Notas iniciais
Easley
03 de Janeiro
Estamos quase atrasados, quase.
Sei que Vivian e Ryuu vão ter mais problemas do que eu e Linda, mas estou uma pilha de nervos com tudo que pode dar errado nesse momento.
Ela apertou a minha mão com força, mas não liguei.
O rosto de Melindra estava coberto de suor e ela estava exausta depois de mais de quarenta e oito horas de trabalho de parto. Sua respiração estava ofegante e mesmo alguns apertos que dava em minha mão não eram mais tão fortes quanto no começo, o que me preocupava ainda mais.
Di Immortales.
Eu não consigo nem mesmo sonhar na possibilidade de perder essa mulher agora.
Se algo acontecer com ela, o que eu vou fazer com a minha vida?
Minha mão tocou seu rosto e acariciei sua bochecha de leve, o que fez seus olhos fecharem tremendo.
—Só mais um pouco Linda. –Sussurrei assustado.
—Estou cansada, só isso. –Ela abriu os olhos sorrindo de leve. –Não vou a lugar algum, não depois de ter tanto trabalho pra te fazer casar comigo.
Senti meu coração pular uma batida e ela apertou minha mão com mais força do que antes, notei a movimentação do quarto se agitando, mas foquei toda a minha atenção em Melindra.
Quero que essa criança nasça bem e saudável, só que não consigo deixar de pedir a todos os deuses, em qualquer lugar, que ela não me deixe.
Devo ser o deus mais medroso do mundo nesse momento.
Notei Hera gritando algo às minhas costas.
Melindra apertou minha mão mais e começou a fazer força, percebi o que minha avó estava mandando minha esposa fazer e uma pequena onda de alívio surgiu no meu peito sabendo que tudo terminaria e Linda poderia enfim descansar.
Os dez minutos seguintes foram os mais longos da minha vida, mesmo assim no momento em que ouvi aquele choro e vi o olhar de Melindra... Nada mais importava. Eu sabia sem nem mesmo ver nossa criança que nunca fui tão feliz quanto seria daquele momento em diante.
Não com aquele sorriso bem na minha frente.
—Quer segurar a sua filha Easley? –Me assustei com a voz de Hera que me olhava com um sorriso divertido. –Sua filha?
Olhei para Linda que assentiu e soltei sua mão tremendo de medo de pegar o bebê, especialmente com o meu corpo que é tão grande e, por vezes, excessivamente forte.
—Relaxe. –Ouvi Melindra sussurrar. –Você faz todas aquelas peças delicadas que até o vento quebra e nunca causou estrago algum, não vai ter problema para fazer isso.
Assenti e esperei Hera colocar minha filha nos meus braços.
Suspirei.
Ela era linda e completamente perfeita, além de absurdamente miúda.
Pouco maior que minha mão e menor que meu antebraço.
A sua pele era mais escura que a minha e mais clara que a de Linda, seus cabelos de um vermelho-alaranjado intenso e vibrante, mas eu sabia mesmo sem ver que ela teria os olhos mutantes da mãe.
Me aproximei de Melindra com cuidado e ela estendeu a mão tocando o canto do rosto da nossa filha. Linda estava tão cansada que eu sabia que aquele simples gesto era um esforço sem fim apenas para não desmaiar antes de conseguir ver nossa menininha e lhe darmos um nome.
—Ela é perfeita. –Linda sussurrou e encarou Hera. –Já sabe?
Minha avó sorriu.
—Deusa dos Vulcões.
Minha esposa voltou a encarar nossa filha e sorriu.
—Não vou combinar seu nome com seu poder, Flora.
Ouvir aquilo me fez sorrir.
—Achei que escolheria Rose no final.
Ela fechou os olhos sorrindo enquanto notava que as deusas já haviam cuidado da limpeza e troca de roupas.
—Não mesmo. –Vi que ela estava cedendo ao cansaço. –Fique por perto, quero poder senti-la ao meu lado.
—Não se preocupe, estaremos bem aqui quando você acordar.
