The Orphan: Endless Love
23 Capítulo 23 - Hope
Notas iniciais
"Esperança"

— Novembro de 1999 —
— Quando minha secretária disse que as irmãs Prince queriam me ver eu realmente não acreditei. – comentou Meryl surpresa ao encontrar Eileen, Ravenna e Goethe em seu escritório no Ministério – Precisam de algo?
— Emprego.
— Certo... você é direta. – respondeu para Raven, que apenas revirou os olhos enquanto Goethe a encarava em repreensão.
— Me desculpe por isso, Raven sabe como ser direta às vezes... Mas devo dizer que isso nem foi nossa ideia. – começou Goethe – Conversamos com os Black e eles comentaram que se tem alguém que conhece as boas ofertas de emprego é a senhora. E nós não temos exatamente uma ocupação, já que Comensal não é algo que conte.
— Ah claro, certamente não é. – debochou, a loira sentia-se estranhamente à vontade para fazer brincadeiras com as Prince – Bem, eu posso ajuda-las mas... Preciso saber exatamente o que gostam de fazer ou no que são boas... Qualquer habilidade.
— Torturar conta? – comentou Ravenna, que ainda não acreditava que as irmãs a tinham arrastado para “pedir” emprego à Ministra. Ravenna Prince não pedia! – Porque eu realmente adorava torturar aqueles idiotas que a Goethe capturava.
— Raven!
— Oh não, não se preocupem... Eu não esperaria menos. – ironizou Meryl encarando Ravenna – Torturar, você disse?
— Você não pode estar falando sério... – surpreendeu-se Goethe quando percebeu que a ministra parecia ter alguma ideia – Existe algum emprego em que se torture pessoas?!
— Na verdade sim... Não é uma tortura propriamente dita, mas... – disse vagamente ainda encarando Raven, que estava começando a se irritar – Olhe, eu não deveria falar isso com ninguém ainda, mas acho que devidas as circunstâncias pode dar certo...
— Se você falar que poderei torturar algumas pessoas ganhará meu coração.
— Como sabem, é difícil reconstruir tudo que foi destruído depois da guerra, e não falo apenas de bens materiais... Alianças também, pessoas, uniões... Instituições... – continuou Meryl ignorando o comentário sarcástico – Azkaban. Os dementadores foram grandes aliados das trevas e acredito que não podemos confiar que vão obedecer o Ministério novamente, ao menos não totalmente.
— Pensei que fosse óbvio isso, quem confia em criaturas fundamentalmente das trevas para evitar as trevas? Não faz sentido.
— Tem razão Ravenna, e eu pretendo mudar isso. – avisou – Tem um projeto em pré-aprovação no Ministério...
— Que tipo de projeto? – perguntou Eileen pela primeira vez.
— Pretendo substituir os Dementadores por bruxos que tenham alto conhecimento e habilidade com as artes das trevas e que sejam fortes o suficiente para não desmaiarem na primeira semana. – falou – Quero isolar os dementadores em uma área segura de Azkaban reservada à pena de morte. Todos os castigos serão aplicados por carcereiros treinados, inclusive vamos recrutar alguns aurores e membros da segurança do Ministério, mas acho que entendem que não podemos errar.
— É mais fácil um bruxo cometer traição. – concordou Goethe – E como pretendem evitar esse tipo de coisa?
— Oh, bem... Estamos pensando em algumas coisas... eu, especialmente. Gostaria de contratar os serviços de uma pessoa habilidosa em controle mental para, ocasionalmente, averiguar se os bruxos em questão não pensam em soltar alguém ou algo assim.
— Controle mental? – repetiu Eileen.
— Eu ia conversar com você, mas olha só que sorte... Você está aqui!
— O que eu faço não é algo fácil Ministra, é realmente desgastante. E já tenho um emprego.
— E seria muito bem recompensado, talvez mais do que a senhora ganhará em Hogwarts. E uma coisa não atrapalha a outra. Estou falando de uma vez por mês submeter os empregados de Azkaban a uma visita a você, não quero saber o que fazem da vida, apenas se continuam fiéis.
— E por que não usa Veritasserum?
