The New Continent

37 Capítulo 36 – Acordo.


Will

06 Março, 2200, 06:47.

O coração acelerado, o suor escorria na têmpora, a tensão percorria todo o corpo de modo a arrepiar os pelos e os pés estavam flexionados prontos para entrar em ação. Quando finalmente o som das pistola eclodiu no céu o silêncio foi quebrado pela vibração inteira de uma plateia incontrolável, nesse momento eu e mais dez competidores impulsionavam nossos corpo para frente e corríamos sincronizadamente em direção a linha de chegada.

A arena inteira era tomada pela adrenalina e emoção. O sangue aquecia nossos corpos acelerando as passadas. Minha posição de largada era a pista sete, no entanto no meio da corrida eu estava em quarto lugar via meus oponentes na frente querendo avançá-los e temendo meus oponentes traseiro. Já estávamos quase ao fim da terceira volta quando tropecei em um curva e caí do joelhos no chão, a dor parecia insuportável, as mãos e cotovelos ralados começavam a extravasar o sangue. Naquele momento eu pensei em desistir, no entanto se eu abrir mão daquilo me tornaria fora da competição.

Olhava ao redor da arena e via meus competidores tomarem a frente. Nesse momento olhei para a plateia e lá estava minha família com os olhares atentos a mim se preocupar-se com a competição. Os olhares deles de alguma forma me deram força. Deixei a adrenalina me levar, levantei-me rapidamente e comecei a correr era o último colocado, contudo faltavam ainda duas voltas. Conforme corria a dor nos joelhos parecia desaparecer. Depois de uma volta eu ainda continuava na mesma posição. – Se eu perder tudo será em vão. – Como um automóvel eu resolvi gastar meu último impulso, como se gastasse o último suspiro de energia.

Então, na última curva da linha de chegada da quinta volta eu consegui ultrapassar o último candidato tornando-se o nono lugar. No momento em que ultrapassei a linha de chegada, meus joelhos pareciam desabar. Eu não tinha forças mínimas para me manter de pé e dessa vez caí completamente no chão. Eu não sentia minha perna, meu rosto estava repleto de arranhões, meu nariz sangrava e eu havia perdido a própria propriocepção do meu corpo.

— Will! – Uma voz berrou em meus ouvidos. Nesse momento meus olhos arregalaram e eu finalmente acordei. – Will você está bem? – Elya perguntava desesperada. – Meu corpo estava suando e o coração completamente acelerado. Eu havia acabado de acordar de um sonho que parecia mais um flashback. – Will, responde o que aconteceu? Estava sonhando?

— Você lembra do campeonato da escola de quatro anos atrás? Lembra daquela competição que me fez ficar quase três meses no hospital? – Disse ainda tentando retomar o fôlego.

— Sim, eu lembro, eu também estava lá. O campeonato inteiro foi interditado por sua causa. Além disso, eu iá te visitar quase todos os dias no hospital, atualizava as matérias do colégio, te ajudava nos exercícios diários e no fim conversávamos um pouco sobre os nossos dias. Mas porque a pergunta?

— Eu sonhei que estava revivendo esse momento. Por mais que aqueles três meses tenham sido horríveis, eu preferia viver tudo aquilo de novo do que estar aqui... Meu joelho nunca foi o mesmo desde então.

— Mas na volta do campeonato você conseguiu chegar em terceiro lugar, ganhou um troféu de bronze e mostrou que mesmo assim você nunca se deixou levar. Talvez o primeiro lugar chegasse se esse imprevisto não estivesse acontecido.

— Entretanto nunca saberemos, desde que cheguei aqui outro incidente aconteceu com o meu joelho e minhas pernas, no entanto eu me sinto ótimo.

— O que aconteceu com você? – Perguntou a ruiva curiosa. Eu olhei para o relógio já eram sete da manhã.

— Eu te conto essa história depois, estamos atrasados. — Levantei-me e saí do iglu, lá fora todos já estavam preparados para irem para reunião de Xiantong.

— Antes que todos fiquem afoitos. Xiantong não vai conversar com todos vocês, ele quer só líder e mais duas testemunhas. Os outros podem esperar do lado de fora.

— Como assim? Viemos todos aqui atoa? – Murmurou Sarah.

— Eu não pensaria assim, saber da existência de todos vocês pode ser um veredito para a credibilidade da proposta de vocês. O fato de ir poucos de vocês é apenas uma formalidade. Pelo que eu vejo aqui vocês ainda não estão na posição de exigir muita coisa.

