The Originals: Bloodlines
2 1x02 - Every End Leads To A New Beginning
Notas iniciais
Querido diário, hoje é o meu primeiro dia de volta a rotina desde que tudo aconteceu. Ficarei cara a cara com todos outra vez, e não há escapatória. Eu quase não os vejo ultimamente, por isso têm sido fácil, mas hoje sei que será difícil manter a farsa do “Estou bem, obrigada”. Apesar de que sim, eu me sinto melhor, tenho escrito regularmente e isso tem me ajudado. Acho que quando se repete tanto uma mentira para si mesmo, acaba acreditando nela.
Após terminar de me arrumar para a escola, respirei fundo e assumi a postura de garota do colegial comum, prestes á começar um dia comum. Não poderia ser tão difícil, certo? Deixei meu quarto e desci as escadarias.
— Bom dia. — desejei ao aproximar-me da cozinha.
— Ei. Bom dia, Elena. — saudou-me tia Jenna, que já preparava o café. Ela me sorriu.
— E aí, primeiro dia de aula?
— É, estou ansiosa. — menti, forçando um sorriso rápido.
Para minha sorte, antes que este assunto se estendesse, ouvimos o ecoar de passos apressados nas escadas. Eu me encaminhei em direção a sala a tempo de ver Jeremy terminando de descer com a carranca de mau-humor a postos, os cabelos negros bagunçados, mochila nas costas e as roupas escuras, que haviam se tornado habituais. Suspirei com pesar.
— Jer, você não vai tomar café?
— Não. — respondeu friamente, sequer virando-se para olhar para mim e eu já desconfiava do motivo. Fechei os olhos por um segundo em meditação para que não começasse tudo outra vez.
— Ainda têm tempo. Podemos ir juntos depois. — insisti, mas ele foi evasivo.
— Dá um tempo, Elena. — cortou.
— Jeremy. — chamei. Ele sequer parou.
Apressei-me para chegar frente a porta primeiro, bloqueando sua passagem. Porém, eu sabia que não estava sendo mais fácil para ele e não queria piorar as coisas, por isso, vinha tentando dar tempo a ele, mas não parecia estar adiantando e pelo contrário, só parecia afastá-lo quanto mais eu tentava me aproximar. Mantive a abordagem leve, pacienciosa.
— Por favor, já faz meses que você está assim.
— Ah, não começa! — Jeremy resmungou, revirando os olhos.
— Jer, você não pode ficar assim para sempre...
— Quem é você para me falar alguma coisa?! Eu não sou a Jenna, já vi você chorar no seu quarto há noite quando não têm ninguém para ver. — disparou ele, me condenando com os olhos castanhos furiosos sobre as olheiras, sequer me dando a chance de argumentar. — Você não me engana Elena, sei que está só fingindo quando não superou droga nenhuma. Então me deixa em paz!
— Jeremy...
Eu só pude tentar chamá-lo quando me empurrou para o lado para passar pela porta bruscamente, batendo-a ao fechar.
Segurei a testa, tentando absorver aquilo. Notei tia Jenna aproximar-se ao arco da cozinha com a caneca de café em mãos, por sorte, ela não ouviu o contexto da discussão.
— Dê mais tempo á ele, Elena. — aconselhou. Apenas concordei com a cabeça.
— Então, carona para escola?
— Obrigada. — aceitei com mais um sorriso falso, seria um dos muitos que teria de exibir naquele dia.
Tia Jenna me levou á Mystic Falls High School, já que era caminho da empresa onde ela trabalha com consultoria empresarial. Um emprego que a faz viajar regularmente, o que não facilita as coisas quando se trata em impedir Jeremy de sair todas as madrugadas para se tornar um viciado, não que ele não dê um jeito de escapar escondido quando ela está em casa.
O tempo hoje indicava chuva, o vento estava mais forte, bem como o cheiro de terra molhada era levado pelo ar que estava denso. Olhei para o céu de nuvens carregadas que se arrastavam lentamente. Chegando ao campo em frente à escola, senti um aperto em meu peito. Era um alerta de que a partir daqui, as coisas seriam ainda mais complicadas. Certeza que se confirmou assim que adentrei ao corredor principal e vi Caroline com outras garotas nos armários suspensos á parede. Assim que me enxergou, abriu um grande sorriso compassivo e despediu-se rapidamente das garotas para vir em minha direção.