— Eu ia chegar nisso. – comentou – Esse tipo de emprego não permite falhas, é algo extremamente importante e um cargo de confiança, a pessoa não poderá espalhar que trabalha em Azkaban e essas vagas obviamente não serão divulgadas, serão pessoas invisíveis para a sociedade. Mas para isso preciso de garantias... Diariamente usaremos Veritasserum logo pela manhã, e uma vez ao mês Legilimência ou você. Não é como se alguém conseguisse enganar a poção da verdade, mas também preciso ter uma segunda carta. Garantias Eileen. Mas creio que podemos marcar um dia para conversarmos sobre isso. Como disse, o projeto ainda está em aprovação... Mas é quase certo, tenho fortes argumentos. – garantiu – Nesse caso, inúmeras vagas serão abertas em Azkaban Ravenna, e talvez uma ex-comensal saiba lidar com isso.
— Oh claro, tenho um histórico incrível nisso.
— Estou falando sério Ravenna. – disse tirando um envelope da gaveta e entregando uma das fichas para a morena – Preciso de um carrasco para administrar Azkaban.
— Administrar?
— Não a parte burocrática, se é o que está pensando. Já tenho alguém para isso. Quero alguém que esteja presente o tempo todo, que vistorie as celas e prisioneiros, faça as interrogações mais urgentes e mantenha tudo funcionando... e castigue quem precisa ser castigado. Em outras palavras, preciso de um Dementador humano.
— Boa escolha de palavras.
— Leia isso, por favor... As competências que procuro.
Ravenna demorou a admitir, mas a proposta daquela ficha era realmente boa... E ela sentia falta das atividades de comensal. Muito!
— E você... – apontou Goethe.
— Ah não, Azkaban está fora de cogitação para mim.
— Na verdade, eu iria perguntar o que você fazia quando era comensal... digo... Eileen fazia a “limpeza”, Ravenna fazia as torturas e você...
— Capturava. – respondeu – Na verdade eu sou muito boa nisso, sei ser invisível quando preciso, e admito que adorava a adrenalina toda de perseguir e capturar alguém.
— Que bom que disse isso. – sorriu tirando os óculos de leitura e cruzando os braços sobre a mesa – O que acha do Departamento de Aurores?
***
— Sabe, estive pensando... sobre Estevam e... bem, meu pai ser puro-sangue... – começou Violet enquanto lia um dos livros que Ravenna lhe indicara – Esse mês a filha da Ministra completa 7 meses, e digamos que... Bem, estou a poucos dias do meu casamento e obviamente pretendo ter filhos...
— Diga logo o que quer, sabe que odeio enrolação.
— Você acha que meu futuro filho pode nascer com Magia Negra? Digo... Eu sei que se for uma menina é 100% garantido, mas e se for um menino? Depois que descobri sobre Estevam fico me perguntando se seria possível isso se repetir...
— Não acha que é um pouco cedo para pensar nisso? – ergueu a sobrancelha – A não ser que você tenha adiantado a lua de mel...
— Não! É claro que não. – recusou corada – Eu só quero saber o máximo que puder, Eileen não é muito boa com “passar informação”, acho que sabe disso.
— E eu sou?
— Bem, como você mesma disse, não é de rodeios e não tem medo de me machucar. Parece que ela me vê como uma substituição do meu pai, tudo que não teve tempo para fazer por ele ela faz por mim... Eu realmente agradeço, mas...
— É enjoativo. – concluiu – Eileen tem esse lado materno obsessivo, e pode acreditar que ela irá te poupar o máximo que puder.
— Mas você não, então...
— Bem, sempre há chances. – suspirou por fim, fechando seu livro e dando mais atenção à sobrinha-neta, embora preferisse ignorar a parte do “neta” – Seu pai tinha tudo para ter desenvolvido Magia Negra, considerando a genética de Estevam, mas infelizmente para ele, ou felizmente, a genética dos Ambrósio não lhe foi favorável. Na família Prince as mulheres têm mais inclinação à receber o grande poder, mas isso não significa que os homens fiquem muito atrás. Seu pai foi um dos maiores bruxos de sua década, não há dúvidas quanto à mente brilhante e sua capacidade e habilidade acima do normal.
— Você o conheceu?