— Tudo bem, nós aceitamos a oferta. Quem vai comigo é a Anne e o Ralf. – Decidiu Mike.

— O que? Ela é minha irmã, eu deveria estar lá. – Resmungou Cory.

— A mesma irmã que você colocou nessa situação. – Retrucou Tina. – Faz sentido eles irem. Anne já era um deles e Ralf quem criou a proposta.

— Exatamente. – Conclui o líder. – Vamos, quanto mais rápidos sairmos daqui melhor. – Caminhávamos seguindo Victor que tomou a frente em direção a última enorme tenda da vila.

— Me desculpe por ontem anoite, infelizmente Elya dormiu na sua cama... Mas aonde você dormiu? – Sussurrei me aproximando de Ralf.

— Não se preocupe, está perdoado. – Sorriu Ralf.

Conforme atravessávamos a vila. O olhar gelado e frigido das pessoas nos perseguia. De algumas janelas de certas tendas era possível ver algumas pessoas feridas em manjedouras assim como as nossas. – Talvez aquele ataque tenha sido mais sério do que parece. – Por fim, chegamos a enorme tenda e todos nós entramos no Hall de entrada. A sala era coberta por tapetes e objetos recoberto por pelos de animais. Havia uma escada principal e duas aberturas para outros cômodos.

— Anne, Mike e Ralf venham comigo. – Victor disse enquanto subia as escadas. – Os outros esperem aqui.

Os três designados subiram respectivamente e desapareceram pelos corredores do segundo andar enquanto nós ficamos ali sentados esperando. Nesse momento Elya sentou ao meu lado e segurou em minha mão, eu entendi aquilo como se fosse um gesto de esperança para que tudo desse certo. Por mais de tudo que ele tenha feito Cory parecia o mais ansioso, andava de um lado para o outro inquieto com a decisão que havia de ser tomada lá em cima. Parece que o garoto realmente havia se arrependido de sua ação, porém ele não conseguia admitir isso. Passaram-se alguns minutos e Victor desceu sozinho. O garoto parecia apreensivo e nervoso.

— O que aconteceu? Onde estão eles? – Perguntou Cory.

— Eu os deixei conversando a sós eu não sei nada sobre o que está sendo decido lá dentro, fiquem calmos. Agora eu preciso resolver outro problema... Selly! – Assim que Victor gritou uma garota loira de olhos azuis apareceu na entrada de um dos cômodos do térreo.

— Aconteceu alguma coisa? – A garota perguntou apreensiva.

— Não, mais eu preciso de mais gelo e um pano molhado. Rápido! – A garota não ao menos hesitou, correu até o outro cômodo e pegou um pano e um balde com água e gelo.

— Vai precisar da minha ajuda? – Disse a menina a Victor.

— Não eu posso fazer isso sozinho. Faça alguma coisa para os nossos convidados. – Os dois caminharam em direções opostas e desapareceram do cômodo.

— Vocês não acham que eles estão demorando demais? Já vão fazer quase uma hora. – Desabafou Cory.

— Eu concordo, eles estão demorando demais. Será que deveríamos ficar preocupados. – Acrescentou Tina. Assim que a morena parou de falar Anne desceu as escadas.

— Então, o que eles disseram? – Perguntou Cory.

— Infelizmente, Xiantong não está querendo aceitar o acordo. Os meninos continuam insistindo lá em cima, mas eu acho muito difícil ele mudar de opinião.

— O que? Como ele pode dispensar uma oportunidade de sair desse lugar? – Comentou o moreno indignado.

— Parece que toda a proposta está em um plano um pouco utópico. – Respondeu a loira.

— Anne eu preciso de você agora. – Interrompeu Victor da sacada do segundo andar. – Ela não está nada bem. – Sem ao menos pensar a garota subiu as escadas.

— Eu vou lá em cima resolver isso. – Cory disse subindo as escadas. Eu corri até ele e o impedi de prosseguir.

— Não você não vai, pode piorar as coisas, está envolvido emocionalmente nisso tudo. Confie em mim eu tenho um plano. – Eu então acalmei o garoto e subi as escadas. Passei por um corredor onde Anne e Victor cuidava de uma mulher na cama.

— O que você está fazendo aqui? Eu disse para esperar lá em baixo. – Falou Victor percebendo meus passos.

— Eu quero que me diga onde está acontecendo a reunião, eu preciso ir lá.

— É a sala no fim do corredor. Vai logo. – Anne disse supondo que eu teria um plano.

