No dia seguinte, chegamos a Capital. Logo conhecemos nossos estilistas. Seus nomes são Gacia e Gaston, e eles estarão responsáveis por cuidar de nosso figurino para as entrevistas. Somos levados para o centro de Treinamento, onde ficam nossos aposentos. Tomamos banho, e somos preparados por nossos estilitas.

A roupa que nos é designada retrata o tema de nosso distrito. Estou usando um terno de seda azul, com sapatos brancos. Beatriz está usando um vestido de seda azul e sapatos brancos. O tecido foi distribuido no vestido de Beatriz de modo que, quando ela se move, a calda de seu vestido parece uma grande onda batendo nas pedras. Descemos até o lugar onde as entrevistas serão feitas. Nos sentamos nos lugares designados para o distrito 4. Ao meu lado, está a garota do distrito 3. Aquela que vi na colheita. Ela está usando um vestido azul escuro que vai até pouco acima dos joelhos, e o vestido é decorado com listras em neon por toda a saia. Ela olhava para a frente, centrada, esperando que chamassem seu nome para as entrevistas. Os cabelos dourados estavam soltos e caíam pelos ombros da garota, e seus olhos cinzentos estavam mais tempestuosos do que nunca.

Acho que ela percebeu que eu a olhava, porque ela começou a cravar aqueles olhos cinzas em mim, como se estivesse dizendo “pare de me olhar e cuide do que é seu”. Mesmo que seus olhos me dissessem para parar de olhar para ela, eu não conseguia. Passaram-se alguns segundos e seu nome foi chamado. “Annabeth Chase, distrito 3”. Então era esse seu nome. Annabeth Chase. Ela desviou o olhar, se levantou e foi caminhando em direção a entrada que levava ao palco. Me olhou uma última vez com seus olhos cinza tempestade e desapareceu em meio ao pequeno corredor que levava ao palco.

No lugar onde esperávamos para sermos entrevistados, havia uma grande tela onde podíamos assistir aos outros tributos. Annabeth entrou no palco e se sentou na poltrona ao lado do apresentador.

– Então, querida, que vestido mais lindo que você está usando hoje! – disse o apresentador.

– Obrigada. – ela respondeu.

– Essa cor realçou muito sua pele e seu olhos. Você é uma garota muito bonita, não é, pessoal? – ele disse, gesticulando para o público. Todos bateram palmas. Annabeth sorriu timidamente.

– Então, Annie... ah, posso te chamar de Annie?

– Claro.

– Bom, Annie, você se sente preparada para os Jogos?

– Ah, se fui sorteada na colheita para vir até aqui, não há outra coisa a fazer a não ser se preparar, não é? Mas, sim, eu me sinto preparada. – ela sorriu. Um sorriso certo e confiante, e desafiador, um sorriso que conquistou o público, o apresentador, e todos os outros que estavam assistindo.

Todos bateram palmas para ela.

– É incrível como você consegue ser tão bonita e ao mesmo tempo transmitir tanta confiança, não é mesmo, pessoal? – questionou o apresentador, e todos bateram palmas novamente. Annabeth continou com o sorriso confiante estampado no rosto. – Sabe, Annie, acho que você conquistará muitos corações por aqui. – O apresentador sorriu para ela. – Muito obrigado, querida. – ele apertou a mão de Annabeth, e pela milionésima vez, o público bateu palmas.

Enquanto Annabeth saía, as tiras de neon de seu vestido brilharam com as luzes do palco, o que fez com que as palmas aumentassem.