Pude ver o momento em que Linda adormeceu e sentei ao seu lado com nossa filha nos braços sob o olhar atento de Hera.
—Quando você começar a sentir o sono vir vamos nos revezar para cuidar da pequena.
Assenti e fiquei observando minha esposa e minha filha de forma alternada, encantado por ambas e pela forma como ambas completam partes diferentes do meu coração que por anos não achei que tinha.
Eu sou abençoado por tê-las na minha vida.
Muito abençoado.
No final, acho que consegui ficar mais meia hora acordado antes do cansaço me abater e Hera pegar Flora dos meus braços.
Haveria um rodízio entre as deusas para cuidar dela nas próximas horas e eu sei que ela estará em boas mãos.
Deitei ao lado de Melindra e deixei boa parte da minha consciência se desligar, ficando atento apenas a minhas meninas.
Meus tesouros.
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Erza
12 de Janeiro
Estamos atrasados e essas crianças vão começar a adiantar, o que nunca é bom com a Linhagem.
Vi Lilliel sentada no canto do quarto de olhos fechados e encarei Perséfone que acenou, então imitei minha filha e sentei longe da cama onde Halley estava em trabalho de parto. Reynald estava lá, dando apoio a melhor amiga e irmã de coração, enquanto Lear mantinha Ashlley em outro cômodo, já que minha sobrinha não poderia ficar ali.
Fechei meus olhos e caí na escuridão profunda até minha consciência alcançar o espaço onde Kaíros nos esperava. Olhei ao redor e encontrei os outros ali.
Carlos estava em sua aparência monstruosa e era um dos únicos com poderes de luz capaz de também usar as trevas. Normalmente ele não estaria ali e sim ajudando no parto, só que essa não é uma situação normal. A poucos metros vi Leon em sua forma de Sonho Vivo, mas nesse domínio mesmo alguém poderoso como ele tinha seus poderes multiplicados várias vezes. E minha filha estava mais à frente de ambos, com sua foice em mãos e o manto envolvendo seu corpo, a inquietação dela fazia o tecido se mover de forma agitada.
Me sentei na cadeira de pedra que surgiu atrás de mim e senti a presença de Hades surgir.
—Vai precisar de ajuda? –Ele também se preocupava.
—Por hora não, mas gostaria de ter Hypnos e Thanatos atentos a tudo. –Movi minhas mãos invocando duas centenas de espectros menores e dez maiores. –Sei que se precisar você vai tomar a iniciativa por conta própria.
—Verdade. Mesmo assim não hesite em me chamar.
—Não irei.
Ele desapareceu.
Encarei os três mais jovens à minha frente.
—Sabem o que fazer e o que esperar, não hesitem. Matem todos.
Lilliel avançou muito além na escuridão, tomando o máximo de distância de onde Leon e Carlo pararam lado a lado.
—Tudo bem mandá-la na frente? –Melindra apareceu ao meu lado com Teresa.
—Não há muito o que fazer, ela é péssima com trabalho em grupo. –“Ou no caso, os poderes dela”, pensei.
—Nesse caso, vou ajudá-la. –Teresa avançou no exato momento em que a primeira onda veio.
—Vou ficar entre você e os garotos. –E Melindra não parecia preocupada, o que não é muito tranquilizador.
Observei os diversos demônios que avançavam na nossa direção, a maioria sendo mortos rapidamente pelos ataques de área de Teresa e Lilliel que drenavam suas vidas os transformando em cinzas. Os ataques de ambas eram tão grandes e mortais que qualquer um que não estivesse naquela esfera de poder morreria só de ficar ao lado delas, mesmo seus aliados. O que as tornavam as piores pessoas para encaixar em lutas de grupo.
Mesmo assim, não foi um problema lidar com a primeira, segunda e terceira onda de monstros. Então vieram a quarta e a quinta, em uma sequência rápida, seguidos da sexta e sétima, e eles começaram a romper as defesas delas para atingirem Carlo e Leon em suas formas bestiais.
Os dois eram rápidos e fortes o bastante para lidar com uma centena daqueles demônios por minuto, por isso o começo era fácil.