Eu cheguei até o fim do corredor e entrei no cômodo, lá estava o famoso Xiantong um rapaz alto de rosto quadrado. Ele tinha um rosto oriental e usava uma veste de peles de animais. O líder estava sentado em uma cadeira com uma mesa a sua frente e Mike e Ralf estavam de costas para mim sentados nos bancos do outro lado.

— Por favor, conte com o nosso acordo, eu sei que pode parecer fantasioso mas isso pode ser uma grande oportunidade... – Mike não conseguiu nem ao menos terminar sua frase.

— Desistam, eu não posso ajudar vocês. Tudo que vocês tem a me oferecer são promessas que... – Xiantong interrompeu sua frase assim que notou a minha presença. – Quem é você?

— Eu sou a pessoa que pode te convencer do contrário. – Respondi confiante.

— Você?... O que você vai fazer para me convencer? Pode até tentar, pois seus amiguinhos até agora não conseguiram chegar nem a um ponto mínimo. – Ironizou o líder.

— Bom nossa proposta inicial era concertar o helicóptero e dá o fora daqui, porém isso não parece o suficiente que tal aumentarmos a proposta. O que você acha de...

— Senhor desculpe interromper, mas ela não vai aguentar mais. Acho que ela está nos dando adeus. – Victor entrou desesperado. Xiantong levantou-se para fora do cômodo, passando por mim.

—Espera, salvamos ela e concertamos o helicóptero e você nos ajuda com os alimentos. – Antes que ele saísse ele virou para mim e respirou fundo.

— O que você disse? – Indagou Xiantong sério.

— Eu salvo a vida dela agora e temos um acordo... Vamos, ela não tem muito tempo pelo o que eu sei. – Xiantong e Victor olhavam para mim ainda confusos e pensativos. – Eu juro, isso não é uma promessa é uma troca concreta e sem ilusão.

— Faça o que for preciso, eu aceito. – Xiantong disse convicto.

Corri até o primeiro andar, e o falatório lá em baixo começou. Ignorei todos os burburinhos fui até minha mochila e peguei as sementes. Subi novamente ao segundo andar e entrei no cômodo onde a mulher estava. Era um mulher morena de cabelos cacheados, seus olhos estavam fundos e seu corpo inteiro suava.

— Anne dê as sementes a ela — disse entregando as sementes a ela.

— As sementes, como eu não pensei nisso antes. Como as conseguiu? – Perguntou a loira.

— Eu peguei as que sobraram de Jihan.

— O que são essas sementes, eu não posso deixar vocês darem isso para ela. – Interrompeu Xiantong. Porém, Anne pensou rápido e tomou uma das semente.

— Se era para provar que isso não é um veneno, nós já provamos agora deixe eu cuidar dela. – Xiantong saiu do caminho e, então, Anne deu as sementes para a morena. – Pronto, ela vai ficar desacordada por alguns dias, mas quando ela voltar vai estar novinha em folha... Isso pode parecer loucura, mas eu vi todo o processo acontecer. E bom, já que eu também acabei de tomar uma delas é provável que eu apague daqui a alguns minutos também.

— Em quantos dias ela vai acordar e qual a garantia de que cumpriram com o acordo agora?

— Bom, já que eu vou estar desabilitada por um tempo mesmo. Eu fico aqui até o acordo está completo. Infelizmente eu não sei quando ela vai acordar, mas isso pode variar um pouco entra três a quatro dias.

— Então, temos um acordo? – Perguntei por desencargo de consciência.

— Temos – O oriental se aproximou e, com isso, demos um forte aperto de mãos. — Vou providenciar que alguns dos meus ajudem vocês a levarem a carga. – O líder jogou um olhar para Victor que compreendeu rapidamente a mensagem. – Você realmente tem um grande poder de persuasão, seria um ótimo líder... Agora vamos, vocês tem um longo caminho a trilhar hoje.

Saímos do cômodo e descemos as escadas. Era ótimo poder trazer uma boa noticia. Todos ali de alguma forma pareciam aliviados, de modo que todo esforço não se tornou em vão. Assim que nos preparávamos para sair Selly carregava um banquete em uma tábua de madeira, sendo assim antes de ir nos fartamos de comida prontos para ir de volta a cabana.

Passamos primeiramente em um galpão de madeira onde era estocado os alimentos. Ele era enorme e empanturrado de comida, eu ainda não entendia como eles conseguiam todo aquele suprimento, no entanto a dúvida foi deixada de lado e estávamos concentrados em finalizar a missão. Enquanto isso, todos ajudam a estocar os alimentos dentro da caixas até por fim concluirmos o número de caixas necessária.