Então, seguiram-se as entrevistas do garoto do 3 e de Beatriz. Todos da Capital ficaram encantados com a fofura dela. Finalmente, meu nome foi chamado. Entrei com as pernas tremendo no palco, estava nervoso. Claro que tínhamos conversado com os mentores, mas eu e Beatriz tínhamos certa relutância em conversar com eles. Acho que era porque eu e ela estávamos assustados demais para confiar em alguém sequer. Nós não nos falamos muito depois da conversa que tivemos e depois da promessa que fiz a Beatriz no trem. Mas vendo sua entrevista, vendo o jeito sincero dela, aquele jeito de criança, conquistar todo o público, eu soube, de algum modo, que aquela sinceridade que ela usou com o entrevistador era mesma sinceridade que ela usara comigo, e que ela estava confiando em mim, ela estava confiando na minha proteção, e eu não podia falhar com ela.

Perdido em pensamentos, mal percebi que estava quase tropeçando sobre a cadeira. Voltei a realidade, tentando organizar a mente e olhando para o público enorme. Me sentei cambaleando.

– Então, Percy Jackson – disse o apresentador. – O que você mais gostou na Capital até agora?

Encarei o entrevistador, encarei o público. Eu tentava falar, mas as palavras não saíam.

– Vamos lá, Percy, não seja tímido. – o apresentador riu. – Você viu a garotinha, Beatriz, até ela estava mais tranquila que você. – Não sei por que, mas esse comentário fez todos rirem.

– Anh... – gaguejei.

– Vamos lá, garoto!

– A comida, a comida aqui na Capital é muito boa. – um minuto de silêncio. O apresentador me encarava como se não acreditasse na resposta, e depois, caiu na gargalhada. E o público fez o mesmo.

– Muito bem, muito bem. – disse o apresentador, parando as gargalhadas. – Então, Percy, como pude perceber, você tem uma beleza extraordinária. Aliás, eu admiro os tributos do distrito 4 por isso, por sua beleza e sua agilidade em batalha, sempre tão confiantes. E, é claro, um garoto como você, que além de ser bonito tem senso de humor, vai conquistar corações na Capital, acredite em mim! – Todos aplaudiram, e eu podia ouvir os suspiros da garotas na plateia.

Eu não sabia o que fazer. Não conseguia me concentrar. Não sabia o que dizer. Todos os olhos estavam fixos em mim, e eu estava completamente jogado na dúvida. Vasculhei minha mente e me lembrei de uma coisa que Lara havia dito em uma das conversas com os mentores, uma das poucas coisas em que prestei atenção. “Sorria”. Então, foi isso que fiz. Abri o melhor sorriso que podia e o olhar mais cativante que conseguia em direção ao público. Mais aplausos. Então, o apresentador disse:

– Ah, infelizmente, nosso tempo acabou! – a plateia soltou um murmúrio de tristeza – Estamos torcendo por você, meu caro! – Mais aplausos.

Me levantei da cadeira e saí do palco em direção ao lugar onde os tributos estavam. Assim que fiquei longe do campo de visão do público, soltei um suspiro. Aquilo era doentio. As pessoas aplaudiam sem parar a cada comentário bobo que o apresentador fazia. Elas agiam como se não soubessme que apenas um dos tributos entrevistados ali naquela noite sobreviveria.

Beatriz acenou para mim e fez sinal para que eu me sentasse ao seu lado. Fui andando até que tropecei em algo no caminho. Cambaleei, me apoiando na parede.

– “ Você tem uma beleza extraordinária, garoto” – disse alguém atrás de mim, tentando imitar a voz do apresentador. – Você foi completamente ridículo lá em cima. – me virei e me deparei com olhos castanhos cravados em mim. A garota do distrito 2 me encarava com uma expressão zombeteira no rosto. Arquejei, tentando me afastar, mas ela me prensou na parede. – O que foi? O gato comeu sua língua? Bem que eu imaginei, depois do seu filosófico “ahn” lá no palco. – ela riu. Eu continuei a encarando, sem exibir qualquer expressão. O olhar da garota mudou de zombeteiro para ameaçador. – Escute aqui, distrito 4, não pense que ganhou o público com esse seu sorriso bobo, na arena, o que vale é habilidade. Sua “beleza extraordinária” não vai te ajudar a vencer. E eu juro que, na primeira chance que eu tiver, eu mato você! – ela me empurrou contra a parede e me soltou, virou as costas e foi embora.