— Vagamente, mas sim. Chegamos a conviver por alguns meses antes da morte da minha irmã, era um garoto astuto, tenho certeza que poderia aprender o que quisesse. Soube do currículo escolar impecável e da inclinação a poções... obviamente puxou a mãe, nunca vi uma bruxa tão boa nisso quanto ela. – admitiu – Não fique preocupada antes da hora Violet, se tem algo admirável nos Prince é que, independente de ter ou não Magia Negra, todos possuem uma mente além de seu tempo e, se trabalhados, são propensos à glória de uma habilidade perfeita, como seu pai tinha. Apenas dois bruxos, em toda a história, conseguiram enganar Lord Voldemort e orquestrar sua própria mente para manter uma farsa diante dele. Eileen e Severo. Você quase conseguiu, mas a emoção falou mais alto, não é?
— Então há a chance. – afirmou ignorando o último comentário. Ravenna e Eileen tinham a ideia de que a emoção apenas atrapalha as decisões humanas, o oposto de Goethe.
— Oh sim, antes era totalmente improvável, mas com o acréscimo de Estevam à família a situação muda. – concordou – Eileen já lhe disse o que acontece na gravidez?
— Não chegamos a esse assunto ainda...
— Claro que não, Eileen e sua mania de reter informações. – debochou – Se eu fosse você repensaria essa sua ideia de ter filhos depois do que eu disser.
— Por quê? – disse confusa, não poderia ser tão ruim, certo?
— Porque a dor é triplicada. – respondeu – Lembra de como se sentiu quando absorveu tudo no final da guerra? Ou como quando Estevan retirou sua essência mágica?
— Lembro...
— É mil vezes pior. – afirmou com um sorriso travesso – Partos já são dolorosos naturalmente, mas nossa “habilidade” é um enorme agravante. Se for um menino você pode ficar mais tranquila, mas se for uma menina... A pré-disposição para a Magia Negra é forte demais, e para fazer o parto você usa muita energia, como se a criança as sugasse o máximo que pudesse para sair... Como se a magia que seria dela fosse arrancada de você no último instante, sem qualquer dó.
— É tão ruim assim? – estremeceu.
— Minha mãe, Santhye, morreu quando deu à luz Goethe. Eu era pequena, mas lembro como se fosse hoje... Ela não tinha Magia Negra, mas eu e minhas irmãs tínhamos por causa do nosso pai, Joseph. – começou – Lembro que teve um apagão no dia, estava chovendo... Aliás, nós três nascemos sob “circunstâncias estranhas”, em noites que não deveriam estar chuvosas e muito menos trovejantes. Imagine o sofrimento dela ao ter que passar por aquilo três vezes, três meninas. Mas ela não aguentou muito tempo. – disse com o olhar vago – Eileen foi quase assim também, mas por ser um menino foi mais ameno. Lembro que ela estava em casa quando a bolsa estourou e nosso pai chamou o mesmo médico que nos trouxe ao mundo. Dessa vez a acompanhei e, à exceção da tempestade, tudo foi exatamente igual. Foi horrível. É horrível. – estreitou os olhos – A sensação é a de alguém rasgando sua alma até parti-la o suficiente, como se aquele pedaço fosse para o seu filho... E se a mãe é trouxa, nascida-trouxa ou simplesmente não possuir Magia Negra, as chances de sobrevier são ainda menores.
— Isso... é...
— É claro que tudo depende da relação sanguínea. – interrompeu – Minha mãe sofreu isso com três meninas, mas era de uma linhagem sangue puro antiga e aguentou até a terceira. Eileen também, com o agravante Estevam, de outra linhagem poderosa, ela sofreu talvez com a mesma intensidade mesmo sendo um menino. – continuou – E por fim você. Evans era nascida trouxa e ninguém da família tinha sangue bruxo, me admira que tenha sobrevivido...
Violet nunca havia pensado por esse lado. Sabia que Lillian teve uma gestação complicada, Minerva lhe disse certa vez, mas não imaginava que fosse tão ruim! Finalmente entendeu o quanto a “mãe” deve ter sofrido quando lembrou-se que nasceu numa noite de tempestade...
— Como... sabe tudo isso? – perguntou ainda assombrada.
— Santhye e Eileen não são o suficiente?
— Você descreve a sensação com tanta realidade, é como se...
Ravenna engoliu uma dose de bebida e, reunindo a coragem, desenterrou um assunto que ainda ardia. A ferida estava longe de cicatrizar.
— Eu sei porque já passei por isso. – confessou de uma só vez, surpreendendo Violet e deixando-a sem palavras.