— Por favor alguém vá buscar os Mentralius. – Gritou Victor para um dos ajudantes local.

— Mentralius? Não são essas as criaturas que atacaram seu povo? – Perguntou Ralf amarrando uma corda a caixa.

— Sim, mas os Mentralius que nos atacaram era todas fêmeas. Os machos por sua vez são bem mansos.

Quando as criaturas chegaram eles amarraram as cordas das caixas aos animais de tração que as levariam. Por fim, atravessamos mais uma vez a vila até os muros da entrada e deixamos a para enfrentar o deserto de gelo. Depois de algumas horas chegamos até o Helicóptero e deixamos Victor em seu lar o garoto estava animado em imaginar a hipótese de pilotar e lembrar as memórias de seu pai. Seguimos por mais algumas horas e chegamos finalmente a ponte que separa o gelo da floresta. Atravessamos a ponte e resolvemos começar a planejar um local para passar a noite.

Paramos em um lugar seguro e montamos uma fogueira e mais uma vez ficamos em volta dela comendo, conversando e planejando nossos planos futuros. Depois de comer caminhei até uma pedra inclinada um pouco afastada e fiquei olhando o luar. Era impressionante como as coisas em Alfalumia um tanto peculiares ainda sim eram magnificas. Depois de um tempo Elya veio até mim e recostou sobre a pedra ao meu lado.

— Eu sabia que você ia conseguir. – A ruiva entrelaçou seus dedos nos meus. – Eu ainda não entendo muito bem tudo que está acontecendo, mas vocês vão conseguir.

—Eu espero viu. Mesmo estando aqui , a essa hora em algum lugar Berry deve estar por ai trancafiada sendo exposta a qualquer situação de horror por aqueles caras estúpidos.

— Eu imagino o quanto deve ser horrível o sentimento de vocês. Ela por não ter esperança e vocês por não saberem como ela está. Eu só espero que ambos continuem tendo forças porque estamos perto de acabar com isso de uma vez.

— Você tem razão, a coisa mais difícil nós já conseguimos enfrentar, é hora de colocar a cabeça no lugar e finalizar essa história de uma vez por todas.

— Eu também concordo. – Em seguida a ruiva se aproximou com um olhar relaxado e uma mão leve sobre o meu pescoço. Sendo assim, trouxe-a para perto de mim e nos beijamos. Um beijo quente e ao mesmo tempo delicado. Seu cheiro passeava pelo meu corpo causando uma sensação inédita. Entretanto, um barulho de folhas e galhos quebrados nos fez hesitar.

— Me desculpe, eu estou atrapalhando alguma coisa? — Mike apareceu entre as árvores de repente. – Eu posso voltar outra hora se quiserem.

— Não, só estávamos conversando. – Respondeu Elya mexendo em seu cabelo. – Alias, eu preciso falar com a Tina, então, eu creio que vocês possam conversar a sós.

— Tudo bem, então. – Respondeu Mike enquanto a garota voltava em direção a fogueira.

— Então, pode falar. – Disse levantando as mãos.

— Bom, primeiramente eu gostaria de agradecer tudo que você tem feito por todos nós e principalmente em relação ao acordo, sua ideia foi genial. E se conseguimos alguma coisa hoje foi por sua causa.

— Obrigado, mas isso não foi nada além do que alguém no meu lugar faria.

— Deixa de modéstia e aprenda a aceitar os elogios... Bem, você lembra do que eu te disse no dia em que tudo aquilo aconteceu e eu pensei que fosse morrer e...

— Sim, eu lembro.

— Bom, eu pedi para você cuidar do meu grupo caso eu não resistisse e você fez isso muito bem, então, mais uma vez eu tenho que te agradecer.

— Tudo bem, mas o que você realmente quer dizer com todos esses elogios? – Perguntei intrigado.

— Eu vou ser o mais direto possível, eu gostaria que você tomasse o meu lugar. Como Xiantong mesmo disse você é um líder muito melhor do que eu serei. De alguma forma você tem um coração gigante e sabe compreender as pessoas muito mais do que eu. Então, eu peço que você aceite meu acordo e seja meu substituto.

— Como assim? Eu líder por que está abdicando de sua liderança?

— Eu não sou burro o suficiente para deixar meu ego me levar e fingir que eu sou algo que eu nunca serei. Agora antes que me responda saiba que o poder e a liderança são grandes inimigos que muita das vezes cega nossas escolhas, então, eu quero que pense bem antes de me responder.