— Ei, oi! — ela cumprimentou suavemente e envolveu-me carinhosamente em um abraço reconfortante que dizia “Eu estou aqui se precisar”, mas me respeitava meu espaço de não ter de falar se não quisesse. Retribui com o primeiro sorriso sincero do dia, sentindo a sua preocupação. No entanto, Caroline se deteve a perguntar apenas:
— Como você está?
— Estou bem, obrigada. — ok, uma já foi das muitas pela frente.
— Que bom te ver. — sorriu em um sinal de apoio. — Senti sua falta. Todos sentimos.
— Eu também senti. — respondi.
— Bem, agora vamos voltar a nos ver frequentemente. — Caroline ergueu os ombros ao tomar fôlego, adotando ar mais descontraído. Soube que aquilo fora para me deixar mais confortável. — Então, como estão as coisas?
— Estão melhores. — disse, demonstrando no olhar agradecer internamente por isso.
— E você? O que têm acontecido?
— Muita coisa, você está por fora de meses de fofocas, então... Temos que te atualizar. — brincou, com uma risadinha rápida que me fez sorrir outra vez.
Caroline e eu nos dirigimos para a sala de aula quando o sinal tocou enquanto ela ainda me contava sobre o que vinha acontecendo para ela e não era pouca coisa. Inclusive, sobre estar flertando com um garoto do Timberwolves e amigo de Matt, nosso melhor amigo desde a infância, só me surpreendi quando ela revelou ser Tyler.
Eu sabia que as garotas adoravam falar sobre os músculos de Tyler Lockwood e o fato de ser o filho do prefeito, mas nunca consegui vê-lo mais do que como o garotinho que conhecíamos desde criança. Embora ele tenha se afastado do resto de nós, com exceção do Matt, no ensino médio, quando se tornou o “fodão”. Repicou os cabelos pretos que contrastavam com seus olhos, entrou para a academia e passou a jogar vários esportes. Ainda assim, definitivamente não conseguia ver ele e Caroline juntos, mas pelo visto, eles estavam mesmo no maior romance, pelo que ela contava.
Adentramos na sala onde se instalavam vários burburinhos, já com alguns grupos em seus lugares. Cochichos aleatórios, risadas altas, fofocas no ar e meninas de segredinhos, nem tanta coisa havia mudado assim. Eu e Care nos encaminhamos para nossos lugares.
— Nossa... Você e o Tyler. Eu perdi muita coisa mesmo. — disse ainda surpresa.
— Pois é, já saímos duas vezes. E ele está me surpreendendo. — Care comentou.
— Que bom, você parece feliz. — disse sorrindo por ver aquele brilho no olhar e a expressão encantada no rosto de Caroline, ela e Tyler pareciam estar se entendendo mesmo. É bom vê-la feliz, além das conversas estarem me distraindo de todo o resto.
— E quando vai ser a terceira?
— Sexta á noite, têm a fogueira você esqueceu? — assim que observou minha expressão de desinteresse, Caroline abriu a boca para repreender. — Oh, por favor Elena, me diga que você vai.
— Caroline, não estou com ânimo para isso. — falei sincera, e sorri ao desconversar:
— Além do mais, eu não quero atrapalhar o seu encontro.
— Oh, não! Por favor, me diga que ela não está falando sobre o Tyler de novo.
Quando ouvimos aquela voz inconfundível, nós duas viramos o rosto dando de cara com a morena mais baixa, tinha os olhos verdes curvados junto do grande sorriso lindo que Bonnie tinha. Eu sorri feliz por vê-la e trocamos um abraço cheio de saudades.
— Elena!
— Oi, Bon.
— Então... Como você está? — perguntou cuidadosamente, sentando-se no lugar a minha frente.
— Estou bem, obrigada. — apertei os lábios ao sorrir. Ok, estou pegando o jeito.
