The New Stylist
27 Sobre ele merecer galaxias e não um buraco negro
Notas iniciais
Sugo o ar com força. Cheira a álcool. Álcool e sangue. Há cacos de vidro em toda a parte. Tudo está revirado. E ele está ali, bem na minha frente. Os olhos dourados estão vermelhos, ele fede a bebidas fortes e seu sorriso me assusta. É como o de um psicopata. E ver Jk se movendo parecendo sentir dor, tentando respirar, chorando. Me doeu. Por isso tratei de lhe pedir silêncio, com o olhar e torcer para dar certo. Eu precisaria de coragem.
Sorri.
— Está sorrindo. Sentiu minha falta bailarina? — Ele se empolgava como uma criança e isso tornava tudo ainda assustador, pois provava que pra ele tudo era certo e bom. Assenti mesmo sendo uma puta mentira. Deu um passo e apertou meu braço, puxando-me e parando fronte a Kookie. Senti algo frio encostar minha nuca. Metal. Uma arma talvez? — Sentiu não sentiu? Diga a ele! — Seu tom agora era autoritario. Mandão. Assustador. — DIGA! DIGA ANDE. DIGA QUE NÃO O AMA. DIGA QUE É SÓ A MIM! A MIM! A MIM. — A cada frase ele me sacolejava feito uma boneca de pano. Meu braço doía e eu sentia como se ele fosse quebrar a qualquer momento.A dor, misturava-se ao medo e de repente eu chorava. — VAMOS DIGA QUE CUSTA? SABE QUE SOU E...
— NÃO! — Chega. Eu não conseguiria. — Eu poderia fazer de tudo, para mantê-lo vivo, mas declarar amor a quem eu só tenho asco? — Digo frisando o asco, minha visão se turva pelas lágrimas mas eu ainda tenho consciência e uma coragem momentanea se apossa de mim. — NUNCA. Só me larga e vai embora. Eu ignoro todas as merdas que você fez MAS VAI EMBORA ME DEIXA! — Digo e depois disso ele me puxa pra um abraço que só causa dor enquanto gargalha.
— Ah minha Belle! Até parece! — Ele se separa de mim apenas para bater com o dedo na ponta do meu nariz. Gesto que doeu o bastante pra eu saber que marcaria. Depois livrou meu braço do aperto apenas para prender minhas bochechas. Falava num tom natural, como quem elogia alguém. — Você, é feia. E inutil. E também sabe que o único que te quer qualquer bem, sou eu. Então, — Sinto o metal se mover, passar por minha nuca, braços, contar meu quadril e parar bem entre os olhos de Kookie. Uma arma. Gelo. — Se eu não te tenho, — engatilhou a mesma. — Ninguém vai.
Foi tudo muito rápido, dei um jeito de bater lhe a mão de modo que o tiro parasse em seu próprio pé, então puxei a faca, cravando-a em seu estomago e recuperando a arma logo em seguida, mirando nele.
Então a policia chegou e eu pude soltar o ar que eu nem notara ter prendido. Respirando rápidas, e seguidas, vezes.
Só então também me permiti olhar Jeon. Não havia se ferido gravemente, o rosto e os braços estavam bem apenas simples arranhões.
E então eu desci o olhar pras pernas.
Fatiadas.
Os mais bizarros cortes surgiam em todas as direções e subiam. Me arrisquei a levantar a blusa e encontrei a barriga no mesmo estado. Um nó surgiu em minha garganta e outro no estomago. Minha boca secou e meus olhos se encheram ao ponto de transbordarem em lágrimas.
Eu não prestava atenção em mais nada. Nem mesmo no louco que um dia eu achei amar gritando e resistindo a prisão ao ponto de que precisar ser neutralizado com um choque eletrico. Nem as perguntas de "você está bem?" Eu só via Jeon. Semi acordado. Eu também só ouvia ele e seus "tudo bem" engrolados, como se perdesse a consciencia paulatinamente.
Não está tudo bem.
— Chamem um médico. Rápido. CHAMEM UM MÉDICO!
***
Bato o pé no chão, roo as unhas e pele do lábio. tudo junto.
Por que o bendito delegado não me chama logo para depor?
Noto que meus dedos sangram e paro de ataca-los, assim como aos meus lábios, só continuo batendo o pé.
— Estrella Mendes? — Ergo meu olhar e me deparo com uma mulher. Ela parece ser uns centímetros mais alta que eu, os cabelos cor de areia estão presos num coque feito com uma caneta,seus traços são quase todos ocidentais e usa óculos de armação preta e redondas. Assinto. — Venha comigo, por favor. — Diz em inglês
Ela me guia por uma emaranhado confuso de corredores até chegar numa porta de madeira simples, há uma placa em dourado brilhante que eu nem me arrisco a tentar ler por ser em hangul. Ela abre a porta e entra me fazendo segui-la.