— Você... o quê? – tentou formular, mas não soou muito coerente.
— Foi um pouco depois da Eileen. – continuou encarando o vazio, como se se esforçasse para desenterrar aquelas memórias – Ela estava grávida de uns... quatro ou cinco meses, não lembro, e eu irritada por ela escolher um trouxa imundo ao invés da própria família. Tínhamos um código, uma tradição... Éramos sangue puro, como ela poderia simplesmente esquecer isso?! E Goethe estava flertando com um nascido trouxa que encontrou, nada sério, mas... o suficiente para eu me questionar sobre a sanidade das minhas irmãs.
Violet sabia que os Prince tinham um espaço privilegiado na aristocracia bruxa, mas nunca chegou a perguntar o que as tias e avó pensavam da supremacia do sangue... Ao que parece Ravenna respondeu por ela.
— Foi um ato muito idiota na época, mas resolvi conferir o que os trouxas tinham de tão... espetacular. – disse com a língua afiada – Fiquei em um dos melhores bares da Inglaterra, apenas observando... E então um bruxo apareceu. Era um amigo do meu pai e poucos anos mais novo que ele, puro sangue. Ficamos conversando até o amanhecer... Ele era encantador. – sorriu e, pela primeira vez em meses de convivência, Violet percebeu que era um sorriso verdadeiro – Nos tornamos amigos e, com o tempo... aconteceu.
— Vocês se apaixonaram?
— Não, é claro que não. – recusou bebendo outra dose – Foi apenas atração e... de certa forma, curiosidade. Passamos a noite juntos e não nos vimos mais. Até que eu descobri estar grávida.
— Deve ter sido um choque...
— Choque?— riu sem humor, os resquícios do sorriso desaparecendo rapidamente – Eu entrei em desespero! Meu pai não podia saber que eu estava grávida antes de sequer casar, mesmo sendo de um puro sangue e ainda mais por ser um amigo próximo. Ele certamente teria um colapso nervoso. – debochou.
Ravenna tinha esse “dom”, percebera Violet, de mudar o humor tão rápido quanto dizer o próprio nome, algo de família, talvez, já que Eileen era muito pior.
— Willian, era o nome dele. Eu o procurei e disse a verdade. Conversamos por horas, contei tudo sobre mim e as consequências, a magia... Eu pensei que ele me chutaria de sua vida, já que era um Ministro britânico no mundo trouxa e um escândalo poderia arruiná-lo. Mas estava errada. Ele ficou estonteante com a notícia e disse que queria estar presente na criação do filho... Chegou até a me pedir em casamento, mas éramos apenas bons amigos, nunca daria certo. – deu de ombros – Com medo da reação negativa que eu sabia que teria, disse ao papai que iria viajar, sem previsão de volta, e me escondi em sua casa. Tudo ia bem, mas...
— Sempre tem um mas.
— Mas Voldemort não deixaria de recrutar a última Prince. Eileen e Goethe já eram comensais, eu apenas adiei quando fui viajar. – disse com a foz fria, desprovida de emoção – E para a minha surpresa, Eileen o acompanhou.
— Ela... te entregou?
— Não. Ela já tivera Severo e estava mais forte que nunca, ao que percebi. Eu estava com uns oito meses. Voldemort ficou surpreso ao me ver grávida, mas ela... parecia que já sabia. Milord queria que eu abortasse, “um acidente”, ele disse, “um acidente e você não terá com que se preocupar”. – disse rancorosa – Eu tinha me apegado à criança mais do que imaginei e acabei inventando que, quando descobri estar grávida, procurei uma vidente e ela me disse que aquela criança seria poderosa, muito poderosa. E apenas por aquilo ainda a carregava em meu ventre.
— E ele acreditou?
— Não. – negou, porém, um sorriso começou a tomar conta de seu rosto e Violet ficou preocupada – Somos ótimas mentirosas, as três, mas entre nós... Bem, somos irmãs, sabemos reconhecer quando uma está mentindo. E ela percebeu. – comentou erguendo o copo, como um brinde invisível – Acho que lembra de sua habilidade em “convencer” as pessoas, certo?
— Sim.
— Bem... Depois de ouvir minha mentira desesperada...