Depois da chegada de Bonnie, ainda houve Matt para aquele discurso, mas por fim, ocorreu tudo bem. O resto das aulas passou normalmente apesar de sentir alguns que ainda me olhavam como a garota que perdeu os pais, mas já esperava por isso. E por fim, me despedi de Caroline e fui com Bonnie que me deu uma carona de volta para casa após o fim das aulas.
E lá passei sozinha o resto do dia. Tia Jenna ligou para avisar que trabalharia até mais tarde por conta de uma reunião e Jeremy... Bem, eu queria saber onde ele estava, mas ao contrário de Jenna, mesmo quando liguei para ele sequer se incomodou em atender.
E a chuva não demorou a cair, ganhando cada vez mais intensidade, o que me deixava ainda mais alarmada em relação a Jeremy, pois para o temporal seria uma questão de tempo. Assim, passei o dia arrumando as coisas em casa, fazendo os deveres da escola e ainda tive tempo para o lazer.
Á esta altura, dava umas colheradas no pote de sorvete em frente a TV a qual sequer prestava a atenção, observando a tempestade que se formou do entardecer para a noite. Eu adorava o barulho da chuva, acho que era isso que me tornava mais uma naquela minoria de pessoas que amam a chuva, havia algo de reconfortante nela. Eram pouco mais de onze horas e eu já estava preocupada por conta de Jer, que não chegou e nem deu notícias.
Pois é, parece cada vez mais difícil chegar até ele. Ultimamente, quanto mais tento me aproximar, mais Jeremy se fecha e se empenha em se afastar. Ele não deveria lidar sozinho com isso e tínhamos de dar suporte um ao outro, porém Jer não facilitava para eu me aproximar. E sabia que desse jeito não estava funcionando para ele, afinal, já perdi as contas em quantas vezes o repreendi por conta de drogas. E o pior é saber como Jeremy está certo, eu estava sendo hipócrita em cobrar dele por guardar sua dor para si mesmo e manter-se sozinho na sua, pois era exatamente o que eu estava fazendo.
Acho que cada um de nós encontrou seu próprio jeito de lidar com o sofrimento, Jeremy se fechando para tornar-se um delinquente juvenil, tia Jenna mergulhando no trabalho e eu... Bem, essas páginas são a prova do quanto eu estou lidando com a perda de nossos pais tão mal quanto eles. Sorrindo pela manhã e chorando á noite. As pessoas dizem que a dor passa com o tempo, mas ninguém diz quanto tempo. Eu queria saber essa quantia. Será equivalente a quantas lágrimas ainda irei derramar? A quantas vezes vou olhar para as fotos? Quanto sofrimento uma pessoa pode suportar sozinha? Quantas vezes qualquer coisa vai fazer lembrar a pessoa? Quantas vezes vai desejar vê-la antes de perceber que se foi? E quais seriam esses números? Eu queria essas respostas, mas a quem estamos fazendo as perguntas se não a nós mesmos, então, o que fazer quando as desconhece?
Meu celular anunciou uma chamada, soltei a caneta e fechei o diário para alcançar o aparelho, sentindo meu coração errar uma batida e palpitar ao ver que a chamada era de Jeremy.
— Jeremy, onde você está? — despejei nervosamente ao atender.
— Você é a irmã do Jeremy? — foi uma voz feminina desconhecida quem perguntou.
— Sim... Quem está falando?! — tive um estalo como um mal pressentimento.
— Ele veio a uma festa em Falls Church e passou mal, você pode vir buscar ele?
— O quê?! — praticamente gritei e de imediato senti um aperto em meu peito e a vibração de medo se instalou em meu corpo. — Meu Deus... Espere, vou anotar o endereço.
Anotei com as mãos trêmulas o endereço passado pela garota e arranquei a folha, levantando do sofá em pulo. Peguei um casaco e procurei atordoada pelas chaves do carro da mãe. E eu quem vinha me recusando em voltar a dirigir e muito menos, o carro que era da mamãe, mas agora não importava, sequer pensei ou senti algo além do desespero que já havia se instalado quando entrei no carro e encarei o temporal á fora.