— Por favor sente-se. — Diz sentando-se numa cadeira giratória por trás da escrivaninha preta. Faço o que me é pedido. — Me chamo Hannah. Young Hannah Uma das poucas detetives meio americanas daqui, perdoe-nos a demora, os poucos mestiços que aqui trabalham estão de férias ou folga. Eu sou a unica de plantão. — Ela sorri e me deixa um pouquinho mais confortável.
Batidas na porta e outra moça entra com duas xícaras, as deposita sobre a mesa, e sai logo após receber um obrigada da detetive.
— É chocolate. Pegue uma. — Agradeço e levo aos lábios. Aquilo me acalma um pouco mas minha mente continua no hospital. — Então. Preciso que me conte como tudo aconteceu.
Suspiro. Bebo mais um gole e começo.
— A história é longa, preciso que tenha paciência. Há um ano, eu voltei dos USA, para o Brasil. Lá, nos USA, eu tinha uma namorado, ele era abusivo, eu só não notava. Sempre me interrompendo, querendo me diminuir e dizendo coisas como "Você não é nada sem mim", e bem, eu acreditava. Eu fui pro Brasil ainda namorando com ele, porém a distancia, com o tempo descobri uma traição e terminei.
— Me perdoe mas o que tem a ver? — Ela interrompe.
— tem a ver que é o mesmo homem que invadiu o apartamento dos meninos. — Rebato. — Bom. Em agosto desse ano eu comecei a receber esse tipo de mensagem. — Mostro o celular com prints de todas as mensagens. — Posso enviar todos os arquivos, basta um email. — Ela assente, parece aterrorizada. Em minutos os arquivos foram enviados. — Recebi mensagens via email também, mas simplesmente marquei como spam e fingi não acontecer. Quando eu esperava vasculhei minha caixa de mensagens e achei isso: "Porque você continua me incomodando minha Belle?" ele frisa o minha com itálico e negrito. "Não te deixam me ver? Porque eu sei que me quer. Mas tudo bem. Te resgatarei das garras daquele..." Segue um monte de palavras de baixo calão as quais não prefiro pronunciar "Hoje a noite. Até Belle" — Respiro fundo. Me mantive estável até agora, mas a grande verdade é que a cada palavra minha vontade de chorar aumentava. — Acho que isso é ameça o bastante.
— Sim. Anexe o arquivo por favor. Agora preciso que me conte sobre hoje. Sobre o ataque. — Assinto e respiro fundo mais uma vez antes de começar.
— Chegamos do MMA por volta da meia noite. Eu tentei pedir pra Kookie ficar no meu apartamento, e ele disse que trocaria de roupa e voltaria logo. Mas... — Não consigo continuar. Letras vermelhas surgem por todo lado em minha mente, as letras formam "culpa sua" em todo o canto.
— Mas...? — Ela incentiva e pega minhas mãos, como quem oferece consolo.
— Mas eu comecei a ouvir barulhos. Coisas quebrando, gritos de dor. Aí eu não pensei. Só peguei a faca mais pontuda que achei e fui atras dele.
— Espere. Foi você que esfaqueou o tal... — ela checa um papel. — Murilo Lopez? — Assinto e ela despeja os óculos sobre a mesa. — Uau. Sem ofensas mas normalmente as pessoas paralisam de medo em situações assim, além do mais quando se trata de alguém que a torturou psicológica e fisicamente.
— Senhorita Young. Imagine a pessoa que você mais ama sob a mira da pessoa que mais te fez mal. Imaginou? — Ela assente. — Foi assim que eu me senti. Foi ali mesmo que eu decidi dar um ponto final Por que eu aceito sair ferida. Mas sob hipótese nenhuma a quem eu amo.
— E você ama Jeon Jungkook?
— O bastante para enfrentar meus piores medos.
Ela suspira e passa um segundo quieta até sorrir.
— Acho que é o bastante para o colocarmos na cadeia até definhar.
***
— Ele está em cirurgia.
Quando eu ouvi tais palavras simplesmente fui ao chão. Sem grandes detalhes, apenas me sentei e abracei minhas próprias pernas.
Aquilo tudo era culpa minha?
Eu apenas fitava o chão vendo as lágrimas baterem com força nele e criarem pequenas poças.
É. Era culpa minha.
— Estrella. Estrella. — Eu ouvia Lynn chamar mas parecia longe o bastante para que eu ignorasse. — ESTRELLA! — Ela aparece em meu campo de visão, se borra ao branco cruel da sala e as lágrimas. De certo modo tudo se borra em minha mente. — ESTRELLA! — Sinto um tapa estralar e arder em meu rosto, mas sou abraçada logo em seguida. — Desculpa, desculpa, desculpa mas você nem respirava eu tinha que fazer você se mexer. — E só então sugo o ar recomeçando a chorar. Parece que tudo que sei fazer agora é isso. Chorar.