— Milord. – chamou Eileen e, assim que Voldemort tirou seus olhos da Prince mais nova, encarou a mais velha. Seu tom de voz era melodioso, sedutor... os olhos azuis estavam ainda mais claros e continham um brilho especial, uma luz quase impossível de ignorar de tão atraente e curiosa – Ravenna diz a verdade. – começou e, após não perceber relutância ou estranhamento pela parte de Tom, continuou – Ravenna dará a luz a uma criança que, se receber o treinamento adequando das irmãs Prince, irá se tornar uma das pessoas mais poderosas... E aceitará a Marca Negra. Será uma de nós quando crescer.
— Será uma nós. – repetiu quase que em sussurro, assustando Ravenna, que apenas observava.
— Iremos esperar Milord... Não a forçaremos em nada. – continuou Eileen sabiamente — E quando essa criança estiver pronta, virá até nós. Quem resistiria à honra de ser um dos Comensais da Morte e servir ao poderoso Lord das Trevas?
— Ninguém.
— Exato. E seremos pacientes... Um dia, teremos esse grande poder em nossas mãos. – garantiu – Mas até lá... As deixaremos em paz. Ravenna aceitará a Marca assim que voltar para casa, como o combinado, mas não voltaremos a perguntar de seu filho, sabemos que existe e que está bem, apenas... Teremos paciência. Valerá à pena. – concluiu com um tom mais baixo, encarando-o profundamente até que o brilho anormal em seus olhos desaparecesse aos poucos, restando apenas um Voldemort pensativo e uma Eileen visivelmente esgotada. – Milord?
— Se o que diz está certo Ravenna... – disse Voldemort voltando-se à Prince surpresa, com as mãos sobre o abdômen avantajado protetoramente. – Essa criança será poderosa.
— Sim Milord. – concordou firmemente, sabia o que a irmã havia acabado de fazer e a agradecia mil vezes por isso.
— Pois bem... Poderá ter essa criança. – disse rondando-a com o seu típico e irônico sorriso – E eu a terei quando crescer. Receberá o treinamento apropriado e, um dia, virá até nós... Quem resistiria ao poder que os Comensais podem oferecer?
— Ninguém. – confirmou Eileen, satisfeita, em sua máscara de indiferença.
— Exato! E seremos pacientes... – garantiu rindo suavemente, o som dando arrepios nas irmãs – Assim que voltar para casa aceitará a Marca Negra, Raven... E futuramente... Sua criança também. Valerá à pena, tenho certeza.
— É claro Milord... – disse Ravenna abaixando a cabeça minimamente em sinal de respeito.
— Muito bem... Acho que nosso serviço termina aqui, não é Eileen querida? – debochou – Ninguém deve saber dessa criança Raven, ninguém além de mim irá desfrutar de seus poderes.
— Sim Milord.
— Ela... o quê?! Digo... era Voldemort! Como...
— Eileen sempre foi a mais forte de nós. – respondeu – Ela sabia mais livros e feitiços que poderíamos pensar, talvez até mais que o próprio Milord. Desde criança foi a que mais treinava, mais estudava... Nosso pai investiu tudo nela, a mais aplicada e habilidosa. E eu nunca havia visto tamanha demonstração de poder quanto naquele dia.
— Ela... hipnotizou Voldemort?
— Não, não há hipnose. Não como a dos Pendragon, se é o que está pensando. – corrigiu – Pensei que ela tivesse te explicado como funciona?
— Sim, mas... estamos falando de Lord Voldemort!
— Nada muito importante, se quer saber. – suspirou – Enfim, Eileen tem uma facilidade absurda em manipular a mente das pessoas a seu favor, mas é muito desgastante e usava apenas com os prisioneiros... Milord sabia dessa habilidade e era orgulhoso dela, como se fosse uma joia. Mas cometeu o grande erro de pensar que era mais forte que ela e, portanto, imune. – debochou – Ela me explicou depois que nunca tivera tanta dificuldade antes... A mente de Voldemort era uma fortaleza, como ela mesma disse, e estava tão desregulada quanto as que os comensais deixavam. Mas ela era poderosa, muito.
— Então se quisesse... poderia comandá-lo? Como sua dona!
— Poderia, mas ele também se tornava mais forte. Especialmente depois das Horcruxes. – explicou – Mesmo não sendo descoberta, não quis arriscar novamente e nunca mais tentou manipulá-lo. Apenas o aconselhava e, por ele ter grande confiança nela, levava-os em consideração.