— Bem... eu não sei nem o que pensar direito, eu...

— Você tem a viagem toda para pensar, eu já vou indo, esse parece um ótimo lugar para colocar a cabeça no lugar. Boa noite.

Mike deu as costas e saiu andando em direção a fogueira. –Líder? Eu? – Aquela conversa de alguma forma me deixou confuso. Eu nunca havia cogitado de estar na liderança, ser a voz de um grupo. Eu não me sentia preparado para nada daquilo. Mesmo antes de aceitar eu já começava a sentir o peso da responsabilidade e aquilo de alguma maneira me assustava demais. Voltei a fogueira e deitei sobre umas folhas eu tentava dormir, mas aquela dúvida não saia da minha cabeça.

...

Já haviam se passado cerca de dois dias desde que deixamos os gelados. Voltamos pelo mesmo percursos passando pela floresta e o campo das planícies. Já estávamos muito próximos de chegar a cabana e reencontrar os outro e, por fim, finalizar o acordo de uma vez por todas. Além da missão aos sequestradores hoje também é o prazo final para o acordo com Mike sobre a liderança, desde aquele dia o líder não quis mais tocar no assunto e prometeu me deixar pensar com calma. A liderança nunca houvera sido algo em que eu houvesse almejado, no entanto as vozes das pessoas pareciam gritar que tudo aquilo era uma espécie de destino.

Enquanto caminhávamos seguíamos uma sequencia, Mike e Cory caminhavam atrás junto com os paceiros dos gelados. Sarah, Kim, Tina e Ralf caminhavam juntos pelo meio preparados para qualquer ataque surpresa enquanto eu e Elya tomávamos a frente desbravando o caminho e conversando nossas histórias. No entanto, de alguma forma nunca mais falamos sobre o beijo de duas noites atrás. Era como se tudo aquilo não tivesse acontecido e o fato do assunto ter sido ignorado me deixava confuso quanto a nossa relação, mesmo assim ela se tornava cada vez mais amorosa e íntima.

— E então, já estamos chegando? – Elya me olhava com um olhar ansioso. — Vocês têm certeza que não estão perdidos. Eu já estou ficando um pouco cansada de andar. Daqui a pouco eu vou começar a acreditar que esse lugar não existe.

— Fique calma já estamos chegando. – Respondi enquanto retirava as folhas do meio do caminho. – Agora eu não acredito que não confia em mim. Por que não confiaria em mim?

— Poque você é um mentiroso. Eu lembro que no ensino médio nós fomos convidados para a festa do Josh e você mentiu que não iria só para que eu não fosse.

— Acredite em mim, eu fiz o que era o melhor para você. Aquela festa foi um fiasco e grupo de convidados não eram pessoas que você deveria conhecer.

— Acredita mesmo que estava me protegendo? Você só estava com ciúme do Raul estar lá e mesmo assim ele não foi.

— O Raul não era um cara para você. Você deveria me agradecer.

— Agradecer? – Indagou a ruiva. – Ah é, então quem era um cara ideal para mim, você? – Ironizou a ruiva. Nesse momento eu parei de retirar as folhas e nos encontramos fixos em um olhar. Seus olhos verdes eram encantadores e completamente cheios de esperança.

— Vocês querem andar logo, ou vão ficar flertando por olhares. – Interrompeu Sarah que vinha logo atrás.

— Parece até que os pombinhos ficaram hipnotizados. – Ironizou Ralf logo atrás.

— Eu digo o mesmo de vocês dois, não é Tina? – Retruquei.

— Nós não temos vergonha de dizer que estamos apaixonados. – Ralf, então, puxou a morena pelo braço e a beijou. – Viu.

— Por favor, me poupem de tanto romantismo. Se quiserem eu vou na frente. – Resmungou Sarah enquanto revirava os olhos.

— Por que vocês ai na frente pararam? – Gritou Mike.

— Nada, já estamos indo. – Respondi. Continuamos a caminhar por mais alguns minutos quando eu finalmente retirei a última folha que mostrava a paisagem do litoral da praia. – Chegamos. – Disse olhando nos olhos da ruiva.

A menina, então, animou-se e saiu correndo em direção a praia. Passando pelas árvores até chegar a faixa de areia.

— Não! – Gritou Mike correndo atrás da garota. – Espera! – Por uns momento, eu não conseguia entender o que estava acontecendo. –Elyaaaa!

