The Olimpians - Morgan's
1 Capítulo 1 - Opa, calabouço.
TRAVIS (I)
Quando eu acordo, o outro lado da cama está vazio. Meus dedos se esticam, procurando o calor de Caden, mas encontrando apenas a áspera lona que cobre o colchão. Bem, ele deve ter tido pesadelos e ido para a cama de nossa mãe. Claro que ele foi. Hoje começam as aulas em Washington Dalle.
Me apoiei à um cotovelo. O dia poderia ser deprimente, portanto, pretendia esboçar simpatia ou o que fosse até atravessarmos a rua, saltando daquele ônibus moribundo com o decepcionante motorista — daqueles que acusa dormir no percurso pelo menos duas ou três vezes.
Se eu detesto Washington Dalle? Sim, profundamente.
Além de ser um medíocre internato com um pouco mais de sessenta anos, sendo fundada por volta do ano de 1950, aproximadamente, ele tinha os piores professores, e também não faltavam os piores alunos.
Repulsa. Pus minhas pernas para fora da cama, me sentando à borda, levei uma das minhas mãos ao rosto, me acostumando ainda com a claridade do quarto, um pequeno — cabia nossa cama, cômoda e uma cadeira que abrigava algumas roupas, nada mais.
Em cima da cômoda, dobrado e passado, meu uniforme se encontrava empilhado com a camisa, calça e sapatos. Me vesti, embaracei meu cabelo encaracolado e armado, pondo uma touca beine que tinha jogado aos pés da cama, e me despachei para o corredor.
Em alguns passos pude ver Caden sentado à mesa, tomando seu cereal seco, o leite teria acabado. Minha mãe não estava, então supus que devia ter ido trabalhar logo cedo.
De qualquer forma, me dirigi a cozinha, e notei logo a pilha de contas, jornais e aleatórios esparramados na bancada.
– Travis! — acenou.
Desviei minha atenção do amontoado de papéis para aquele menino sorridente.
Caden era pequeno, com cabelos castanhos lisos e curtos, e que ainda tinha suas olheiras devido o sono. Provavelmente, ele seria o único motivo de qualquer sorriso meu que saísse durante o dia.
– Ah, Caden. Acordado?
– Fui ajudar mamãe com as roupas. — estendeu um prato com torradas, literalmente torradas — Seu café!
– Obrigado. — apanhei o prato, e me sentei — Coma seu cereal, está quase na hora.
Realmente, ônibus não iria demorar a chegar. Um pouco depois nós descemos para o ponto. No caminho passamos pelo comércio, um que tinha no fim da rua. Acabamos distribuindo vários "bom dia", e também alguns "com licença", graças a tão rotineira má-educação daquela multidão de pessoas.
Dentro do ônibus, apresentamos os nossos nomes e assinamos a caderneta de presença — o que eu acho, pessoalmente, inútil, tendo tantos alunos chegando no meio do ano e com nenhum monitor dando falta.
Sentar no fundo, nesse caso, era a melhor opção, e na falta de lugares acabamos sentados no meio. Quem senta no meio, ou na frente, geralmente sofre mais com os quebra-molas e com os alunos do Ensino Médio: Gavin e Gale Adams.
Gêmeos arrogantes, imbecis e sardentos. Não demoraram para começara acertar pedaços de sanduíche da nunca dos que sentavam na sua frente: duas meninas e um menino.
Os três eram da idade de Caden, mais ou menos, e eu estava impotente, principalmente por que naquele instante o monitor estava no ônibus. Por mais que qualquer um pudesse se passar despercebido por ele — até mesmo Gavin e Gale, que continuavam com seus alegres sorrisos no rosto, despedaçando seus sanduíches — eu não me lembrava de quaisquer momento em que ocorresse o mesmo comigo.
Mr. Packard era um homem que estava na meia idade, era calvo e tinha a altura que daria um poste de sinalização, carregava com sigo um sorriso amarelado e uma postura carrancuda sobre uma muleta, além da sua pochete pendurada sobre seu ombro.
Eu nunca me dei bem com ele, e vice-versa. Para a minha felicidade e à dele, nós não iríamos se ver durante esse ano, sendo que eu estou no Ensino Médio agora. "Menos um Morgan, pelo menos" dizia ele.
O motorista abriu as portas e o monitor nos guiou até os portões de Washington Dalle.
Fomos reunidos de frente para as escadas do prédio C, onde ocorreriam as aulas, como Matemática ou Português. Tinha um pouco mais de 55 salas, e cinco turmas para cada ano, desde o segundo do fundamental até o terceiro do médio.
Mr. Packard começou a falar sobre as regras e normas de convivência, e percebeu que ao invés de ouvir o que ele dizia eu me ocupava tentando controlar meu irmão e sua necessidade de ir ao banheiro. Caden reclamava da fonte, indo até o jardineiro que regava o gramado.
– Estou atrapalhando, Sr. Morgan? — indagou se ajeitando em cima de sua muleta.
Os alunos ao redor prenderam sua atenção que nunca esteve no monitor em nós.
– Não, Mr. Packard. O meu irmão só precisava ir ao banheiro. — me calei.
– Está brincando comigo? — acirrou os dentes — É esse o motivo da interrupção? — gritou e me puxou, agarrando-me o braço.
Caden deu um salto e partiu para atrás de mim. Ouve risos.
– Sinto muito. — respondi, e pude ouvir o monitor grunhir. Puxei fôlego, procurando me prender ao bom senso de que eu tinha que permanecer naquele internato, além do mais, ser expulso porque seu irmão estava apertado não é algo tão especulador.