— E seu filho? – perguntou voltando ao assunto “original”.
— Uma menina. – sorriu com a lembrança – Will me ajudou muito, mas...
— O que?
— Sua alma está sendo rasgada ao meio no parto e você sente tanta dor que não percebe o que acontece à sua volta, não tem como controlar... – explicou – Imagine-se como uma bateria carregada, qualquer um que a toque levará choque. Se a pessoa que estiver ao seu lado estiver fisicamente instável, um mínimo cansaço que seja, ela será afetada. No momento é você quem precisa de energia, então vai pegar de todos os lugares possíveis, mesmo que isso signifique matar alguém. É involuntário.
— Willian estava assim?
— Ele estava resolvendo algumas coisas do trabalho, tranquilidade estava bem longe de seu estado. Ele tentou me ajudar, segurou minhas mãos... Mas então eu senti uma carga de energia que não era minha, e quando vi que ele estava ficando pálido tentei me controlar. Por mais que eu soubesse que deveria soltá-lo, não consegui... – assumiu – Tudo que fiz foi gritar, do modo mais animalesco e deprimente possível, que ele se afastasse caso ainda quisesse estar vivo.
— Ele... sobreviveu?
— Willian era forte, saudável... e entendeu o recado. Eu perdi minha fonte de energia e acabei ficando mais tempo em trabalho de parto, mas ao menos o mantive vivo.
Tudo que Violet pode pensar naquele momento foi Vitor. Será que ela seria forte o suficiente, pensando em seu histórico nada favorável, para se controlar e mantê-lo longe?
— Foi tão... libertador... quando ela saiu. – continuou – Alívio imediato. O quarto ficou destruído, mas nada se comparava ao sentimento que me invadiu quando aquele minúsculo ser começou a chorar... Ela era tão pequena... – sorriu, uma lágrima finalmente escorrendo por seu rosto e, Violet percebeu, aquela era a primeira demonstração de sentimento real que via da tia desde que a conheceu.
— E o que aconteceu?
— Eu fiquei alguns meses por lá. Mas não poderia leva-la comigo, meu pai não deveria sequer sonhar com aquilo! E Voldemort me esperava. – disse ressentida – Minha filha ficou com o Will enquanto eu voltei para casa, recebi a Marca de bom grado e continuei com a minha vida. Ia visitá-la sempre que podia, mas Willian percebeu que eu ficava cada vez mais fria e teve medo de eu machucar nossa filha. Tivemos uma longa conversa e, embora doesse, tive que concordar. Eu não poderia cuidar daquela criança tanto quanto gostaria e, quanto mais tempo passava longe, mais me deixava atingir pela influência e os ideais de Voldemort. Concordamos que eu iria me afastar, mas ele não me proibiu de vê-la. Como eu disse, Willian era um grande homem. – sorriu – Pouco antes de a Eileen ser assassinada eu voltei a procura-la, mas tive uma terrível surpresa ao encontrar Willian de luto.
— Oh Merlin... – sussurrou Violet, já adivinhando o que viria a seguir.
— Willian e eu chorarmos juntos aquela tarde... – disse, as lágrimas correndo livremente por sua bochecha – E eu percebi o quanto é perigoso se importar com alguém quando se tem inimigos. Amor é fraqueza e, no meu caso, minha destruição. Foi então que entendi que, quanto mais você se importa, mais você tem a perder. Meu primeiro pensamento foi culpar Eileen. Ela era a única que sabia sobre nós, já que Willian nunca disse uma palavra sobre mim para nossa filha e Voldemort permanecia sobre os efeitos da minha querida irmã... No fim isso nos afastou ainda mais e não voltei a falar com ela. Eu a odiava por tirar a vida de uma pessoa que sequer teve a chance de saber que tinha uma mãe em algum lugar.
— Esse foi o motivo da separação definitiva, não é? A que vocês disseram ser por um “desentendimento”.
— Goethe soube depois do que aconteceu, Eileen contou tudo a ela uma semana antes de morrer. Talvez soubesse o que a esperava... Tinha confrontado o Milord abertamente sobre Severo ser um deles. E então... descubro que minha irmã estava morta também. Assassinato. Juntei as peças e logo percebi a verdade. – disse com uma mágoa enorme – Ele descobriu tudo sobre nós, a Magia Negra e o grande poder que desperdiçou com a morte de Eileen, mas ainda tinha as irmãs mais novas e nos queria para algum plano. É claro que ele ter assassinado minha irmã foi o grande obstáculo, e quando eu recusei veemente a participar de qualquer que fossem seus planos ele insinuou que o assassino da minha irmã era o mesmo da minha filha. Não precisei de nenhuma confirmação para saber quem era.