— É minha culpa né? Eu sei que é. — Digo e ela nega.
— Não. Quem fez isso foi o filho da puta do Murilo. — Ela pega meu rosto estre as mãos. — Tá ouvindo? Você não fez nada. Ele vai pagar pelo crime dele.
— Não vai. — minha voz falha — Ele é rico não precisa. Ele vai...
— Vai o caralho. — DIta e eu me assusto, Lynn xinga raramente. Apenas em situações extremas. — Ele vai pagar. E o Jungkookie, ele vai ficar bem.
— Não vai.
— Vai Estrella! Ele foi muito machucado, é verdade, mas ele só tá se operando por causa disso. Nem operação é, só são pontos e enxertos de pele. Ele vai ficar bem.
E na mesma hora uma porta se abre e um médico sai por ele, me levanto, minha pernas estão dormentes mas me aproximo de Joy mesmo assim
— O que ele diz?
— Precisam de sangue e...
— Eu dou. — Interrompo. — Eu dou.
— Estrella você ainda está fraca... — Ela contra argumenta e eu nego.
— Eu não ganhei nem um corte. Diga a ele. Eu doo. Eu sou tipo A.
Ela respira fundo, começando a falar com o tal médico que parece concordar. Então, a loira nada faz, apenas se resigna e me guia por entre os corredores.
***
— Você tem certeza? — Lynn pergunta.
Eu estou sentada ao lado de Kookie, seguro sua mão e ele dorme pacificamente, fora sedado e recebeu morfina para não sentir dor. Deve acordar em alguns dias, segundo os médicos.
O quarto acinzentado tem uma janela, ela permite que luz entre e faça seu trabalho. A cama fica ao lado e eu logo depois. Não há aparelhos que fazem sons estranhos, e isso me conforta um pouco, apenas um medidor de batimentos, silencioso ao marcar a velocidade, e um umidificador. alguns fios ligam Jeon ao soro e outros a uma bolsa de sangue. Atras de mim existe uma enorme quantidade de presentes, enviados por ARMYs, junto a flores, mas estas foram levadas embora devido a rinite alheia.
— Tenho. — Retiro uns fios de seu olho. Não o quero assim nunca mais. Não o quero machucado por mim. — Tenho toda a certeza.
***
— Boa noite. — Me ponho fronte aos jornalistas na sala de espera. Estou de banho tomado, cabelo lavado e roupas trocadas. Fronte a mim, existe um emaranhado de gravadores e microfones, em minha extremas laterais existem dois seguranças, digamos que recebi ameaças de sasaengs no twitter. — Eu achei melhor me pronunciar sobre o ocorrido. Me perdoem, não poderei falar em inglês ou coreano, pois não tenho discurso pronto. Peço que os que são fluentes em português ou tem certo domínio da língua, guardem suas perguntas para o final. — Ouço os cliques e sinto os flashs. Respiro fundo e começo.
— Há algum tempo, quase um ano, eu me envolvi num relacionamento abusivo, hoje reconheço, bom, quando terminamos, ele continuou me perseguindo. No meio disso tudo, e eu tenho total autorização da Big Hit para falar isso, eu conheci o Kookie. Não. Não fora anos atras em uma cafeteira, por mais que frequentassemos os mesmos lugares, nunca ocorreu de conhece-lo. Eu o conheci no começo de agosto do ano passado, Monster visitou minha loja em Fortaleza e acabei sendo contratada. No inicio eramos bons amigos mas surgiu essa história de namoro e bem... Foi falso durante quase um mês. Então, culpem as armys. — Um ou dois riem.
— Eu falaria sobre quão incrível e gentil ele é. Sobre quão paciente sobre meus traumas ele foi, pois eu tenho vários deles, e sobre o quanto eu não o mereço, mas eu vou ao ponto: Eu vou terminar tudo e ir para outro país. — dessa vez há um onde de choque completo, como se todos tivessem conseguido tradução simultanea e eu resolvo fazer uma pausa ao ver as mãos subindo. Escolho um aleatório, — Você, camisa branca e cabelo claro.
Ele fala em algo semelhante a um gravador e aperta um botão fazendo uma tradução sair.
— Porque tal decisão? Seria pelas sasaengs?
— Não. — Respondo. — Por que o cara que atacou ele noite passada, é o tal perseguidor. — novamente um burburinho surge. — E acho que é culpa minha. Eu deveria ter feito algo, não fiz, e agora Jungkook está em coma induzido. Culpa minha. Eu prefiro ir, e evitar que ele se machuque mais, que ficar e vê-lo sofrer por minha culpa.
