The Night

1 The Night - Capítulo Único


O sangue escorria pela rua abaixo e se aglomerava em um dos cantos do beco escuro. Dessa vez, o sangue era de um jovem que devia ter no máximo trinta anos. Lua teve todo o cuidado de segui-lo sem deixar nenhum rastro. Ela o observou a noite toda. Sua morte serviu não apenas para Lua, mas também para aqueles que o caçavam. Tão jovem e com tantas dívidas logo cedo. A cada dia que se passava, mais pessoas morriam. Mais almas eram sacrificadas. Mas Lua só queria ter seu amor de volta. Nem que tivesse que matar para isso.

Lua limpava a lâmina de sua adaga quando ouviu o barulho das sirenes. Provavelmente alguém deve ter ouvido os gritos do rapaz e chamado a polícia. Com uma habilidade incrível, ela pula sobre uma das caçambas de lixo e se pendura no muro, se preparando para pulá-lo. Depois de pular o muro, a garota corre, fugindo do sangue.

Quando chega ao seu destino, Lua solta o ar que não sabia estar prendendo até agora. Finalmente estava em um lugar familiar, confortável. Onde nada a incomodava. Ela morava nos fundos de um grande armazém. A casa era bem simples, quase como uma edícula. Ela a herdara de seus pais, que morreram quando ela tinha seus quinze anos. Assim que pisou os pés dentro da casa, Lua foi atacada por uma bola de pelos, mais conhecido como Terror, que pulou em seus braços e ronronava em seu ouvido.

“Boa noite, docinho.” disse a garota, acariciando a cabeça do gato.

Ela se desfez de sua adaga e suas botas, indo até o banheiro lavar suas mãos. Lua não se orgulhava nem um pouco do que fazia. Mas, uma vez, uma pessoa desconhecida, disse que para encontrar quem ela procurava, devia buscar pelo sangue e pela dor. Lua não sabia se aquilo era verdade ou não, mas precisava tentar algo. E aquilo era sua única opção no momento.

Terror a seguiu até o banheiro e se esfregou em suas pernas.

“Eu sei, estou com cheiro de defunto, hum?”

Depois de lavar as mãos, ela se despiu e tomou banho, tentando ao máximo lavar de si o sangue e o perfume do rapaz, que parecia ter ficado impregnado em sua pele.

Assim que terminou o banho, Lua colocou uma roupa confortável e foi se deitar, puxando Terror para seu colo. Em poucos minutos a garota já estava dormindo profundamente.

Em seu sonho, Lua encontrava a mesma pessoa que lhe explicou o que precisava. Agora, conseguia enxergar mais nitidamente a mulher. Uma mulher, de cabelos brancos prateados, e olhos azuis bem claros. A mesma vestia uma capa preta até os pés, com o capuz sobre a cabeça. Lua se aproximou da mulher um pouco hesitante.

“Venha, Lua, não tenha medo. Não vou machucá-la. Você sabe disso.”

A garota se aproximou mais e encarou os olhos pálidos da moça.

“O que você quis dizer com aquilo?”

A mulher passou a mão pelo rosto de Lua, prendendo uma mecha de seu cabelo negro atrás de sua orelha. A garota era tão inocente, tão ingênua. Só fazia o que achava que devia para ter de volta quem tanto amava.

“Lua... Você é tão ingênua, minha doce criança. Você só terá o que quer, pelo sangue e pela dor. Quando morrer, minha garota, você encontrará quem procura.”

“Espera aí... Todas aquelas pessoas... Tudo aquilo...”

“Cabe a cada um interpretar aquilo que lhes foi dito. Você interpretou mal, Lua. E agora terá que pagar pelo que fez.”

“Mas eu não sabia! Eu não sabia. Eu só queria... Só queria Jane de volta.” a garota se desfaz em lágrimas, sentindo todo o peso dos seus atos. A mulher tinha dó da menina, mas não podia fazer nada pela mesma. Ninguém podia.

Há seis meses, Jane, irmã mais nova de Lua, sumiu misteriosamente. Para Lua, Jane era sua única família, e perdê-la significava seu fim. Todo esse tempo, Lua esteve procurando. Mas a dor que sentia, nunca a deixava. Era como uma marca em sua pele.

“Por favor. Por favor, faça isso passar. Eu só quero Jane de volta. Quero minha vida de volta.” Lua soluçava. O aperto em seu peito não se desfazia. Não importava o quanto se arrependia, ou o quanto chorava, o nó em sua garganta só se estreitava.

“Eu não queria ter feito aquilo. Meu Deus! Eu matei pessoas, pessoas inocentes. Você pode desfazer isso? Por favor, por favor.”

“Lua, eu não posso mudar o destino. Aquelas pessoas morreriam de qualquer forma.”

“Mas não por mim! Não pelas minhas mãos. Eu quero acordar. Me deixe acordar.”

A mulher, com pena da garota, a deixou ir. Mas antes, disse:

“Lua, tome cuidado com o que deseja. Não faça algo que irá se arrepender depois.”

Dizendo isso, a mulher tocou a testa de Lua, fazendo-a acordar. A garota acordou em um salto, assustando Terror, que dormia em sua barriga. O gato resmungou, olhando para Lua de um jeito familiar. Lua encontrou Terror no mesmo dia em que Jane havia sumido. Tudo no gato lembrava Jane. O modo como resmungava para tudo, ou como seguia Lua em todo lugar.

A jovem se levantou, atordoada. Pelo sangue e pela dor. Quando morrer, você encontrará quem procura. Quando morrer. Morrer. Sangue e dor. Assim que compreendeu, Lua começou a chorar. Ela daria sua vida pela de sua irmã? Sua única família? Se Lua morresse, Jane não teria ninguém. Mas, era melhor Jane não ter Lua, do que Lua ficar sem Jane. E com isso, Lua tomou a decisão de que se sacrificaria por Jane.

Finalmente decidida, Lua rumou para a porta de entrada, onde havia deixado sua adaga. Terror se esfregou em seus pés, e enrolou-se em uma bola em volta de seus tornozelos. Antes de completar o ato, Lua chorou. Por longas e dolorosas horas. Mas ela precisava fazer isso. Por Jane. Com a adaga posicionada em seu peito, Lua se jogou contra a parede. Uma dor aguda atravessou seu peito. Ela enxergava tudo vermelho e preto e não tinha mais controle sobre seu corpo. Era assim que suas vítimas haviam se sentido? Antes de apagar completamente, Lua enxergou uma forte luz branca e um par de olhos azuis-claros. Depois, tudo era apenas escuridão.

Jane acorda no chão de sua casa, ao lado de Lua. Suas roupas estão ensopadas de algo viscosos e quente. A garota olha para sua irmã que está deitada ao seu lado. Lua está pálida, mais que o normal.

“Lua.” Jane chacoalha a irmã, na esperança de acordá-la, mas Lua não se move. “Lua, eu estou aqui. Estou aqui! Acorde, por favor!” Jane começa a chorar e levanta-se procurando pelo telefone. Um miado chama sua atenção. Na janela, um gato preto, de olhos verdes a encarava. Olhos verdes iguais aos de Lua.

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