— Foi ele.
— Voldemort tinha em mente que minha filha era poderosa e que viria até nós um dia... Mas não conseguiu esperar e a procurou. – ironizou cheia de rancor – Ao ser recusado ficou ofendido e irritado. E a eliminou. – engoliu em seco, parando para encarar o teto – Ela faria dezoito anos no mês seguinte.
— Eu... sinto muito... – murmurou, realmente afetada pelo que descobriu.
— Segundo Will, era uma garota doce e paciente que sempre perguntou sobre a mãe... E mesmo recebendo respostas negativas, não desistia. Ela tinha a esperança de que um dia iria me conhecer e chegou a encontrar uma foto minha... Willian acabou confessando que era eu e ela abriu o maior dos sorrisos. – sussurrou feliz, porém, afetada por tudo que revivia.
— Ela nunca te conheceu? Além da foto, digo.
— Não. – respondeu – Ela tinha quatro anos quando, pela ultima vez, realmente me viu como a mãe que tanto queria. Depois disso que comecei a mudar drasticamente e me afastei. Um grande erro, agora eu vejo. – confessou – Willian decidiu se mudar, as lembranças eram terríveis para ele, e depois daquela tarde nunca mais nos vimos. – disse encarando as próprias mãos – Quando acordei o procurei, mas ele morreu de causas naturais aos setenta anos, sozinho, em sua casa.
Violet não sabia o que fazer, ouvir aquela história já era dolorosa o suficiente, mas vive-la... Não conseguia imaginar o quanto Ravenna tinha sofrido! E mesmo com aquela máscara de indiferença que os Prince tinham a insistência de usar, sabia que a tia estava ferida... Uma cicatriz que nunca seria curada. Sem ao menos pensar, sentou-se ao lado de Ravenna – que mantinha os olhos fechados, como se tentasse espantar a dor – e abraçou-a. Mas foi repelida logo em seguida.
— Não preciso da sua pena. – disse friamente levantando-se para encarar o fogo na lareira.
— Não é...
— Entende agora? – cortou – Para alguém como nós, engravidar é assumir riscos... Se for um menino pode se acalmar, acredito que seu noivo não tenha uma ancestralidade mágica como a de Estevam, então não será muito ruim. Mas se for uma menina, ahhh... se for uma menina a dor será triplicada. – falou dirigindo-se à janela, obviamente dando por encerrada a conversa.
Ravenna nunca pensou que falaria sobre aquilo novamente e ainda não acreditava que acabara de descrever sua maior cicatriz para uma garota que acabara de conhecer. Sua família, mas mesmo assim! Nem Goethe ou Eileen sabiam daquela versão, apenas a história superficial: aventurou-se com um amigo do pai, engravidou, teve uma menina que, quatro anos depois, abandonou totalmente sobre os cuidados de Willian e que, no final das contas, foi assassinada.
— Qual era seu nome? – perguntou a garota minutos depois – Sua filha.
— Hope. – suspirou, acariciando a suavidade com aquele nome soava em seu peito – Hope Abigail Prince Bürckle. Minha doce esperança...
— Sinto muito... – sussurrou outra pessoa, que ouviu atentamente cada palavra dita naquele quarto e observou, com o coração pesando em culpa, as lágrimas caírem pela primeira vez em anos dos olhos de Ravenna – Sou uma péssima irmã, não sou? – perguntou encarando o vazio enquanto permanecia encostada ao batente da porta.
— Do que está falando, especificamente? – questionou, curiosa quanto ao que a irmã dizia.
— Eu menti para você Raven. – confessou – Juro que tive bons motivos para isso, mas...
— Seja objetiva Eileen!
— Ela está viva. – admitiu, atraindo um olhar confuso da irmã que, lentamente, assumia um brilho raivoso de reconhecimento.
Por Merlin, que não fosse o que ela estava pensando, se não...
— Hope.
Eileen era uma mulher morta, isso Raven podia garantir.
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