Cinquenta escapavam de Teresa e Lilliel no começo e eram parados pelos dois, mas a quantidade que passava por elas crescia aos poucos, superando a capacidade de seus poderes com seus números cada vez maiores. Logo Carlo e Leon tinham mais demônios para destruir do que podiam lidar, especialmente por que seus poderes ali dependiam de sua resistência física, o que iria se tornar mais difícil conforme a luta se estendesse independente deles poderem segurar o ritmo por dois dias inteiros antes de caírem.
Eu olhei para Melindra e para os fantasmas ao seu lado, centenas de caçadoras de Ártemis mortas que se voluntariaram para matar aqueles monstros. Elas podiam agir apenas em uma linha de dez metros, não poderiam sair daquele ponto e em troca não receberiam o menor dano que fosse. Aquelas garotas eram experientes, sabiam atingir pontos vitais e causar danos graves aos monstros, isso compensava as restrições que recebiam ao serem invocadas por Melindra naquele espaço.
Levou mais tempo do que eu esperava para que os primeiros demônios passassem pelas caçadoras fantasmas e batessem contra os espectros que havia invocado, mas eles chegaram e isso não era bom.
—Quanto tempo passou Kaíros? –Resmunguei trincando os dentes enquanto aumentava a minha invocação para mil espectros de batalha.
—Doze horas Erza. Ainda falta um pouco. –Ele se abaixou ao meu lado e lançou um pulso de energia que alimentou todos os membros da Linhagem. –Infelizmente não sei dizer se isso significa mais duas ou doze horas.
Vi ao longe Lilliel invocar uma quantidade massiva de energia e causar um vácuo no ataque dos demônios, o suficiente para Teresa fazer outro ataque em massa quando a onda seguinte se aproximou.
—Menos de um dia?
—Provavelmente.
—Você podia ter alertado a todos, não acha?
—Acredite ou não, essa situação também não estava nos meus planos. –Ele não parecia satisfeito com aquilo.
—Me diga que isso não teria acontecido se não fosse a Coroa.
—Provavelmente teria. –Ele me olhou de forma severa. –Tem muitas coisas em jogo, o fato de que tudo está convergindo agora não é apenas coincidência Erza e, acredite ou não, ainda demos sorte. Temos tempo de trazer essas últimas crianças antes que as coisas fiquem realmente ruins, porque acredite, as coisas não estão nem de longe tão ruins quanto vão ficar no final.
—Nesse exato momento eu te odeio muito.
—Vou me lembrar disso quando as próximas duas crianças nascerem. –Ele segurou meu ombro. –Peço desculpas por isso.
E antes que eu pudesse perguntar, Kairos me sobrecarregou com seus poderes e acabei invocando pelo menos dez mil espectros ao mesmo tempo que uma onda de demônios vinte vezes maior que as demais avançou sobre Lilliel e Teresa. Vi Hypnos e Thanatos surgirem ao lado de Leon e Carlo, os deuses gêmeos estavam trajados para a batalha e seus golpes dizimavam uma centena de monstros, mas eles continuavam avançando até a linha de defesa de Melindra.
As caçadoras fantasmas não conseguiram pará-los e logo eles bateram contra os espectros, enquanto meu cérebro registrou Kaíros enviar outra onda de poder para a Linhagem, o que me forçou a invocar mais espectros.
Eu queria xingá-lo.
Ser forçada a invocar espectros daquela forma era doloroso, mas então eu percebi.
Foi apenas por um milésimo de segundo e tudo fez sentido.
Kaíros estava usando seus poderes para ver alguns segundos à frente do tempo, não muito, mas o suficiente. Apenas dois ou três segundos e mesmo assim cada vez que ele o fazia evitava que fossemos massacrados, que perdêssemos a luta.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas o outro lado estava desesperado em nos vencer e Kaíros sentiu isso. Ele decidiu arriscar, poucos segundos por vez, injetando poder para nos dar capacidade de sobrepujar os esforços dos monstros. Era perigoso para ele fazer as duas coisas e mesmo assim o idiota não hesitou.
