The Originals
17 Gritos
Notas iniciais

POV Charlotte
Estou seguindo para casa quando um vulto passa por mim. Consigo sentir o forte aroma florar quando esse vulto passa por mim. Sei quem é porque reconheceria aquele cheiro de longe. Desde a primeira vez em que a vi, seu cheiro ficou preso em minha memória. Mas o que ela está fazendo pelas ruas a essa hora?
Sigo-a. Sou mais rápido pela diferença de idade. Paro em sua frente e a agarro por seu pescoço, erguendo-a do chão. A rua está vazia. Eu poderia arrancar seu coração ali mesmo.
– Elena... – rosno.
Ela esperneia e solta um gemido engraçado. Mas seu rosto está contorcido em uma mistura de raiva e insegurança.
– Charlo... — ela quer pronunciar meu nome mas parece sem ar.
– O que foi, querida? — aperto meus dedos ainda mais envolta de seu pescoço. — Não estou conseguindo te ouvir.
– Vadia... — isso ela consegue dizer, mesmo que em um sussurro.
Eu abro um sorriso sarcástico e a jogo contra uma pilha de caixas que estavam amontoadas e encostadas na parede do Grill. As caixas são derrubadas e o barulho ecoa na noite escura. Mas ninguém tem a curiosidade de saber o que está acontecendo, nem mesmo Stefan que parece ocupado saboreando suas fritas dentro do bar.
– O que você está fazendo aqui? — pergunto, colocando uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.
Elena se levanta, parecendo sem equilíbrio. Arruma seu cabelo e então percebo a renda preta do seu sutiã aparecendo pelo decote de sua blusa.
Ela estava com o Damon. Por que está desconfiando de algo, Charlotte?
Stefan havia dito que ela e Damon estavam em casa, transando. Não sou a Elena. Mas sempre imaginei que quando eu transasse com Damon, não sairia de perto dele nem por um segundo. Por que ela está aqui?
– Eu... — ela parece pensativa. — Isso não te interessa, sua louca! Você não pode simplesmente me atacar assim. Você sabe o susto que me deu?
– Você estava usando suas forças sobrenaturais no meio da madrugada, Elena. Por que?
– Eu iria caçar. — ela deu de ombros, mas sua voz treme diante de suas palavras, então eu sei... ela está mentindo.
– E por que não ir caminhando? Você sabe que vultos assustam os humanos, sonsa Gilbert?
– Pare de me chamar assim! — ela exclama, exaltada.
– Pelo jeito não é uma caçadora nata. — dei de ombros.
– Sou novata no ramo.
– Percebe-se. — digo, deixando claro a ela que não estou caindo naquela conversa fiada.
Ela dá as costas, pronta para se retirar, dessa vez em passos humanos. Eu sorrio e lanço uma última pergunta, para provoca-la:
– A noite com Damon não foi boa, Sonsa Gilbert?
Quando ela se vira pra mim, penso que vai me atacar. Um segundo antes dela o fazer, eu sumo na escuridão.
Chego em casa apenas quando amanheceu. Mas a mansão ainda está silenciosa como a deixei. Tiro meu casaco preto que apresenta algumas manchas de sangue. Felizmente é escuro e lava-lo vai tirar qualquer vestígio que possa me indicar como vampira do mau.
Subo as escadarias e chego em meu quarto. Para minha surpresa lá estava minha queridíssima — ou nem tanto — irmã.
– Rebekah. — resmungo fechando a porta do quarto. — O que está fazendo em meus aposentos?
A loira sorri dramaticamente:
– Não posso mais ver minha irmã? Eu desejava te dar um bom dia.
– Poupe-me. — respondo, despindo-me.
Tiro a meia-calça, os sapatos, o gorro amarelo e o sueter que eu usava por baixa do casaco. Jogo-os na cama e me encaminho até o banheiro apenas de roupa íntima. Rebekah me segue.
– O que é que você quer? — pergunto, ligando a banheira e vendo a torneira jorrar água quente para meu banho.
– Só quero conversar, Charlotte.
– Te dou cinco minutos. — falo, debruçando-me sobre a pia e tirando minha maquiagem antes de entrar na banheira.
– Você sabe o que eu quero dizer, não é? Kol.
Sinto-me como se meu coração tivesse parado de bater por um milésimo de segundo. Olho meu reflexo no espelho e espero não ter demonstrado minha surpresa ao ouvi-la falar de nosso irmão com tanta convicção.
– Kol. Sei. Está morto. — faço-me de desentendida e viro-me para ela.
Rebekah revira os olhos.
– Não se faça de idiota, irmãzinha. Você sabe que pode enganar Klaus, Elijah e todos os outros, mas nunca conseguiu enganar a mim.
Abro um sorriso provocativo. Ignoro suas palavras. Desabotoo o sutiã e tiro minha calcinha. Ela analisa meu corpo com uma expressão de raiva. Ela nota a indiferença com que eu a trato. Ela sabe que eu sempre fui melhor que ela, por mais que ela se sobressaísse a mim. Ás vezes o diabo está vestido de menininha loira com rosto angelical, olhos azuis e estatura baixa com um vestido de rendas do século XVII.