Naquele momento eu só via Elya e Mike desaparecerem na praia. De repente eu só escuto um grito estridente e desesperado da ruiva. Naquele momento eu não hesitei em correr. Meu coração disparou rapidamente e eu fui tomado por um sentimento assustador que parecia me engolir. Quando eu cheguei até a praia eu me deparei com Mike aos prantos ajoelhado na areia. Eu ainda não conseguia entender o que estava acontecendo. Conforme eu fui me aproximando do rapaz eu, então, consegui concluir o que havia acontecido. Eu não soubera descrever aquele sentimento raiva? Repulsa? Indignação? Horror? Medo? Aflição? Tristeza? O que fosse eu nunca mais me livraria daquele trauma.

Na frente de Mike havia uma cova com vários galhos afiados presos no chão. Elya estava no meio dos galhos com seu corpo completamente banhado de sangue. Seu corpo ainda tremia em alguns espasmos. Seu tronco e membros estavam apoiados no ar com as grandes lanças encravadas por todo seu corpo. Sua cabeça não havia sido afetada, no entanto de sua boca escorria sangue enquanto dos seus olhos lágrimas. Aquela cena era horrível e repugnante. Naquele momento eu passei a odiar cada vez mais aquele lugar e todas as pessoas que estavam ali. Eu podia ter deixado a raiva me levar, contudo eu ainda mantinha fé de que conseguiria salvá-la.

Eu pulei rapidamente dentro do buraco evitando as farpas, com isso, segurei em sua mão e sussurrei que tudo irá ficar bem. De alguma forma eu tentava arranca os membros dela das estacas, porém o sangue escorria cada vez mais.

— Para não faz isso, ela vai perder mais sangue. – Gritou Sarah chegando correndo logo atrás.

— O que você espera que eu faça? – Eu gritava enquanto as lágrimas escorriam do meu rosto.

— Eu sinto muito mais você não tem como ajudá-la agora. – Respondeu Sarah.

Sem pensar eu peguei as sementes na minha mochila e dei a ela e assim que ela tomou eu desencravei seu corpo das estacas. O sangue da ruiva passou a banhar todo o meu corpo. Os olhos da menina fecharam de repente e, então, eu a retirei dali e levei-a para água. Seu sangue agora tomava conta do mar e seu corpo flutuava pelas águas junto de mim. As pessoas na areia olhavam o espetáculo de horrores como meros espectadores de uma terrível tragédia.

Depois de banha-la no mar levei-a para dentro e coloque-a sobre uma rede. Enquanto isso procurava por curativos nas prateleiras da alcova, depois disso fui até a cozinha encher um balde de água nesse momento Ralf me segurou e olhou no fundo dos meus olhos.

— Acabou... Você não pode fazer nada por ela. – O moreno parecia tomar conta do controle emocional.

— Não me solta, eu preciso salvá-la. – Eu tentava me soltar sacudindo meus braços.

— Não Will, acredita em mim. Remoer as dores só pioram as coisas, eu já passei por isso também. – Disse o moreno sério, mesmo assim querendo me confortar.

— Me larga, ela vai morrer e a culpa será sua. – Eu Berrava aos prantos quase perdendo a voz.

Ralf, por fim, me soltou e me deixou ir. Corri até a rede em que ela estava e comecei a estancar os ferimentos. O pano da rede já estava recoberto de sangue, mesmo assim eu busquei fechar cada arranhão e buraco perfurado de seu corpo. – Você precisa reagir. – Sussurrava em seu ouvido com os olhos repletos de lágrimas e o rosto vermelho e inchado. – Eu preciso de você, por favor, volta para mim. – Meu corpo inteiro tremia, e eu não conseguia conter as lágrimas.

Eu passava a mão em seus cabelos e acariciava seu rosto. – Elya não faz isso comigo – A pele da ruiva ia perdendo calor e seu corpo ficava cada vez mais pálido e gelado. Naquele momento todas as cenas de toda uma vida ao lado dela pareceu passar pela minha cabeça deixando ainda mais a melancolia no ar. Por fim, eu começava a contar em voz alta fatos que fomentaram o nosso passado na esperança de que ela apenas estivesse em coma, mas escutando todas as minhas palavras.

No fim, eu deitei ao seu lado e abracei seu corpo gélido. Parecia que depois de algum tempo eu já estava anestesiado da dor. Eu já não tinha lágrimas para chorar. Portanto, passei horas ali tentando entender a forma com que o tempo brincava com a gente, pois algumas horas atrás o sorriso transformou-se em morte.