Dessa vez quem pergunta é um senhor, já de idade e com fios ralos e claros, ele usa o mesmo aparelho.
— E o criminoso, foi preso? — Assinto.
— Foi. Mas não creio que fique muito tempo, sua família tem posses se bem me entende.
Agora quem se ergue é uma moça loira, ela tem traços ocidentais e apenas estes.
— Mas não foi culpa sua. — Ela fala num português carregado de sotaque. — Ele atacou. Segundo a policia você o impediu de atirar em Jungkook.
— Eu teria ficado em frente de um tiro por ele.
— Então, — ela continua. — Por que ir?
— Por que eu vou prendê-lo. Eu vou machuca-lo. E ele merece bem mais. Eu torço, de todo o coração que ele ache alguém em seu nível, alguém sem traumas, abusos, cicatrizes, alguém livre para ama-lo sem medo. Eu ficaria muito feliz se a IU tentasse uma amizade com ele, ele a respeita muito.
— Mas você o ama? — Ela pergunta.
— Amo. Amo o bastante para deixa-lo ser feliz, ainda que implique na minha infelicidade. — Um silencio se instala para logo ser quebrado em um caos de perguntas. Escolho mais um, dessa vez uma moça com o cabelo cortado em channel, totalmente natural, sem maquiagem alguma e com, o que imagino ser, um uniforme.
— Você é muito cínica. — Ela diz em inglês e se levanta vindo em minha direção. é barrada mas continua berrando. — VOCÊ SÓ MACHUCOU NOSSO KOOKIE. NÃO TEM VERGONHA? O MACHUCOU FISICAMENTE E AGORA VAI MACHUCA-LO AINDA MAIS. VOCÊ É UMA COVARDE.
Eu sugo o ar e tento não chorar.
— Por favor, silêncio. A deixem ouvir. — Ela se cala, como que esperando uma resposta digna. — Eu sei disso. Eu sei que o machuquei de muitos jeitos. E por isso mesmo eu vou. Por favor armys, sejam a galaxia que ele merece, uma estrela só é inutil. É só. Obrigada e sem mais perguntas.
***
Hey Kookie!
Quando você estiver lendo isso, eu provavelmente estarei indo para outro pais, perdoe-me, não vou dizer qual, não quero que tente ir atras de mim.
Eu simplesmente não quero você machucado por minha causa.
Ou pelo meu passado.
Como foi hoje.
Você lembra que te falei sobre o namorado grosseiro, certo? A essas horas você deve saber que foi ele que te atacou.
Perdão, eu não consegui te proteger do meu passado. Eu deveria tê-lo enfrentado, não apenas fingido que ele não existia.
Então, eu estou indo.
Hey Kookie.
Você merece uma galaxia inteira, como a que se acende fronte a você quando sobe num palco, não essa estrela falida que anda se tornando um buraco negro.
Hey Kookie, eu não mereço você. Nunca mereci. Eu sinto muito.
Mas Kookie, antes de ir, antes que o avião decole, eu quero que lembre do que te falei:
Olhe o céu, se é noite, você vê enormes constelações, com milhares de bilhares de estrelas, se é dia, só vê o sol, que não deixa de ser uma estrela, as estrelas estão sempre lá, mesmo que longe, mesmo que não note. Durante o dia, há uma gigantesca que te aquece, durante a noite, milhares iluminam a escuridão. Então quando sentir que eu estou longe, olhe o céu. E perceba que mesmo que passe batido, as estrelas estão sempre lá. Olhando por você.
É assim que eu quero que se lembre de mim Kookie, como alguém que mesmo distante olha por você.
Por que eu vou continuar olhando por você, e me importando com você, e amando você. só que de longe.
Sabe Kookie, amar é sobre deixar alguém ir mesmo que nisso você se machuque, porque o que importa é que a pessoa fique bem. E eu te quero bem o bastante pra isso.
Então Kookie, não chore sim?
(é prepotencia dizer isso?)
Como o tempo você acha alguém bem melhor, alguém sem cicatrizes, traumas ou machucados.
Até por que, pra querer uma estrela se há uma galaxia que te ama? Ame sua Galaxia Kookie.
Então, uma ultima musica:
IU — Through The Night.
Encontre alguém
Alguém que te faça bem
E se pra isso precisar me esquecer. Me esqueça.
Seja feliz Kookie.
Pois eu serei feliz te olhando, pois sabe no fim das contas, a verdadeira estrela aqui é você.
— Da Estrella que vai aprender a brilhar como as do céu, apenas para ser boa o bastante para estar em sua galaxia.
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