– Sim, Mr. Packard. Eu sinto muito. — murmurou Caden, se agarrado à minha camisa.
O monitor levou a mão a testa impaciente, me soltou e sinalizou o caminho com desdém.
– Que seja, vão — deu as costas -, mas voltem o quão cedo, ou se não mandarei algum funcionário atrás de vocês. E seu próximo ponto será a minha sala.
Fomos, deixando para trás aquele bando de alunos delinquentes, às escadas de um internato delinquente, e o Mr. Packard.
Caden estava na frente, e atrás de nós, Gavin e Gale. De tantos alunos e pessoas, porque aqueles idiotas tinham que realmente vir atrás de nós, pensei, e eu pareço ter um péssimo hábito de atrair os desse tipo. Eu não teria paciência com eles, assim como não teria com quaisquer outros retardados como os dois.
Eles riam, e caçoavam. Assim que meu irmão entrou eu me virei.
Tudo bem, eu não me lembrava de ter tocado neles. Não ainda. Quando dei por mim Gavin e Gale estavam ao chão, recuavam correndo aos gritos.
– O que? — senti uma vontade inesgotável de rir.
Mas, de repente e do nada, duas mãos me empurraram contra a parede. Me debati. Elas eram grosseiras, me pressionavam, e um desespero me cobriu de imediato. Aquela vontade de sorrir desapareceu completamente.
Engoli a seco. Me deparei com aquele homem, ele tinha um cabelo curto, uma expressão dura e sobrancelhas cerradas. Seu corpo era repleto de bíceps, tríceps e outros "eps", além de que ele parecia um daqueles trogloditas de comerciais.
– Porra! Qual o seu problema? — gritei — Me solta!
– Cala essa boca! Quem você acha que é raparigo? — retrucou. Eu poderia tentar falar, mas as palavras se perdiam em caminho à boca. — Cadê teu irmão? — a essa altura? Se trancando no banheiro.
Ele me agarrou e me levantou até o bico dos pés.
– Eu não vou repetir a pergunta. — grunhiu.
Caden saiu abrindo a porta, segurando ainda a maçaneta. Ele se deparou com a cena e deu um passo para trás.
– Travis...! — Caden cambaleou, caindo sentado e amedrontado.
– Ali está. — concluiu.
Quem era aquele cara?
Eu nunca quis tanto que Mr. Packard estivesse ali, ou outra pessoa, até mesmo aquele anterior jardineiro serviria, e quem sabe um professor, qualquer um. Afinal, o que diabos aquele homem queria fazer? Nos sequestrar? Ele deveria saber que isso é crime — mas ele não parecia estar preocupado, pelo o contrário.
– Deveriam me agradecer de ter os encontrado antes de Fobos — riu -, ele é bem menos simpático.
. . . . . . . . . . . .
Eu estava em uma sala, acorrentado, o breu era incessante, e o silêncio era insistente. Vazio, um vazio completo. Não tinha nada, e mesmo que tivesse, eu não via, até onde sabia eram apenas o meu par de correntes aos braços e pernas. Coragem me faltava para ouvir o som da minha própria voz.
Teria eu sido reduzido a aquilo? Não, não mesmo. Eu queria citar os palavrões, gritar até algum filho da puta me ouvir, até que eu ouvisse algo ou alguém. Como era possível sentir tanta raiva e tanto medo...
Washington Dalle parecia agora um sonho de consumo. Como eu tinha parado ali? Naquele lugar fétido... Ah, sim, me lembro.
Naquela semana passada, aquele homem me levara e mais meu irmão, com um outro homem e uma mulher. Nos arrastou até aqui, me prendeu aqui. E Caden...
– CARALHO! — gritei, socando o chão.
Pude sentir aquelas poucas lágrimas que desciam pelo meu rosto. Seria aquilo remorso, perda, pessimismo? Dane-se, o que eu sabia era que eu não sabia de nada, e isso me incomodava. Eu queria o Caden, o meu irmão menor, só ele, e o resto seria apenas o resto.
– Não grite — ouvi a voz de um homem -, e não chore. Sendo breve, fique calado.
Procurei, e eu fui retardado a ponto de esquecer de que eu não veria nada. Sequei as lágrimas com as mãos de imediato.
– Quem é? — me levantei — Quem está ai?
Não tive quaisquer resposta, e refletindo nas grades eu pude ver se ascender uma tocha de fogo, e quem segurava era uma mulher, e que estaria velha, com seus cinquenta, sessenta anos.
E a partir daquela tocha o vi, era um rato. Um rato de quase 1,30 de altura, preso à parede. Aquilo não poderia ser um rato, aquilo não poderia nem mesmo ser posto na linhagem de ratazana.
"Rato. Um.. Rato?" pensei.
– Travis Morgan. — disse a mulher, abrindo o portão — Venha. — desprendeu-me das correntes, me guiando pelo braço.
– Espera! Ei! — dei minha última olhada no homem-rato, preso de focinho para baixo pela cauda. Seria engraçado, isso se tirasse a parte de que era um rato, e que ele falava.
Fomos seguindo um corredor, era revestido de pedras do teto ao chão. A única iluminação era a tocha, e as demais celas estavam vazias.
Mais para frente pude ver corpos, esqueletos, ou o que sobrava de homens, estavam ainda vestidos com armaduras, e mesmo assim podia ver o vestígio de desistência.
Aquela mulher mal me olhava, apenas andava e me levava com ela.
– Para aonde estamos in... — me interrompi.
O vi no fim daquele corredor.
– Caden!
Fale com o autor