Dirigi apressadamente em direção à saída da cidade abaixo da tempestade que tornava a iluminação dos postes nas ruas fraca demais e eu contava ainda mais com ajuda dos faróis os quais iluminavam mais. Só queria saber o que Jeremy tinha na cabeça em sair para outra cidade assim, sem avisar ninguém e provavelmente de carona. Finalmente eu chegava à ponte e dessa vez, foi impossível não vacilar com um baque interno ao ser atingida pelo sentimento avassalador ao lembrar que o acidente de meus pais fora nessa ponte.
E abaixo de uma chuva intensa que fazia os limpadores de para-brisas trabalhar incessantemente e ainda assim, não darem conta dos constantes pingos violentos e com os ruídos estrondosos dos trovões cortarem o céu dava um clima ainda mais aterrorizador, principalmente estando no carro que pertencia a minha mãe, além do fato de já estar perturbada por conta de Jeremy, só fez com que o sentimento assolador tomasse conta de mim.
O susto foi ainda maior quando meu celular chamou sobre o banco do carona me fazendo emitir um som apavorado. Respirei fundo e me estiquei para alcançá-lo e assim que voltei à atenção a estrada já era tarde demais para que houvesse tempo para mais do que arregalar os olhos abrir a boca em um grito que se perdeu em apenas um grunhido, ficando preso em minha garganta.
Pois os pneus repentinamente deslizaram girando noventa graus para a direita na vertical á ponte, antes que eu pudesse fazer mais do que tentar inutilmente girar a direção e frear. A próxima coisa que senti foi à tamanha força do impacto do veículo que me arremessou para trás ao colidir com a ponte e atravessar a barreira lateral, fazendo com que parte do automóvel pendesse para fora da ponte deixando somente a outra sustentar o carro de uma queda em direção ao lago.
Por sorte eu usava o cinto de segurança ou teria atravessado o para-brisa na colisão, o que não impediu de bater a cabeça quatro vezes. A primeira no volante, uma no teto devido ao solavanco da batida e duas vezes contra o banco. Todos os meus sentidos pareceram instantaneamente debilitados.
Lentamente ergui a mão, gemendo de dor com o movimento, para minha cabeça, sentindo tudo girar mesmo sem sequer conseguir manter os olhos abertos. Minha mente retumbava. Apertei os olhos. Eu estava tonta e nauseada, um zumbido deixava qualquer som ao redor com um eco abafado, tentei abrir os olhos, mas a cabeça doeu mais e tudo parecia embaçado e obscurecido. Tinha a impressão de ouvir o ranger da tração de metal contra o asfalto, primeiramente, pensei ser os efeitos da batida, mas por fim tive a certeza ao sentir os impulsos de meu corpo para a frente junto do carro que estava aos poucos despencando para a queda.
Obriguei-me a lutar para recuperar a consciência e suportar a dor vibrante na cabeça. Esforcei meu corpo anestesiado e com dificuldades alcancei a porta do carro, empurrando-a. Assim que o fiz e a porta se abriu foi o suficiente para o carro inteiro tremer e pender para frente, despencando para o lago e naquele momento, senti meu interior vacilar e paralisei.
Dizem que quando se está à beira da morte o filme de sua vida passa em sua mente, isso não aconteceu comigo. Foi apenas a escuridão que me engoliu quando meus olhos pesaram e após tantas batidas na cabeça, não pude resistir mais em me manter acordada. A parte boa é que sequer sentiria a morte, estando inconsciente. Então apenas fechei meus olhos, fraca, e todos os sons se extinguiram a um ressonar distante. O balançar do automóvel despencando para minha morte, o rugido de trincar os dentes do metal contra o concreto, tudo. Tudo ficou para trás. E eu sempre fui uma garota insegura, agora, surpreendentemente, não estava com medo.
Contudo, antes do pleno silêncio da inconsciência houve uma sombra cortando o ar como uma rajada de vento em um vulto negro. Meu corpo dormente foi firmemente apertado e levado pelo ar. O frio me atingiu ao sentir o gélido ar da chuva e os pingos violentos agredirem minha pele, congelantes.
Tentei abrir os olhos para entender o que acontecia, mas estava sem forças e as pálpebras mal se ergueram, ainda assim, foi o suficiente para que eu percebesse alguém que sustentava meu corpo. Alguém que salvara minha vida. Porém, perdi a consciência antes de saber quem.

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