Foquei minha atenção enquanto Kaíros fazia sua jogada e invoquei todos espectros que o poder dele me permitia naquele momento, isso o fez tirar um pouco sua atenção de mim e focar nos outros.
Agora que ele sabia que eu entendia um pouco não havia necessidade de roubar o controle dos meus poderes, apenas dar o impulso e eu faria o resto. Isso permitiria que Kaíros focasse no quadro maior.
Em algum momento, depois do que pareceu uma hora daquela loucura, os demônios guincharam irritados e simplesmente desapareceram.
—O quê…? –Mas eu me sentia exausta.
Meu fôlego faltava e quando olhei para os demais pude ver Teresa apoiando Lilliel que mal se mantinha lúcida enquanto Hypnos e Thanatos carregavam Carlo e Leon nas costas, ambos muito cansados para conseguir falar. Melindra andou cambaleando até onde eu estava e sentou no chão exausta.
Encarei Kaíros que apesar de ser o único capaz de se manter em pé parecia mais cansado que todos nós juntos. Ele engoliu como se aquilo exigisse um grande esforço da parte dele e quando falou sua voz tremeu.
—A criança nasceu.
—Quanto tempo passou? –Ele sabia o que eu queria dizer.
“Quanto tempo passou desde a última vez que perguntei?”
—Mais duas horas. –Vi seu corpo balançar de forma perigosa. –Eu…
Ninguém teve tempo de reagir quando ele cedeu, então todos se surpreenderam quando alguém aparou Kaíros, inclusive ele.
—Vamos para casa, meu senhor. –O rapaz em roupas de linho um pouco esfarrapadas, com o rosto coberto por um pano, era um dos guardas do Lótus.
—Dikaíos, como…?
—Creio que seja suficiente dizer que vim aqui para garantir que o senhor retorne em segurança.
Kaíros pareceu ter centenas de perguntas para fazer ao líder de segurança do Lótus, mas pude vê-lo colocar todas as suas dúvidas de lado.
—Por favor.
E sem dizer mais nada os dois desapareceram.
—Vamos vê-lo em breve. –Tersa comentou.
—Provavelmente, ele vai querer ver a criança pessoalmente. –Comentei.
—Vamos voltar. –Melindra levantou segurando o ombro de Carlo e Leon, desaparecendo com os dois.
Teresa fez o mesmo com Lilliel e eu encarei Hypnos e Thanatos.
—Obrigada.
—Foi um prazer. –Ambos responderam antes de todos partirmos.
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Abri meus olhos exausta e dei de cara com uma comoção alegre.
Todos sorriam e tanto Ashlley como Lear já estavam no quarto.
Suspirei satisfeita e encarei minha filha no outro canto do cômodo fazendo força para ficar acordada por mais alguns minutos enquanto Ártemis parecia prestar algum tipo de socorro a ela, provavelmente auxílio para se mexer e comer antes de realmente desmaiar de cansaço.
Perséfone parou ao meu lado e me encarou.
—Hades me passou um relatório rápido. Creio que Hera e Afrodite tiveram algum acesso através de Kaíros. Aguente um pouco que vamos providenciar cuidados a todos vocês.
—Já escolheram um nome? –Olhei na direção da criança.
—Parece que eles concordaram em dar o nome do pai da Halley caso fosse um menino. O pai dela se chama James Albert Bradley III em homenagem ao bisavô e, pelo que eu entendi, ele foi um daqueles alemães que lutou contra o regime durante a Segunda Guerra ao ponto de ir parar em um campo de concentração.
—Terceiro?
—O filho dele decidiu homenagear o pai e o neto fez o mesmo, eles vão acrescentar o Eucaristia, mas a intenção é manter o legado. Pensando em tudo, já tivemos nomes piores nessa família.
—Verdade.
—Bom trabalho segurando eles, nos deram tempo para trazer o garoto ao mundo.
—Só me agradeça de verdade depois que trouxermos a criança da Vivian ao mundo, até lá eu ainda tenho mais dois rounds como esse para enfrentar.
—Eu sei.
—
—
—
Continua...
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