou ao ser tirada de seus pensamentos.
— Você não ouviu nada do que eu falei, certo?
— Claro que ouvi.
— E o que acha? É bom?
— Claro, é ótimo.
— Que bom... fico feliz que tenha aprovado meu casamento com um hipopótamo rosa. – debochou, arrancando um sorriso culpado da garota, que corou.
— Desculpa Rég... Não consigo tirar isso da minha cabeça.
— Você sabe que não vai mudar nada se lembrar, certo? – disse novamente – Se aconteceu, já era. E sua avó está certa, precisa praticar para evitar acidentes. E de certa forma é bom conhecer o próprio poder.
— Sim, claro...
— Sabe, quando você me encontrou perguntou sobre como eu escapei do Snape, da Bella e do Voldemort, bruxos poderosos, e consegui ficar escondido por anos... – perguntou ao perceber que não conseguiria convencê-la do contrário.
— E você nunca me contou onde conheceu esses “amigos” que te ajudaram.
— Na época eu não podia dizer, mas agora já não tem problema... Gostaria de saber?
— Certo, qual a sua história? – suspirou derrotada, talvez uma boa história a distraísse.
— Sabe, não é fácil escapar desses três, é praticamente impossível, se quer saber... Mas quando se tem ajuda de dois deles, tudo fica mais fácil.
— O que quer dizer?
— Por mais que fosse fiel a Voldemort, Bella ainda era nova entre os comensais e sempre priorizou a família... Pode ser que tenha mudado depois, mas eu tinha certeza que naquele momento ela nunca iria me matar. – garantiu – E como sabe, ela só me empurrou. Voldemort mandou que o Snape fosse buscar meu corpo e não voltasse até encontrar. Mas ele só voltou uma semana depois.
— Espera, como você sabe que ele voltou depois? Seu amigo te escondeu, não é? Você não teve contato com mais ninguém e...
— Violet, respira! – pediu fazendo-a parar de falar rápido – Eu sei porque meu amigo era o melhor pocionista que existiu. E ótimo com estratégias e Oclumência.
— Rég... – sussurrou ao perceber o que ele estava falando.
— O amigo que me tirou da água quando caí do penhasco e me escondeu era o Snape. – confessou, abalando ainda mais a garota, que não reprimiu quando uma pequena lágrima caiu por seu rosto pela primeira vez depois que acordou – Não é novidade para ninguém que ele sempre foi esperto, Severo descobriu que eu pretendia trair o Lord e veio me procurar, disse que iria ajudar... E me convenceu. Ele tinha desenvolvido um procedimento que podia tirar a Marca Negra pra sempre! Caso algo lhe acontecesse e precisasse fugir, já sabia como ficaria invisível para Voldemort. – disse fascinado – Eu o admirava muito, sabe... seu pai... era ótimo! Ele que criou todo o meu plano de fuga, planejou cada mínimo detalhe e, assim que foi atrás de mim a mando do Lord, fez o que tinha que fazer para me deixar invisível. Deu certo, é claro... Eu sempre acreditei que daria. A poção que você tomou para irmos ao Gringotes era receita dele. Snape potencializou a original. – sorriu – Nós mantivemos contato, é claro, mas ele nunca chegou a ir à minha casa, dizia que era perigoso, então trocávamos cartas e às vezes usávamos a lareira para nos encontrar em algum lugar. Mas há pouco tempo descobri que ele nunca me deixou realmente sozinho. O sem vergonha colocou alguém para ficar de olho em mim na casa ao lado da minha! Lembra da Sra. Dubois?
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