Entro na banheira, soltando um suspiro ao perceber que a água quente relaxa meus músculos.
– Sua meretriz! — ela rosna pra mim e fico impressionada. Ela ainda me chama da mesma maneira que me chamava há séculos atrás. Abro um sorriso leviano. — Você estava com Kol, não era?
Mantive meu tom de voz sereno, mesmo diante da verdade e preocupação que me cercava. Ela havia descoberto.
– Não seja tola. Eu e você sabemos o que aconteceu com ele. Ele foi queimado pelos Gilbert na cozinha.
– Kol está tão morto como Stefan e Alaric agora. E você sabe disso.
Me fazer de desentendida e inocente sempre irritara Rebekah. Talvez por isso ela esteja tão desequilibrada ao falar comigo.
– Eu não estava com Kol. Até onde sei ele está sob sete palmos da terra. Ou melhor, tudo que sobrou dele foi cinzas, porque o incineraram. — falo com frieza, mas admito que senti um aperto no peito ao pensar nisso. — Eu estava com Stefan. No Grill. Depois fui me alimentar.
– Sei que você não está de volta a vida por acaso. — ela aponta o dedo para mim. — Pare de tentar me passar a perna, irmãzinha. — pelo tom de voz que usou, ela começou a me assustar. Até onde ela sabia?
– Sua paranoia não deixa Matt assustado? — debochei.
– Minha paranoia é fruto de anos que passei em um caixão com um punhal no peito que fora enfiado ali por meu próprio irmão. — rebateu.
– Pare de reclamar. Nik só te paralisava por algumas... décadas. — sorri debochando. Me ergui e saí da banheira, alcançando uma toalha na qual me enrolei. — E você também não era flor que se cheirasse.
– Ninguém que tenha um coração merece traição.
Peguei uma escova de cabelos que mais rápido localizei sobre a pia, então comecei a desembaraçar meus cabelos sem preocupação.
– Nik estava fazendo um bem a sociedade te colocando dentro daquele caixão. — digo convencida. — Eu mesmo nunca fui colocada dentro de um.
– Porque você fugia antes da adaga ser enfiada em seu peito. Como da vez em Nova Orleans. Seu namoradinho perdeu a cabeça e você ia parar num caixão em seguida, se não fosse por Kol. — eu não sabia como Rebekah tinha conhecimento dessa história, já que na época ela estava petrificada graças a Niklaus. Pelo visto, minha irmã sabia de muitas coisas que deviam estar escondidas. — É hora de nos unirmos contra Niklaus, Charlotte.
Suas últimas palavras me pegaram de surpresa. A escova caiu de minhas mãos fazendo um barulho irritante ao cair no chão. Encontrei a imagem de uma Charlotte perplexa no espelho.
Rebekah me encurralou. Rebekah está me atacando. Ela me pegou agora!
– Como é? — minha voz tremulou.
Apesar de estar de costas para Rebekah podia ver sua expressão de frieza através de seu reflexo no espelho.
– Quero ser humana de novo. Você não? — havia um sorriso esculpido em seus lábios e ele era perverso.
Ela sabia.
Ela sabia de tudo.
Como ela soube? Quando veio até mim não foi para me acusar. Foi para que eu me juntasse a eles. Talvez Esther soubesse que eu jamais entregaria Klaus e me usou como ponte para chegar até Rebekah e formar uma aliança com a mesma sem ninguém desconfiar. Stefan, por exemplo, esperava que eu traísse Klaus, mas não esperava isso de Rebekah. Nem mesmo eu esperava isso de minha irmã, nem mesmo esperava que ela descobrisse, porque eu estava mais preocupada com um deslize de minha parte.
Fui idiota! Como não pensei nisso? Rebekah nunca foi muito leal e Esther devia estar nos observando há tempos. Ela sabia qual era a brecha certa em nossa família e pelo visto não era eu.
Flashes vem em minha cabeça.
Klaus e Henrick partindo para ver a transformação de nossos vizinhos lobos.
Klaus sorrindo.
Klaus jurando "Sempre e para sempre".
Klaus chorando com Henrick nos braços, ensanguentado.
Klaus sendo agredido por Mikael, só por não ser filho legítimo.
Klaus implorando ajuda. Klaus tendo os ossos quebrados ao se transformar em lobo. Klaus ao matar sua primeira vítima. Klaus chorando. Klaus pedindo ajuda. Sangue. Klaus.
Voltei a assumir minha posição de indiferença, virando-me para minha irmã, fui bastante clara:
– Ninguém merece ser traído e você, mais que qualquer um, sabe disso.
Essa era minha palavra final. Eu já havia escolhido meu lugar na linha de frente da batalha.
Rebekah foi mais clara ainda:
– Tem razão, Charlotte. Eu, mais que qualquer um, sei o que é isso. É realmente lamentável que nem sempre recebemos o que merecemos.
Minhas vistas escureceram e percebi que tudo parecia girar lentamente ao meu redor. A última coisa que vi foi Rebekah saindo do banheiro.
E então, os gritos começaram.
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