Eu me lembro dessa garota. Eu a vi na colheita e acabei de ver sua entrevista. Clarisse. Clarisse la Rue, distrito 2. E então, antes mesmo de entrar nos Jogos, eu já tenho uma ameaça. Claro que, estar na Capital, para alguém que nunca conheceu além dos limites do 4, é ameaçador. Porém, a verdadeira ameaça disso tudo é saber que aquelas pessoas que, assim como você, nunca saíram dos limites dos seus distritos, estão ali com um proposito apenas: matar você.

Sentei-me ao lado de Beatriz no banco.

– Você estava quase desmaiando lá em cima. – ela disse.

Sorri.

– Ei, não me culpe, eu não sou uma garotinha adorável de 12 anos que pode dizer qualquer coisa e público vai soltar um “awn”.

Ela riu.

– “Beleza extraordinária” – Beatriz disse, rindo e imitando a voz do apresentador.

– Beatriz, para. – e, acho que só para me irritar, ela continuou rindo. – Qual é a graça?

– Nada, só o jeito que o apresentador falou. O sotaque da Capital é muito esquisito.

– É mesmo, parece que eles estão cheirando limão azedo enquanto falam. – e, de novo, Beatriz começou a rir. – “ Por favor, senhorita James, pare de rir”. – eu disse, tentando imitar a voz do apresentador, e isso fez Beatriz rir ainda mais.

Eu sei que isso pode parecer bobo, e é realmente bobo. Mas por estarmos tão assustados com tudo isso e aquela pressão toda em cima da gente, rir não faria mal a ninguém. Afinal, a partir daquele momento, nós pensávamos – não só nós, mas os outros tributos também – se sobreviveríamos ou não. Se voltaríamos para casa. Se íamos ou não vencer os Jogos. Se tinha ou não uma grande chance de morrermos na arena.

Distraído em pensamentos, demorei a perceber que Beatriz cutucava meu braço.

– Psiu.

– Que foi?

Beatriz apontou para o lado. Encostada na parede, estava a garota do distrito 3. As tiras de neon de seu vestido ainda brilhavam, os cabelos louros destacavam seus olhos cinzentos, que pareciam uma tempestade severa enquanto encaravam os meus. A garota me observava atentamente, embora não exibisse nenhuma expressão no rosto. A garota se desencostou da parede e saiu andando até outra parte do lugar onde os tributos estavam, ainda cravando os olhos em mim, até que desaparecesse do meu campo de visão.

…

Assistimos as entrevistas dos outros tributos. E, por incrível que pareça, haviam outros tributos tão tímidos e nervosos quanto eu. A garota do distrito 5, por exemplo, falava tão baixo que mal dava para escutar o que ela falava. O garota e a garota do 8 não pareciam tão tímidos, e o garoto do 10 tinha um tom de voz determinado. Mas, por mais que tentassem, nenhum deles parecia confiante. Por mais que tentassem, todos estavam com medo.

Medo. Não era apenas a Capital, os Jogos, as pessoas e as entrevistas que traziam medo. Até os tributos sentiam medo uns dos outros. Sentiam medo de que aquele que te lançou um olhar gentil na noite das entrevistas fosse o primeiro a matá-lo na arena. Era apavorante até estar perto daquelas pessoas.

E aqui estou eu, perdido nos mesmos pensamentos. Olhando todos a minha volta. A pequena Beatriz. A garota do distrito 3 com os olhos cinzentos. A garota do 5. Os tributos do 8. O cara do 10. Clarisse La Rue. Todos em quem realmente prestei atenção. Eu. Aqui, sentando, imaginando mil coisas diferentes que podem acontecer com essas pessoas a partir desse momento.